André Chamy propõe uma análise de conjunto das guerras no Médio-Oriente. Segundo ele, elas não respondem à “operação de 7 de Outubro”, mas sim à « Doutrina da Periferia » reatualizada. Elas chocaram no «Eixo da Resistência». Em última análise, os seus promotores perderam politicamente, muito embora disponham de um poder militar muito superior, porque sobrestimaram o seu próprio poderio.

A brutal destruição e o genocídio de uma população não garantem a vitória.
O cerco de Israel, a fábrica da legitimidade e o custo norte-americano, 2023-2026
O 7 de Outubro de 2023 é comummente apresentado como o ponto de partida da sequência regional que se seguiu. Esta cronologia é enganadora. Ela assume um desencadeante como causa e mascara aquilo que realmente se jogava : a ruptura, planificada de longa data, de um dispositivo de cerco do qual Israel media o estrangulamento desde há quase duas décadas. Três anos mais tarde, o dispositivo está supostamente desmantelado, o objetivo político não foi atingido e o poder que tornou a operação possível saí daí visivelmente enfraquecido.

Eilat, no Mar Vermelho, era em simultâneo um porto comercial e uma estância balnear. O porto comercial teve que encerrar, em 2025, na sequência do cerco e do « anel de fogo ».
I. Um cerco que não era uma metáfora
O vocabulário empregue em Telavive para descrever o período 2006-2023 é o de «anel de fogo» : Hezbolla a Norte, «milícias pró-iranianas» na Síria e no Iraque, Hamas e Jihad islâmica palestiniana no Sudoeste, Huthis no Sul. A fórmula parece retórica. Mas não o é, e há um ponto onde se pode medi-la.
Um Estado que perde o uso da sua fachada marítima meridional não é confrontado com uma ameaça simbólica. Ele está confrontado com uma amputação. E o próprio director do porto formulara, já em 2024, a lógica estratégica subjacente : em caso de guerra no Norte, com mísseis atingindo Haifa e Ashdod, Eilat tornar-se-ia a única via de respiração para um país que de outra forma estaria sitiado. O anel funcionava, pois, como um sistema : cada segmento cobria a possível falha dos outros.
Um detalhe se impõe aqui, já que condiciona o resto da análise. Bab el-Mandeb foi efectivamente fechado ao tráfego ligado a Israel, e este encerramento produziu os seus efeitos até à liquidação de um porto. O Estreito de Ormuz, esse, está há muito tempo numa outra categoria : ameaçado várias vezes, nunca bloqueado. Isso mudou, em 28 de Fevereiro de 2026. Desde o início do conflito com o Irão, o tráfego caiu aí de 130 a 140 navios por dia para uma média de quinze, com fins de semana a 6 ; A Lloyd’s List Intelligence registou apenas 77 passagens entre 28 de Fevereiro e o meio de Março, na maioria unidades da frota fantasma, operando fora dos circuitos de seguros e de monitorização [3]. A reabertura condicional obtida em Junho durou alguns dias. O que fecha o Estreito não é aliás um bloqueio físico –- o comando dos EUA tem afirmado que a navegação continuava possível -– mas a retirada, desde 5 de Março, da cobertura seguradora contra os riscos de guerra. Foi o exacto processo que matou Eilat : dois pontos de estrangulamento, um único mecanismo. A distinção entre uma ameaça e um facto consumado é o que separa a análise estratégica da projecção ; Ormuz passou de uma para outra, simplesmente.
A isso somava-se uma vulnerabilidade de uma outra natureza, muitas vezes subestimada pelas análises ocidentais. Os Tratados de paz com o Egipto (1979) e a Jordânia (1994) vinculam Israel a dois aparelhos de Estado, não a duas sociedades. A sua validade está indexada à sobrevivência política de dois regimes cujas opiniões públicas permanecem massivamente hostis à normalização. Israel não dispõe pois, a Sul e a Leste, de fronteiras pacificadas ; dispõe de fronteiras administradas, o que é uma garantia de uma robustez completamente diferente.

Reuven Zaslansky-Shiloah (à direita, ao lado de David Grün-Ben Gurion), fundador da Mossad. Ele concebeu, antes da criação do Estado de Israel, a « Estratégia da Periferia » : aliar-se com as minorias étnicas do Médio-Oriente para contornar a pressão dos nacionalistas árabes. Hoje, Benjamin Netanyahu orienta Israel para « a aliança hexagonal » : Índia, nações árabes dos Acordos de Abrãao, nações africanas, nações mediterrânicas (Grécia e Chipre) e nações da Ásia.
II. Uma angústia de nascença, não conjuntural
A obsessão israelita do cerco não nasceu em 2006. Ela está incrustada desde o nascimento do Estado.
A “doutrina periférica” formulada sob Ben-Gurion consistia precisamente em contornar a imediata hostilidade árabe por um sistema de alianças com a periferia não-árabe da região : a Turquia kemalista, o Irão imperial, a Etiópia de Hailé Selassié, as minorias curdas e maronitas [4]. Era uma resposta geopolítica a um problema geográfico : um território exíguo, sem profundidade estratégica, cercado de Estados declaradamente inimigos.
A revolução de 1979 inverteu o pivô central deste sistema. O Irão passou do estatuto de aliado periférico para o de organizador de uma coligação (coalizão-br) de cerco, e a doutrina do «eixo da resistência» reconstruiu metodicamente, durante quatro décadas, o que a “doutrina periférica” havia procurado prevenir. A particularidade desta reconstrução é que ela não era estatal, mas sim infra-estatal : assentava em actores armados implantados em Estados fracos ou falidos, o que a tornava, em simultâneo, menos onerosa para Teerão e muito mais difícil de enfrentar pelos meios clássicos de dissuasão interestatal.
É este ponto que explica o fracasso da doutrina israelita de «aparar a relva» : operações militares periódicas e limitadas, destinadas a degradar as capacidades adversas sem procurar uma resolução política. Aplicada a Gaza em 2008, 2012, 2014 e 2021, ao Líbano em 2006, produziu um resultado líquido negativo. Cada ciclo reconstituía o adversário um pouco mais solidamente, e o próprio Benjamin Netanyahu reconheceu, em 2024, ter desistido de erradicar o Hamas por falta de legitimidade interna e internacional para uma invasão terrestre completa [5]. Esta confissão é capital : identifica a legitimidade, e não a capacidade militar, como o factor limitante. Ou seja, tudo aquilo que se segue decorre daqui.

Em 23 de Setembro de 2023, Benjamin Netanyahu expõe a sua concepção do « Novo Médio-Oriente » na tribuna das Nações Unidas. Aí, ele não usa ainda a expressão «aliança hexagonal», mas descreve o corredor IMEC que a estrutura.
III. O projeto de saída : a normalização para contornar
A resposta israelita ao cerco nunca foi apenas militar. Primeiro, foi um projeto de recomposição regional, e este projeto é de conhecimento público, é antigo, documentado.
A sua formulação mais explicita remonta ao documento A Clean Break : A New Strategy for Securing the Realm, redigido em 1996 por um grupo de analistas neoconservadores norte-americanos dedicado a Benjamin Netanyahu, então novamente eleito [6]. O texto preconizava o abandono do quadro de Oslo, o derrube do regime baathista iraquiano, e o enfraquecimento da Síria e do Irão como condições para uma reorganização regional favorável. Foi seguido, dez anos mais tarde, pela fórmula de Condoleezza Rice sobre as «dores do parto de um novo Médio-Oriente», proferida no auge da Guerra do Líbano de 2006 [7]. A ideia de uma reconfiguração regional pela força nada tem pois de uma inferência retrospectiva.
A sua versão dos anos 2020 substituiu a guerra pela economia, sem mudar o objectivo. Os Acordos de Abraão (2020) estabeleceram um princípio : a normalização com os Estados árabes pode ser dissociada da questão palestiniana. O corredor IMEC, anunciado no G20 de Nova Deli, em 9 de Setembro de 2023, constituía a infraestrutura : uma rota comercial Índia-Golfo-Jordânia-Israel-Europa, contornando tanto o Suez como a influência iraniana.
Em 22 de Setembro de 2023, quinze dias antes do ataque do Hamas, Netanyahu sobe à tribuna da 78ª Assembleia Geral das Nações Unidas e brande dois mapas [8]. Ele anuncia uma paz histórica iminente com a Arábia Saudita, afirma que os Palestinianos não têm nenhum direito de veto sobre as relações israelo-árabes, e descreve um corredor de prosperidade ligando a Ásia à Europa via Emirados, Arábia Saudita, Jordânia e Israel. No mapa do «Novo Médio-Oriente» que ele apresenta, a Cisjordânia e Gaza figuram no interior das fronteiras israelitas [9].
Este discurso é o documento central para qualquer análise séria do período. Ele estabelece que o projeto regional israelita foi formulado, assumido e publicamente exposto antes de 7 de Outubro. Ele estabelece igualmente o que este projeto implicava para os atores que dele foram excluídos : o Hamas, o Hezbollah e o Irã estavam, literalmente, fora deste quadro.

A verdade é conhecida em Israel : em 2024, o historiador Adam Raz publicou « O caminho para o 7 de Outubro : Benjamin Netanyahu, a montagem do conflito sem fim e a degradação moral de Israel » sobre o financiamento do Hamas pelo Primeiro-Ministro. Em 2026, os jornalistas Shlomi Eldar e Ruth Yuval publicaram « Sequestrado : 843 dias de abandono » sobre os alertas oficiais que foram dirigidos ao Primeiro-Ministro e a sua recusa em os escutar.
IV. O paradoxo : a política que consolidou o adversário
Existe uma dimensão desta história que nenhuma análise honesta pode contornar, e que não requer hipótese conspirativa : Israel reforçou deliberadamente o papel do Hamas em Gaza, por razões de política interna.
Em Março de 2019, durante uma reunião do grupo parlamentar do Likud, Benjamin Netanyahu defendeu a transferência de fundos catarianos para Gaza, explicando que qualquer um que se opusesse a um Estado Palestiniano devia ser favorável a isto. Com a justificação de que a manutenção de uma separação entre a Autoridade Palestiniana, na Cisjordânia, e o Hamas, em Gaza, impedia a emergência de um tal Estado [10]. As somas envolvidas são consideráveis : mais de 1,3 mil milhões de dólares de ajuda catari entre 2012 e 2021, encaminhadas com o aval israelita [11]. Avigdor Lieberman, antigo Ministro da Defesa, afirmou que Netanyahu enviara o Chefe da Mossad a Doha para pedir a continuação destas remessas [12].
Esta política produziu três efeitos simultâneos.
• Consolidou financeiramente a organização que ia levar a cabo o ataque do 7-de-Outubro.
• Criou uma dependência israelita em relação a Doha, único intermediário credível junto do Hamas, dependência que se revelou estrutural aquando das negociações sobre os reféns.
• E, ela engendrou, no próprio seio do aparelho de Estado israelita, uma zona de opacidade que o escândalo dito «Catargate» revelou a partir de 2025 : dois ajudantes do Primeiro-Ministro, Yonatan Urich e Eli Feldstein detidos, em 31 de Março de 2025, por suspeita de receberem para promover os interesses catarianos quando trabalhavam para o gabinete do Primeiro-Ministro ; Netanyahu acabou por ver, no próprio dia, a sua tentativa de demitir o Chefe do Shin Bet, Ronen Bar, que supervisionava a investigação, suspensa pelo Supremo Tribunal [13].
Este caso deve ser lido pelo que é, e não pelo que gostaríamos que provasse. Não demonstra forçosamente um conluio operacional na preparação do ataque. Demonstra algo de mais banal e de mais grave : a porosidade de um centro de decisão relativamente a uma potência estrangeira que financia o adversário, e o uso de prerrogativas do executivo para entravar o inquérito que o abordava.
Resta a questão da cegueira. A Inteligência israelita detinha, mais de um ano antes do ataque, um documento operacional imputado ao Hamas descrevendo, nos menores detalhes, o cenário de uma incursão maciça, conhecida sob o nome «Muralha de Jericó». Mas, isto foi considerado demasiado ambicioso para as capacidades reais da organização [14]. No início de Julho de 2023, um analista da unidade 8.200 sinalizou, por escrito, um treino intensivo do Hamas correspondente em todos os pontos a este documento. Um Coronel da divisão encarregue de Gaza afasta o alerta : é cenário totalmente imaginário, é preciso esperar com paciência. A Inteligência insiste – nos “mails” que o New York Times consultou – em objectar que se trata de um plano de guerra e não de um ataque contra uma aldeia, e em lembrar que a frente Sul conheceu já, cinquenta antes, um cenário que parecia também imaginário. A referência a 1973 é, pois, feita três meses antes dos factos. Os alertas repetidos das observadoras afectas à vigilância da barreira de Gaza, que assinalam exercícios de treino conformes a este cenário, foram descartados pela hierarquia. O que os Israelitas denominam a conceptzia -– a convicção doutrinária que um Hamas economicamente envolvido era um Hamas dissuadido.
Para alguns, isto não foi uma maquinação. Foi um erro de apreciação, e foi precisamente por ser um erro que foi possível.
Esta explicação cobre o aparelho. Desde Setembro de 2026, sabe-se que ela não cobre necessariamente a chefia.
Em 8 de Setembro de 2026, o Haaretz publicou, na entrevista de Shlomi Eldar e Ruth Yuval, o relato de uma conversação telefónica, de quarenta e cinco minutos, entre Mohammed ben Zayed (MBZ) e Netanyahu, no fim de Setembro de 2023, uma dezena de dias antes do ataque. O Presidente emiradense advertia o seu interlocutor que Sinwar preparava uma operação de grande envergadura, que iria provocar um banho de sangue, desestabilizaria a região e comprometeria os Acordos de Abraão.
A cadeia de transmissão está assim reconstituída : irritado com a bloqueio, montado pelo próprio Netanyahu, de uma negociação indirecta sobre uma trégua e uma troca de prisioneiros, Sinwar repassou a um intermediário o anúncio de um «zilzal», um sismo ; o intermediário alertara um Conselheiro palestiniano de Bin Zayed, o qual alertou o seu presidente. Netanyahu teria respondido, com calma, que Israel controlava a situação em Gaza e que uma eventual acção viria talvez da Cisjordânia. Ele não informou, nem o seu Ministro da Defesa, nem o Chefe do Estado-Maior, nem os Directores do Shin Bet e da Mossad –- Herzi Halevi e Ronen Bar confirmaram não ter sabido de nada. Entretanto, paralelamente, o Ministro egípcio da Inteligência, Abbas Kamel, transmitia uma mensagem do mesmo teor aos serviços do Primeiro-Ministro [15].
Este relato é contestado, e ele deve ser apresentado junto com aquele que o contesta. O gabinete do Primeiro-Ministro fala de uma mentira absoluta e nega que a conversação tenha ocorrido, acrescentando que qualquer eventual informação teria passado pelos canais da Inteligência — um desmentido que se contradiz a si mesmo. Netanyahu ameaçou o diário e um dos autores com processos por difamação ; O Likud reclamou a abertura de uma investigação penal contra os jornalistas. Por seu lado, Abu Dhabi descartou o relato ! Por fim, ele aparece poucas semanas antes das eleições, nas quais a conduta de Netanyahu a 7 de Outubro é a questão central, o que impõe cautela nos dois sentidos : o calendário fornece um motivo para publicação, mas também fornece um motivo para desmentido [16].
Tal como está, este dossier não estabelece o que habitualmente se diz. Um aviso ignorado não é um plano executado, e não demonstra mais do que a «Muralha de Jericó», ou os alertas de Nahal Oz de que alguém pretendia o ataque. Ele demonstra que a falha não é apenas institucional. A conceptzia explica por que um aparelho desestimou um documento ; não explica por que razão um Chefe de governo, alertado nominalmente por um Chefe de Estado estrangeiro, nada diz aos seus próprios serviços. Esta passagem do nível da culpa, da organização para o pessoal, é a verdadeira contribuição para o caso –- e esclarece antecipadamente o que a seção IX descreverá : a obstinação, durante três anos, em impedir a constituição de uma comissão de inquérito Oficial.
O futuro dirá provavelmente a verdade sobre aquilo que se passou e sobre a sua origem.

Problema : o balanço do 7-de-Outubro é global. Ninguém é capaz de discernir quantas vítimas foram mortas pelos atacantes e quantas o foram pelas próprias Forças israelitas.
V. A construção da legitimidade
Se a legitimidade era o fator limitante, então o que se deu nas semanas seguintes ao 7 de Outubro foi a produção de um recurso estratégico. Essa produção operou em dois sentidos : no interior, a suspensão de uma crise política que ameaçava o governo há nove meses ; no exterior, o alinhamento das chancelarias ocidentais com a qualificação israelita dos factos e a resposta que daí resultava. Três observações documentadas permitem medir os mecanismos disso, e elas não apontam todas na mesma direção.
A primeira concerne o balanço numérico, e contradiz uma afirmação muito difundida. Em 10 de Novembro de 2023, Israel reviu em baixa o seu próprio balanço, de 1. 400 para cerca de 1. 200 mortos, depois de ter identificado como corpos de combatentes do Hamas mortos inicialmente contados entre as vítimas [17]. Uma contagem independente da Agência France-Presse chegava, em Fevereiro de 2024, a 1. 163 mortos [18]. O número foi pois corrigido em baixa pelo Estado que teria tido mais interesse em o inflacionar, e as vítimas são identificadas nominalmente. Não é aqui que reside a manipulação, e toda a análise que por aí se demore desperdiça o seu tempo e a sua credibilidade.
A segunda diz respeito aos crimes, e aí a lacuna é real. Certas alegações muito difundidas nas primeiras semanas nunca foram fundamentadas -– a afirmação de que quarenta bebés teriam sido decapitados, transmitida à presidência norte-americana antes de ser discretamente abandonada, é o exemplo mais claro. A investigação do New York Times sobre o carácter sistemático de violências sexuais tem sido objeto de contestações documentadas, inclusive no seio da sua própria redação, quanto aos seus métodos e à escolha das fontes. O relatório remetido em Março de 2024 por Pramila Patten, representante especial das Nações Unidas, conclui pela existência de motivos razoáveis para crer que foram cometidos abusos sexuais, sem estabelecer que tenham sido ordenados ou sistemáticos [19]. A nuance é considerável, e surgiu depois das afirmações iniciais já terem produzido os seus efeitos políticos. Uma correção nunca tem o alcance de uma afirmação original : é uma assimetria estrutural do campo mediático, e não é necessário postular um plano para observar que beneficiou uma das partes.
A terceira é a mais grave, e ela demorou nove meses a emergir. Em Julho de 2024, o Haaretz publicou uma investigação baseada em documentos e depoimentos de soldados e de oficiais estabelecendo que a chamada diretiva «Hannibal» –- protocolo oficialmente revogado em 2016, autorizando o emprego de todos os meios para impedir a captura de um soldado, inclusive anulando a sua vida -– havia sido posta em prática no 7- de-Outubro por oficiais superiores da divisão de Gaza [20]. Ela foi aplicada no posto fronteiriço de Erez, na base de Re’im – onde estava situado o quartel-general da divisão –- e no posto avançado de Nahal Oz. A ordem transmitida pelo Comando Sul era inequívoca : nenhum veículo devia voltar a Gaza, quando uma fonte do mesmo comando reconhecia que todos sabiam que estes veículos podiam transportar civis ou soldados raptados. Às 21h33, uma nova ordem mandava fechar toda a área fronteiriça com tanques, com a autorização para abrir fogo irrestrito sobre quem se aproximasse. Na casa de Pessi Cohen, no Kibutz Be’eri, catorze reféns estavam retidos quando o Exército atacou a posição : treze foram mortos.
A comissão internacional independente de inquérito das Nações Unidas confirmou a utilização da diretiva em vários locais e registou, nos únicos casos que pode verificar, a morte de catorze civis no máximo [21]. É o único número com origem numa instância de inquérito e não constitui um balanço. O número total de Israelitas mortos por fogo israelita nesse dia não é conhecido, e não o será. Nenhuma autópsia sistemática foi realizada. Os registos em que se baseia a contagem nacional — os da Segurança Social israelita, cruzados com dados do Exército, da Polícia e do Shin Bet — não permitem distinguir as vítimas do Hamas das provocadas pelo fogo israelita durante a retoma de localidades, levada a cabo com granadas e foguetes sobre áreas habitadas [22]. Lá onde o Exército investigou, deparou-se com a mesma ausência : relativamente à casa de Pessi Cohen, considera que a maior parte dos reféns foram mortos pelos seus captores, concedendo embora que a verificação é impossível, tendo os corpos ardido e não tendo sido preservadas amostras.
É esta indeterminação que é preciso enunciar, e não uma estatística. Uma outra forma quanto a esta inflação merece ser nomeada, porque volta sem cessar : a dos helicópteros Apache que teriam alvejado os participantes do festival Nova. Ela baseia-se numa fonte policial anónima — e a polícia israelita precisou de seguida que o seu inquérito se centrava apenas na atividade policial e não fornecia nenhuma indicação relativa a danos causados por atividade aérea ! [23]
Porque o assunto, tal como está, basta. Um Exército matou reféns e civis do seu próprio campo, e esta informação não foi tornada pública nem por ele, nem pelo seu governo, nem por uma comissão, mas por um jornal diário, nove meses mais tarde. A questão não é aritmética, é institucional : trata-se do mesmo deficit de prestação de contas que encontraremos, durante três anos, na recusa a uma Comissão Oficial de inquérito.
Em todo o caso, todos estes elementos contribuíram para favorecer a narrativa oficial para justificar todos os crimes cometidos depois da famosa data do 7 de Outubro.

Israel e os Estados Unidos assassinaram, um a um, todos os chefes do « Eixo da Resistência ». Mas, nem por isso, conseguiram anularam o ideal que lhes resiste.
VI. A janela : três anos de execução acelerada
A sequência que se segue ao 7-de-Outubro apresenta uma característica decisiva : a sua velocidade não tem comparação com o tempo de preparação que teria exigido se não tivesse sido improvisada.
Em 17 de Setembro de 2024, vários milhares de “pagers” de quadros do Hezbollah explodem simultaneamente no Líbano, seguidos no dia seguinte por walkie-talkies. A operação envolveu a criação de empresas “cortina” e o desvio de uma cadeia de aprovisionamento ao longo de vários anos. Dez dias depois, Sayed Hassan Nasrallah foi morto num ataque ao quartel-general subterrâneo de Dahieh, após a eliminação da maior parte da cadeia de comando do movimento. O grau de penetração da secreta israelita revelado por estas operações não se adquire em onze meses.
Em 8 de Dezembro de 2024, o regime de Bashar al-Assad afunda-se em doze dias, quando se tinha mantido durante 13 anos, perante uma ofensiva conduzida pelo Hayat Tahrir al-Cham, apoiada pela Turquia. Israel não seria o autor, mas é o primeiro beneficiário : a queda de Damasco rompe a continuidade territorial entre o Irão e o Líbano, seca a via de fornecimentos ao Hezbollah, e transforma o enfraquecimento táctico do movimento em afundamento estratégico.
Um ponto deve ser ressaltado aqui, Israel armou e financiou, de 2013 a 2018, pelo menos uma dúzia de facções da oposição no sul da Síria, na área de Quneitra-Daraa : espingardas de assalto, metralhadoras, morteiros, veículos, soldos mensais de cerca de setenta e cinco dólares, e a substituição do material israelita por armas estrangeiras para mascarar a origem. Os relatórios da Força das Nações Unidas, encarregue de observar a linha de separação, relevava os índices desde 2013, e o Chefe de Estado-Maior cessante Gadi Eisenkot reconheceu-o em Janeiro de 2019, depois de anos em que a versão oficial se limitava à ajuda humanitária [24]. Está igualmente estabelecido que nem a Frente al-Nusra, nem o seu sucessor Hayat Tahrir al-Sham levaram a cabo qualquer operação contra Israel, inclusive quando a primeira ocupava a posição de Quneitra, em 2014. A não-beligerância é um facto, mas finge-se que isso não demonstra que se entendiam.
No entanto, aquilo que está bem claro, desde Dezembro de 2024, é de uma outra ordem e nada tem de secreto : centenas de ataques israelitas aos meios do antigo Exército sírio, a ocupação da zona tampão e do cume do Monte Hermon, depois negociações sob mediação norte-americana, um mecanismo de partilha de Inteligência e a reunião na Jordânia, no Verão de 2026, do Ministro sírio dos Negócios Estrangeiros e de uma delegação dirigida pelo Chefe da Mossad …
Para alguns trata-se de lembrar ao autoproclamado presidente sírio quem é o mestre do jogo na região !
Resta o Irã. Após a guerra dos doze dias de Junho de 2025, que visara comandantes e cientistas sem atingir o topo do sistema, a operação de 28 de Fevereiro de 2026 ultrapassa um limiar. Planeada conjuntamente pela Mossad e pela CIA, executada pela Força Aérea israelita com apoio norte-americano e com o objetivo declarado de mudança do regime, ela destrói a residência do Guia e mata Sayed Ali Khamenei assim como outras 75 pessoas, entre as quais vários membros da sua família [25]. Mais de quarenta responsáveis iranianos perecem na vaga de ataques : Mohammad Pakpour, Comandante dos Guardiões da Revolução, o Ministro da Defesa Aziz Nasirzadeh, Ali Shamkhani, Secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Mohammad Shirazi, Chefe do gabinete militar do Guia [26]. Teerão confirma-o em 1 de Março e decreta quarenta dias de luto nacional.
Em trinta meses, o anel de fogo foi quebrado… mas até quando ?

Todos os impérios acabam da mesma maneira : ao estenderem-se para lá das suas possibilidades. Foi a lição do Professor Paul Kennedy, em 1988. Os Estados Unidos, eles também, foram longe de mais.
VII. O custo norte-americano : vitória regional, sobredimensão mundial
É aqui que o balanço deixa de ser regional. O envolvimento norte-americano ao lado de Israel foi apresentado como uma demonstração de poderio. Em termos materiais, foi sobretudo uma demonstração do insuficiente nível de inventário de reservas, e esta demonstração ficou feita em público.
As ordens de grandeza são conhecidas porque o Pentágono teve de apresentá-las perante o Congresso. O Center for Strategic and International Studies estima que os stocks (estoques-br) de interceptores Patriot caíram de cerca de 2. 300 antes da guerra para menos de 827, e os de THAAD de 452 para 278 [27]. A Reuters reportava, em Agosto de 2026, que a quase totalidade dos stocks de ATACMS e de mísseis de precisão de longo alcance haviam sido consumidos durante a guerra contra o Irão [28]. O pedido de financiamento de urgência do Pentágono para o exercício de 2026 eleva-se a 67 mil milhões (bilhões-br) de dólares, dos quais 18,2 mil milhões consagrados apenas à reposição de Patriot, de Tomahawk e de THAAD [29].
O problema não é orçamental, é industrial. O retorno aos inventários pré-guerra não é esperado até 2029 para os THAAD e Patriots, e 2030 para os Tomahawks [30]. Estes sistemas não foram concebidos para serem produzidos em massa : a Lockheed Martin fabricava habitualmente 96 interceptores THAAD por ano, e o contrato de US$ 35 mi milhões em sete anos, assinado em Junho de 2026, para quadruplicar esta cadência exigirá vários anos de aumentos [31]. A isto se acrescenta-se um desequilíbrio de custos de troca que não é sustentável : um interceptor de quinze milhões de dólares empregue contra um drone de algumas dezenas de milhares.
A consequência mais visível é uma redistribuição. Washington retirou da Coréia lançadores THAAD e baterias Patriot para as levar para o Médio-Oriente, no preciso momento em que o arsenal balístico norte-coreano continua a crescer [32]. Uma potência que despe um teatro para “vestir” um outro não é uma potência em expansão ; é uma potência que arbitra sob pressão, e tal arbitragem é percebida por todos.
E é em particular visto de Pequim. Um relatório, de Janeiro de 2026, da Heritage Foundation estima que os interceptores de alta gama -– SM-3, SM-6, PAC-3 MSE, THAAD -– seriam esgotados em poucos dias de combate sustentado contra o Exército Popular de Libertação, alguns sistemas após duas ou três salvas principais, e que os inventários conjuntos de lançamento vertical, avaliados em dezassete mil munições, não bastariam para uma única recarga completa da frota [33]. O argumento estratégico que daí resulta é o de uma janela : o período de três a quatro anos necessário para o reaprovisionamento norte-americano é precisamente aquele onde a diferença entre o arsenal ofensivo chinês e os stocks defensivos dos EUA estarão no seu máximo [34]. Esta leitura é hoje em dia formulada abertamente na literatura estratégica norte-americana, o que significa que ela também o é em outros lugares.
Resta um terceiro custo, mais difícil de quantificar que o dos stocks, mas quantificado ele também, e por instrumentos dos EUA.
O afundar da posição norte-americana na opinião regional foi registado quase em tempo real. O Barómetro Árabe que, por acaso, realizava uma sondagem (pesquisa-br) na Tunísia nas três semanas que precederam e seguiram o 7- de- Outubro : a opinião favorável aos Estados Unidos passou de 40% para 10% em menos de um mês. As vagas seguintes confirmaram a tendência em outros lugares -– 23 pontos perdidos na Jordânia, 19 na Mauritânia, 15 no Líbano, 7 no Iraque [35]. O que distingue esta sequência de uma mudança de humor, é que ela não acabou. Sondagens levadas a cabo em oito países entre Agosto e Novembro de 2025 estabelecem uma mudança duradoura : a China, a Rússia e o Irão são agora melhor julgados que os Estados Unidos na maioria dos países sondados, e a diferença é maior precisamente no terreno onde Washington baseava o seu destaque. Interrogados sobre o país que respeita o Direito Internacional, 25% dos Egípcios citam os Estados Unidos contra 58% pela China ; na manutenção da segurança regional, a política dos EUA é preferida por 6% dos Egípcios, 9% dos Jordanos e 22% dos Iraquianos [36].
Resta a questão de saber que a análise não engana, porque ela é formulada em todo o lado na região nos mesmos termos : a de uma política dos EUA alinhada com os interesses israelitas ao ponto de a eles se subordinar. Três coisas acabam aí confundidas, e elas não são da mesma ordem.
A percepção é maciça, e é quantificada : 86% dos Egípcios e Jordanos, 84% nos Territórios Palestinianos, 78% no Líbano, 69% na Tunísia acreditam que os Estados Unidos tomam o lado de Israel contra os Palestinianos. O alinhamento material, esse, é observável e não precisa de nenhuma interpretação : o financiamento, os fornecimentos de munições, o uso repetido de veto no Conselho de Segurança, e até o planeamento conjunto pela Mossad e pela CIA da operação de 28 de Fevereiro de 2026. A subordinação, pelo contrário, é uma tese -– e é a única das três que pode ser testada, e depois descartada. Os factos do Verão de 2026 parecem contradizê-lo. O “memorando de entendimento” concluído com Teerã, em Junho, foi contra a opinião explícita do governo israelita. Em 15 de Julho, o Vice-Presidente dos Estados Unidos acusava publicamente elementos deste governo de financiar uma campanha de opinião destinada a inviabilizar essa negociação ; a acusação não tem precedentes na boca de um Vice-Presidente em exercício, e Netanyahu veio se explicar a Washington no fim do mês [37]. Uma potência que aplica um diktat não assina o acordo que o pretenso mestre de ordens combate, e não revela publicamente as operações de influência no seu próprio território.
Todavia, as coisas são mais complexas do que parece. O que estes episódios estabelecem é menos espectacular e mais embaraçoso : não uma subordinação, mas uma captura parcial da agenda, contestada até ao interior do executivo dos EUA, e da qual Washington não consegue sair sem custo político interno. A formulação é menos satisfatória do que a do diktat. Ela tem a vantagem de ser compatível com factos conhecidos, incluindo aqueles que a perturbam.
Ela não diminui em nada o custo estratégico, já que este não depende da exatidão da tese, mas da sua difusão. Que a política norte-americana seja ditada, ou apenas capturada, nada muda ao que 86% dos Egípcios concluem, nem as arbitragens que os seus governos dela extraiem. Trabalhar abertamente com Washington torna-se um risco para dirigentes autoritários, mas sensíveis à rua ; as capitais do Golfo haviam alertado para a ofensiva de Fevereiro sem serem escutadas, e em troca sofreram os golpes; alguns pensam agora retirar os seus investimentos de instituições norte-americanas. O facto estratégico aqui é a percepção, e é a razão pela qual um artigo que dedicou a sua seção V à construção da legitimidade deve tê-la em conta até o fim.
Esse custo acabou por se pagar no interior. Em Fevereiro de 2026, pela primeira vez desde que a Gallup fez a pergunta em 2001, as simpatias nos EUA já não se inclinam mais para o lado israelita. Em abril, o Pew mede quase seis em cada dez Norte-Americanos como desfavoráveis a Israel, com a parte das opiniões «muito desfavoráveis» quase tendo triplicado desde 2022, e 57% dos Republicanos com menos de cinquenta anos caindo agora para este lado [38]. Temos aqui o último anel do encadeamento que este artigo segue desde o início. A legitimidade era o fator limitante em 2023 ; ela foi conseguida e depois gasta; agora, ela está diminuída em casa do próprio garante.
Há ainda uma ironia de que o artigo não pode escamotear. Este apoio colossal não pôs o território israelita a salvo. O escudo anti-míssil até funcionou mais ou menos bem, mas com um custo de troca desfavorável e não reproduzível, e nada pode contra outra forma de atrição : o fecho de Bab el-Mandeb, que matou um porto sem que um único míssil o atingisse, e o de Ormuz, que trinta meses de superioridade aérea não reabriu. Dos dois pontos de estrangulamento, o apoio norte-americano não desbloqueou nem um. A censura militar israelita que se aplica realmente aos locais de impacto, segundo uma prática operacional clássica, ajudou a baralhar a percepção pública desta vulnerabilidade –- sem que se possa, no entanto, estabelecer que mascara um balanço humano substancialmente diferente daquele que está publicado.
VIII. O que a sequência estabelece, e o que ela não estabelece
Há uma tese que circula abundantemente na região e nas redes : o ataque do 7 de Outubro teria sido concebido por Israel e transmitido ao Hamas por via dos Serviços Secretos, a fim de criar as condições políticas da sequência que acaba de ser descrita. Ora, a conclusão desta sequência parecia dar-lhe peso.
Alguns contestam esta afirmação por razões metodológicas que merecem ser expostas mais do que talvez assumidas.
O primeiro problema é que a tese da maquinação e a do oportunismo estratégico predizem exatamente os mesmos acontecimentos. Elas são equivalentes à observação. A realização da sequência não permite, pois, decidir entre elas : uma sequência que se concretiza estabelece que o seu beneficiário estava pronto, não que ele a desencadeou. Ora, a preparação está realmente demonstrada –- “pagers”, infiltração do Hezbollah, espionagem de longo fôlego ao Guia. Mas, um aparelho militar que elabora durante vinte anos planos de contingência contra um cerco nada mais faz que o seu trabalho ! O alerta emiradense de Setembro de 2023 não modifica esta estrutura : uma inércia política interesseira e uma cumplicidade produzem, ainda assim, a mesma constatação. Desloca o cursor mais um grau, da cegueira do aparelho para a inércia da chefia, sem, no entanto, cruzar a linha que separa a inação da organização.
O terceiro problema é lógico. A afirmação segundo a qual « não há acaso neste domínio » não é uma constatação empírica mas um axioma, e um axioma infalível : se nada pode acontecer por acidente, nenhuma observação poderá jamais contraditar a tese, o que a coloca fora do campo da prova.
Existe uma formulação que conserva o essencial da intuição sem pagar o custo analítico : o estrangulamento era real, a sua ruptura foi planeada em detalhe desde há longa data, e em 7 de Outubro forneceu a legitimidade interna e internacional sem a qual nenhum destes planos era praticável -– legitimidade que a secção V mostrou que foi em seguida mantida, e por atalhos fabricada. Este é exatamente o fator limitante que Netanyahu havia, ele próprio, identificado. O ataque talvez não tenha criado o projeto ; mas ele levantou a única restrição que o impedia.

Benjamin Netanyahu, assim como Donald Trump, chegaram ao fundo dos seus limites. Seja qual for a sua força militar empregue, ambos perderam politicamente.
IX. Sucesso militar, fracasso político
Resta avaliar o resultado, e é aqui que a análise deve resistir ao fascínio pela performance operacional.
O modelo aplicado ao Irão assentava sobre uma hipótese precisa : a decapitação simultânea da cúpula política, militar e religiosa iria produzir um choque suficiente para provocar quer o colapso do regime, quer a sua capitulação estratégica. Esta hipótese não se verificou. No dia seguinte, foi constituído um Conselho de direção provisória, e Sayed Mojtaba Khamenei sucedeu ao seu pai [39]. Institucionalmente, o sistema aguentou-se.
O que aconteceu depois releva numa categoria diferente : alguns diriam que não houve colapso, mas que a decomposição será lenta. O novo Guia não aparece publicamente há cerca de seis meses. A inflação ultrapassa 100% nos bens de consumo essenciais. Houve alegações sobre luta de facções que teriam se intensificado quanto à assinatura de um “memorando de entendimento” com os Estados Unidos, que o Comité da Assembleia de Peritos condenou em 2 de Agosto de 2026, denunciando aquilo que qualificou como rumores de capitulação [40].
A consequência, segundo estas alegações, é um regime enfraquecido, contestado, empobrecido, mas de pé — e agora privado da maior parte das ligações regionais que justificavam a operação.
Um dado, no entanto, ultrapassou a decapitação, e não é menor. O Estreito de Ormuz está fechado desde 28 de Fevereiro de 2026. Um regime cujo Guia foi morto, do qual o Comandante dos Guardiões da Revolução e o Ministro da Defesa foram eliminados no mesmo dia, e que perdeu mais de quarenta responsáveis numa única vaga de ataques, conservou durante seis meses o poder de interromper a passagem de um quinto do petróleo mundial. Nem a superioridade aérea israelita, nem o poderio naval norte-americano foram capazes de lhe retirar esse poder. Esta é a medida mais exacta da diferença entre o resultado militar e o resultado político : pode-se destruir uma chefia sem reduzir uma capacidade de bloqueio, e é precisamente esta redução que a decapitação era suposta obter.
O balanço israelita não é mais unívoco. Três anos depois, nenhuma comissão de inquérito Oficial foi constituída sobre o 7-de-Outubro. Primeiro, Netanyahu evocou a guerra, depois contestou a legitimidade do Supremo Tribunal chamado a designar o presidente, antes de fazer passar em primeira leitura, em 6 de julho de 2026, uma lei instituindo uma Comissão cujos seis membros serão nomeados pelo Knesset -– um voto boicotado pela Oposição que denunciou uma instância cujas conclusões seriam antecipadamente escritas pelos mesmos que ele deveria questionar [41]. Uma comissão civil independente publicou as suas próprias conclusões, em Maio de 2026, salientando as falhas fundamentais imputáveis aos responsáveis da Coligação como aos da Oposição sobre uma década passada [42]. As famílias enlutadas, agrupadas no seio do Conselho de Outubro, continuam a reclamar a verdade, num relatório cujo título — Fracasso 2026 — diz bem sobre quanto elas acham que o problema não está resolvido [43].
Um Estado que pretende ter ganho a guerra regional mais ampla da sua História e se revela incapaz de averiguar a sua própria falha fundacional não conquistou a sua segurança. Ele apenas trocou uma vulnerabilidade externa por uma crise de legitimidade interna.
[3] Dados Kpler retomados pela Reuters, Setembro 2026, para a média de passagens ; Lloyd’s List Intelligence para a contagem do mês de Março 2026. Sobre a paralisia do Estreito, o cessar-fogo de Abril e a reabertura condicional de Junho, ver a nota de situação do Centro de estudos estratégicos da Marinha, Julho 2026. O comando central norte-americano contestou a qualificação de fecho, salientando a manutenção de passagens isoladas.
[4] Sobre a “doutrina periférica” e o seu abandono após 1979, ver Treacherous Alliance : The Secret Dealings of Israel, Iran, and the United States, Trita Parsi, Yale University Press (2007).
[5] Entrevista de Benjamin Netanyahou : «Exclusive: Netanyahu at War», Eric Cortellessa, Time Magazine, August 8, 2024.
[6] “A Clean Break: A New Strategy for Securing the Realm”, by Institute for Advanced Strategic and Political Studies, Voltaire Network, 1 July 1996.
[7] «Special Briefing on Travel to the Middle East and Europe, Condoleezza Rice, Department of State, July 21, 2006.
[8] «Prime Minister Benjamin Netanyahu’s Address to the UN General Assembly», Prime Minister Office, September 26, 2023.
[9] «Israel-Saudi Arabia: Netanyahu promotes normalisation with new map erasing Palestine», Middle East Eye, September 22, 2023.
[10] « Netanyahu: Money to Hamas part of strategy to keep Palestinians divided », Lahav Harkov, The Jerusalem Post, March 12, 2019. Uma formulação mais crua destes fins circula largamente, atribuída a uma reunião do grupo Likud de Março de 2019 e reportada pelo Haaretz ; as suas fontes foram contestadas, nomeadamente quanto à identidade do testemunho citado. A versão relatada pelo Jerusalem Post à data dos factos é independente desta controvérsia. Este “affaire” foi largamente discutido no livro do antigo Ministro da Justiça, “contra o vento”. חיים רמון, נגד הרוח, ידיעות ספרים, 2020.
[11] Estimativa de 1,3 mil milhões (bilhões-br) de dólares para o período 2012-2021, noticiário da imprensa israelita e internacional. As quantias exactas jamais foram alvo de comunicação oficial israelita. O financiamento do Hamas por Benjamin Netanyahu é o tema de [הדרך לשבעה באוקטובר : בנימין נתניהו, הנצחת הסכסוך -והידרדרותה המוסרית של ישראל>https://www.pardes.co.il/?id=showbook&catnum=978-965-541-471-4] (A via para o 7 de Outubro : Benjamin Netanyahu, a construção do conflito sem fim e a degradação moral de Israel), de Adam Raz, éditions Pardès (2024)
[13] Sobre o escândalo dito « Catargate » : ver « “Qatargate” : Tout ce qu’il faut savoir sur l’affaire qui ébranle Netanyahu », Dany Moudallal, L’Orient-Le Jour, 2 avril 2025, et The Times of Israel, juillet 2026, para o decurso do processo.
[14] O documento « Muralha de Jericó » foi revelado por « Israel Knew Hamas’s Attack Plan More Than a Year Ago », Ronen Bergman & Adam Goldman, New York Times, November 30, 2023. Os “mails” do analista da unidade 8200 e a resposta do Coronel da divisão de Gaza provêm da mesma investigação.
[15] « Revealed: Netanyahu Received an Explicit Warning Days Before Oct. 7. He Didn’t Brief Israel’s Security Chiefs », Shlomi Eldarand Ruth Yuval, Haaretz, September 8, 2026, relata o livro de Shlomi Eldar e Ruth Yuval, חטופים – 843 ימים של הפקרה (Sequestrado : 843 dias de abandono), o título é por vezes dado como Kidnapped (Raptado) na imprensa anglófona. Os autores dizem apoiar-se em entrevistas com várias dezenas de fontes, das quais três responsáveis estrangeiros de alto nível, informados do conteúdo da entrevista, e de um conselheiro palestiniano de Mohammed ben Zayed tendo conhecimento directo disto. Solicitado pelo jornal, o Presidente emiradense não respondeu.
[16] Comunicado do Gabinete do Primeiro-Ministro Israelita, 8 de Setembro de 2026. Sobre as ameaças de acção judicial, o pedido para investigação criminal do Likud e as reações da Oposição, ver a cobertura do Times de Israel, Israel Hayom e do Guardian, 8-9 de Setembro de 2026. A eleição israelita está marcada para 27 de Outubro de 2026. Sobre o aviso egípcio, previamente documentado, ver as declarações de Abbas Kamel e a reportagem de Outubro de 2023.
[17] Revisão do balanço israelita anunciado em 10 de Novembro de 2023 pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros. «Israël revoit le bilan des morts du 7 octobre à la baisse», The Times of Israel, Novembre 11, 2023.
[19] « Mission report. Official visit of the Office of the SRSG-SVC to Israel and the occupied West Bank. 29 January – 14 February 2024 » Gabinete do representante especial do Secretário-Geral sobre violência sexual em conflitos (Relatório de missão de Pramila Patten, Representante Especial do Secretário-Geral da ONU sobre Violência Sexual em Conflito). Sobre a controvérsia relativa à investigação « Israel Expresses Regret for ‘Unintended Harm’ to Civilians in Gaza Airstrike », Aaron Boxerman, Isabel Kershner & Thomas Fuller, New York Times, December 28, 2023, ver nomeadamente as críticas de « “Between the Hammer and the Anvil”. The Story Behind the New York Times October 7 Exposé », Jeremy Scahill, Ryan Grim & Daniel Boguslaw, The Intercept, February 28, 2024.
[20] «IDF Ordered Hannibal Directive on October 7 to Prevent Hamas Taking Soldiers Captive», Yaniv Kubovich, Haaretz, July 7, 2024. O Exército israelita confirmou a aplicação do procedimento em Erez, Re’im et Nahal Oz ; uma fonte de alto nível citada pelo quotidiano indica não saber de que escalão provinham as ordens.
[21] «Rapport de la Commission d’enquête internationale indépendante sur le Territoire palestinien occupé et Israël», 12 juin 2025.
[22] Contagem elaborada pela AFP a partir de dados da Segurança Social (Previdência-ndT) israelita (Bitouah Leoumi), do Exército, da Polícia, do Shin Bet e dos Serviços do Primeiro-Ministro. A agência detalha que os dados não permitem distinguir as vítimas do Hamas daquelas das Forças israelitas. Sobre o reconhecimento pelo Exército de um número « imenso e complexo » de incidentes de tiro fratricida, ver Ynet, Abril de 2024.
[23] « Israeli Security Establishment: Hamas Likely Didn’t Have Advance Knowledge of Nova Festival », Josh Breiner, Haaretz, November 18, 2023, citando uma fonte policial anónima. Apuramento ulterior pela polícia israelita, retomada nomeadamente em « Israeli girl’s death brings army’s ‘Hannibal Protocol’ back into focus », Dawn, November 27, 2023. Os 364 mortos mencionados no mesmo artigo — contagem elevada a 378 por investigação interna do Tsahal apresentada às famílias em Abril 2025 — são o total de vítimas do local, todas as causa misturadas.
[25] Ataques conjuntos israelo-americanos de 28 de Fevereiro de 2026 ; morte de Ali Khamenei confirmada pelos média de Estado iranianos em 1 de Março. Ver CNN et Bloomberg, 28 Fevereiro 2026.
[26] Lista de responsáveis mortos comunicada pelo Exército israelita e divulgado pela NBC News, Março 2026.
[27] «Six Reasons Why the United States Is Low on Munitions», Mark F. Cancian & Chris H. Park, Center for Strategic and International Studies, July 31, 2026; estimativas estabelecidas a partir de documentos orçamentais transmitidos ao Congresso, 2026.
[28] « US has used ’virtually all’ of its long-range precision missiles during Iran war, sources say », Erin Banco, Mike Stone & Jonathan Landay, Reuters, August 4, 2026, sobre o esgotamento dos stocks de ATACMS e de PrSM.
[29] Pedido de financiamento de urgência do Pentágono para o exercício 2026, «Pentagon Seeks $18.2 Billion in War Funds for Interceptors», Anthony Capaccio, Bloomberg, July 31, 2026.
[30] Estimativas do CSIS sobre os atrasos na reconstituição dos depósitos.
[31] «$35 Billion THAAD Seven-Year Procurement Award Propels Acceleration of Critical Missile Defense Interceptor Production», Contrato Lockheed Martin de sete anos assinado em Junho 2026, visando elevar a produção anual de interceptores THAAD de 96 a 400 unidades.
[32] The Soufan Center, « Depleted U.S. Stockpiles Raise Strategic Risks » nota de 28 Agosto de 2026, sobre a deslocação de baterias THAAD e de baterias Patriot a partir da península coreana.
[33] Heritage Foundation, relatório de Janeiro de 2026 sobre o nível dos stocks de interceptores americanos face a um conflito de alta intensidade no Indo-Pacífico. « TIDALWAVE: Strategic Exploitation and Sustaininent in a U.S.-China Conflict, Robert Greenway & Anna Gustafso, The Heritage Foundation, January 16, 2026.
[34] Argumento desenvolvido nomeadamente por David Axe no The Strategist, Março 2026. « Opportunity for China: US depletes interceptor stocks in Middle East », David Axe, Australian Strategic Policy Institute, 6 Mar 2026.
[36] Amaney A. Jamal et Michael Robbins, « America Has Lost the Arab World », Foreign Affairs, 7 de Abril de 2026, a partir de sondagens do Arab Barometer realizadas no Egipto, no Iraque, na Jordânia, no Líbano, em Marrocos, nos Territórios palestinianos, na Síria e na Tunísia entre Agosto e Novembro de 2025 — ou seja após a guerra dos doze dias de Junho de 2025 e antes da operação de Fevereiro de 2026. Salvo indicação em contrário, os números citados nos três parágrafos que se seguem provêm desta fonte. Os autores co-dirigem Arab Barometer, o que dá ao artigo o valor de apresentação de dados tanto quanto de comentário.
[37] Declarações de J. D. Vance dans « The Joe Rogan Experience », 15 de Julho de 2026 ; destaque pelo The Times of Israel e Al Jazeera em 16 d Julho de 2026. Sobre a entrevista com Netanyahu na Blair House, Axios, 30 de Julho de 2026. O Memorandum de entendimento irano-americano de Junho de 2026, sobre o qual a secção IX se debruça, colapsou poucas semanas após a sua assinatura.
[38] « Israelis No Longer Ahead in Americans’ Middle East Sympathies », sondagem Gallup de 27 de Fevereiro de 2026 : pela primeira vez desde o início da série em 2001, as simpatias dos EUA não se inclinam mais para o lado israelita. Os números precisos da repartição variam de um órgão de imprensa para outro e não são citados aqui. Pew Research Center, sondagem de Abril de 2026, para as opiniões desfavoráveis a Israel e a sua distribuição por idade no seio do eleitorado Republicano.
[39] Constituição do Conselho de direção provisória, em 1 de Março de 2026, em aplicação do artigo 111 da Constituição da República islâmica.
[40] Comunicado do Gabinete da Assembleia de peritos de 2 de Agosto de 2026. Estes dados provêm de fontes ligadas ao Conselho nacional da resistência iraniana, organização de oposição no exílio cujas publicações são parciais ; o seu conteúdo factual requer reavaliação, em particular sobre os indicadores económicos.
[41] «En Israël, le Parlement adopte en première lecture la création d’une commission d’enquête sur le 7-Octobre», franceinfo, 6 juillet 2026.
[42] Conclusões da comissão de inquérito civil independente, apresentadas em Maio de 2026 sob a direção de Ofer Rosenbaum.
[43] «ועדת החקירה האזרחית
לחקר אסון השבעה באוקטובר», agosto 2026. Ler este estudo anterior, em inglês, que influenciou o relatório : « The Use of the Terms “Failure” and “Responsibility” Following the October 7 Attack and their Impact on the Discourse Space between the Political and Military Echelons » (Confissão e evasão – a utilização dos termos «falhanço» e «responsabilidade» na sequência do ataque de 7 de Outubro e do seu impacto sobre o espaço do discurso entre o nível político e o nível militar), por Carmit Padan & Kobi Michael, Décember 2025.
