Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

A China construiu 75 parques solares em Cuba em 12 meses após o bloqueio americano cortar 90% do petróleo. A ilha ganha soberania energétic
A China acaba de realizar uma das transições energéticas mais rápidas já registradas no mundo, e fez isso em território cubano. Em apenas 12 meses, o governo de Xi Jinping construiu 75 dos 90 parques solares planejados para a ilha, adicionando mais de 1.000 megawatts de capacidade à rede elétrica de Cuba com financiamento inteiramente chinês. A geração de eletricidade solar da ilha saltou de 5,8% para 20% do total, uma transformação que responde diretamente à crise provocada pelo bloqueio americano, que reduziu as importações de petróleo cubanas em quase 90% e condenou milhões de habitantes a apagões de até 20 horas por dia em algumas regiões.
Por que a China decidiu transformar o sistema elétrico de Cuba

Segundo informações do portal El Cronista, a decisão da China de investir bilhões em energia solar em Cuba não é pura generosidade. Cuba é uma ilha estrategicamente posicionada a menos de 150 quilômetros da costa dos Estados Unidos, e ter a nação caribenha como aliada tecnológica e energética dá à China uma presença indireta no quintal americano.
O investimento em parques solares contorna as sanções comerciais impostas por Washington, já que painéis solares não estão sujeitos às mesmas restrições que combustíveis fósseis, e ao mesmo tempo cria uma dependência tecnológica que vincula Cuba ainda mais ao ecossistema econômico chinês.
O momento também é calculado. No início de 2026, Donald Trump assinou uma ordem executiva ameaçando impor tarifas a qualquer país que forneça petróleo a Cuba, uma medida que reduziu as importações de combustível da ilha em quase 90% e provocou uma crise energética sem precedentes.
A crise que levou Cuba a aceitar os parques solares da China

Antes da intervenção da China, a situação elétrica em Cuba havia atingido um ponto crítico. O bloqueio americano ao comércio de petróleo cortou as importações de combustível em quase 90%, deixando as usinas termoelétricas da ilha sem matéria-prima para operar.
Em algumas regiões, os apagões chegaram a 20 horas por dia, paralisando hospitais, escolas, indústrias e o comércio. A população cubana enfrentava filas para conseguir água, comida estragava por falta de refrigeração e o transporte público parava por falta de energia para operar.
A dependência de Cuba do petróleo importado para gerar eletricidade era total e conhecida. O sistema elétrico da ilha foi construído ao longo de décadas com base em usinas movidas a combustíveis fósseis, e quando o fornecimento externo foi cortado, não havia alternativa doméstica capaz de suprir a demanda.
A chegada da China com um programa massivo de energia solar não apenas aliviou a crise imediata como ofereceu algo que Cuba nunca teve: a possibilidade de gerar eletricidade sem depender de importações que podem ser bloqueadas por decisões políticas de outros países.
Os números que mostram a escala do projeto da China em Cuba
A escala do investimento chinês em Cuba é difícil de comparar com qualquer projeto semelhante em outro país.
Cada parque solar custa aproximadamente US$ 16 milhões, e os 75 já construídos representam um investimento superior a US$ 1,2 bilhão em infraestrutura energética instalada em velocidade recorde. A meta da China é chegar a 92 parques até 2028, com capacidade combinada de 2.000 megawatts, o suficiente para igualar toda a geração de energia fóssil da ilha.
Para dimensionar o impacto, cada megawatt de capacidade solar instalada em Cuba representa aproximadamente 18.000 toneladas de combustível que deixam de precisar ser importadas. Se a meta de 2.000 megawatts for atingida, a ilha poderia eliminar a necessidade de milhões de toneladas de petróleo por ano para geração elétrica, tornando o bloqueio energético americano progressivamente irrelevante.
Além dos parques solares, a China doou 70 toneladas de peças para geradores elétricos e planeja instalar 10.000 sistemas fotovoltaicos em casas isoladas, maternidades e clínicas de saúde.
O que a transformação energética de Cuba significa para a geopolítica
O presidente cubano Miguel Díaz-Canel descreveu a expansão energética como um ato de “soberania energética”, uma resposta direta à pressão de Washington. Para Cuba, a transição solar financiada pela China representa a primeira chance real de escapar de um ciclo de dependência energética que a deixou vulnerável a sanções internacionais por mais de seis décadas. Se os parques solares continuarem a ser instalados no ritmo atual, a ilha poderá ter metade de sua eletricidade gerada pelo sol até o final da década.
Para os Estados Unidos, a presença da China transformando a infraestrutura de Cuba levanta questões estratégicas que vão além da energia. A instalação de parques solares é a face mais visível de uma parceria que inclui tecnologia, equipamentos e know-how que aprofundam a influência chinesa no Caribe, a poucos quilômetros da costa americana.
A ironia é que o bloqueio americano ao petróleo, projetado para pressionar Cuba economicamente, acabou acelerando exatamente o tipo de dependência tecnológica da China que Washington mais teme.
O que falta para Cuba alcançar a independência energética com ajuda da China
Apesar dos avanços, a transição energética de Cuba ainda enfrenta desafios significativos. A energia solar só gera eletricidade durante o dia, e a ilha ainda não possui sistemas de armazenamento em larga escala que permitam manter o fornecimento durante a noite sem recorrer às usinas termoelétricas, que dependem de petróleo.
Sem baterias ou outra forma de armazenamento, os apagões noturnos podem continuar mesmo com a expansão dos parques solares.
A China conhece esse problema e provavelmente planeja abordá-lo nas próximas fases do acordo. Se os 92 parques previstos para 2028 forem complementados com sistemas de armazenamento, Cuba poderá se tornar o primeiro país da América Latina a ter uma parcela significativa de sua eletricidade gerada por energia solar em escala nacional.
Para uma ilha que há poucos meses enfrentava 20 horas de apagão por dia, a transformação já é notável. O que resta saber é se a velocidade da construção se manterá e se a tecnologia conseguirá eliminar de vez a dependência cubana do petróleo que Washington não quer que ela compre.
Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro
Fonte: https://clickpetroleoegas.com.br/
