Reler Sartre – Num tempo de Homens Ocos e angústia existencial

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Sartre (left) and Jean-Luc Godard, one of the leaders of French "nouvelle vague" cinema movement, address journalists in February 1971, in Paris. Photo: AFP23/12/2017, Pepe Escobar, Asia Times

Com o tabuleiro de xadrez geopolítico ainda jogado de um lado para outro por ventos insanos, um Ocidente exaurido bambeia na lama dos próprios fracassos, e o planeta enfrenta crise existencial montante. Haveria coisas piores a fazer do que parar e pensar sobre como uma das maiores mentes da geração que nos precedeu pode nos ajudar a ver algum sentido nesses tempos difíceis.

Jean-Paul Sartre foi um dos últimos gigantes de um panteão de uma Renascença preocupada com todo o espectro da existência humana. Mentes agudas e independentes sempre apreciaram a incandescência sartreana que permeia a cultura ocidental (ou pelo menos as fagulhas ainda não esterilizadas pela academia).

Sartre, com sua filosofia do “protesto”, foi indiscutivelmente a voz e a inteligência moral proeminente da segunda metade do século 20, com o “protesto” levando adiante o significado que Martin Luther lhe deu. E, como com Luther, o existencialismo de Sartre vem com uma fórmula fulminante: “A existência precede a essência”. Antes de “ser, o Homem existe. Em outras palavras, nenhum Deus o concebeu; ergo, Deus não há. E se Deus não há, o Homem é condenado a ser livre. Assim, não há bem ou mal intrínseco.

A Náusea – romance capaz de mudar sua vida quando você lê na adolescência – é direto e reto, muito distante de qualquer filosofia abstrusa. Os valores e a sociedade intelectual europeia burguesa explodiram irremediavelmente entre 1914-1919. O nazi-fascismo foi uma espécie de reencarnação à Dr. Frankenstein desses conceitos. A alternativa foi o stalinismo, a morte da alma.

A Náusea (1938) representou a convicção de que o Homem deve se autoconstruir e criar a própria existência. Sartre – procrastinador notório – não concluiu sua obra-prima O Ser e o Nada (1943). E um volume prometido sobre ética jamais viu a luz. A ética teria acrescentado valor a essa nova filosofia. Mas, à parte ser procrastinador, Sartre era também neurótico. A tetralogia Caminhos da Liberdade só tem, de fato, três (extraordinários) romances (Idade da Razão e Sursis, 1945; e Morte na alma, 1949); um 4º, A última chance, ficou inacabado). E a análise freudiana que aplicou a Flaubert tampouco foi concluída: o último volume não existe.

Sartre jamais conseguiu renunciar à paixão criativa, plenamente consciente, ao mesmo tempo, de que essa paixão era irrelevante diante de nosso mundo em fragmentação e rápida degradação. Daí a paixão – não correspondida – pelas classes trabalhadoras ou, melhor (francês que era, afinava-se mais com Saint-Just do que com Marx), com os malheureux, os miseráveis que são o sal da Terra.

Sartre, como todos os intelectuais progressistas no século 20, teve de encarar a mais terrível das perguntas: o poder libertador da análise de Marx poderia ser ressuscitado em pleno horror soviético? Naqueles dias da Guerra Fria, a alternativa era um mundo convertido numa grande Singapura. Ou pior (para almas românticas como Sartre), o tédio homogeneizado da social-democracia, tão conveniente porque as partes do Ocidente que a adoraram integralmente exploraram até o osso o que Arnold Toynbee descreveu como o “proletariado externo”, quer dizer, as nações do Terceiro Mundo.

Assim sendo, Sartre preferiu não falar às classes trabalhadoras francesas sobre os campos stalinistas. Não quis acabar com as esperanças daqueles trabalhadores. Camus pode ter-se horrorizado ante o que estava acontecendo na União Soviética, mas Camus tinha, seja como for, uma tendência a se escandalizar seletivamente, acreditando que não haveria diferença entre o terrorismo dos oprimidos e o terrorismo dos opressores (especialmente em relação à Argélia).

Por falar dele, Sartre saiu vencedor da discussão intelectual contra Camus. A burguesia, como disse ele, sempre pôde mentir á vontade, servindo doses gordas do “entretenimento” (como dizia Marcuse) às massas, para mantê-las em servidão perene.

Pensar contra si próprio

Sartre, como Walt Whitman, continha em si multidões.[1] Viu o homem como trabalho em andamento sempre, criando-se constantemente mediante a ação. Eis a condição humana: “Sou minha própria liberdade”. Assim, inevitavelmente, sempre tinha de continuar a pensar “contra ele próprio”.

Sempre foi tremendamente leal aos amigos próximos que admirava, como o apolíneo Merleau-Ponty e o grande escritor Paul Nizan. Nizan foi morto aos apenas 35 anos, no início da 2ª Guerra Mundial, duplamente angustiado pelo suplício da França e pela facada no coração do pacto Hitler-Stalin. Esses eventos estão na raiz da conversão de Sartre ao marxismo e de sua coexistência turbulenta com o comunismo.

O olhar intelectual de Sartre em certo sentido acompanhou a máxima dos surrealistas segundo a qual temos cabeça redonda para que o pensamento sempre possa mudar de direção. Sartre pode até ter colaborado com o Partido Comunista Francês ao denunciar a Guerra da Coreia – que facções em Washington ansiavam ver convertida em guerra nuclear. Mas ao mesmo tempo escreveu a mais devastadora análise da corrupção do marxismo, em seu O Fantasma de Stálin, depois que os soviéticos invadiram a Hungria.

Recebeu a bênção inacreditável de ter partilhado a vida – e a paixão intelectual – com uma mulher extraordinária. Imaginem Simone de Beauvoir na França Ocupada, andando todas as tardes para a biblioteca da Sorbonne para estudar Fenomenologia do Espírito, de Hegel, misturada com algum Kierkegaard, e sair de lá com duas fontes que alimentariam os próprios escritos dela e também o existencialismo: Kierkegaard como um ícone da liberdade; Hegel e aquela serena visão da história desenrolando-se como uma pintura épica.

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Simone de Beauvoir, fotografada dia 13/12/1970. Foto AFP/Jean Meunier

De Beauvoir naquele momento não sabia se Sartre estava vivo. Estava, prisioneiro no campo Stalag 12D, na Renânia, lendo Heidegger e urdindo um “tratado” que viria a ser O Ser e o Nada. Afinal conseguiu ser libertado, por seus problemas de visão. E o resto, ora, é história.

Nos últimos anos, Sartre parecia ter perdido qualquer crença em soluções políticas. Sua última grande paixão foi a anarquia criativa de 1968, cujo meio centenário será celebrado ano que vem. Naquela época, disse ele: “Se alguém relê todos os meus livros, perceberá que não mudei muito e que sempre continuei anarquista”.

É dia 20 de maio de 1968. Imaginem Sartre falando para pelo menos 7 mil estudantes que haviam ocupado o majestoso auditório da Sorbonne, cercado de estátuas (“havia estudantes sentados nos braços de Descartes e outros sobre os ombros de Richelieu”, escreveu Simone de Beauvoir, versão inesquecível). Sartre, então chegando aos 63 anos, fala para seus netos virtuais, organizando um sentido para a história, ligando-os à geração do próprio Sartre de estudantes irados no final dos anos 1920s e ao longo de uma dinastia de filósofos rebeldes com causa, de Nietzsche a Kierkegaard.

Mas não faz sentido buscar as origens do existencialismo de Sartre em Husserl, Heidegger e mesmo em Kierkegaard. É criação absolutamente original, ditada pelo contexto específico da decadência da sociedade europeia, imperialismo e colonialismo (sempre me pergunto se Sartre leu Conrad, de Coração das Trevas, 1902; a Nostromo, 1904).

Ele era mais Rousseau que Voltaire. E no que tenha a ver com a Ásia, não é verdade que Sartre teria abraçado o maoísmo – versão de Godard, imortalizada em filmes, dentre os quais La Chinoise (1967). Mas defendeu intelectuais maoístas e aceitou um convite para ser editor (nominal) do jornal deles, para protegê-los da repressão. Sartre resumido numa linha: onde e quando houve opressão, ele esteve ao lado dos oprimidos.

O termômetro de Les Temps Modernes

Sartre, próximo da morte, em 1980, estava isolado (“vivemos como sonhamos: sós”, Conrad escreveu), denunciando brilhantemente a crueldade e a estupidez dos seres humanos, mas sempre pronto a ajudá-los contra a opressão. Em miniatura, é o máximo a que todos devemos aspirar, se decidimos viver vida decente.

Para reler, os escritos dele são uma lufada de ar fresco hoje – com Sartre, como Sófocles, exibindo a própria fúria contra as potências imperiais, ao analisar a agonia de Biafra; o Sartre sereno e melancólico que disseca o que foi feito dos sonhos de Lênin e Trotsky em O Fantasma de Stálin; ou o extraordinário prefácio que escreveu para o imensamente influente Os Condenados da Terra (1961) de Frantz Fanon, no qual destaca a noção de que uma revolução anti-imperialista deve ser violenta, porque ajuda os colonizados a sacudir das costas a opressão paralisante.

Simone de Beauvoir ficou absolutamente seduzida pelos EUA quando lá esteve pela primeira vez no final da década dos 1940s: “Abundância, e horizontes infinitos; era uma lanterna mágica enlouquecida de imagens legendárias”. Mesmo assim, como Sartre e Camus, também a horrorizou a desigualdade racial naquele país. Sartre adiante escreveu sobre “intocáveis” e “invisíveis” que assombram as ruas, sem nunca olhar no olho dos passantes.

Os milenistas hoje talvez não saibam que naquelas priscas eras não ler Les Temps Modernes, revista de Sartre, era deixar-se amputar completamente do pensamento ocidental progressista. Gerações inteiras de intelectuais do Sul Global, fabulosos vanguardistas do cinema nos anos 1960s e 1970s, e uma onda de intelectuais de esquerda que emergiam da anestesia do stalinismo, foram, todos esses, influenciados pelos ensinamentos da revista de Sartre.

Crítica da Razão Dialética (1960) permanece como esforço ingente e, mesmo com suas muitas falhas (em grande medida mitigadas pela vastíssima ambição), é leitura obrigatória para todos nós que ainda creem (ingenuamente) – contra todas as provas que se encontram na intratabilidade da geopolítica – que a razão pode ser força a favor do bem no mundo.

Sartre e Bertrand Russell nunca se entenderam bem. Mas o super-hiper racionalista Russell chegou às ruas e tornou-se agitador de massas; enquanto Sartre vendia jornais pelas calçadas, afirmando o direito do intelectual à livre expressão. Nos dois casos, o exemplo permaneceu.

Assim, caro leitor, nessa minha mesa no Café de Flore “dele”, agora tomado por enxames de turistas asiáticos à caça de uma selfie existencial, aí está o último humanista, o último homem da Renascença de uma era passada. Sua generosidade e sabedoria continuarão a brilhar mais que nunca, nesse nosso tempo de Homens Ocos.

Traduzido por Vila Vudu

 

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