Em Comum entre Síria e a América Latina

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Por Babel Hajjar.

Num trecho final da entrevista do Presidente Bashar Al Assad à TV Venezuelana, ele menciona a semelhança e proximidade da América Latina com o Oriente Médio.

É curioso observarmos que falamos aqui de processos coloniais consecutivos levados a cabo pelos mesmos agentes. A América Latina foi colonizada pela Europa do século XIV ao XIX. O Oriente Médio tornou-se protetorado Britânico e Francês no Século XX, mas a interferência na região de modo mais intenso começa com Napoleão no Século XVIII, com a campanha do Egito, e a sucessão de interferências da Europa Ocidental e posteriormente dos EUA, na região, segue até hoje.

Levanto esse ponto porque creio que os estudiosos e analistas da América Latina parecem não perceber quanta semelhança há nos processos de colonização e independência da América Latina e do Oriente Médio. E a mensagem que passam muitas vezes revela uma incompreensão baseada em pressupostos “orientalistas” – Expressão usada por Edward Said que traduz a dominação do Ocidente sobre o Oriente, pela interpretação do saber árabe-sírio-oriental conforme os interesses ocidentais. Ouço de pessoas inteligentes e estudadas a ideia de que o Oriente Médio “não quer” ou “não consegue” evoluir em suas formas de governo, por conta da “questão religiosa”, pelo “temperamento” do povo, etc. São expressões e enfoques que colocam o árabe-sírio em uma posição inferior em relação ao ocidental, “cirúrgico”, “racional”, “democrático”.

No entanto, somos, América Latina e Oriente Médio, vítimas do mesmo mal, a falta de independência. A diferença entre as nações do Oriente Médio e da América Latina é a idade real. Na América Latina, a colonização “soterrou” as antigas civilizações e impôs uma nova cultura. Por isso, as cidades mais antigas do novo continente não têm muito mais que 500 anos. Algumas cidades Sírias, como Alepo e Damasco, têm,pelo menos, 6000 anos de habitação contínua. Na América Latina, a identidade do povo é ainda confusa: elites de ascendência europeia, povos de origem indígena, povos de origem africana e uma miscigenação ainda em processo, porém com uma hegemonia dos valores da elite, valores europeus ou eurocentristas, em detrimento dos valores locais. Nos países árabes, o orgulho com a própria origem é enorme, e defender essa origem parece a única coisa a fazer. Muitos dizem que essa defesa, esse amor à nação árabe Síria é algo “fanático”, atribuem isso ao caráter religioso do povo. Querem, no Oriente Médio, minimizar o orgulho nacional e o inconformismo pela imposição da autoridade externa intervencionista e perpetuar a ideia errônea de fanatismo religioso como CAUSADOR, e não CONSEQUÊNCIA, dos problemas enfrentados.

Acredito que América Latina e Oriente Médio tenham muito a ensinar e a aprender um do outro. E que o Presidente Bashar acerta na mosca quando menciona a independência como a grande conquista dos países e motivo de sua prosperidade.

Babel Hajjar é membro do Grupo de Trabalho Árabe e pesquisador do Grupo de Psicologia Política e Multiculturalismo da EACH – USP.

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