Alto escalão do Exército de Israel: Israel diante de “Derrota Catastrófica” (se próxima guerra contra o Hezbollah durar mais de dez dias)

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6/10/2017, Franklin Lamb, Counterpunch

Traduzido por Vila Vudu

Palavras dessa semana, vindas da Síria, oferecem mensagens conflitantes de amigos e de inimigos de Israel e do Hezbollah:

“Lamentamos, claro, que grande parte do Líbano será destruída. Perguntem ao Irã por que acontecerá assim. Mas cuidado para que a coisa não dure 34 dias, como da outra vez (julho de 2006). Todos os civis devem abandonar áreas controladas pelo Hezbollah.”


27/9/2017
Auxiliar do presidente Avi Dichter da Comissão de Assuntos Internos e de Defesa do Parlamento de Israel, que pediu para não ser identificado.

“Netanyahu e seus líderes militares não sabem até onde uma guerra pode levá-los, no caso de eles a iniciarem, e não têm qualquer noção realista de o que os espera na próxima guerra. Conclamo os judeus não sionistas a deixar a Palestina ocupada e voltar aos países de onde saíram, para que não venham a ser usados como bucha de canhão na próxima guerra, caso não tenham tempo suficiente, depois, para partir”.


1/10/2017
, Hassan Nasrallah do Hezbollah, em discurso no sul de Beirute, nas comemorações do 10º dia da Ashoura.

A avaliação de muitos analistas na liderança militar dos EUA e de Israel, e também de grande parte do lobby israelense no Congresso dos EUA, é que Israel precisa assegurar-se de que a próxima guerra seja curta. Quanto mais curta, melhor, por várias razões. Uma delas é que Washington não dará ‘luz verde’ para guerra prolongada, com grande número de civis mortos no Líbano. Outra, que nem políticos nem a opinião pública israelense aceitarão alto número de baixas israelenses, militares ou civis.

Diagrama, cortesia de Maher Allouch. 22/9/2017. O diagrama mostra os bombardeios de Israel contra o Líbano, ao longo de 2006. O que mais Israel tentará?

As forças do Hezbollah têm longa história de usar refinadas técnicas de combate, de alto risco e alta exigência de disciplinada, apesar de pagarem preço alto com seus muitos mártires. Dia 2/10/2017, segundo a Haharnet do Líbano, o Hezbollah anunciou a morte de pelo menos mais 11 de seus combatentes, com mais de 30 feridos. Farão novamente coisa parecida. E estão preparados – e preferem e planejam-se para – guerra mais longa. Do ponto de vista do Hezbollah, quanto mais longa a guerra, melhor, e por várias razões.

Uma das razões é que os dois lados sabem perfeitamente que guerra longa, com o Hezbollah saturando Israel sob aproximadamente 2 mil mísseis por dia, causará dano inimaginável a bases militares israelenses, bem como à infraestrutura, áreas e população civil em geral. E que, a menos que se consiga negociar algum efetivo cessar-fogo, a guerra não terminará, nem mesmo depois de as áreas do Hezbollah estarem destruídas, como aconteceu em 2006. Tampouco acabará quando já não houver nem Israel nem Líbano – a menos que massivos protestos de rua tomem conta das ruas em Israel e invadam o Parlamento – porque o Conselho de Segurança da ONU estará desgraçadamente paralisado, como parece ser seu destino final.

Por várias razões, Israel não consegue e provavelmente não conseguirá impedir que chegue ao Hezbollah a maior parte das armas enviadas pelo Irã, que as retira da Síria e envia-as para onde quer posicioná-las ou onde possam ser armazenadas perto do Líbano ou, segundo fonte em Daraa, Sul da Síria, próximas das Colinas do Golan controladas por Israel. Uma das razões determinantes pelas quais Israel não pode deter o embarque das armas são os quase 350km de fronteira Líbano-Síria, que mais parece uma ‘peneira’, tantos são os ‘furos’, e que é usada há séculos por contrabandistas locais de praticamente tudo, nas duas direções, pelas literalmente centenas de trilhas por entre árvores e montanhas.

Atualmente nessa região, como sempre aconteceu na história longa de muitos países, não é fácil bloquear contrabandistas experientes, decididos e com muitos recursos. Outro fator no mesmo processo, é que centenas de caminhões de todos os tamanhos e de vários países viajam da Síria para o Líbano todos os dias, e só relativamente poucos dos experientes vigias locais que cobrem essas rotas sabem, por experiência de anos (observam, por exemplo, qualquer mínima diferença na forma dos pneus dos caminhões em movimento), quais transportam mísseis ou algum outro tipo de armamento pesado.

Um jovem, mas miliciano já veterano de Majdel – a menos de duas milhas do ponto de passagem em Maznaa na fronteira Líbano-Síria, a quase 50km a leste de Damasco, garante que olha um caminhão e sabe dizer o tipo de mísseis que transporta, só pelo modo como o caminhão balança nas subidas mais fortes!

Até eu mesmo, simples observador e assumidamente incapaz e obtuso em assuntos de guerra, também poderia dar palpites, depois de incontáveis viagens por terra entre Beirute e Damasco ao longo de já muitos anos. Não raras vezes, também sei se um caminhão carrega armamento pesado, por maior que seja a pilha de sacos de batatas, cebolas ou cachos de banana que se vê sobre a carroceria. Principalmente quando conheço o motorista, meu vizinho de bairro, com quem cruzo na rua, nós dois morando há anos em Dahiyeh, Sul de Beirute (Haret Hreik), a casa do Hezbollah.

Pode-se presumir que o Hezbollah tenha planos de dar bom uso às armas que estão chegando. Israel – território menor que New Jersey, o 5º menor estado dos EUA –, é alvo fácil, na avaliação do Hezbollah, porque tem número relativamente pequeno de pontos vitais, que podem ser bem facilmente atacados. Os alvos ali seriam o aeroporto Ben Gurion, portos de mar, estações ferroviárias, prédios chaves do governo, instalações militares e os vários tipos de alvos civis que tantos atacantes vêm destruindo já há anos na Síria, sem poupar escolas, locais de oração, grandes mercados populares, hospitais, etc.

Muitos desses alvos serão danificados em qualquer próxima guerra, se não forem totalmente destruídos, como se tem visto acontecer na Síria há sete anos. Em pouco tempo Israel estará pagando preço insustentável em termos de destruição de infraestrutura, e sofrerá centenas de baixas – apesar de tanto fazer planos para guerra curta.

Hezbollah, Irã e Síria parece já terem aceitado, mais ou menos, o fato dos repetidos ataques a carregamentos de armas – ou talvez tenham deixado de responder para evitar qualquer escalada. Apesar dos ataques diretos de Israel a vários comboios Irã- Hezbollah, o Hezbollah assegurou à mídia e a aliados locais que prosseguirá no trabalho de expandir seu arsenal.

Segundo análise das FFAA de Israel, para garantir que a próxima guerra seja curta e suas forças vitoriosas, é preciso atingir também o estado libanês, não apenas o Hezbollah. Os israelense entendem, declaradamente, que o Hezbollah, infraestrutura libanesa e exército libanês podem ser destruídos na primeira semana ou, seja como for, em no máximo dez dias. Todos os preparativos consideram esse cronograma, segundo analistas de Jane’s Weekly. Quando a guerra começar, criará massiva pressão internacional para que os dois lados aceitem logo um cessar-fogo, e isso, precisamente, é o que os militares israelenses desejam e para isso se planejam. O Hezbollah, por sua vez, como dito acima, prepara-se para guerra longa.

Entrementes, até que irrompa a guerra, Israel continuará a tentar impedir que o Hezbollah arme-se com armas acuradas.

Israel está divulgando amplamente a mensagem das suas FFAA, segundo a qual: “Líbano e Hezbollah serão os inimigos de Israel na próxima guerra, igualmente atacados” – na esperança de que, com essa ameaça crie-se suficiente força de contenção até que as FFAA israelenses estejam prontas para sua planejada guerra rápida. Além disso, nenhum dos atores chaves na região, Síria, Irã, Arábia Saudita, países do CCG, França, Rússia, EUA e União Europeia, ninguém quer o Líbano destruído, por mais que haja quem acalente o desejo de, sim, ver destruído o Hezbollah.

Há cerca de uma semana, no final do grande exercício militar no norte de Israel, o ministro israelense da Defesa e chefes do exército cuidaram de distribuir rapidamente uma mensagem internacional, de que Israel seria capaz de derrotar rapidamente o Hezbollah e quando a guerra eclodir é importante que estados ocidentais – no mínimo, os EUA – compreendam que Israel optou por essa estratégia porque não tinha outra. Mas há vozes em Israel e em outros pontos que já criticam essa mensagem e insistem que Israel distribua outra mensagem, praticamente o contrário da primeira – o que sugere confusão significativa dentro do governo de Israel sobre a anteriormente muito divulgada Doutrina Gidion.

A subcomissão de Supervisão de Defesa e Construção de Forças da Comissão de Assuntos Exteriores e Defesa do Parlamento de Israel distribuiu semana passada um resumo bem suavizado de relatório altamente secreto do governo sobre o Plano Gideão, de cinco anos, para defesa de Israel contra Irã, Hezbollah, Hamas e outros inimigos jurados da entidade sionista. O relatório critica duramente a falta de estratégia coesa de segurança em Israel, que já dura cinco anos, o que, como diz o relatório, levou a vários fracassos militares na Guerra de Gaza em 2014 e continua a enfraquecer, ainda hoje, as FFAA de Israel.

O relatório culpa a liderança política por ainda não ter criado orientação estratégica clara para os militares, e enfatiza também várias graves dúvidas quanto à prontidão de Israel, hoje, para guerra contra o Hezbollah.

Debate cada vez mais intenso em Israel procura resposta, ainda não encontrada, para se as FFAA israelenses estariam devidamente preparadas para a próxima guerra, seja longa seja curta – como não estiveram nas guerras mais recentes. O Parlamento já pergunta abertamente se as FFAA de Israel estariam prontas para guerra amanhã cedo, e também os altos escalões militares. Relatório muito suavizado de uma subcomissão do Parlamento recém divulgado levanta inúmeras questões fundamentais.

O relatório insiste que o plano quinquenal Gideão, que supostamente prepararia o exército para a próxima guerra, parece ter levado as FFAA de Israel, elas mesmas, a admitir que, ao longo das últimas duas décadas, Israel preparou-se para a guerra errada, contra o Hezbollah. Diz que Israel precisa de outro tipo de preparação; que há necessidade urgente de mudar a estratégia para a próxima vez que o exército enfrente o Hezbollah; e que precisa de um plano que destrua as muitas ameaças vindas do Irã, que o exército prevê que terá de enfrentar mais cedo do que se espera. Nas palavras daquele relatório:

“O ritmo da construção de força e armamento é derivado das opções e nem sempre resolve os vácuos em diferentes áreas que a comissão encontrou ao longo de seu trabalho. Há vários campos críticos que exigem ajustes na construção de força, ainda que à custa de outras capacidades.”

A crítica central feita pela subcomissão tem a ver com o fato de que os militares determinaram suas próprias necessidades para o plano multianual, em vez de a liderança política determinar ao exército o que lhe cabe fazer. O relatório foi positivo sobre uns poucos elementos da implementação do Plano Gideão, mas identificou graves problemas nos planos das FFAA de Israel para levar a termo a próxima guerra contra o Hezbollah.

O relatório diz que enquanto os militares de Israel conseguiram montar força de combate impressionante, nem sempre se prepararam adequadamente para a missão correta.

A subcomissão também constatou outras deficiências no Plano Gideão, especialmente o fato de que não inclui a “mudança tectônica” que é o retorno dos russos à região. “O que podemos fazer, o que queremos, quais nossas opções para a guerra que se aproxima contra o Hezbollah?”

Essas críticas têm aparecido com frequência entre o que se ouve do establishment militar de Israel e entre os principais decisores políticos, que há medidas que têm de ser tomadas com urgência, à luz dos movimentos em rápida evolução no Oriente Médio. Todos sugerem que o Hezbollah e o Irã podem criar outros fronts significativos na Síria, o que forçaria Israel a combater em várias arenas simultaneamente.

Enquanto isso, movidos principalmente pela preocupação com o destino do Líbano, no caso de Israel começar os bombardeios de saturação, vários “líderes” libaneses já visitaram ou em breve visitarão o Reino [saudita], para planejar estratégias para confrontarem o Hezbollah e o Irã. O primeiro é considerado simplesmente uma milícia estrangeira implantada pelo segundo, declarado regime hegemônico em Teerã, e que alguns, no governo do Líbano creem que estaria caminhando a passos largos para iniciar a própria revolução. Até o presente, já visitaram [o Reino] o líder das Forças Libanesas Samir Geagea e o chefe do Partido Kataeb Samir Gemayel (os dois partidos participaram diretamente no Massacre de Sabra-Shatila em 1982), o primeiro-ministro do Líbano Saad Hariri, o líder druso deputado Walid Jumblat, e o ex-ministro anti-Irã/Hezbollah major-general Ashraf Rifi. Outros estão organizando visitas.

Alguns dos visitantes estão à procura de outra ‘coalizão’ para confrontar o que dizem que seriam projetos do Irã para controlar a região e suas ameaças à soberania do Líbano. Isso, enquanto esperam persuadir Israel a não destruir o Líbano na tal “guerra curta” planejada para menos de dez dias. Oficiais do Pentágono informaram a membros do Congresso dos EUA que acreditam que essa “guerra curta” começará tão logo militares e governo de Israel cheguem à conclusão de que estão prontos.

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