A diplomacia de Damasco transita agora entre a tutela turca e o poder de fogo israelense, sem que nenhuma das partes deixe muito espaço para a soberania síria.
Correspondente do The Cradle na Síria
8 de setembro de 2026

Crédito da foto: The Cradle
A reunião de 23 de agosto entre o Ministro das Relações Exteriores da Síria, Asaad al-Shaibani, e o chefe do Mossad, Roman Gofman, marcou o primeiro encontro desse tipo relatado publicamente. Não foi, no entanto, o primeiro contato direto de alto nível entre o governo pós-Assad e Israel.
Shaibani já havia se reunido com o Ministro de Assuntos Estratégicos de Israel, Ron Dermer, em Paris, nos meses de julho e agosto de 2025, para discutir o sul da Síria, a desescalada de tensões e acordos de segurança. O encontro em Amã elevou o canal de comunicação de uma negociação política para um engajamento direto com o chefe da inteligência externa de Israel.
O autoproclamado presidente sírio Ahmad al-Sharaa — cujas raízes remontam à Al-Qaeda — disse certa vez aos seus combatentes que, depois de Damasco, Jerusalém os aguardava. Quase dois anos após a queda de Bashar al-Assad, Israel ocupa território sírio adicional e continua suas incursões, prisões de civis e a tomada de terras em toda a região sul. As ameaças anteriores de Damasco contra Israel deram lugar a notificações prévias, reuniões mediadas e esforços constantes para atender às demandas de segurança israelenses.
De Abu al-Duhur a Amã
O momento da reunião com Gofman foi significativo. Dias antes, Israel havia atacado a Base Aérea de Abu al-Duhur, na província de Idlib (noroeste da Síria), perto da fronteira com a Turquia. Pelo menos oito bombas atingiram pistas e hangares depois que Ancara tentou reabilitar a instalação, enviando um aviso direto sobre os limites do papel militar da Turquia na Síria.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a Síria se preparava para violar o acordo de segurança vigente ao permitir o envio de tropas turcas para a base. “Nossa mensagem foi muito clara: não façam isso. Acho que eles não entenderam bem a mensagem”, acrescentou.
Shaibani reconheceu que Israel havia sido informado, antes do ataque, de que as obras em Abu al-Duhur se limitavam ao reparo da pista e das instalações danificadas durante a guerra. Autoridades sírias haviam explicado a construção em andamento e negado que a base estivesse sendo preparada para receber forças turcas.
Tel Aviv bombardeou o local mesmo assim. Segundo o próprio relato de Shaibani, a Síria opera sob tutela israelense se a reabilitação de um aeródromo no norte do país exige aviso prévio à potência ocupante — apenas para que Israel o ataque de qualquer maneira.
A escolha da Jordânia como local do encontro teve seu próprio peso. Amã sediou negociações sobre a crise em Suwayda e, posteriormente, juntou-se a Damasco e Washington em um roteiro formal destinado a restaurar a segurança na província do sul. Um cessar-fogo separado, firmado em julho entre a Síria e Israel, contou com o apoio dos EUA, da Turquia, da Jordânia e de outros Estados da região.
Esses arranjos seguiram-se ao derramamento de sangue ocorrido em julho de 2025 em Suwayda. Uma investigação da ONU apontou possíveis crimes de guerra cometidos por forças governamentais, combatentes tribais e grupos armados drusos. Mais de 1.700 pessoas foram mortas e quase 200.000 deslocadas, à medida que casas e vilarejos eram saqueados ou incendiados e civis, tanto drusos quanto beduínos, eram expulsos de suas comunidades.
Poucos dias após a reunião em Amã, o líder druso Sheikh Hikmat al-Hijri endureceu seu discurso, declarando que “nós, drusos, somos parte inseparável de Israel” e que os dois lados compartilham pontos em comum, “inclusive na fé”. Ele também reiterou os apelos por uma entidade independente. Suas palavras reforçaram a impressão de que Suwayda estava escapando do controle de Damasco e ficando fora do principal acordo de segurança.
Segurança com permissão israelense
Um diplomata do Ministério das Relações Exteriores da Síria informou ao *The Cradle* que a reunião resultou em um entendimento claro para evitar um confronto entre Ancara e Tel Aviv. Segundo esse entendimento, Damasco coordenaria os movimentos turcos dentro da Síria em conjunto com Israel.
A fonte, que pediu anonimato por não estar autorizada a discutir as negociações a portas fechadas, descreve a regra emergente em termos mais contundentes: a decisão política da Síria cabe a Ancara, pois Damasco não consegue escapar da influência turca, enquanto a decisão de segurança cabe a Tel Aviv. Se esses limites forem ultrapassados, a resposta será o bombardeio.
O diplomata recusa-se a revelar o que foi discutido sobre as medidas de Israel no sul da Síria. Relatos públicos indicaram que as duas partes cogitaram estabelecer uma sala de operações especiais na Jordânia, sob supervisão dos EUA, para evitar um confronto na Síria — inclusive um que envolvesse a Turquia.
Incursões definem o cenário
Ataques e incursões terrestres de Israel continuaram após a reunião. No mesmo dia, tropas israelenses realizaram uma incursão em Al-Rafid, em Quneitra, e detiveram um pastor. Elas entraram em Saida al-Jolan e revistaram uma fazenda próxima no dia seguinte.
…dia, ressaltando o quanto a via diplomática pouco alterou as condições no terreno. Um grupo de monitoramento sírio registrou, posteriormente, 267 violações israelenses apenas no mês de agosto e 1.752 desde o início de 2026 até o final daquele mês.
O analista político Jaafar Khaddour, especialista em assuntos israelenses que monitora o sul da Síria, afirma ao *The Cradle*:
“É como se as incursões israelenses estivessem preparando o terreno para uma nova realidade prestes a ser anunciada, enquanto a política síria permanece pouco clara quanto aos meios de poder à sua disposição e à forma como lida com esse tipo de ameaça.”
Khaddour acrescenta:
“O ataque a Abu al-Duhur reacendeu a questão sobre a capacidade dos Estados Unidos de conter Israel. Ao mesmo tempo, revelou a extensão do envolvimento da Síria em questões de segurança e militares que Israel busca tornar aceitáveis. Israel parece determinado a consolidar um *status quo* que a Turquia aceitou implicitamente, a julgar pela natureza e pela sequência das respostas de ambos os lados — Tel Aviv e Ancara. Em outras palavras, o objetivo é estabelecer novas regras de engajamento.”
Khaddour descreve as ações de Israel como parte de uma política regional já conhecida de ampliar o controle de segurança e impor realidades políticas aos Estados vizinhos. Damasco, em sua visão, já havia oferecido muito e ido longe demais nas concessões, mas a pressão apenas aumentou.
O objetivo declarado de Israel é manter influência sobre a Síria, expandir sua zona de segurança e moldar o caráter do governo que surgiu após a queda de Assad. A liderança pode ter mudado, argumenta Khaddour, mas o desejo de Israel de enfraquecer a Síria e gerir seu futuro permanece, especialmente porque Tel Aviv vê o país se tornando um palco para a influência e a expansão militar turcas.
A reunião foi significativa devido à alta patente dos presentes, mas Khaddour vê poucas perspectivas de resultados concretos enquanto Israel mantiver territórios estratégicos e continuar pressionando Suwayda — uma questão que caminha para uma complexidade cada vez maior.
Um acordo que Tel Aviv não assinará
Autoridades sírias sugeriram repetidamente que um acordo de segurança estava próximo. O presidente Sharaa (o ex-líder do Estado Islâmico, anteriormente conhecido como Abu Mohammad al-Julani) disse, em setembro de 2025, que os dois lados estavam “muito próximos” de um acordo. No entanto, quase um ano depois, nenhum acordo foi assinado, e Israel continua a agir sem aceitar os limites territoriais buscados por Damasco.
Shaibani afirmou que a Síria buscou um acordo ao longo de um ano inteiro de negociações mediadas pelos EUA. “Fizemos progressos consideráveis e chegamos a uma fórmula por escrito para o acordo de segurança, que foi aceita por ambos os lados”, disse ele. “Mas Israel, mais tarde, recuou de seus compromissos e não implementou a fórmula acordada na prática.”
Ele acrescentou que muitas das preocupações de segurança de Israel haviam sido incorporadas às conversas. O governo de Sharaa, portanto, oferecia-se para atender às demandas de Tel Aviv em troca de um acordo, mas Israel ainda via mais valor em preservar sua liberdade de ação.
Qualquer acordo vinculativo poderia restringir as operações israelenses no sul da Síria, onde Damasco não organizou nenhuma resposta militar significativa. Forças israelenses entraram em áreas de Deraa, Quneitra e nos arredores de Damasco sem enfrentar resistência organizada das tropas do governo.
Um morador do sul relatou ao *The Cradle* que agentes do Ministério do Interior chegaram a evacuar vários postos de controle antes que as forças israelenses avançassem e os ocupassem. Ele pediu anonimato por medo de ser preso pelos serviços de segurança sírios.
O veículo de imprensa hebraico *Walla* citou posteriormente uma autoridade política israelense de alto escalão dizendo que a tentativa de alcançar um acordo de segurança havia fracassado. “Tentamos chegar a um acordo de segurança, mas, no final, não deu certo”, disse a autoridade.
A autoridade atribuiu ao afrouxamento das sanções a redução do incentivo da Síria para chegar a um compromisso. A zona de amortecimento era outro ponto central de disputa. Israel não aceitaria um acordo que exigisse sua retirada de um território que descrevia como um “ativo de segurança”. Ainda assim, os canais de comunicação com Damasco permaneceram abertos em vários níveis.
Apesar da retórica mais dura entre Tel Aviv e Ancara, a autoridade disse não acreditar que Israel ou a Turquia desejassem um confronto armado direto. Essa avaliação estava alinhada ao propósito do canal Gofman-Shaibani: gerenciar a rivalidade entre eles sem limitar o alcance operacional de Israel.
De quem é a culpa?
O relato do *Walla* entra em conflito com a insistência de Shaibani de que a Síria continua pronta para um acordo. Também difere da avaliação feita por uma autoridade de segurança nacional turca ao *Al-Monitor*, segundo a qual Ancara permanecia cética quanto à disposição de Israel — e não da Síria — em aceitar tal acordo. Uma fonte política israelense também disse ao Al-Monitor que Tel Aviv estava agindo para reduzir as tensões com a Turquia e a Síria após o ataque de 18 de agosto a Abu al-Duhur, em parte para atender ao presidente dos EUA, Donald Trump, que tem pressionado as partes a chegarem a um acordo.
As declarações da autoridade israelense ao Walla, portanto, parecem concebidos para transferir a responsabilidade. Sob pressão de Trump, Tel Aviv pode apresentar-se como disposta a assinar o acordo, ao mesmo tempo que argumenta que Damasco recuou assim que Washington suspendeu as sanções. A culpa recai sobre a Síria e, indiretamente, sobre os EUA.
Ambos os governos têm razões políticas para manter o processo vivo. Trump poderia apresentar um acordo como uma conquista diplomática, após os danos causados pela tensão com o Irã e às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA. Netanyahu, por sua vez, enfrenta eleições para o Knesset e pesquisas que indicam um eleitorado fragmentado.
Concessões envolvendo território sírio ocupado poderiam enfraquecer Netanyahu junto à sua base de direita. Uma pesquisa realizada no final de agosto projetava 24 cadeiras para o partido Yashar, do ex-chefe do Estado-Maior israelense Gadi Eisenkot — duas a mais que o Likud, de Netanyahu —, embora levantamentos posteriores tenham apresentado resultados variados.
A reunião entre Shaibani e Gofman não resultou em nenhum acordo claro ou anunciado publicamente. Para Damasco, o encontro evidenciou as margens de manobra restritas em que o país agora opera. Para Tel Aviv, a simples realização das conversas ajudou a satisfazer Washington, ao mesmo tempo que preservou a liberdade da potência ocupante para bombardear, realizar incursões e redesenhar o mapa de segurança da Síria.
Fonte: The Cradle

A liberdade de”israel” para cometer crimes é estarrecedora. A dupla sionista- estadunidense, com a cumplicidade do Ocidente (auto definido “liberal”), enterrou o direito internacional e humanitário, construído sobre os escombros da II Guerra. Agora, “israel” dedica-se a destruir os vestígios da destruição de Gaza, visando: pilhar o rescaldo de ruínas, aplainar a paisagem preparando a iminente invasão colonial, ocultar as provas do genocídio, enfim, criar “fatos consumados”. De nosso conforto assistimos, impotentes, a consumação da Nakba de 1947-8, não só em Gaza, mas na Cisjordânia e no sul do Líbano, enquanto a Síria, o Iêmen, o Iraque, e sobretudo o Irã pagam um preço incalculável por resistirem a este projeto insano, racista, colonialista e imperialista, que é o sionismo.