Não conseguimos, de forma alguma, entender a posição iraniana face aos Estados Unidos e seus aliados : o povo iraniano não se surpreendeu com a guerra. Já a esperava, tendo em conta a sua posição anti-imperialista. Ele não está tão interessado em negociar o fim das hostilidades, quanto por uma nova ordem internacional. Ele admite sofrer para fazer avançar a sua própria agenda. Washington pode até ganhar militarmente, mas é Teerã quem avança politicamente.
O Presidente Donald Trump, e com ele todos os políticos e comentadores ocidentais, consideram que os Iranianos não deveriam fazer mais do que tentar escapar às bombas do Pentágono e retornar a um nível de vida aceitável. Assim, eles deveriam cessar seu programa nuclear e abrir o Estreito de Ormuz.
Ora, manifestamente, tal não é a sua preocupação. Os Ocidentais de forma alguma compreendem aquilo que querem os Iranianos, que acabam por não conhecer de todo. Continuam sem perceber as mensagens de Mohammad Mossadegh e Ruhollah Khomeini : os Iranianos podem libertar o seu país da exploração colonial anglo-saxónica e libertar o mundo da dominação colonial ocidental, extraindo da sua religião a força necessária para concretizar esta revolução.
Mohammad Mossadegh mostrou que era possível recuperar os bens da Nação. Ele nacionalizou o petróleo e negociou a parte que o seu país ia conceder às companhias estrangeiras. É certo, foi derrubado pela CIA e pelo MI6 com a cumplicidade do Xá, mas o que ele tinha conseguido jamais pôde ser revogado. Mossadegh acordou uma Nação explorada.
Durante longos anos, Ruhollah Khomeini não deixou de sonhar que todo o muçulmano podia seguir o exemplo dos profetas Ali e Hussein e consagrar a sua vida à justiça. Ele imaginou que o Irão se podia libertar da sua interpretação sofredora da lenda dourada do Islão ; que poderia se libertar e libertaria o resto do mundo, o que lhe valeu ser excomungado por todos os outros Aiatolas… e ser escolhido por Zbigniew Brzeziński para substituir o Xá.
É certo, Khomeiny, que era muito orgulhoso, combateu Mossadegh, mas eles jamais divergiram quanto à sua concepção da soberania iraniana.
Da Revolução Islâmica apenas retivemos os excessos e as suas loucuras. Todas as revoluções são sangrentas, mas não as condenamos a todas da mesma maneira. Recordamos as sentenças de morte de Iranianos acusados, a torto e a direito, de serem agentes de potências coloniais ou do Iraque de Saddam Hussein, mas não a guerra que estes Estados impuseram ao país. Vimos a brutalidade da polícia de costumes face às mulheres que recusavam usar o traje tradicional, mas não contra os homens que recusavam usar a barba.
No entanto, em França, tivemos a mesma coisa : os nossos antepassados condenaram à morte aqueles que apoiavam os exércitos das monarquias coligadas e queriam restabelecer a ordem de direito divino, indo ao ponto de massacrar os Vendeanos. Os «sans-culottes» impuseram o seu traje e massacraram os que persistiam em vestir-se como faziam no “Ancien Régime”. Ora, sabemos bem que estes horrores não representavam a Revolução : que era a criação de uma nova ordem, fundada na liberdade e na igualdade.
O Irão contemporâneo tem consciência que a década de terrível guerra (1980-1988) que o Iraque e os Ocidentais lhe moveram não era mais que o prelúdio para o verdadeiro confronto. Tratava-se de impedir o estabelecimento da República Islâmica. Agora, trata-se de concretizar o sonho de Khomeini.
Sob os nossos olhos, o velho Aiatola Rouhollah Khomeini não procurou recuperar os seus bens, saqueados pelo Xá, antes apelou, logo após sua chegada a Teerã, ao Exército para se colocar ao lado do povo e a todo o povo iraniano para se colocar ao lado dos oprimidos.
É aquilo que o Irã faz hoje em dia.
Desde o princípio, o Irão estava consciente de não poder abater a aviação israelo-americana. As suas Forças Armadas destruíram efetivamente alguns bombardeiros em voo, mas o Irão escolheu mostrar aos seus amigos árabes do Golfo que as potências coloniais os estavam a explorar. Atacou as bases militares norte-americanas na Arábia Saudita, no Bahrén, nos Emirados Árabes Unidos, na Jordânia, no Kuweit e no Catar. Explicou a cada um destes Países que eram cúmplices da agressão norte-americana, uma vez que haviam cedido parte dos seus territórios ao Pentágono que os utilizava para a sua agressão.
O caso do Sultanato de Omã é um pouco diferente. É um Estado neutral que não acolhe nenhuma base militar estrangeira. No entanto, em 12 e 13 de Março, ele deixou bombardeiros e drones dos EUA sobrevoar o seu território para atacar o Irão. Depois de uma viva altercação com Teerão, Mascate pôs fim a estas intrusões. Pelo contrário, os outros Estados do Golfo não conseguiram mudar a sua posição. Teimaram em agarrar-se à Resolução 2817 do Conselho de Segurança, a qual viola o Direito Internacional e consagra a “superioridade” do ponto de vista ocidental.
Para agravar as coisas, Teerão escreveu aos governos alemão, britânico, cipriota, romeno e búlgaro a fim de lhes significar, por sua vez, que autorizando o Pentágono a usar suas bases militares para levar a cabo a agressão, eles se tornavam cúmplices e se expunham a uma retaliação.
Depois, os Iranianos evocaram a cumplicidade da maior parte dos Estados no mundo — salvo a Rússia, a Bielorrússia e a China — no roubo de bens Iranianos no exterior, e no bloqueio dos bancos iranianos com os quais ninguém se atreve a estabelecer relações. No momento, ninguém deu importância a estas recriminações. Ninguém compreendeu, portanto, quando os Iranianos mencionaram um procedimento administrativo para atravessar o Estreito de Ormuz. Os comentadores internacionais chegaram mesmo a ironizar sobre a suposta idiotice dos Iranianos que queriam impor uma portagem a um canal natural.
Desta vez o Irão dirige-se a nós : somos cúmplices de uma política que visa matá-lo à fome e não tínhamos consciência disso. Exatamente como a Alemanha, a Arábia Saudita, o Bahrém, a Bulgária, os Emirados Árabes Unidos, a Jordânia, o Kuweit, o Catar, a Roménia e o Reino Unido são cúmplices da agressão militar sem jamais terem optado por se associar a ela.
Vamos ter que escolher : ou continuar a fazer os Iranianos passar fome, fingindo não ter consciência disso, ou nos libertarmos dos Estados Unidos.
Alva

