Os aliados de Washington construíram sua prosperidade em torno da promessa de proteção dos EUA. O custo dessa promessa está se tornando cada vez mais difícil de suportar.
Suleyman Karan
2 de setembro de 2026

Crédito da foto: The Cradle
A guerra entre Israel e EUA contra a República Islâmica do Irã está se transformando em um conflito no qual os cálculos dos agressores falharam e os aliados de Washington estão sofrendo sérias perdas econômicas. O fracasso de uma “superpotência” em garantir a vitória sobre uma potência regional sugere que o equilíbrio global não pode simplesmente retornar ao que era antes da guerra.
Outra implicação é que as regras da economia global, do comércio e das finanças não podem ser ditadas apenas pelas potências ocidentais. A crise do Estreito de Ormuz oferece uma ilustração clara de como a hegemonia pode ficar presa em uma passagem estreita.
Na Europa e na Ásia, os aliados de Washington estão enfrentando crises para as quais estavam mal preparados, particularmente no que diz respeito ao fornecimento de energia. Os danos também se estendem a países fora do sistema de alianças dos EUA, cujas fábricas, fazendas e famílias dependem das mesmas rotas comerciais.
A Europa paga mais uma conta de guerra
A crise e o bloqueio no Estreito de Ormuz elevaram os custos de energia, forçando a UE a reduzir suas previsões de crescimento econômico para 2026 e criando intensas pressões de custos em todo o continente. Esse novo ônus segue a interrupção do fornecimento de energia e os compromissos de gastos públicos associados à guerra na Ucrânia.
O aumento repentino dos custos de energia elevou as despesas em toda a produção industrial e transporte. A interrupção do tráfego pelo estreito expôs a Europa a um sério risco de escassez de combustível de aviação e outros combustíveis refinados. Contas de energia mais altas e o aumento das despesas comerciais estão comprimindo o poder de compra das famílias e prejudicando a confiança do consumidor.
Os governos europeus introduziram cortes de impostos e pacotes de apoio direto, embora suas respostas variem. O bloqueio criou um choque compartilhado na energia e na cadeia de suprimentos, mas seus efeitos dependem da estrutura industrial de cada país, da dependência de importações e da capacidade de absorver custos mais altos.
A previsão de maio da Comissão Europeia reduziu a projeção de crescimento da UE para 1,1% e da zona do euro para 0,9%. A avaliação de junho do Banco Mundial também reduziu a perspectiva de crescimento global, enquanto a atualização de julho do Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou sua previsão para a inflação global.
Os números provêm de diferentes instituições e rodadas de previsão, mas apontam para a mesma pressão: o aumento dos preços da energia está enfraquecendo o crescimento e dificultando os esforços para reduzir a inflação.
Crescimento enfraquece com o aumento dos custos de energia
Região / indicador Previsão anterior ou comparação Previsão para 2026 Base e data
Crescimento da UE 1,4% 1,1% Comissão Europeia, maio; choque energético enfraquece a atividade
Crescimento da zona do euro 1,2% 0,9% Comissão Europeia, maio; revisado para baixo em relação à previsão de outono
Petróleo Brent, média anual Média anual de 2025 US$ 94 por barril Banco Mundial, junho; 36% acima de 2025, assumindo que a pior perturbação tenha diminuído em julho
Inflação global: 4,1% em 2025 (FMI, julho: 4,7%; taxa anual prevista, não leitura mensal atual)
Fontes: Planos de diversificação da oferta do Japão, exposição às importações da Coreia do Sul e Relatório do Mercado de Petróleo de março da AIE (Agência Internacional de Energia). Estas são medidas de exposição, não revisões comparáveis do crescimento do PIB.
Os motores industriais da UE sob pressão
A Alemanha, a maior economia da Europa, enfrenta uma pressão renovada sobre o setor manufatureiro. Os setores químico, automotivo e de indústria pesada são vulneráveis aos altos custos de energia. O aumento do preço do petróleo bruto e do gás natural liquefeito (GNL) impacta os custos de produção, enquanto a interrupção no fornecimento do Golfo ameaça a entrega de matérias-primas petroquímicas, materiais de embalagem e outros insumos industriais.
A França obtém cerca de 70% de sua eletricidade de 57 reatores nucleares operacionais, o que oferece alguma proteção contra o choque. Seu setor de transportes e os gastos das famílias, no entanto, permanecem expostos. A maioria dos carros, veículos comerciais e navios ainda depende de combustíveis derivados do petróleo, e o aumento dos custos de frete impacta os preços dos produtos acabados, de alimentos a móveis.
A ameaça de escassez de combustível de aviação está entre as maiores preocupações do setor. As companhias aéreas têm enfrentado custos mais altos e reduções de voos, mesmo onde o fornecimento físico de combustível permaneceu disponível. Em maio, o comissário de energia da UE alertou para os riscos de abastecimento a longo prazo, embora tenha afirmado que não havia escassez imediata.
Paris tem sofrido pressão para proteger os consumidores, mas as restrições fiscais têm limitado sua resposta. O ministro das Finanças francês argumentou contra reduções amplas de impostos e defendeu uma assistência temporária e direcionada. No entanto, o problema político persiste, já que as famílias esperam proteção enquanto o governo tenta conter seu déficit.
A Itália, já sobrecarregada por uma alta dívida pública, enfrenta um dilema semelhante. Apoiar famílias e empresas custa dinheiro em um momento em que o crédito está se tornando mais caro. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, tem pressionado por maior flexibilidade nas regras fiscais da UE trazendo a público o conflito entre o alívio nos custos de energia e a disciplina orçamentária.
A vulnerabilidade da Grã-Bretanha como nação insular
O bloqueio e a guerra envolvendo o Irã provocaram um choque duplo na economia do Reino Unido, afetando os setores de energia e comércio. Embora o país obtenha suprimentos significativos de petróleo e gás internamente e da Noruega, seus custos permanecem atrelados aos mercados internacionais. Comprar de um produtor diferente não isola um país de um aumento global nos preços.
A preocupação de Londres reside no risco de uma nova onda inflacionária em meio a um crescimento econômico fraco. Os dados mais recentes do ONS (órgão oficial de estatísticas do Reino Unido) situaram a inflação anual ao consumidor em 2,9% em julho, uma alta em relação aos 2,6% registrados em junho. A inflação do grupo de alimentos e bebidas não alcoólicas ficou em 1,3%. A elevação da inflação geral aumenta a pressão sobre as famílias, que já enfrentam custos de vida elevados.
O comunicado de política monetária do Banco da Inglaterra (Bank of England) de julho alertou que a inflação deveria subir “à medida que os efeitos dos preços mais altos de energia continuam a ser repassados”. Tentar controlar a inflação traz o risco de pressionar ainda mais uma economia já fragilizada.
A alta nos preços do petróleo também aumentou a pressão sobre o setor de aviação. Grandes centros de conexão, como Heathrow e Gatwick, dependem de um suprimento confiável de combustível, o que os deixa vulneráveis a interrupções prolongadas na região do Golfo. As orientações publicadas pelo governo britânico indicavam que as companhias aéreas não enfrentavam escassez de combustível de aviação no momento da avaliação, ao mesmo tempo em que medidas de contingência buscavam reduzir o risco de cancelamentos de última hora.
Por ser uma nação insular, a Grã-Bretanha depende fortemente do transporte marítimo para o abastecimento de bens de consumo e insumos industriais. Quando as rotas entre Ásia e Europa evitam o Mar Vermelho e contornam o Cabo da Boa Esperança, as viagens mais longas elevam os custos de frete e atrasam as entregas. Esses desvios agravam o impacto do choque em Ormuz, embora envolvam uma rota distinta e não ofereçam uma via de escape para embarcações retidas no interior do Golfo Pérsico.
Os compromissos militares da Grã-Bretanha geram demandas adicionais. Londres e Paris lideraram o planejamento multinacional para uma missão destinada a proteger a navegação em Ormuz, assim que as condições permitirem. A proteção das rotas comerciais exige navios, pessoal e financiamento contínuo, aumentando as obrigações de um Estado que já tenta conciliar os gastos com defesa e a pressão sobre os serviços públicos.
A Ásia sofre o impacto do choque de oferta
Essa é a situação no Ocidente. No Oriente, a dependência da energia do Golfo é ainda mais direta. O Leste e o Sul da Ásia estão entre as regiões mais expostas à crise, e as expectativas de que a diplomacia restauraria rapidamente o fluxo normal mostraram-se, repetidamente, precipitadas em relação aos acontecimentos.
O fechamento efetivo do estreito atingiu uma rota de abastecimento que atende aos polos industriais da Ásia. A Administração de Informações sobre Energia dos EUA (EIA) estima que 84% do petróleo bruto e condensado, e 83% do GNL, que passaram por Ormuz em 2024, destinaram-se aos mercados asiáticos.
China, Índia, Japão e Coreia do Sul são grandes compradores, embora enfrentem a crise com diferentes níveis de reservas, recursos energéticos internos e opções para substituir o suprimento interrompido. Sua exposição não pode ser medida apenas pelo volume de importações; a capacidade de pagar por alternativas e de transportá-las até os consumidores também é um fator relevante.
Agricultores indianos enfrentam custos crescentes
A Índia importa cerca de 60% de suas necessidades de gás liquefeito de petróleo (GLP), sendo as cargas provenientes do Golfo fundamentais para esse abastecimento. A interrupção gerou pressão sobre os preços, afetando desde botijões de gás de cozinha até combustíveis industriais. Segundo o Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA), a conta de importação de GLP da Índia entre março e agosto totalizou aproximadamente US$ 4,7 bilhões, incluindo um custo adicional estimado em US$ 1,1 bilhão decorrente da crise.
O volume total de importações de GLP caiu 49% em março, em comparação com a média registrada no mesmo mês nos dois anos anteriores. A participação dos EUA nas importações subiu para 32% em abril, suprindo parte da oferta perdida do Golfo. A estimativa de custos para o período de seis meses combina dados comerciais reportados com projeções para os meses subsequentes.
Nova Délhi também voltou a recorrer ao petróleo russo à medida que o suprimento do Golfo se tornava menos confiável. A segurança energética forçou a Índia a ponderar a pressão ocidental frente às necessidades imediatas de suas refinarias, empresas e famílias.
Os fertilizantes trouxeram mais um golpe. A previsão do Banco Mundial para commodities, divulgada em abril, projetou uma alta de 60% nos preços da ureia para 2026. Em um país onde a agricultura sustenta uma grande parcela da população, fertilizantes mais caros e a interrupção no fornecimento de insumos aumentam a pressão antes da temporada de plantio e elevam o custo de proteger os agricultores.
Os setores de agricultura, pecuária, silvicultura e pesca cresceram 3,6% no período de abril a junho de 2026, uma desaceleração em relação aos 4,4% registrados um ano antes.
Embora o regime de chuvas, as condições de colheita e a demanda interna também influenciem o crescimento agrícola, a interrupção, custos mais elevados de insumos e fertilizantes agravam as dificuldades dos agricultores. Protegê-los desses custos por meio de subsídios exerce pressão adicional sobre o orçamento do governo.
O CREA estima o custo adicional líquido da Índia com combustíveis fósseis em US$ 14,4 bilhões, o equivalente a 0,38% do PIB. Uma despesa adicional dessa magnitude retira recursos de outros gastos, mesmo antes de se contabilizarem os custos mais amplos decorrentes da interrupção da produção.
Em abril, o Banco Central da Índia projetava um crescimento de 6,9% para o período de 2026–2027, em comparação com uma estimativa de 7,6% no ano fiscal anterior. Essa desaceleração prevista coloca Nova Délhi diante de um ritmo de crescimento mais fraco, justamente quando tenta conter os custos de apoio a consumidores e produtores.
A dependência acarreta um custo adicional de frete
A forte dependência do petróleo do Golfo tornou o seguro mais um fator de pressão. No início do conflito, os prêmios de seguro contra riscos de guerra subiram de cerca de 0,25% do valor da embarcação para uma faixa entre 1% e 1,5% — um aumento de quatro a seis vezes. As taxas têm oscilado conforme o desenrolar dos combates e dos cessar-fogos, em vez de permanecerem em um nível fixo de crise.
Substituir as cargas do Golfo por suprimentos de produtores mais distantes aumenta as distâncias de transporte, o consumo de combustível e a demanda por navios-tanque. O desvio da rota pela África permite evitar o Mar Vermelho, mas nem o Cabo da Boa Esperança nem o Canal de Suez contornam o Estreito de Ormuz para cargas que ainda se encontram dentro do Golfo Pérsico. Oleodutos de exportação que levam a terminais fora do estreito oferecem uma alternativa limitada.
Exposição desigual no Leste Asiático
País Exposição ao petróleo antes da interrupção Principal pressão econômica Amortecedor ou resposta disponível
Japão Cerca de 93% das importações de petróleo bruto passaram por Ormuz em 2025 Custos de importação mais altos e pressão sobre o poder de compra das famílias Reservas de petróleo, diversificação de fornecedores e investimento em rotas alternativas
Coreia do Sul Cerca de 70% das importações de petróleo bruto passam por Ormuz Escassez de matéria-prima petroquímica e aumento de custos industriais Cargas alternativas, apoio público e maior uso de outras fontes de energia
China A AIE estimou o suprimento de petróleo bruto via Ormuz em mais de 5,2 milhões de barris por dia em 2025 Importações mais caras e interrupção no abastecimento de refinarias Grandes estoques, produção interna de energia e acesso a fornecedores alternativos
Fontes: Planos de diversificação de suprimentos do Japão, exposição às importações da Coreia do Sul e Relatório do Mercado de Petróleo da AIE de março. Trata-se de medidas de exposição, e não de revisões comparáveis do crescimento do PIB.
A dispendiosa dependência do Japão
O Japão entrou na crise com uma população envelhecida, escassez de mão de obra, um enorme peso da dívida pública e o legado de décadas de demanda fraca e deflação. O choque de Ormuz acrescentou um aumento externo de custos pelo lado da oferta, num momento em que a inflação já havia substituído a deflação como preocupação imediata de política econômica.
Para um país que obtinha mais de 90% de suas importações de petróleo bruto por essa rota antes da guerra, a interrupção eleva diretamente o custo de insumos produtivos fundamentais e ameaça o poder de compra. A fraqueza do iene agrava o problema, pois os importadores precisam desembolsar mais ienes para pagar contas denominadas em dólares, mesmo antes de qualquer aumento no preço do petróleo em dólares.
Para combater as pressões inflacionárias, o Banco do Japão elevou sua taxa básica de juros em 25 pontos-base em junho, levando-a a 1%. O aumento prolongou o ciclo de aperto monetário, elevando os custos de financiamento num momento em que famílias e empresas também enfrentavam importações mais caras.
Posteriormente, o Japão e os EUA realizaram uma rara intervenção cambial conjunta para sustentar o iene, mas o alívio durou pouco. A moeda retomou sua trajetória de queda à medida que as taxas de juros mais altas nos EUA continuavam a favorecer o dólar.
Sinais de alerta continuam a soar em toda a economia japonesa. Um novo aumento da taxa de juros estava sendo discutido antes da reunião de setembro, enquanto Tóquio buscava diversificar o fornecimento de petróleo e apoiar rotas que evitassem o Estreito de Ormuz. A necessidade de alternativas tornou-se mais urgente, embora sua implementação leve tempo.
Indústria sul-coreana reduz atividades
A Coreia do Sul obtém cerca de 70% de seu petróleo e 20% de seu GNL (gás natural liquefeito) do Oeste Asiático. A crise, portanto, atingiu diretamente os setores manufatureiro e químico, nos quais a energia e as matérias-primas derivadas do petróleo são essenciais para a produção.
As indústrias petroquímica, de plásticos e outras que consomem muita energia enfrentam custos mais elevados e pressão para reduzir a capacidade produtiva. A escassez de nafta é particularmente grave, pois o material é utilizado na fabricação de produtos que abastecem as indústrias automotiva, de eletrônicos, de embalagens e de construção civil. Uma escassez nessa etapa pode se propagar por setores muito distantes da extração de petróleo.
O governo tem buscado amortecer o choque por meio de apoio público e medidas para garantir o abastecimento. No final de março, propôs um orçamento suplementar de 26,2 trilhões de wons para auxiliar famílias e empresas. Tal intervenção transfere parte do ônus imediato para as finanças públicas, mesmo quando evita perdas maiores em outras áreas.
O paradoxo energético do Sudeste Asiático
A indústria do Sudeste Asiático também depende de petróleo bruto do Golfo, GNL e insumos petroquímicos. Custos de energia mais elevados
A interrupção no fornecimento de combustíveis coloca fábricas e empregos em risco em toda a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), embora a gravidade varie substancialmente entre países e setores.
As Filipinas enfrentam uma exposição adicional devido aos aproximadamente 2,4 milhões de filipinos que trabalham no Oriente Médio. Sua segurança, emprego e capacidade de enviar dinheiro para casa são vulneráveis a um conflito prolongado.
Malásia e Indonésia, duas das principais economias do Sudeste Asiático, enfrentam um paradoxo energético. Ambas produzem petróleo e gás e podem se beneficiar de preços mais altos das commodities, mas a produção doméstica não elimina a dependência de combustíveis importados, preços internacionais ou subsídios onerosos para o consumidor.
Ambos os governos mantiveram os preços dos combustíveis subsidiados, ao mesmo tempo que introduziram limites de compra. O aumento das receitas de exportação pode servir como uma proteção, mas o custo de proteger as famílias também aumenta. O equilíbrio depende dos combustíveis que cada país produz, importa e subsidia. Os ganhos para um exportador ou uma empresa estatal de energia podem coexistir com a crescente pressão sobre as famílias e indústrias que compram seu combustível.
O acordo de proteção do Golfo está sob ataque.
E há o próprio Oriente Médio, onde a guerra começou. O ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irã no final de fevereiro e a subsequente interrupção do Estreito de Ormuz expuseram os aliados de Washington no Golfo a crises em diversas frentes. Os ataques a instalações de energia e infraestrutura civil trouxeram as consequências econômicas da guerra diretamente para os países que abrigam forças militares americanas.
As previsões pioraram drasticamente, mas os danos são desiguais. As projeções do FMI em abril apontavam para uma contração de 8,6% no Catar, 0,6% no Kuwait e 0,5% no Bahrein. A crise persistiu muito além dessas previsões de abril.
O Catar enfrenta danos particularmente severos em sua economia dependente de GNL (Gás Natural Liquefeito). No final de agosto, a Oxford Economics já alertava para uma contração próxima a 30%, devido aos danos em Ras Laffan. A deterioração desde as perspectivas da primavera reflete a magnitude dos danos às instalações das quais dependem as receitas de exportação do Catar.
A falta de uma saída marítima para o Kuwait fora do Estreito de Ormuz deixa suas exportações extremamente vulneráveis. O Bahrein, já bastante endividado, enfrenta pressão adicional de financiamento. Os preços dos seus swaps de crédito (CDS) subiram quase 40% até o final de agosto. O custo do seguro da dívida pública oferece outra medida da incerteza que agora paira sobre a região.
Riad atenua suas perdas, Dubai perde terreno
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos têm mais espaço para atenuar o choque, embora nenhum dos dois tenha escapado ileso. A previsão do FMI em abril ainda projetava um crescimento de 3,1% para ambos, apesar de ter reduzido a perspectiva da Arábia Saudita em 1,4 ponto percentual e a dos Emirados Árabes Unidos em 1,9 ponto. Suas rotas alternativas de exportação oferecem alguma proteção, mas deixam grande parte da economia em geral exposta.
O Oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita permitiu que o país exportasse parte do petróleo pelo Mar Vermelho, contornando o Estreito de Ormuz. Os preços mais altos do petróleo também compensaram parcialmente os volumes menores. A experiência do reino mostra por que os danos à produção e as mudanças na receita nem sempre ocorrem em conjunto.
Mesmo assim, as perdas econômicas são substanciais. A atividade petrolífera saudita caiu 24,7% no segundo trimestre, enquanto o PIB geral contraiu 4,8% em relação ao ano anterior. Seu déficit orçamentário foi de aproximadamente US$ 9,1 bilhões, apesar do benefício do aumento das receitas do petróleo.
Os Emirados Árabes Unidos, particularmente Dubai e Abu Dhabi, sofreram com seu papel como centro global de logística, turismo e finanças. De acordo com estimativas do JPMorgan divulgadas no final de agosto, as vendas de imóveis em Dubai caíram entre 70% e 80%, enquanto as ações dos Emirados Árabes Unidos recuaram cerca de 14% durante o conflito.
O fechamento do espaço aéreo regional inicialmente forçou as principais companhias aéreas a suspender ou reduzir drasticamente suas operações. A Emirates informou ter restaurado 96% de sua malha aérea global até 4 de maio. A reabertura das rotas, no entanto, expõe as companhias aéreas a custos mais altos de combustível e a novas interrupções por questões de segurança.
Abu Dhabi também utilizou o Oleoduto Habshan-Fujairah para manter parte das exportações de petróleo pelo Golfo de Omã. Assim como a rota saudita, ele oferece uma importante alternativa, mas não pode substituir todas as remessas nem restaurar a confiança da qual depende a economia em geral.
O custo chega às famílias
A crise se estende além das receitas do petróleo e dos mercados financeiros, afetando o cotidiano. A vulnerabilidade das usinas de dessalinização é especialmente grave em países onde o abastecimento de água potável depende fortemente de instalações costeiras que consomem muita energia. Um ataque a uma usina, à sua fonte de energia ou à sua rede de distribuição ameaça um serviço essencial com poucas alternativas imediatas.
As interrupções na cadeia de suprimentos também aumentam o custo da importação de alimentos e outros itens essenciais. Mesmo quando a intervenção governamental ou os estoques existentes evitam a escassez, a reposição de cargas e a manutenção do abastecimento acarretam custos adicionais. Esses custos devem ser absorvidos pelos importadores, pelas famílias ou pelo Estado.
Reparar os danos no Irã e nos países árabes do Golfo Pérsico pode custar entre US$ 34 e 58 bilhões de acordo com a avaliação da Rystad Energy de abril. Além das instalações de petróleo e gás, a conta se estende a fábricas, usinas de energia e estações de dessalinização das quais grande parte da região depende para obter água potável.
Gastos com armamentos pressionam o desenvolvimento
O bloqueio de Ormuz e os danos às instalações petrolíferas, aos sistemas de água e à infraestrutura civil estão forçando os aliados de Washington no Golfo a reavaliar seus arranjos de segurança. Hospedar forças dos EUA não os protegeu das consequências econômicas da guerra, ao passo que o reparo da infraestrutura essencial cria obrigações que perdurarão além de qualquer cessar-fogo.
Os gastos com defesa agora competem com a reconstrução, o apoio público e o desenvolvimento de longo prazo. O investimento em infraestrutura não parou: os estados do Golfo também estão acelerando planos para portos e oleodutos/gasodutos que reduzem a dependência de Ormuz. Mas a necessidade de financiar rotas alternativas é, em si, parte do custo da guerra.
Bilhões que poderiam melhorar os serviços públicos e os padrões de vida correm o risco de serem absorvidos pela compra de armas e pelo reparo do que foi destruído. Quanto mais tempo isso durar, mais os aliados de Washington terão de gastar simplesmente para preservar a segurança e a prosperidade que sua aliança deveria garantir.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente as do Oriente Mídia
Fonte: The Cradle.
