Publicado 8 de agosto 2026
Por Doralina Rodrigues Carvalho, exclusivo para o blog da Terra Redonda.

Pretendo destacar algumas questões relativas aos modos de ser e aos modos de existência dos brasileiros na atualidade. Ou seja, suas crenças, sentimentos e pensamentos. Os valores que perpassam a sociedade brasileira entraram em um processo de extrema decadência com o surgimento do bolsonarismo. Sentimentos como ódio, ressentimento, raiva passaram, de modo reativo, a tomar conta dos corações e mentes de parte da população. Por outro lado, configura-se um modo de existência ativo, avesso à maldade, à vingança e à ira que se consolida no desenvolvimento de causas populares e sua força atual. Há em cada acontecimento social uma multiplicidade de conexões que levam tal acontecimento a expressar os sentidos de sua criação. Esta passa por uma pluralidade de forças – forças ativas – que agem via o que Nietzsche chamou de vontade de potência, que se opõe ao individualismo, ao egoísmo. A vontade de potência quer afirmar a diferença na relação com o outro. É através da diferença que se constitui a existência.
Para Spinoza, estado baseado no medo, na culpa, na proibição, gera cidadãos ressentidos. Em um governo alegre, baseado na liberdade e na razão, as pessoas aumentam sua potência de pensar, trabalhar, criar. Os homens não existem para serem zumbis, autômatos, mas para que mente e corpo se tornem cada vez mais ativos. A alegria vem de entender a si mesmo como parte da natureza. Essa alegria ninguém pode tirar de você. Por isso se uma relação, ideia ou governo diminui sua potência, rompa com essas condições. Se aumenta sua potência de pensar e agir, se gera alegria mergulhe em tais condições. A ideia é sempre fortalecer a vida, não enfraquecê-la. Spinoza e Nietzsche são os grandes filósofos da afirmação da vida. Ambos renegam culpa, moral de rebanho e tristeza.
O presidente Lula propõe um governo que unifique potências. Defende democracia e soberania e isto aumenta a alegria coletiva. Ele estimula os cidadãos a criar, arriscar, se reinventar. Em seus governos pudemos sair das paixões tristes, buscando entender o que se passa nesse país tão dividido. Por que tanta raiva, ódio, ressentimento? O que hoje aumenta a potência do país? O que diminui? As paixões alegres que nos afetam ampliam nossa potência de agir. A ética, como já dissemos, é uma ética da alegria. Só a alegria é válida para nos aproximar da ação. A ética tem como objetivo maior se aproximar das paixões alegres, tornando-nos cada vez mais conscientes de nós mesmos.
A partir de Nietzsche, dizer sim à vida. Transformar dor em criação. O rebanho é que busca o conforto. Não reclamar, não vitimizar. Isto leva à decadência. Criar, desafiar, superar. Nietzsche quer celebrar, rir, criar. Via Spinoza, podemos ver a política como aumento da potência criativa. Para ele estado bom é estado alegre. Estado ruim é estado triste. Quando a política vira fake news, mentiras deslavadas, individualismo gritante, a potência coletiva diminui. Não se pensa, se reage. A busca de confronto bolsonarista passa por aí. No mundo bolsonarista as paixões tristes e as ideias inadequadas predominam. Para eles se o presidente Lula não for eleito, tudo se resolve. Só que foi o governo Lula que batalhou por condições melhores para a educação, saúde, moradia, combate à fome e ao desemprego. Tudo isso aumenta a potência do cidadão, ficando este mais capaz de pensar e agir. Além do estímulo a um melhor funcionamento das instituições para que não criem súditos, mas cidadãos com melhores condições político-sociais.
Para Nietzsche não há neutralidade política. Ou se cria novos valores ou se é dominado pelos valores do rebanho. No Brasil deparamo-nos, em parte da população, com o ressentimento e a moral de rebanho, moral de escravo, vitimismo. Deparamo-nos, também, com falas niilistas, tipo todos na política são corruptos. Isto gera cinismo e paralisia. É o pior adoecimento porque elimina a vontade de criar. São os espíritos livres que criam valores até no caos. Trata-se de parar de apostar em messias político. Temos de criar novos valores ainda que com riscos. Valores que rompam com o levar vantagem em tudo e que digam sim à vida.
Mais democracia e soberania eliminam a tristeza crônica. Fome, medo e ignorância geram só paixões tristes criando sobreviventes, não cidadãos. Além da preservação dos direitos adquiridos, batalhar pela criação de novos direitos. O medo do desemprego, da fome, a ignorãncia geram o medo da vida. Se persistir no plano econômico o medo do desemprego, a ansiedade pelas contas a pagar, apenas queixar-se do governo não resolve. Os juros altos, impostos complexos, educação ruim, violência elevam o nível das queixas. Vamos investir no que aumenta a potência: saúde, educação, moradia, infra-estrutura, ciência. Riquezas criadas pelo povo geram mais autonomia e produzem alegria. A dependência gera mediocridade. Por isto trata-se de valorizar quem produz, quem se arrisca, quem se alegra com as possibilidades que a vida apresenta.
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Doralina Rodrigues Carvalho é mestre em Psicologia Clínica pela (PUC-SP), professora do Centro de Filosofia do Instituto Sedes Sapientiae – SP, coordenadora do Instituto Candeias, terapeuta e supervisora clínica, e autora do livro Vestígios do mundo e da vida contemporânea, recém lançado pela Terra Redonda Editora. Na juventude, foi prtesidente da UEE-MG e dirigente da Ação Popular Marxista Leninista.
