Por Babel Hajjar
12 de agosto de 2026.
Bruxelas – Enquanto o Parlamento Europeu se gaba de ter banido lobistas russos desde o escândalo do Qatargate, o Fórum de Defesa e Segurança de Israel (IDSF) circula livremente por suas instalações há anos sem credenciamento adequado.
O que foi o Qatargate
Segundo a Politico, em dezembro de 2022, a polícia belga apreendeu 600 mil euros em uma casa particular e 150 mil euros no apartamento da vice-presidente do Parlamento, Eva Kaili, no maior escândalo de corrupção da história recente da UE. Conforme a BBC, o ex-eurodeputado Pier Antonio Panzeri liderava uma rede que recebia subornos do Catar e de Marrocos para influenciar decisões políticas.
A proibição dos lobistas russos
Ainda em março de 2022, a presidente Roberta Metsola pediu a proibição de representantes do Kremlin. De acordo com a Politico, em junho de 2022, a medida foi oficializada para todas as entidades russas registradas no sistema de transparência da UE, sob a justificativa de não dar espaço a “propaganda e narrativas falsas” sobre a invasão da Ucrânia.
A atuação do IDSF
Conforme revelou o site investigativo holandês Follow the Money, o IDSF – fundado pelo general Amir Avivi e composto por mais de 35 mil veteranos das forças de segurança israelenses – realizou uma conferência no Parlamento e teve acesso ao prédio por cerca de um ano sem as devidas credenciais de lobby, usando apenas passes de visitantes. Eurodeputados deixaram de declarar esses encontros publicamente e passaram a fazer declarações alinhadas com a agenda do grupo contra sanções a Israel e contra o cessar-fogo em Gaza. O IDSF defende abertamente a expansão de Israel para a Cisjordânia, o Vale do Jordão e as Colinas de Golã – posições que conflitam com o direito internacional.
A rede de influência na UE
Outros grupos atuam no mesmo sentido:
· European Leadership Network (ELNET): segundo o The Intercept, mais de 100 fundações americanas canalizaram pelo menos US$ 11 milhões para o grupo desde 2022. Seu cofundador, Raanan Eliaz, foi consultor do AIPAC e integrou gabinete de primeiro-ministro israelense. O grupo atribui a si o mérito pela aprovação, pela Alemanha, de um contrato de US$ 3,5 bilhões para compra de drones e sistemas de defesa israelenses.
· AJC Transatlantic Institute: escritório do Comitê Judaico Americano em Bruxelas. Conforme o MeetLex, realizou 43 reuniões declaradas com a UE entre julho de 2024 e junho de 2026.
· European Jewish Association (EJA): atua em lobby no Parlamento e na Comissão Europeia.
· Europe Israel Public Affairs (EIPA): define-se como único grupo de lobby pró-Israel focado exclusivamente nas instituições da UE.
· European Coalition for Israel (ECI): único lobby sionista cristão em Bruxelas.
· European Friends of Israel (EFI): fundado em 2006 com centenas de parlamentares europeus, segundo o IPS News.
A falta de coerência
Como alertou a Transparency International EU após o Qatargate, citada pela Politico, o Parlamento Europeu tem “historicamente resistido a regras de integridade mais rígidas”. Banir lobistas russos enquanto se mantém o acesso de grupos que promovem a expansão territorial e violam resoluções da ONU é uma contradição insustentável. A credibilidade da Europa não se constrói com discursos, mas com ações coerentes.

