Golpe-de-estado nos EUA, quando aconteceu e hoje- Inimigos da humanidade querem dar a Trump tratamento JFK

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31/5/2017, Anton Chaitkin,*

The Vineyard of the Saker (1/2)

A oligarquia anglo-norte-americana iniciou um golpe contra o presidente Donald Trump imediatamente depois do resultado surpreendente que o pôs na Casa Branca. Entraram em pânico para bloquear os projetos dele, anunciados, de parceria com a Rússia, de pôr fim à guerra permanente, de derrubar o Livre Comércio predatório, e de fazer voltar a lei Glass Steagall para quebrar o poder de Wall Street.

O pânico virou frenesi na questão russa, quando se soube que Trump trabalhou com conselheiros estrategistas dispostos a devolver os EUA à posição tradicional de apoiar a soberania nacional e esquecer para sempre a insanidade da ‘troca-de-regime’, obsessão dos presidentes Bush e Obama.

Já vimos antes esse tipo de golpe de estado, aplicado contra o mais importante presidente nacionalista dos EUA na segunda metade do século 20, John F. Kennedy. Desde então, vivemos à sombra daquele golpe.

Lançar alguma luz nova sobre aqueles eventos e, mais importante, sobre o que o próprio Kennedy compreendeu daquele processo, pode ajudar-nos a ver mais claramente a trilha que pode nos levar à sanidade e à sobrevivência.

Nesse documento, focamos dois principais inimigos mortais de JFK, Allen Dulles e Lyman Lemnitzer, o primeiro no mundo da espionagem; o outro, no mundo militar. Embora fossem norte-americanos, nós os situaremos como eles próprios se viam, internacionalmente: foram homens da estrutura de poder, centrada em Londres, que comandou a Guerra Fria contra o plano de paz e de pôr fim à 2ª Guerra Mundial do presidente Franklin Roosevelt; que fez guerra contra o presidente Kennedy; e que agora empurra o mundo para outra guerra mundial.

1. Dulles e Lemnitzer traem o presidente Roosevelt

Em novembro de 1942, Allen Dulles instalou sua base em Berna, capital da Suíça, em colaboração com o chefe do serviço secreto de inteligência britânico naquela cidade, Frederick Vanden Heuvel.

Allen Dulles era o mais conhecido advogado norte-americano a serviço dos interesses financeiros e políticos de Morgan, Rockefeller e Harriman, interesses intimamente aliados à Coroa Britânica e à City londrina. Nominalmente, era alto funcionário do Gabinete de Serviços Estratégicos do presidente Roosevelt [ing. Office of Strategic Services (OSS)], organização de inteligência. Mas Dulles e o presidente eram inimigos figadais.

Um mês antes de Dulles chegar a Berna, o governo Roosevelt usara a Lei sobre Comércio com o Inimigo [ing. Trading with the Enemy Act] para confiscar ações num aparelho de fachada dos nazistas (“Union Banking Corporation”) dirigido pelos escritórios de New York de um dos principais clientes de Allen e do seu irmão John Foster Dulles, Brown Brothers Harriman.[1]** Harriman, a empresa-mãe, era um dos maiores bancos privados de investimentos do mundo, intimamente conectado ao Banco da Inglaterra. Os advogados do Banco Harriman, os irmãos Dulles, durante muito tempo atuaram como intermediários entre aquele banco e o governo de Hitler.

Em Berna, Dulles e Vanden Heuvel começaram a discutir com seus contatos nazistas o modo como as forças alemãs seriam realocadas contra a União Soviética, aliada dos EUA contra Hitler, depois de Grã-Bretanha e EUA terem concluído o que eles esperavam que seria um acordo de paz em separado com os nazistas.

O estrategista da inteligência britânica Van den Heuvel e Dulles encontraram-se em fevereiro de 1943 com um representante da SS – setor do regime alemão então encarregado de exterminar os judeus. O porta-voz da SS era um príncipe alemão da Tchecoslováquia, Max Egon Hohenlohe,[2] amigo de Dulles há 20 anos.

Em relato daquelas discussões de 1943 em Berna, Hohenlohe disse que Dulles o informara de que os arranjos pós-guerra teriam de permitir “a existência de uma ‘Alemanha Expandida’ [ing. ‘Greater Alemanha‘] que incluiria a Áustria e uma parte da Tchecoslováquia (…), que seria parte de um ‘cordão sanitário contra o bolchevismo e o pan-eslavismo, que (…) seria a ‘melhor salvaguarda da ordem e do progresso na Europa Central e Oriental.'” [3]

Entrementes, o presidente D. Roosevelt conferenciava com o primeiro-ministro britânico Winston Churchill em Casablanca, Marrocos, em janeiro de 1943. Roosevelt declarou que a firme política dos Aliados tinha de ser “rendição incondicional” dos nazistas. FDR, usando a terminologia do general Ulysses S. Grant, na Guerra Civil Norte-americana, enfatizou que o poder de guerra alemão tinha de ser completamente extinto, ideia absolutamente oposta aos planos de Londres, a qual queria redirecionar a Alemanha para fazer guerra à Rússia. A posição de Roosevelt chocou Churchill o qual, embora não tenha reagido, jamais aceitou essa posição.

A Rússia há muito tempo era um dos alvos das guerras geopolíticas britânicas. O Império Britânico sempre teve horror de qualquer potencial crescimento na Eurásia de potências nacionais industriais que pudessem vir a desafiar a hegemonia global dos britânicos, que era baseada em livre comércio, controle dos fluxos financeiros e supremacia nos mares. Temia-se sobretudo qualquer aliança entre Rússia e os EUA, duas nações transcontinentais cujos melhores pensadores haviam passado a se verem como aliados naturais – relacionamento que tomou forma mediante o acurado estudo de Alexander Hamilton, da economia de construção nacional da Rússia no início do século 19; da participação dos norte-americanos na construção das primeiras ferrovias russas nos anos 1830s; do grande apoio popular que os norte-americanos deram à Rússia quando o país for atacado pelos britânicos na Guerra da Crimeia dos anos 1850s; do apoio militar que o Czar Alexandre II deu ao presidente Abraham Lincoln; da União contra a Confederação patrocinada por Londres; e do rápido avanço no final do século 19 da indústria russa sob comando do ministro de Finanças Conde Sergei Witte, dedicado praticante da economia Hamiltoniana do “Sistema Americano”.

Durante essa longa caminhada no final do século 19, para impedir que o Sistema Americano se disseminasse na Europa, mediante especialmente o expediente de jogar Alemanha e Rússia uma contra a outra, a Grã-Bretanha patrocinou a guerra de 1905 do seu aliado Japão, que desestabilizou a Rússia e levou, em 1917, a levantes que Londres tentou controlar.

Mas os britânicos não conseguiram controlar a Revolução Bolchevique, nem as subsequentes políticas de Lênin e Stálin na União Soviética; e quando a Rússia não pôde ser controlada por agentes e aliados internos, a Grã-Bretanha recorreu a uma sua prática tradicional para enfraquecê-la: a guerra.

Britânicos interessados e respectivos parceiros em Wall Street haviam apoiado a ascensão de Hitler, em boa medida a partir da lógica de que Hitler faria guerra à Rússia. A Grã-Bretanha só começou a fazer real oposição a Hitler quando ele virou seus canhões na direção dela, em 1940.

Depois que EUA uniram-se à guerra contra Alemanha, a Itália fascista e o Japão, no final de 1941, Churchill trabalhou para prolongar o conflito, enquanto os russos morriam aos milhões resistindo contra os nazistas, que haviam invadido a Rússia em junho daquele ano. Até 1944, Churchill impediu que qualquer invasão ocidental direta pela França atingisse a Alemanha. Os principais aliados da facção de Churchill nessa tática de bloqueio eram o general Bernard Montgomery, comandante do 8º Exército Britânico, e o oficial superior de Montgomery, general Harold Alexander, comandante britânico no Mediterrâneo, da alta aristocracia inglesa e íntimo da Família Real.

O presidente Roosevelt sabia bem da perfídia de britânicos e de Wall Street. Quando retornou de Casablanca, Roosevelt explicou ao povo norte-americano a doutrina da rendição incondicional:
“A menos que a paz que venha depois [dessa guerra] reconheça que o mundo é um só espaço e faça justiça a toda a raça humana, os germens de outra guerra mundial permanecerão como ameaça constante à humanidade (…)

No esforço para afastar o inevitável desastre que os espera, os propagandistas do Eixo tentam agora todos os seus velhos truques, para dividir as Nações Unidas. Buscam criar a ideia de que, se nós vencermos essa guerra, Rússia e Inglaterra e China e os EUA, nos meteremos numa briga de cão e gato.

Nesse esforço final para pôr uma nação contra a outra, na vã esperança de que podem se acertar com um ou dos de cada vez – e de que muitos de nós somos tão simplórios e tão dispostos a tudo perdoar, a ponto de sermos arrastados a fazer ‘negócios’ à custa de nossos aliados.

A essas tentativas de pânico – e a melhor palavra é essa, “de pânico” – para escapar às consequências de seus crimes, nós dizemos – todas as Nações Unidas dizem – que os únicos termos pelos quais podemos negociar com qualquer governo do Eixo ou qualquer facção do Eixo são os termos proclamados em Casablanca: “rendição incondicional.” Nós sabemos e o povo comum dos países nossos inimigos também virá a saber, que em nossa política sem concessões não temos intenção de causar qualquer mal aos povos das nações do Eixo. Mas, sim, castigaremos, e faremos pagar por todas as suas culpas, os líderes bárbaros daqueles países.

Os nazistas devem estar em frenesi – não só em pânico, mas já em frenesi descontrolado, se creem que possam inventar propaganda que ponha contra a Rússia os governos britânico e norte-americano e chinês e respectivos povos – ou a Rússia contra o resto de nós.

A gigantesca coragem, a imensa capacidade de resistência e de luta do povo russo, na defesa contra o invasor e para expulsá-lo da Rússia –, o gênio do Sr. Stálin e de seus comandantes militares, que dirigiram e comandaram os exércitos russos – tudo isso fala por si.[4]
As táticas de Londres conseguiram desviar a força militar anglo-norte-americana para o norte da África e pela Itália, começando pela invasão da Sicília. Décadas de falsificações e mentiras geopolíticas seriam construídas e distribuídas a partir da posição britânica na Itália.

As relações entre os aliados EUA e Grã-Bretanha já eram de profunda desconfiança em Julho de 1943, quando começaram a entrar na Sicília. Sob a ideia de que as tropas dos EUA seriam inferiores em qualidade de combate às britânicas, o general Alexander ordenou inicialmente que o general George Patton dos EUA mantivesse suas forças sempre atrás das do general Montgomery, durante grande trecho do deslocamento pela ilha. O oficial norte-americano de ligação no gabinete de Alexander, general Clarence Huebner, enfureceu o general Alexander, ao manobrar para ajudar Patton a romper o bloqueio britânico e praticamente atropelar Montgomery na corrida rumo à vitória na Sicília.

Huebner, exageradamente ianque, foi expulso da entourage de Alexander.

Entra em cena Lyman Lemnitzer

O general Lyman Lemnitzer substituiu Huebner (25/7/1943) como ligação dos EUA com o comandante britânico no Mediterrâneo. Lemnitzer, norte-americano de nascimento modesto e muito ambicioso, via a aristocracia britânica e a Alta Sociedade, como senhores dos grandes e importantes assuntos do mundo. Lemnitzer tinha “paixão por manter-se longe da ribalta”, “raramente lia algum livro” e “não falava outros idiomas”.[5]

Mas fez de Harold Alexander seu reverenciado mentor[6] e sob o patrocínio desse general britânico, durante toda sua carreira subsequente, Lemnitzer ascendeu aos mais altos escalões militares.

Lemnitzer tinha atitude de patética reverência ante todos os oligarcas e seus segredos, que ele via como mágicos. Seu biógrafo autorizado sugere que essa atitude mental transparecia no grande orgulho que o general sentia por ter ascendido aos graus mais altos da Maçonaria.[7]

O general Harold Alexander era filho do Duque da Caledônia, e auxiliar-de-campo do rei Jorge 6º. O general fora alto oficial da Grande Loja Maçônica da Inglaterra, corpo que comandava toda a maçonaria do Império Britânico, da qual tradicionalmente os príncipes da Família Real eram grão-mestres.

Lord Alexander era mestre da Loja Maçônica Athlumney, cujos iniciados eram, na maioria, membros do White’s [literalmente: “do branco”] – legendário clube masculino de Londres, em cujo bar o diretor do MI6 Stewart Menzies comandava “grande parte dos negócios informais” do Serviço Secreto de Inteligência (MI6) durante e depois da 2ª Guerra Mundial.[8]

Durante os dois últimos anos da guerra, 1943-1945, o general Lemnitzer organizou encontros para o general Alexander com o rei Jorge 6º, Winston Churchill, Harold MacMillan e outros líderes britânicos, viajando como leva e traz, entre o quartel-general do general Alexander num vasto palácio em Caserta, Itália, e os palácios reais em Londres.

Operation Sunrise [Operação Alvorada]

Em março de 1945, com os aliados já finalmente correndo pela Alemanha para pôr fim à guerra contra Hitler, o presidente Roosevelt relatou ao Congresso o encontro, recém encerrado com o premiê soviético Josef Stálin e Churchill em Ialta, na Península da Crimeia na União Soviética.

Roosevelt reiterou que a rendição incondicional dos nazistas significava cooperação EUA-Soviéticos no pós-guerra, na condução dos assuntos dos dois lados, da Europa Ocidental e da Europa Oriental; que “os problemas políticos e econômicos de qualquer área libertada da ocupação nazista são de responsabilidade conjunta dos três governos – EUA, Grã-Bretanha e URSS. Insistiu em que a paz vindoura deveria ser o fim do sistema fracassado de “alianças exclusivas, de esferas de influência, de equilíbrios de poder” – quer dizer: do velho sistema britânico de dividir-para-governar.

Mas naquele momento, Dulles já iniciara negociações secretas em Berna com o general alemão Karl Wolff,[9] comandante das forças SS na Itália, para que Grã-Bretanha e os EUA assinassem em separado uma paz com a Alemanha, que permitisse o redeslocamento de forças alemãs contra a Rússia. Dia 13 de março, o comandante britânico Harold Alexander envio o general norte-americano Lemnitzer (acompanhado pelo general britânico Terence Airey, oficial de inteligência do gabinete de Alexander) à Suíça, para dar continuidade àquelas negociações. Dulles, Lemnitzer, Airey e Wolff encontraram-se então repetidas vezes em Lugano, Suíça.

Aquelas conversações viriam a ser conhecidas como Operação Alvorada [ing. Operation Sunrise]. Dulles e Lemnitzer ganhariam fama e muitos aplausos em Londres, pelo grande feito de trair o próprio Comandante-em-chefe.

Roosevelt só soube o que Dulles e os britânicos queriam que soubesse – que as conversas com o general Wolff haviam sido meramente preliminares, para conseguir um encontro com o general Alexander no quartel-general de Caserta para negociar uma rendição.

O ministro soviético de Relações Exteriores Vyacheslav Molotov escreveu uma carta ao embaixador dos EUA em Moscou, Averell Harriman, dia 22 de março, protestando contra a evidência de que as reuniões Dulles/British aconteciam já há duas semanas pelas costas dos soviéticos. Da resposta de Roosevelt,[10] vê-se que o presidente não sabia que já havia negociações em curso, regidas pelo interesse dos britânicos em perpetuar a Guerra Mundial, indefinidamente – então já contra a Rússia.

O mundo pós-colonial

O presidente dos EUA acabava, naquele momento, de declarar, muito publicamente, a visão anticolonial que tinha, para o mundo pós-guerra, em contradição com os planos de seus contrapartes londrinos. Roosevelt disse, na conferência de imprensa que fez dia 23/2/1945, a bordo do U.S. Quincy, de volta aos EUA, saído de Ialta:
“Estou terrivelmente preocupado com a Indochina [Vietnã e países vizinhos]. Falei com [chinês, generalíssimo] Chiang Kai-shek no Cairo, Stálin em Teerã. Ambos concordam comigo. Os franceses estão lá há algumas centenas de anos (…).

[Chiang] disse que [a Indochina] não deve voltar a pertencer aos franceses, que estiveram lá por mais de 100 anos e nada fizeram para educar aquele povo, que para cada dólar que puseram lá, tiraram dez (…).

Com os indochineses, há um sentimento de que têm de ser independentes, mas ainda não estão prontos. Na ocasião, sugeri que a Indochina sob governo colegiado – um francês, um ou dois indochineses, um chinês e um russo, porque estão na costa, e talvez um filipino e um norte-americano – para educá-los para o autogoverno (…).

Stálin gosta da ideia. Chiang gosta da ideia. Os britânicos não gostam. Pode explodir o império deles, porque se os indochineses trabalham juntos e eventualmente chegam à independência, os de Burma podem querer fazer o mesmo à Inglaterra (…).

[Pergunta de um repórter:] É a ideia de Churchill, para todo o território lá, que tudo volte a ser exatamente como era antes?

Presidente: Sim, ele é meio vitoriano nesse tipo de coisa.

[Pergunta de um repórter:] O senhor lembra-se daquele discurso do primeiro-ministro, quando disse que não era primeiro-ministro da Grande Grã-Bretanha para ver o império cair aos pedaços?

Presidente: Isso, o caro velho Winston jamais aprenderá. Fez carreira e ganhou notoriedade repetindo precisamente esse ponto…” [11]
O presidente Roosevelt morreu dia 12 de abril. Uma rendição das forças militares nazistas na Itália foi afinal assinada no quartel-general de Alexander em Caserta, dia 29 de abril, apenas oito dias da rendição total dos alemães na Europa. Mas quantidade considerável de mal já havia sido posta em movimento nas conversações suíças.

A morte de Roosevelt antes de ter podido formular e garantir a paz foi uma catástrofe para os EUA e para o mundo.

Os que FDR chamara de “Tories” correram a se firmar no controle sobre toda a estratégia dos EUA. Por tradição de família e pelas próprias instituições, aqueles nobres de Londres/Wall Street jamais aceitaram os princípios da Revolução Norte-americana. Haviam adquirido poder sobre os negócios dos EUA na alvorada do século 20, depois do assassinato do presidente William McKinley em 1901 e da ascensão de figuras como os presidentes Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson. Mas o crash daqueles maus governos dos anos 1930s permitiram a FDR, com seu New Deal e desenvolvimento de infraestrutura, trazer de volta a devoção norte-americana ao progresso, que inspirara os nacionalistas e modernizadores do mundo todo. Com FDR já fora do baralho, a facção anglo-norte-americana passou a enfatizar seus objetivos financeiros-imperiais, sob o tema de “liberdade” versus “comunismo.”

Os britânicos excluíram os soviéticos das negociações Wolff sob o argumento de que os soviéticos não podiam participar de arranjos do pós-guerra na Itália nem em outros países da Europa Ocidental, ao mesmo tempo em que os britânicos tampouco queriam que os aliados participassem dos arranjos nos países da Europa Oriental a serem ocupados por forças soviéticas. Assim começou a divisão do mundo que viria a ser conhecida como a Guerra Fria. [12]

Allen Dulles e o MI6 britânico ajudaram muitos criminosos de guerra da alta hierarquia do governo nazista, além de Karl Wolff, a escapar do julgamento pelos tribunais de Nuremberg de crimes de guerra. Escaparam pelas “linhas-de-rato” na Europa, no Oriente Médio e na América Latina, para promover ditadores e comandar exércitos clandestinos. Entre esses, estava Klaus Barbie (o SS assassino de massa na França); Reinhard Gehlen (oficial da inteligência nazista que se tornou chefe do serviço de inteligência alemão pós-guerra, sob direta supervisão da CIA e do MI6); Otto Skorzeny (chefe das unidades especiais de SS, mestre em criar exércitos clandestinos e esquadrões da morte na Europa, África e América do Sul); e Hjalmar Schacht (sogro de Skorzeny, banqueiro, protegido do presidente do Banco da Inglaterra Montagu Norman e de John Foster Dulles). Schacht coordenara a arrecadação de fundos para instalar Hitler como ditador da Alemanha e supervisionara a construção da máquina de guerra nazista.[13]

A 14ª Divisão Waffen SS de Granadeiros (1ª galiciana), de 8 mil soldados ucranianos sob comando nazista, inclusive guardas de campos de concentração, rendeu-se ao general Alexander. Em vez de ser mandada de volta à URSS para ser desmobilizada, foi distribuída para Grã-Bretanha, Canadá e por toda a Europa, para que os soldados fossem usados em exércitos secretos clandestinos sob comando da OTAN. Herdeiros dessas e de outras alas da Organização de Nacionalista Ucranianos [ing. Organization of Ukrainian Nationalists (OUN)] de fascistas ucranianos, até hoje celebram a guerra de Hitler contra a Rússia. Ainda têm considerável influência na OTAN e nos corredores do poder de Washington, que lhes garantiu o apoio dos EUA para o golpe anglo-norte-americano de fevereiro de 2014, que pôs no poder na Ucrânia o governo que lá está até hoje.[14]

2. Kennedy encara a tragédia do pós-guerra

Em abril de 1945, quando a guerra mundial rumava para seu final incerto e desgraçado, John F. Kennedy[15] começou a trabalhar como correspondente especial da empresa de jornais Hearst [ing. Hearst Newspapers]. Kennedy cobriu a tensa conferência (17/7 a 2/8/1945) em Potsdam, perto de Berlin, entre Churchill, Stálin e Harry Truman, sucessor de Roosevelt.

Por trás das cortinas em Berlim, os britânicos continuaram a seguir a lógica da Operação Alvorada [ing. Operation Sunrise]. Com Roosevelt morto, Churchill encomendara um plano militar top secret, Operação Impensável [ing. Operation Unthinkable],[16] na qual os exércitos alemães, em vez de serem desmobilizados, seriam postos novamente em ação ao lado de divisões norte-americanas e britânicas para a guerra sem trégua contra a União Soviética. O relatório final Impensável chegou às mãos de Churchill dia 11 de julho.

Dia 16 de julho, um dia antes de a Conferência de Potsdam ser inaugurada, os EUA testaram com sucesso a primeira bomba atômica (no Novo México). Churchill estava informado da operação secreta, o que dá implicações ainda mais graves à Operação Impensável. Churchill comentou que Truman, então já nuclear, estava nas nuvens e não perdia ocasião de ‘dar ordens’ a Stálin.

Na metade da Conferência, dia 26 de julho, o líder do Partido Trabalhista Clement foi declarado vencedor da eleição britânica e substituiu Churchill como primeiro-ministro. A Operação Impensável foi para a prateleira – mas os soviéticos não esqueceram o projeto do establishment britânico.

Quando Truman navegava de volta da Europa para casa, dia 6/8, Hiroshima, Japão, foi destruída por uma bomba atômica.[17]

Uma sombra de medo logo cobriria a Terra; em 1953, os EUA e os Soviéticos já teriam desenvolvido bombas de hidrogênio capazes de pôr fim à vida sobre a Terra.

Anos depois, John Kennedy sugeriu que, em 1946, quando pela primeira vez concorreu a uma vaga no Congresso, já acompanhava com amargura o mundo tenebroso que sua geração herdara. Lutou para compreender o que saíra tão errado. Como a política de paz de Roosevelt foi destruída? Acreditava que o Comunismo Soviético distorcera a história e violara a natureza humana; mas que a própria missão dos EUA de elevar a humanidade estava sendo soterrada na divisão do mundo que se aprofundava rapidamente.

JFK foi eleito deputado pela primeira vez em 1946. Na família, estava assumindo o papel político de liderança que se esperava fosse de seu irmão Joseph, que morreu na guerra; e na mente de Kennedy crescia a ideia de que ele mesmo teria de liderar a saída para fora do desastre político nacional dos EUA.

O problema que Kennedy teria de enfrentar foi que o sistema imperial centrado em Londres que FDR procurara abolir havia sobrevivido à morte do presidente dos EUA sob a forma de um aparelho financeiro global de saqueio, que controlava continentes mesmo sem a formalidade de governos coloniais. A preservação e expansão desse sistema constituíam a base das atividades das agências secretas de inteligência anglo-norte-americanas e a estrutura da aliança militar atlântica depois da 2ª Guerra Mundial.

O Executivo de Operações Especiais, EOE

Podem-se observar as realidades dessa criptogovernança na origem dos exércitos político-militares clandestinos “de retaguarda” que os britânicos, com a ajuda de Dulles, Lemnitzer e alguns velhos nazistas, distribuíram em torno da Europa.

O Executivo de Operações Especiais, EOE [ing. Special Operations Executive (SOE)] fora formado em 1940, como agência da Grã-Bretanha para tempo de guerra, para espionagem, sabotagem e assassinato em áreas ocupadas por nazistas. O EOE era dirigido por dois homens, principalmente: o Comandante do EOE Roundell Palmer, e o Diretor do EOE Charles Hambro. Figuras de grande destaque no centro financeiro da City de Londres e no aparato imperial associado.

Roundell Cecil Palmer, 3º Conde de Selborne, nasceu para o poder imperial, como filho do Alto Comissário da África do Sul,[18] sobrinho e protegido de Lord Robert Cecil, e neto de Lord Salisbury (Robert Arthur Talbot Gascoyne-Cecil),que fora três vezes primeiro-ministro do Reino Unido entre 1885 e 1902. Os Palmers eram uma das famílias do “Bloco Cecil,” a grande conexão de poder, influência e privilégio controlada pela família Cecil” que “permeava toda a vida britânica desde 1886.”[19]

Roundell Palmer e seus ancestrais Palmer também eram a família líder na hierarquia da Most Worshipful Company of Mercers [port. Venerável Companhia de Mercadores] – o mais alto escalão das “sociedades secretas ‘de libré'” [ing. “livery” companies] que comandam a Corporação City of London. Esses grupos de libré são o núcleo de um aparelho que existe há séculos para gestão de fundos, interligando a Família Real, os bancos de Londres e suas empresas coloniais. Roundell Palmer era diretor da corporação Union Minière du Haut Katanga no Congo, em associação com as holdings centro-africanas de propriedade da Família Real.

Como ministro de Guerra Econômica [ing. Minister of Economic Warfare], Palmer escolheu Hambro, seu colega na City, para dirigir as operações do EOE.

Sir Charles Hambro, de tradicional família de banqueiros britânicos/escandinavos, havia sido poderoso diretor do Banco da Inglaterra, trabalhando com Montagu Norman para instalar e alimentar o regime Hitler na Alemanha, e para fundar o Banco de Compensações Internacionais, BCI [ing. Bank for International Settlements, BIS] com sede na Suíça (e vários nazistas na diretoria), através do qual os saques feitos pelos nazistas e os fundos dos SS seriam usados para objetivos do pós-guerra.

O EOE foi oficialmente desmobilizado depois da rendição dos nazistas. Mas Roundell Palmer insistiu em que seu pessoal, suas capacidades para matar, ativos e arranjos de inteligência continuassem a operar clandestinamente na Europa Ocidental, já numa quase-guerra contra a União Soviética.

Essa nova “comunidade de inteligência” era gerenciada a partir do Privy Council [literalmente Conselho Privado], do aparelho do governo permanente que comandava o Gabinete e o Ministério de Relações Exteriores [ing. Foreign Office], do White’s Club e dos Mercadores e das salas de diretoria na City, indiferentes a eleições e partidos políticos eleitos. A própria existência do MI6, o Serviço Secreto de Inteligência Britânico, só foi oficialmente reconhecida em 1994.

O casamento dos EUA com a Grã-Bretanha imperial para a Guerra Fria levou à Lei de Segurança Nacional de 1947 [ing. 1947 National Security Act], que criou a CIA (Central Intelligence Agency) e o Departamento da Defesa. Como reação à ameaça feita pela Grã-Bretanha, de retirar da Grécia suas forças, os EUA declararam a “Doutrina Truman”, em março de 1947, pela qual os EUA comprometiam-se a construir uma presença antissoviéticos na Europa. O Plano Marshall, de financiamento para a reconstrução europeia pós-guerra foi parcialmente canalizado para a intriga geopolítica da Guerra Fria. E a União Soviética devastada pela guerra ficou excluída desse plano de ajuda.

União Europeia Ocidental, OTAN e a ascensão dos irmãos Dulles (Allen e John Foster)

A profunda conexão britânica do general Lyman Lemnitzer fez dele escolha natural para o Secretário da Defesa James Forrestal enviar a Londres em 1948 como observador dos EUA nas conversas secretas para estabelecer a União Europeia Ocidental, UEO [ing. Western European Union (WEU)], aliança militar de Grã-Bretanha, França, Bélgica, Luxemburgo e Países Baixos. Houve reuniões de planejamento no quartel-general do general britânico Montgomery, em Fontainebleau, França.

Ao logo do ano seguinte, uma Comissão Clandestina desse braço militar da UEO, a Organização de Defesa da União Ocidental, ODUO [ing. Western Union Defense Organization, WUDO], começou a operar sob a orientação do diretor do MI6 Stewart Menzies.[20]

A própria ODUO foi transformada em Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), resultado da estratégia britânica agindo sobre os EUA, como se vê a seguir.

A partir de 1948, o presidente Harry Truman teve como conselheiro o embaixador britânico, Sir Oliver Franks. Franks havia ajudado a enfiar goela abaixo do governo britânico a nova Aliança Atlântica, superando as objeções de soberania nacional dos políticos trabalhistas [ing. Labour politicians]. Franks fora mandado a Washington para superar as mesmas desconfianças e objeções nos EUA. O secretário de Estado anglófilo Dean Acheson vangloria-se em suas memórias de encontrar-se regularmente com Franks em segredo e de tê-lo convertido em virtual membro do Gabinete do presidente.

Sem demora Truman trouxe John Foster Dulles como conselheiro do Departamento de Estado e Allen Dulles como diretor de operações clandestinas da CIA. O subsecretário de Estado Robert A. Lovett (parceiro de Averell Harriman e cliente dos irmãos Dulles na promoção de Hitler) dirigiu as negociações dos EUA para a Aliança Atlântica. Sob pesada pressão britânica, o Congresso votou a favor de os EUA se integrarem à OTAN em 1949. Kim Philby, agente soviético que ainda trabalhava para os britânicos, veio então para Washington como primeiro-secretário do embaixador Franks e ligação do MI6 com a CIA. Philby nutriu a paranoia soviética com relatos de feitos horríveis dos norte-americanos, cimentando assim a aliança anglo-norte-americano da Guerra Fria. Sir Oliver Franks retornou a Londres, para ser presidente do Lloyds Bank.

A estrutura clandestina da Organização de Defesa da União Ocidental construída sob o comando de Sir Stewart Menzies persistiu sob os auspícios da OTAN. Administrava os exércitos secretos geridos por MI6/CIA com os velhos nazistas e fascistas italianos que o compunham, e que nas décadas seguintes viriam a infestar a Europa. O general Lemnitzer, correndo de lá para cá e de cá para lá entre Washington e a Europa no final dos anos 1940s, passou a controlar a logística dos suprimentos militares norte-americanos para o aparato da União Ocidental/OTAN.[21]

3. JFK inicia o ataque

Já como membro deputado no Congresso dos EUA, John F. Kennedy viajou pelo Oriente Médio e Ásia em 1951, acompanhado por seu irmão mais jovem, Robert. Kennedy não gostou de ver que os EUA estavam atropelando a própria herança revolucionária nacional, para apoiar os objetivos imperiais de britânicos e outros.

JFK visitou, dentre outros pontos, o Irã, onde o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh acabava de nacionalizar a Companhia de Petróleo Anglo-Iraniana, para pôr fim ao domínio britânico e ao empobrecimento sistemático de seu país. Oito anos antes, o presidente Roosevelt também visitara Teerã. FDR mandou preparar o Relatório Hurley [ing. Hurley Report], de apoio ao direito do Irã de usar seus próprios recursos, livre do imperialismo, como modelo de soberania nacional a ser buscada por outras ex-colônias.[22] Mas em 1951 Dean Acheson já coordenava, com Sir Oliver Franks e uma equipe conjunta CIAMI6, o planejamento de um golpe de estado contra Mossadegh,– cuja coragem já inspirava revoltas nacionalistas no Egito de Gamal Abdel Nasser e outros, por todo o norte da África.

Kennedy visitou Israel e países árabes, envolvidos no amargo conflito cevado durante o governo britânico naquela área.

Depois de Yalta, Roosevelt defendera o desenvolvimento econômico dos países muçulmanos desesperadamente pobres, baseado no uso soberano de seus recursos de petróleo como única via possível para a paz regional.[23] Mas quando da visita de JFK, massas de exilados palestinos sem qualquer futuro estavam cercados em campos, e a aliança anglo-norte-americana da Guerra Fria enterrara os planos de progresso de FDR.

No Vietnã, Kennedy deputado buscou suas próprias fontes norte-americanas, francesas e vietnamitas para ter acesso ao que se escondia por trás das explicações oficiais das políticas que, pouco depois, levariam os EUA ao desastre. FDR e seu aliado vietnamita Ho Chi Minh haviam reivindicado a independência do Vietnã. Mas em 1945 o exército britânico tomara o Vietnã do Japão, e entregara o controle do país de volta ao império francês. Quando Truman pôs-se ao lado dos impérios, Ho procurou apoio nos comunistas, e a guerra novamente devorou a região.

De volta aos EUA, Kennedy apresentou, pelo rádio, um relato candente dos vícios que estavam deteriorando a aliança dos EUA com seus adversários imperialistas. Seis anos depois da morte de seu Comandante-em-chefe, Kennedy fazia eco ao que dissera FDR, alertando os EUA contra os objetivos dos países imperialistas:
“[O mundo colonial do pós-guerra] é área na qual a pobreza e a doença são rampantes, no qual a injustiça e a desigualdade são crônicas e fundamente implantadas, e onde o fogo do nacionalista adormecido por tanto tempo agora acordou e arde novamente. É área de nosso mundo que por 100 anos e mais foi fonte de poder e império para a Europa Ocidental – para Inglaterra e França e Holanda (…)

Um Comando do Oriente Médio operando sem cooperação e apoio dos países do Oriente Médio (…) não só intensificará cada força antiocidental já hoje ativa na área, mas, também de um ponto de vista militar, estaria condenado ao fracasso. Até as areias do deserto se levantarão na resistência contra quem chegue para impor controle externo sobre o destino desses povos orgulhosos (…)

O verdadeiro inimigo do mundo árabe é a pobreza, a miséria (…). Nossa intervenção a favor dos investimentos britânicos no petróleo do Irã, dirigida mais para preservar interesses externos ao Irã que para promover o desenvolvimento do Irã, nossa confessada disposição para assumirmos uma responsabilidade militar quase imperial para a ‘segurança’ de Suez, nosso fracasso ao não enfrentar com eficácia, nem depois de três anos, a terrível tragédia de mais de 700 mil refugiados árabes, tudo isso jamais andou a favor dos desejos dos árabes, e tornam ocas todas as promessas que os árabes ouçam pela Voz da América (…)

Na Indochina [Vietnã] nos aliamos ao esforço desesperado de um governo francês de manter-se pendurado ao que resta do império (…) Faz sentido nos opormos ao movimento do sul na direção do Comunismo, mas não apostando tudo, exclusivamente, na força das armas (…).

Veem-se muitos dos nossos representantes empurrando da direção dos objetivos menores de outros países ocidentais, sem nenhuma disposição para compreender as reais esperanças e desejos dos povos aos quais são enviados e acreditados como representantes, na maioria das vezes alinhados, eles mesmos e excessivamente dedicados aos “que tudo têm” e tomando as ações dos “que nada têm” não como esforço para curar injustiças, mas como algo de sinistro e subversivo.

O Ocidente hoje já não é o Ocidente de Palmerston e Disraeli e Cromer…. Queremos, talvez mesmo precisemos, de aliados em ideias, em recursos, até em armas, mas se queremos aliados, temos, antes de tudo, de nos reunir aos nossos amigos.” [24]
Kennedy foi eleito senador em 1953. Enquanto isso, o presidente Eisenhower trouxe John Foster Dulles para o governo, como secretário de Estado, e Allen Dulles como Diretor da Inteligência Central, e começou a promover para comandos cada vez mais altos, o general Lemnitzer, da coorte dos Dulles-britânicos na Operação Alvorada.

Assim, apesar de intenções melhores do presidente Eisenhower reveladas em políticas como Átomos para a Paz, iniciativa dele na ONU, em dezembro de 1953, ali estava em curso uma tétrica continuação do controle imperial britânico sobre funções cruciais do governo dos EUA, que vinha desde a era Truman até a presidência de Eisenhower. Estava personificada nos irmãos Dulles. Os efeitos voaram, por todo o planeta.

O governo do Irã foi derrubado em 1953 pela Inteligência britânica e a CIA dos Dulles. Uma macabra ditadura pôs em cela solitária o primeiro-ministro Mossadegh, que morreu adiante, já em prisão domiciliar. A gigante do petróleo recuperada pelos ingleses trocou de nome para British Petroleum. A fúria antiocidente levaria, em 1979, à Revolução Islâmica do Irã.

Em 1954, a CIA derrubou o presidente da Guatemala Jacobo Arbenz, para reverter a nacionalização feita por ele, da United Fruit Company, cujas imensas plantations mantivera a população em situação de atraso medieval. Dentre as acusações então feitas contra o governo dizia-se que propusera desviar um rio usado por uma plantation para construir uma estação hidrelétrica. A escritório de advocacia dos Dulles representou os interesses da United Fruit, e o próprio Allen Dulles fora membro do conselho de diretores da empresa. O golpe ajudou a travar toda a América Central em situação de miséria extrema, contexto no qual prosperaram o tráfico de drogas, as insurreições violentas e migração de massas de humanos desesperados para o norte, rumo aos EUA.

Os franceses, apesar do apoio dos EUA, foram expulsos do Vietnã em 1954. Durante a batalha crucial em Dien Bien Phu, o secretário de Estado John Foster Dulles propôs-se a fazer desaparecer o campo de batalha com uma bomba atômica, mas o presidente Eisenhower decidiu contra o plano. Um novo regime apoiado pelos EUA foi instalado na metade sul do Vietnã; a guerra ainda se arrastou por anos.

Em 1955 (dois anos depois do fim da Guerra da Coreia), Lyman Lemnitzer tornou-se Comandante das forças do Exército dos EUA no Extremo Oriente. Fez de tudo para levar armas nucleares estratégicas para a Coreia.[25] Mísseis nucleares de combate apareceram em 1957; e só foram retiradas da Coreia nos anos 1990s. O regime da República Popular Democrática da Coreia (“Coreia do Norte”), comunista, cada vez mais paranoico, começou a desenvolver arsenal nuclear próprio.

Em 1956, o presidente Eisenhower agiu para reduzir o envolvimento dos EUA em operações coloniais no além-mar, exigindo o fim da invasão imperial do Egito pela Grã-Bretanha. Atuou diplomaticamente com a União Soviética e mediante pressão econômica, para forçar Grã-Bretanha, França e Israel a retirarem as tropas que invadiram o Egito para tomar o Canal de Suez e tentar derrubar o presidente Nasser. Eisenhower em momento algum atuou diretamente contra o poder dos britânicos e de seus parceiros norte-americanos. Mas em JFK, aquela facção inimiga passou a ver surgir na cena norte-americana adversário desafiante novo e mais ameaçador.

4. Frente à frente

Quem lembra hoje como John Kennedy abalou pela primeira vez os alicerces da política e ganhou fama mundial?

Aconteceu dia 2/7/1957, no Senado dos EUA, quando Kennedy discursou sobre “Imperialismo – Inimigo da Liberdade.”[26]  Com os norte-americanos preparando-se para celebrar o aniversário, dia 4 de julho, da própria Guerra Revolucionária pela Independência, Kennedy denunciou a aliança de EUA com o imperialismo europeu para suprimir pela violência a liberdade dos cidadãos na África e na Ásia.

Aquele discurso e a reação que disparou, puseram Kennedy sob o mesmo tipo de holofotes sob os quais esteve Abraham Lincoln quando discutiu a escravidão com Stephen Douglas um século antes.

Assim como a emergência de Lincoln alarmou os líderes proprietários de escravos e pró-escravidão, assim também soaram todos os alarmes no White’s Club em Londres, nos centros de comando da OTAN e entre todos que se consideravam eles mesmos como eterno governo dos EUA. Daquele momento até o dia em que foi assassinado em 1963, JFK combateu frente à frente todos os dias contra aqueles inimigos, dele e de toda a humanidade.

The Vineyard of the Saker (2/2)
Tropas francesas, patrocinadas pela OTAN e equipadas com helicópteros norte-americanos bombardearam, queimaram, torturaram e assassinaram árabes que combatiam pela independência nacional da Argélia. Mas Kennedy disse que tropas imperiais jamais derrotariam rebeldes que encarnassem as esperanças das populações locais. O fracasso da empreitada imperial era tão certo quanto fora no Vietnã, onde “despejamos dinheiro e equipamentos (…) num esforço desesperado para salvar para os franceses uma terra que não queria ser salva, numa guerra na qual o inimigo estava simultaneamente por toda a parte e em lugar nenhum.”

Kennedy divulgou que havia feito “estudo intensivo do problema” por mais de um ano. Chefiava a Subcomissão do Senado para questões das Nações Unidas – e, para o discurso daquele 2 de julho trabalhara em cooperação pessoal direta com a liderança dos rebeldes argelinos. Disse que há muito tempo criticava a política dos EUA que traía os próprios interesses dos norte-americanos, viesse dos Democratas de Truman, ou dos Republicanos de Dulles.

Atacou o axioma reinante segundo o qual qualquer outro interesse teria de ser sacrificado à Guerra Fria anticomunistas. Por que esse conflito prolongava-se tanto? Por que não terminara há muito tempo?
“Disseram-nos que a guerra era mantida viva exclusivamente por conta da interferência e intromissão lá do coronel Nasser (…) ou (…) por causa da intromissão de russos e comunistas na Argélia. Nenhuma dessas explicações que visam a distanciar de lá os verdadeiros agentes da rebelião argelina continua a convencer hoje (…) como se vê nas tentativas de calar jornais críticos e a própria opinião pública (…).

Se queremos manter a amizade de árabes, africanos e asiáticos – e devemos mantê-la, apesar do que diz o secretário de Estado [John Foster] Dulles, sobre não se tratar de concurso de popularidade –, não conseguiremos manter amizade alguma vendendo a eles a livre-empresa, descrevendo os perigos do comunismo ou a prosperidade dos EUA, nem limitando nossos contatos exclusivamente a pactos militares. Não. A força de nosso apelo (…) está em nossa filosofia tradicional e profundamente assumida, de liberdade e de independência para todos os povos em todo o mundo.”
Kennedy inseriu nesse discurso uma pista histórica notável. Ajuda-nos a ver até que ponto seu “estudo intensivo do problema” inspirou-o a reviver, a partir do falecido Franklin Roosevelt, a tradição norte-americana de liderança anti-imperial. JFK falou do “Sultão Ben Youssef, com quem o presidente Roosevelt reuniu-se à época da Conferência de Casablanca.”

Em 1943, FDR procurou esse sultão do Marrocos para garantir-lhe o apoio dos EUA para o desenvolvimento econômico do Marrocos e para a independência do país, contra o Império Francês. A reunião comoveu profundamente o Sultão, um dos favoritos de FDR, porque se opusera às tentativas, pelo governo francês de Vichy, para exilar a imensa população de judeus do Marrocos para campos nazistas de morticínio. Adiante, o Sultão diria que FDR havia estimulado o início do seu e de outros movimentos nacionalistas a favor da autodeterminação. Em 1956, ele negociara com sucesso, com França e Espanha, a independência do Marrocos; um mês depois do histórico discurso de Kennedy, o Sultão assumiu o título de rei Mohammad V.

Kennedy concluiu apresentando um projeto de Resolução do Senado, pelo qual conclamava o presidente Eisenhower e o secretário de Estado Dulles a usar o peso dos EUA, fosse mediante a OTAN “ou mediante os bons serviços do primeiro-ministro da Tunísia e do sultão do Marrocos”, para fazer avançar o processo da independência da Argélia e pôr fim àquela guerra trágica.

O discurso de Kennedy incendiou o ânimo dos nacionalistas africanos. Longa fila de líderes africanos, árabes e asiáticos acorreram a conferenciar com o jovem senador, que todos queriam ver eleito para o posto de próximo presidente dos EUA.[27]**

John Foster Dulles contra-atacou, atacando Kennedy no campo da Guerra Fria – como fizeram o New York Times, Dean Acheson e outros democratas anti-FDR.

Líderes imperialistas franceses e seus grupos do esquema de ‘manter-se por trás’ de outros patrocinadores da OTAN ficaram especialmente furiosos: JFK claramente se pusera ao lado dos franceses de boa vontade que concordavam com o que ele dissera, mas que tinham medo de falar abertamente contra os linhas-duras protofascistas que governavam a França.

Os elementos de linha-dura mais extremista do exército e dos serviços secretos franceses já eram parceiros operacionais do MI6 britânico e da facção dos Dulles desde 1946, tendo lutado na Indochina e depois na Argélia. Em 1958, os rebeldes árabes argelinos provocaram repressão das mais selvagens, ao estilo de Hitler, com tortura e assassinato, usando aquelas forças francesas – e lançando ambos os países, Argélia e França em completo caos.

Os linha-dura encenaram um golpe na Argélia contra o “fraco” governo de Paris. Charles de Gaulle saiu de seu retiro para resolver aquela grande crise nacional. Criou uma nova República, a Quinta, tornou-se presidente e liderou o país para longe do desastre daquele alinhamento fútil com o imperialismo britânico e guerra sem fim. Os linha-dura e respectivos parceiros britânicos e norte-americanos, que haviam esperado que de Gaulle defendesse a colônia francesa argelina, gritaram “traidor” contra de Gaulle e juraram vingança. O locus dessa fúria ensandecida foi o quartel-general da OTAN em Paris, França.

Durante todo esse período, a Guerra Fria tornara-se paulatinamente mais e mais perigosa. Forças soviéticas esmagaram a revolta que os anglo-americanos insuflaram na Hungria em 1956. A corrida armamentista nuclear intensificou-se depois que os soviéticos puseram em órbita da Terra, em 1957, o primeiro satélite, Sputnik. A estratégia insana de “guerra nuclear limitada” ganhou terreno dentro da OTAN.

5. Em tempos de medo, a Nova Fronteira

Dia 2/1/1960, o senador Kennedy anunciou sua candidatura à presidência. Com Kennedy em campanha, o presidente Eisenhower preparou-se para reunir-se com o premiê soviético Nikita Khrushchov numa conferência crucial entre Leste e Oeste, dia 16 de maio, em Paris. O presidente de Gaulle e o presidente Jawaharlal Nehru da Índia, haviam concebido a reunião para promover o desarmamento nuclear e a cooperação Leste-Oeste para ajudar o desenvolvimento de países subdesenvolvidos.[28]

Mas duas semanas antes da conferência, a CIA de Dulles enviou um avião U2 espião para missão de fotografias sobre a URSS. O avião foi imediatamente abatido; o piloto, capturado, confessou o objetivo da missão, dia 1º de maio, para grande embaraço de Eisenhower, e fez colapsar a reunião prevista entre Eisenhower e Khrushchov. Khrushchov revidou, cancelando o convite para que Eisenhower visitasse Moscou, como estava previsto para junho.

Kennedy enquanto isso venceu as primárias Democratas, ao conquistar os votos de West Virginia dia 10 de maio. Já a caminho da vitória final em novembro. Os parceiros na OTAN correram para evitar que se consumasse qualquer modificação séria em seus arranjos globais.

O primeiro alvo deles foi a África Central.

Em janeiro de 1960, o líder nacionalista do Congo, Patrice Lumumba havia declarado o Congo independente do governo belga. Os britânicos eram a força predominante no Congo, exercendo controle mediante a corporação União Mineira do Alto Katanga (fr. Union Minière du Haut Katanga), proprietária da maior parte da riqueza mineral do Congo, inclusive das reservas de urânio.

Pondo-se ativamente a favor de o Congo usar seus próprios recursos para arrancar o povo do atraso em que vivia – em outras palavras, exatamente o programa do senador Kennedy – Patrice Lumumba tornou-se o primeiro primeiro-ministro eleito do Congo, em junho de 1960. Em julho, os britânicos deram início à guerra contra o Congo: a província Katanga, controlada pelos britânicos, e onde se localiza grande parte da riqueza mineral do Congo, declarou-se independente do Congo.

Dias depois, o Partido Democrata dos EUA oficializou o nome de Kennedy como candidato do Partido à presidência.

Dia 14 de setembro, o governo eleito do Congo foi derrubado por forças militares belgas e paramilitares antinacionalistas patrocinadas pelo centro do poder britânico em Katanga e seus parceiros da CIA. O primeiro-ministro Lumumba foi sequestrado, escapou e foi várias vezes cercado pelos mesmos que, adiante, o assassinariam.

Operações Especiais de Lemnitzer

Em outubro de 1960, o general Lyman Lemnitzer foi nomeado comandante do Conselho do Estado Maior. Agora, os dois homens que havia traído o presidente Roosevelt na Operation Sunrise estavam no comando absoluto de todo o aparelho dos serviços estratégicos dos EUA, Dulles na CIA e Lemnitzer no Pentágono.

Lemnitzer expusera o que seu grupo via como suas qualificações para o cargo já em agosto, quando, como comandante do Exército, anunciara que o Exército estava pronto para “restaurar a ordem” nos EUA depois de uma guerra nuclear contra a União Soviética – impor novamente a normalidade, como militares fazem depois de uma inundação ou rebelião.[29]

Para se aproximar um pouco mais dessa guerra nuclear “ordeira”, o comandante Lemnitzer deu andamento aos planos para instalar mísseis balísticos nucleares dos EUA na Turquia,[30] junto à fronteira com a União Soviética.

Ao mesmo tempo, Lemnitzer e Dulles davam andamento a arranjos secretos para invadir Cuba e derrubar Fidel Castro. O movimento rebelde de Castro chegara ao poder em Cuba em 1959, e Castro confiscara propriedades de estrangeiros na ilha, inclusive as plantações da empresa de Dulles, United Fruit. Os russos já haviam dado ajuda militar a Castro, contra uma contrarrevolução que se esperava, vinda dos EUA. Havia pessoal militar russo na ilha. Uma invasão, naquelas circunstâncias, poderia levar a atirar entre duas grandes potências, ambas já então armadas com bombas atômicas mil vezes mais “mortais que a bomba de Hiroshima, e ambas já fazendo testes nucleares a céu aberto.

Nos EUA, o público debatia a ameaça do apocalipse que se aproximava.

Em junho de 1960, dois veteranos jornalistas de Washington haviam lançado livro surpreendente sobre os ataques nucleares dos EUA contra o Japão, em 1945.[31] Fletcher Knebel e Charles Bailey haviam usado material de arquivo recentemente divulgado e entrevistaram participantes do processo de decisão nuclear. Mostraram que muitos militares em postos chaves e líderes do governo não haviam sido autorizados a saber sobre o desenvolvimento da bomba ou os planos de ataque; e que conselhos de cientistas que se opunham à operação haviam sido descartados quando Truman, encorajado por Churchill, deu a ordem. Knebel e Bailey explicaram afinal que a bomba atômica modificara para sempre a lógica da guerra em grande escala, porque qualquer futura Guerra Mundial seria o suicídio da civilização.

John Kennedy foi eleito presidente dia 8/11/1960. Enviou representantes à África para anunciar o renovado compromisso dos EUA com a soberania nacional. Esses representantes trouxeram de volta a notícia de que, na África, multidões cantavam “Kennedy! Kennedy! Kennedy!”

Kennedy teria dez semanas para planejar um governo, antes da posse, dia 20/1/1961. Na Europa, Oriente Médio, África e América Latina, cresceram as esperanças de que, com os EUA num novo papel, a tensão e o medo poderiam afinal diminuir.

Procurando chegar ao governo e logo pôr algumas coisas a funcionar, sem provocar insurreição aberta do establishment anglo-norte-americano, Kennedy anunciou que Allen Dulles permaneceria no comando da CIA, e J. Edgar Hoover, no FBI. Para acalmar Wall Street, fez do banqueiro de investimentos Douglas Dillon secretário do Tesouro. [32] O mandato de Lyman Lemnitzer como comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas dos EUA chegaria a termo em 1962, e por tradição, seria renovado.

Mas JFK também trouxe para o governo gente intensamente leal às promessas do presidente de que o país caminharia noutra direção. O irmão Robert, que sempre estivera ao seu lado desde o tour anti-imperialismos de 1951, ficaria como sentinela armada, no posto de Advogado Geral.

Dia 17 de janeiro, três dias antes da posse de Kennedy, a chefe do núcleo do MI6 britânico no Congo, Daphne Park, deu o sinal, segundo indicam todas as fontes, para as forças que os anglo-norte-americanos haviam reunido, e o presidente do Congo, Patrice Lumumba, foi assassinado numa vila remota para onde havia sido levado depois de sequestrado. [33] O futuro presidente dos EUA não foi notificado do plano, nem sequer informado do assassinato, até dois meses depois de ter ocorrido (dia 13 de fevereiro).

Dia 17/1/1960, no dia em que os anglo-norte-americanos assassinaram Lumumba, o presidente Eisenhower fez seu Discurso de Despedida. Alertou que:
“Nos conselhos de governo devemos nos precaver contra o acúmulo de influência sem cooperação, (…) do complexo militar-industrial. O potencial para a desastrosa ascensão de poderes mal localizados existe e persistirá. Não devemos deixar que o peso dessa combinação ameace nossas liberdade ou os processos democráticos. Nada devemos tomar por garantido. Só uma cidadania alerta e capaz de ver e avaliar pode compelir a gigantesca máquina industrial e militar de defesa a trabalhar a favor, não contra, nossos métodos e objetivos pacíficos, de modo a que segurança e liberdade prosperem juntas.”[34]
O presidente John F. Kennedy, no Discurso de Posse, dia 20 de janeiro[35] conclamou a reverter o deslizamento rumo a guerra nuclear contra a Rússia, e claramente anunciou o retorno à missão fundacional dos norte-americanos:
“O homem tem em suas mãos mortais o poder de abolir todas as formas da miséria humana e todas as formas de vida humana. Mesmo assim, as mesmas crenças revolucionárias pelas quais lutaram nossos antepassados, ainda estão em disputa por todo o planeta (…).”
Despertou, especialmente entre os norte-americanos mais jovens, uma paixão por melhorar o mundo. Líderes do setor colonial conheciam o novo presidente muito mais que a maioria dos norte-americanos, e sentiram-se estimulados pelas possibilidades de progresso repentinamente florescentes.

Kwame Nkrumah chegou a Washington dia 8/3/1961, o primeiro chefe de Estado estrangeiro a visitar o presidente Kennedy. Começaram a trabalhar juntos para superar os obstáculos contra o grande projeto de Nkrumah: uma barragem no rio Volta em Gana, para gerar eletricidade barata que poderia ajudar a industrializar a África Ocidental.[36]

6. Mudança de Regime

Allen Dulles afinal apresentou ao presidente o plano que ele e o general Lemnitzer haviam urdido para derrubar Fidel Castro. Kennedy foi informado de que exilados cubanos invadiria e combateriam na ilha, não soldados dos EUA. Dulles alertou que, se o plano não fosse aprovado, exilados armados e perigosos poderiam organizar-se na Florida, dirigindo sua ira contra o presidente. Vendo Castro como ditador brutal ali tão perto do litoral dos EUA, e ainda pouco seguro da própria liderança como presidente, Kennedy aprovou o plano, dia 4/4/1961. Especificou que nem navios nem aviões de combate dos EUA fossem de modo algum envolvidos naquela ação. Mas Dulles e Lemnitzer planejavam obrigar Kennedy a enviar tropas norte-americanas, tão logo a invasão por 1.500 homens fracassasse, como inevitavelmente fracassaria.

Apenas cindo dias antes do início da invasão a Cuba, um representante de Dulles na Espanha garantiu a generais franceses que os EUA reconheceriam o novo regime deles mesmos, se derrubassem o presidente de Gaulle e instalassem uma ditadura militar que fizesse abortar o projeto de independência da Argélia.[37]

A invasão pela Baía dos Porcos em Cuba, nos dias 17-19 de abril teve rápido colapso – que causou grave embaraço ao novo presidente. Confrontando Kennedy, Dulles e Lemnitzer exigiram que ele garantisse reforço naval e por ar para salvar a operação, mas Kennedy manteve-se firme na negativa. Assumiu pessoalmente a total responsabilidade pelo fracasso do plano. A notícia rapidamente chegou à CIA e ao Pentágono, de que Kennedy seria perigosamente indeciso e fraco. Para o caso de deputados e senadores curiosos virem a se imiscuir naquele assunto, o general Lemnitzer destruiu as notas de seu assessor, das discussões no Estado-maior que levaram à Baía dos Porcos.[38]

Dia 21/4/1961, dois dias antes de Castro derrotar definitivamente os invasores em sua ilha, general franceses liderados pelo comandante da OTAN para a Europa Central, general Maurice Challe, iniciaram uma tentativa de golpe de Estado na França. Milhares de paraquedistas foram dispostos não distantes de Paris, preparados para avançar sobre o palácio presidencial. De Gaulle apelou ao povo francês para que o apoiassem, e salvou a França. Milhões de cidadãos franceses contiveram os golpistas com greves e outras ações pró-governo. Em aberta oposição a Dulles, o presidente Kennedy entrou em contato com o presidente francês e ofereceu-lhe apoio integral, inclusive assistência militar, se de Gaulle assim o desejasse.

James Reston, repórter do New York Times escreveu que a CIA planejara o
“o ataque de rebeldes contra Cuba semana passada; o incidente com o avião espião U-2 ano passado; e [agora] estava envolvida numa embaraçosa ligação com oficiais antigaulistas, que encenaram a insurreição da semana passada em Argel.

Nos últimos dias, o presidente examinou graves relatos vindos de Paris, segundo os quais a CIA esteve em contato com insurrectos que tentaram derrubar o governo de de Gaulle da França (…). Oficiais da CIA ofereceram um almoço aqui em Washington para Jacques Soustelle, líder de um movimento anti-de Gaulle, quando Soustelle esteve em Washington [em dezembro passado.]

Tudo isso fez aumentar o sentimento na Casa Branca, de que a CIA foi muito além dos limites de uma agência de coleta de inteligência e tornou-se defensora de homens e políticas que criaram embaraços para o governo dos EUA.”
Reston noticiou q Kennedy queria trazer seu irmão Robert para substituir Dulles na CIA e promover ‘uma faxina’ na Agência.[39] Claude Krief, em matéria para o semanário liberal L’Express, deu detalhes de um encontro clandestino realizado dia 12 de abril em Madrid, de “vários agentes estrangeiros, inclusive membros da CIA e os conspiradores de Argel, que expuseram seus planos aos homens da CIA.” A matéria dizia que os homens da CIA teriam reclamado de que a política de de Gaulle estaria “paralisando a OTAN e tornando impossível defender a Europa,” e que teriam garantido aos franceses que, se os franceses fossem bem-sucedidos [no golpe para derrubar de Gaulle], em dois dias Washington reconheceria o novo governo.[40]

No final de abril, Kennedy divulgou que considerava a CIA desleal, que – como diziam os jornais franceses – a Agência constituía “um estado reacionário dentro do Estado.”[41] Kennedy forçou a renúncia de Allen Dulles, de seu vice, Richard Bissell (envolvido nos dois desastres, em Cuba e em Paris), e de Charles Cabell, homem de ligação da CIA com o general Lemnitzer. Dulles deixou a CIA em novembro de 1961, mas em um ou dois meses já estava de volta ao centro do grupo que comandava a Agência, distribuindo e recebendo briefings várias vezes por semana. Os que frequentavam a casa de Dulles em Georgetown viam o presidente como usurpador perigosamente fraco.[42]

A opinião pública alinhou-se no apoio a Kennedy depois de ele ter assumido a responsabilidade pelo desastre na Baía dos Porcos. Decidido a deixar sua marca no próprio governo, Kennedy anunciou ao Congresso, dia 25/5/1961 o dramático objetivo de pôr um norte-americano em segurança na superfície da Lua antes do final da década.

Mas com as notícias de Cuba, Congo e Paris, o assassinato já estava no ar, em Washington. Os jornalistas Fletcher Knebel e Charles Bailey trabalhavam numa urgente atualização de seu livro de 1960 sobre guerra nuclear. Knebel entrevistou o Comandante do Estado-maior da Força Aérea, Curtis LeMay, que comandara o bombardeio contra o Japão, e transmitira as ordens para destruir Hiroshima. Knebel farejou ali o cheiro de loucura que já tomava conta do Pentágono.

Knebel e Bailey daquela vez construíram um relato de um futuro golpe de Estado contra o presidente dos EUA, que seria editado sob o título de Seven Days in May, 1962 [e filme; port. Sete Dias em Maio, Rio de Janeiro: Record]. Retratou as ideias e ações do principal perpetrador, um comandante do Estado Maior das Forças Conjuntas dos EUA ficcional, de nome “James Matoon Scott” reproduzido do personagem real e dos feitos de Lyman Lemnitzer. Para assegurar que a identificação seria completa, o autor deu ao presidente de ficção o sobrenome “Lyman.” Os golpistas o atacaram como fraco e impotente e perigoso por isso, denunciando a tentativa dele de buscar um acordo de desarmamento nuclear com a União Soviética.

7. A humanidade estará condenada à morte?

O verdadeiro comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas, Lyman Lemnitzer, reuniu-se com o presidente Kennedy e seu Conselho de Segurança Nacional dia 20/7/1961, quando a crise Leste-Oeste em disputa por Berlim ameaçava explodir em guerra quente na Europa. Lemnitzer apresentou seu plano para um ataque nuclear preventivo contra a União Soviética, a ter lugar em 1963. Era a Operação Impensável de Churchill, atualizada para tempos de uso termonuclear.

Lemnitzer alertou que se a guerra nuclear total tivesse começado um ano antes não seria completamente eficaz para aniquilar a Rússia; disse que só à altura de 1963 os EUA teriam absoluta superioridade nos sistemas de disparo da bomba, a ponto de os Soviéticos ficarem absolutamente sem real capacidade para retaliar. O presidente perguntou a Lemnitzer por quanto tempo os norte-americanos teriam de permanecer em abrigos antirradiação, depois de o país rival ter sido exterminado. Um auxiliar de Lemnitzer respondeu que cerca de duas semanas seriam suficientes. Kennedy encerrou a reunião ordenando que “nenhuma das pessoas presentes revele sequer o tema da reunião.”

Só em junho de 1993 foi publicado um memorando com notas dessa reunião, depois de cumprido o tempo obrigatório de sigilo absoluto. O professor James Galbraith, filho de John Kenneth Galbraith, respeitado conselheiro estrategista de Kennedy, encontrou esse memorando já livre do sigilo, e imediatamente o publicou.[43] O artigo que ele publicou à época foi quase absolutamente ignorado pela empresas de mídia.

McGeorge Bundy recordou que “No verão de 1961 [Kennedy] examinou um briefing formal de avaliação do que seria uma guerra nuclear total entre as duas superpotências; a reação do presidente, para Dean Rusk [secretário de Estado], enquanto ambos andavam do Salão Oval para uma reunião privada sobre outros temas foi ‘E nos consideramos raça humana’…”[44]

Dia 13 de março de 1962, o comandante do Estado-maior Lyman Lemnitzer entregou ao secretário da Defesa Robert McNamara um plano pelo qual os EUA executariam ataques terroristas contra suas próprias forças armadas e população civil, que seriam atribuídos ao regime de Castro, como “pretextos que servirão para justificar a intervenção militar dos EUA em Cuba.” Conhecido como Operation Northwoods, o plano permaneceria secreto até ter o sigilo levantado nos anos 1990s. Hoje pode ser encontrado online.[45]

O estado mental que se percebe nas linhas e entrelinhas de Northwoods chega até nós vindo diretamente da história do Império Britânico. Ações terroristas “sob falsa bandeira” [ing. “False flag” terror] sempre foram especialidade dos britânicos na África, Índia e Irlanda, e em todos os movimentos muçulmanos no Oriente Médio. Durante e depois da Guerra Fria, passou a ser marca registrada do MI6 e dos Serviços Aéreos Especiais que instruíram e orientaram a estratégia da OTAN.

Dentre as propostas de Lemnitzer podem-se destacar as seguintes:
– Bombardear a base dos EUA em Guantánamo, Cuba, e destruir navios dos EUA – “disparar morteiros de fora da base para dentro (…) Explodir munição dentro da base; iniciar incêndios. Queimar aviões na base aérea (sabotagem). Sabotar navios no porto; grandes incêndios – nafta. Afundar navios na entrada do porto. Fazer cerimônias de funeral para falsas vítimas (…) Podemos explodir um navio teleguiado em qualquer ponto de águas cubanas (…) A presença de aviões ou navios cubanos de simples investigação do intento do navio teleguiado serviria como prova muito convincente de que o navio estivesse sendo atacado.”

– Mentir às empresas de noticiário – “[Depois] de operação de resgate ar/,ar (…) para ‘evacuar’ membros remanescentes da tripulação inexistente (…) listas de baixas em jornais dos EUA causariam onda muito útil de indignação nacional.”

– Praticar atrocidades terroristas dentro dos EUA – “Podemos desenvolver uma campanha de terror comunista cubano na área de Miami, em outras cidades da Flórida e mesmo em Washington. A campanha de terror deve ser atribuída a refugiados cubanos interessados em obter abrigo nos EUA. Podemos afundar um bote carregado de cubanos a caminho da Florida (real ou simulado). Podemos simular atentados contra refugiados cubanos nos EUA, de modo a provocar ferimentos extensos em circunstâncias que possam ser amplamente divulgadas. Explodir algumas bombas de plástico em pontos cuidadosamente escolhidos (…)”

– Um ataque militar a “ser simulado contra nação caribenha vizinha (…)”

– “Incidente que demonstrará convincentemente que um avião cubano atacou e derrubou avião alugado por civis a caminho dos EUA (…) A aeronave [a ser destruída nesse falso ataque] (…) pode ter fuselagem pintada e numerada como perfeita duplicata de aeronave civil registrada de propriedade de organização da CIA na área de Miami (…)”

– Tentativas de sequestro contra tripulações civis, aéreas e terrestres (…)”

– Fazer “parecer que MIGs dos comunistas cubanos destruíram aeronave da Força Aérea dos EUA sobre águas internacionais em ataque não provocado.”
Kennedy descartou toda a proposta da Operação Northwoods. Cerca de um mês depois, Lemnitzer simplesmente propôs que os EUA desencadeassem invasão militar em grande escala contra Cuba, não provocada, sob o pressuposto de que os russos não reagiriam.[46]

Seis meses depois, quando expirou o mandato de Lemnitzer como comandante do Estado-maior, em outubro de 1962, Kennedy o exonerou. E designou o general Maxwell Taylor para substituí-lo no cargo, e para supervisionar todas as ações de Lemnitzer até o final de seu mandato. Os patrocinadores britânicos de Lemnitzer intervieram nesse momento crucial, para mantê-lo em alguma posição de poder, como o próprio Lemnitzer explicou a seu biógrafo autorizado:
“Na primavera de 1962 … [ele] foi convidado por seu velho comandante da 2ª Guerra Mundial, marechal de campo aposentado Duque Alexander, para visitá-lo em casa, próxima do castelo de Windsor, para o jantar de Páscoa. O duque já não era ministro da Defesa da Grã-Bretanha [como fora no gabinete Churchill, 1952-54], mas ainda tinha influência nos assuntos do governo, e era amigo de longa data de Harold Macmillan, o primeiro-ministro. Quando os dois andavam pelo jardim, o duque perguntou ao general por seus planos para a aposentadoria. Quando Lemnitzer respondeu que estava considerando várias ofertas no setor privado, Alexander perguntou-lhe se algum dia considerara a possibilidade de suceder o general [Lauris] Norstad, no posto de supremo comandante dos aliados na OTAN. Lemnitzer disse que a pergunta o surpreendeu e respondeu que ‘Não, claro que não! Tanto quanto sei, Larry está fazendo bom trabalho, e nunca pensei em tal coisa. Por que você pergunta?” Alexander respondeu que Macmillan, que Lemnitzer conhecera quando servira com Alexander na Itália, havia pedido que ele o sondasse, para saber se o general teria interesse no novo posto. Os dois homens continuaram a falar de outros assuntos, e Lemnitzer não voltou a ouvir falar daquele assunto, e retornou a Washington (…). O passo seguinte foi do próprio presidente Kennedy, o qual, em junho, disse que pensava nomeá-lo para suceder Norstad.”[47]
Kennedy viu a proposta dos britânicos, de pôr Lemnitzer no comando das forças militares da OTAN na Europa como meio de tirá-lo do Pentágono sem provocar uma revolta aberta dos seguidores militares dele.

8. Contra o puro mal, JFK não titubeou

O romance sobre um golpe de estado contra o presidente dos EUA Seven Days in May[48] foi lançado em setembro de 1962. Eventos assustadores e muito reais fizeram do livro best-seller.

Dia 22 de agosto, poucos dias antes do lançamento do livro, um esquadrão de assassinos em motocicletas atacou, com tiros de armas automáticas, o carro que estava o presidente de Gaulle da França. Os tiros passaram muito perto da cabeça de de Gaulle, que contudo escapou ileso.

O general Lemnitzer deixou o comando do Estado-maior dia 1/10/1962, mas sua partida para o quartel-general da OTAN em Paris foi temporariamente adiada, enquanto prosseguia a caçada aos quase assassinos do Exército Secreto Argelino. Lemnitzer permaneceu no Pentágono, com status não oficial de chefe supremo entre os colega, como Allen Dulles permanecera dentro da CIA.

Foi assim, em meio à luta pela sobrevivência do governo legal e legítimo, que começou a Crise dos Mísseis Cubanos, dia 16/10/1962. Durante aquelas horas terríveis, o livro Seven Days in May era o mais vendido em Washington DC, porque ninguém o via como peça de ficção.

Um avião espião dos EUA que sobrevoava Cuba tirou fotografias que mostravam que os soviéticos haviam trazido para a ilha mísseis balísticos capazes de atacar os EUA com ogivas nucleares. O presidente manteve secreta a situação, até chegar a uma firme conclusão sobre o que fazer, de modo a retirar de Cuba os mísseis sem iniciar a 3ª Guerra Mundial. O já demitido comandante do Estado-maior Lemnitzer participou das reuniões do Comitê Executivo especial [ing. “Executive Committee” (Excomm)] que Kennedy criara para deliberar sobre a via correta a seguir. [49]

Uma batalha de vontades começou ali, dia a dia. O presidente e os funcionários leais queriam dar aos russos uma via para a retirada sem serem esmagados ou humilhá-los. A facção Dulles-Lemnitzer queria bombardear os locais onde estavam os mísseis e na sequência os EUA invadiriam Cuba. Para eles, ainda que fossem mortos soldados russos, nada aconteceria; e ainda que os russos atacassem em Berlim (então dividida ao meio entre Leste e Oeste) como retaliação, mesmo assim os EUA poderiam derrotá-los facilmente num conflito nuclear.

Kennedy levantou a possibilidade de que os EUA pudessem remover seus mísseis da Turquia, e em troca os soviéticos também retirariam os deles, de Cuba. Lemnitzer reagiu furioso. Disse que os mísseis na Turquia não podiam ser retirados, porque não pertenciam aos EUA: pertenciam à OTAN!

Filme parcialmente ficcional sobre a Crise dos Mísseis Cubanos – 13 Days, estrelado por Kevin Costner– não inclui Lemnitzer nesses encontros estratégicos secretos. Ainda assim, o filme mostra as tentativas da facção de Lemnitzer, empenhada em empurrar o presidente para uma guerra catastrófica.

Kennedy decidiu impor um bloqueio naval a Cuba, que permitia deter quaisquer navios que transportassem armas de ataque. Como os EUA e os soviéticos continuavam a testar armas nucleares durante a crise, o mundo aguardava o resultado e vivia a iminência da morte da humanidade.

Kennedy disse que se os soviéticos retirassem os mísseis, ele prometeria jamais invadir Cuba. Manteve-se em contato com o premier soviético Nikita Khrushchov mediante canais privados, e mandou seu irmão Robert reunir-se sob o mais estrito sigilo, com o embaixador soviético Anatoly Dobrynin. A crise terminou quando foi aceito o oferecimento de retirar os mísseis instalados na Turquia, remoção que aconteceria silenciosamente seis meses mais tarde.

O candidato da Mandchúria, filme sobre um complô para assumir por assassinato o controle da Casa Branca, foi lançado nos cinemas dos EUA no auge dos 13 dias da crise dos mísseis. O diretor, John Frankenheimer, tornou-se amigo muito próximo de Robert Kennedy.[50] Frankenheimer comprou os direitos de Sete dias em maio, novela sobre um futuro golpe de Estado nos EUA, e deu início à adaptação do romance para o cinema. O presidente Kennedy e auxiliares deram a Frankenheimer sua mais ativa e dedicada cooperação, para o projeto do novo filme. O filme é instigante reflexão sobre a psicologia dos dois lados, dos inimigos mortais que confrontaram um o outro, dentro do Excomm durante a crise dos mísseis.

Lyman Lemnitzer, derrotado na Crise dos Mísseis Cubanos e demitido do comando do Estado-maior – mas não preso – viajou para Paris como comandante das forças militares da OTAN. Lemnitzer herdou o aparelho continental da OTAN, de assassinos de Máfia, nazistas hitleristas e fascistas de Mussolini, linhas-dura do império colonial francês e mercenários brancos indignados por terem perdido a África. Essa foi a rede para “combater por trás” que o próprio Lemnitzer vira ser construída depois da 2ª Guerra Mundial pelo Serviço Secreto Britânico, com a ajuda de Dulles e apoio logístico do próprio Lemnitzer. Só em outubro de 1990 o primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti abalaria o mundo político, ao revelar a existência dessa rede clandestina, que adiante receberia o nome de seu braço italiano, “Gladio.”

Esse foi o aparelho que várias vezes tentara assassinar o presidente Gaulle, e que finalmente expulsou da França a OTAN e Lemnitzer, em 1967.

Intimidação por essa rede “Gladio” já consumara um golpe de Estado na Itália, em 1964, forçando o governo a expurgar ministros e partidos que favorecessem qualquer tipo de cooperação entre Leste e Oeste. O mesmo aparelho já assassinara vários líderes alemães que buscavam construir relações pacíficas entre Leste e Oeste.

O crime mais notório da rede foi a chamada “Estratégia de Tensão” – explodir bombas e assassinar civis em ataques forjados imediatamente atribuídos a grupos radicais não existentes, para forçar a população à submissão mais servil.[51] O aparelho é autor do sequestro e assassinato em 1978 consumado por chamadas “Brigadas Vermelhas”, do primeiro-ministro italiano Aldo Moro. Foi o mesmo tipo de campanha terrorista sob ‘falsa bandeira’ que Lemnitzer propusera sem sucesso ao presidente Kennedy para os EUA. A tática persistiu e levou o mundo à era de terror e contraterror em que se vive hoje.

Em 1967, o Advogado Distrital de New Orleans, Jim Garrison, processaria Clay Shaw, agente de CIA/MI6, como autor do assassinato de JFK – e mostrando que Shaw era figura central no aparelho de assassinatos da rede italiana “Gladio”.

9. O que o mundo perdeu no Golpe Norte-americano

O resultado pacífico da Crise dos Mísseis Cubanos que atendeu aos melhores interesses dos EUA e da Rússia, foi vitória decisiva de Kennedy sobre seus adversários anglo-norte-americanos. Com a opinião pública agradecida e firmemente postada como sua força de apoio, Kennedy imediatamente fez valer a vantagem, agindo para assegurar um futuro em que interesses norte-americanos mais uma vez alinhavam-se com o progresso e a segurança mundiais.

O assassinato de Kennedy, um ano depois desses eventos (22/11/1963), tem de ser visto como o ato decisivo de um golpe de estado contra os EUA. A ausência que daí resultou, do otimismo e da criatividade norte-americana, que desapareceram dos assuntos mundiais, foi profundamente desmoralizante.

É possível que hoje estejamos assistindo a uma revolta global contra o sistema falido que os inimigos de Kennedy impuseram depois do assassinato do presidente: especulação financeira não controlada, desindustrialização e a devastação de guerras permanentes. Talvez seja hoje possível, culturalmente e politicamente, que os cidadãos voltem a compreender o ponto de vista de Kennedy – tradicional ponto de vista norte-americano, que passou a ser incompreensível para várias gerações, exposto ao descrédito induzido e à degradação social. Examinaremos rapidamente, adiante, o modo como Kennedy, como representante do povo dos EUA, agiu sobre o mundo imediatamente depois de ter derrotado seus inimigos internos na Crise dos Mísseis.

O primeiro alvo de Kennedy foi o Congo, mergulhado em guerra e caos desde que o Império assassinara o primeiro-ministro Patrice Lumumba, logo depois da posse de Kennedy na presidência dos EUA.

O velho, cruel e odioso sistema colonial na África contava, naquele momento, com pouco apoio fora da City de Londres, de Wall Street e de um círculo da extrema-direita que seguia a grande finança. Mas a família real britânica e seus primos europeus, acompanhados pelos respectivos aparatos militares e de serviços secretos, definiam a própria existência em torno de seus investimentos no setor colonial. A colônia original da coroa belga no Congo já estava há muito tempo sob controle dos interesses conexos dos bancos e das grandes mineradoras que ligavam a Rodésia britânica e a província Katanga no Congo, e onde se reuniam os Morgan, Rockefeller e outros clientes dos Irmãos Dulles.[52]

O “Lobby Katanga” em Londres comandava o caos no Congo, a partir de seus castelos, dos salões do Clube White’s e das empresas religiosamente fiéis que operavam na City de Londres. Os líderes do Lobby Katanga eram o marquês de Salisbury, o primo dela Lord Selborne (Roundell Palmer), Lord Clitheroe, Ulick Alexander e o capitão Charles Waterhouse, os quais, juntos, administravam a Casa Real britânica, representavam os interesses da Coroa, administravam as Concessões Tanganica e a União Mineradora do Alto Katanga, eram proprietários das ferrovias principais centro-africanas, contratavam gangues de mercenários e controlavam os mecanismos de financiamento para o Partido Conservador.

Apenas um mês depois do sucesso em Cuba, o presidente Kennedy conseguiu convencer o muito relutante ministro de Relações Exteriores da Bélgica Paul Henri Spaak a assinar com ele uma declaração conjunta, ameaçando adotar contra Katanga “severas medidas econômicas”, a menos que a secessão fosse revertida imediatamente. Simultaneamente, Kennedy aplicou dura pressão política contra o regime britânico que apoiava o desmanche do Congo: decidiu proibir a venda, para o Reino Unido, de um sistema independente de armas nucleares, o míssil ar-terra Skybolt, que os britânicos esperavam comprar dos EUA. A imprensa britânica abriu fogo contra Kennedy; alas anglófilas da direita norte-americana no Sul Profundo dos EUA, acusaram Kennedy de estar traindo a Raça Branca. Kennedy reuniu-se com o primeiro-ministro MacMillan e forçou-o a aceitar uma proteção antinuclear que os EUA lhe dariam, em vez dos mísseis Skybolt.

Com os britânicos já começando a se alinhar, Kennedy buscou a ONU e obteve que defendessem a soberania nacional do Congo com forças militares da própria ONU e logística fornecida pelos EUA. Em poucas semanas, a paz estava restaurada, e a secessão de Katanga chegou ao fim (o líder secessionista Moise Tshombe foi preso, e o governo do Congo ordenou que diplomatas britânicos deixassem o país.

Uma carta publicada pelo Daily Telegraph de Londres dia 9/1/1963 expressava a fúria imperial: “Testemunhamos (…) três tentativas de dominação mundial, primeiro por Hitler, depois por Stálin, agora pelo presidente Kennedy.” Mas essa ira talvez não fosse igualmente partilhada por todos os britânicos, que só estavam vivos porque o presidente dos EUA raciocinara com firmeza pela própria cabeça e não se deixara intimidar pelos antirrussos mais alucinados.

Naquele momento, a Barragem e Usina Hidrelétrica Akosombo, o grande projeto conjunto de Gana-EUA, estava na metade da construção. Mais amplamente, Kennedy queria usar a energia nuclear como ferramenta para construir paz duradoura. A Agência Internacional de Energia Atômica inaugurou um painel dedicado a serviços de dessalinização de água e irrigação, como projetos conjuntos de EUA e Rússia, Israel e árabes do norte da África, Índia e Paquistão, América do Sul e do Norte.

O “Discurso pela paz”, de Kennedy

Depois do Congo, Kennedy moveu-se diplomaticamente na direção de um acordo EUA-soviéticos, para pôr fim aos testes de armas nucleares, e de acordo amplo para fazer retroceder a corrida armamentista ensandecida e suicidária. Um Tratado de Banimento de Testes entre EUA, URSS, Reino Unido e França fora item da cúpula de Paris, na primavera de 1960 e havia sido soterrado pelo incidente com o avião U-2 espião.

O famoso “Discurso da Paz” de JFK aconteceu dia 10/6/1963, proferido na American University in Washington, DC, na abertura do ano letivo.[53] Kennedy anunciou que os EUA estavam pondo fim, por decisão unilateral, aos testes com armas nucleares, para estimular um acordo EUA-soviéticos. Disse que a Rússia sofrera mais que qualquer outro país, para derrotar Hitler.

Conclamou os norte-americanos a reexaminar as próprias atitudes em relação à Rússia:
“… não ver exclusivamente uma visão distorcida e desesperada do outro lado; não ver o conflito como inevitável, o acordo como impossível, e a comunicação como, exclusivamente, troca de ameaças. Nenhum governo ou sistema social é tão mau que o povo a ele submetido deva ser considerado absolutamente sem virtude. Como norte-americanos, o comunismo nos parece profundamente repugnante, porque nega a liberdade e a dignidade pessoais. Mesmo assim se pode saudar o povo russo por suas muitas conquistas – na ciência, no espaço, de crescimento econômico e industrial, por sua cultura e por seus atos de coragem (…) Que tipo de paz queremos? Não uma Pax Americana imposta ao mundo pelas armas de guerra norte-americanas. Não a paz dos cemitérios ou a segurança do escravo (…). Nossos problemas foram criados pelo homem. Podem portanto ser resolvidos pelo homem.”
Os EUA e os soviéticos logo depois firmaram um acordo de banimento parcial dos testes nucleares, que abria caminho para acordos maiores.

No dia seguinte ao Discurso da Paz, Kennedy falou ao povo dos EUA sobre a luta por direitos civis.[54] Mais uma vez, desafiou atitudes dos norte-americanos:
“Cem anos já se passaram desde que o presidente Lincoln libertou os escravos, mas nem por isso os herdeiros deles, os netos deles, são livres hoje. Ainda não estão livres dos ferros da injustiça. Não estão livres da opressão social e econômica. E essa nação, por todas suas esperanças e pelo muito que diz, não será completamente livre até que todos os cidadãos norte-americanos sejam livres.

Pregamos liberdade por todo o mundo, e acreditamos nas nossas promessas, e muito prezamos nossa liberdade aqui dentro de casa, mas o que dizemos realmente ao mundo e, muito mais importante, o que dizemos aqui, nós, uns aos outros, que essa é terra dos livres, exceto para os negros; que não temos cidadãos de segunda classe, exceto os negros; que não temos sistema de classe ou casta, nem guetos, nem raça superior, exceto se se trata dos negros?

É chegada a hora de essa nação fazer o que prega.”
Com a Marcha sobre Washington do dia 28/8/1963 e o ímpeto adicional que trouxe ao Movimento pelos Direitos Civis, quando o reverendo Martin Luther King pronunciou o famoso discurso “Eu tenho um sonho…”, o governo Kennedy começou a redigir os projetos das leis de direitos civis, que seriam aprovadas depois de o presidente ter sido assassinado.

Nas últimas semanas de vida, Kennedy pressionou por um programa espacial conjunto com a União Soviética; dia 20/9/1963, na ONU, falou de uma expedição conjunta à Lua, de norte-americanos e soviéticos.[55]

Dia 5/10/1063, o presidente Kennedy decidiu retirar do Vietnã os conselheiros militares dos EUA, para impedir uma guerra norte-americana naquele país. Essa decisão foi reforçada por seu Memorando de Ação pela Segurança Nacional n. 263, publicado dia 11/10/1963.[56]

Kennedy já trabalhava para persuadir os opositores da paz com Fidel Castro, quando foi assassinado.
*****
E esse ‘desfecho’ foi o que o senador Chuck Schumer (Dem., NY) tinha em mente dia 3/1/2017 quando tentou intimidar o presidente Donald Trump chamando-o de “realmente idiota” por atacar as agências do serviço secreto: “Vou dizer uma coisa, meta-se com a comunidade de inteligência, e a partir do domingo o pessoal lá tem seis modos de agir contra você.”

A ameaça brutal de Schumer foi clara: ameaçou aplicar a Trump o tratamento que foi dado a Kennedy.

Desde o assassinato do último presidente dos EUA que realmente se levantou contra os oligarcas, EUA e Grã-Bretanha foram obrigados a desistir do progresso industrial nos respectivos países, a atacar o direito dos povos pobres a se industrializar (‘indústria’ foi convertida em sinônimo de “ação que põe em risco o meio ambiente” e como risco militar, no caso de alguns países chegarem a acumular efetivo conhecimento científico. Os governos, subornados e coagidos, renderam-se, entregando o controle econômico a financistas, saqueadores universais.

Os sempre mesmos inimigos da humanidade lançaram dúzias de guerras à moda Baía dos Porcos – no Iraque, na Líbia, na Síria, por toda a África e em volta da Rússia – matando milhões, só produzindo refugiados e terroristas, até quando andam “pregando a liberdade pelo planeta”. Pagaram bilhões de dólares para comprar a derrubada do presidente eleito na Ucrânia, no instante em que ele optou por construir relações mais íntimas com a vizinha Rússia.

A fúria dos cidadãos contra o Establishment varreu a Europa e atingiu os EUA nas eleições de 2016, nos votos dados a Bernie Sanders e Donald Trump. Quando Wikileaks revelou os atos de traição que Hillary Clinton cometeu contra os EUA – ela prometeu aos seus apoiadores em Wall Street que teriam controle completo sobre a política dos EUA –, voltou à tona então a mentira frenética de sempre, de que a Rússia, ninguém entendeu como, seria responsável por ter vazado o discurso secreto de Clinton… o que ‘significaria’ que a Rússia teria influído nas eleições nos EUA.

A OTAN– a mesma OTAN de Lord Harold Alexander e de seu idolatrador Lyman Lemnitzer – está nesse momento plantando soldados norte-americanos e britânicos nos países bálticos sobre as fronteiras com a Rússia, preparando-se para uma 3ª Guerra Mundial.

Nem é preciso muita imaginação para ver o quão rapidamente e o quão ferozmente os EUA teriam reagido durante a Guerra Fria, se a União Soviética plantasse tropas prontas para combate bem ali, sobre a fronteira entre EUA e México.

Kennedy agiu para remover Allen Dulles e Lyman Lemnitzer. O assassinato de Kennedy deu aos dois e respectiva facção uma vitória, mas não antes de Kennedy ter deixado marca indelével na história da humanidade.

Agora, o presidente Donald Trump demitiu o diretor do FBI James Comey por ter participado na evidente tentativa de golpe para derrubar o presidente dos EUA sob o mesmo velho pretexto de defender os EUA contra ‘os russos’.

Avançando contra o mesmo golpe, Trump decidiu enviar delegação dos EUA à reunião de cúpula, em Pequim, da Iniciativa Cinturão e Estrada, sobre infraestrutura global, para discutir vias que permitam aos países sair do atual desastre estratégico.

Em anos recentes, a China tirou da miséria centenas de milhões de cidadãos chineses. Agora, o país já está articulado com a Rússia e vários outros países de governos bem-intencionados orientados para o maior conjunto de projetos de transporte, energia elétrica e instalações industriais que o mundo jamais viu.

Dia 29 de maio de 2017, os EUA comemoraram os 100 anos de nascimento do presidente Kennedy.

Os EUA, que deram a eletricidade ao mundo no século 19 e levaram o mundo à Lua, no século 20, bem fariam para homenagear a memória de JFK se se unissem aos maiores projetos de infraestrutura e desenvolvimento que nossa era jamais viu. Seria bom modo de voltarem ao mundo civilizado.*****

* Autor recebe e-mails em antonchaitkin@gmail.com.

** Os números remetem às notas no artigo original em inglês. São notas quase sempre muito técnicas, ou longas citações de trechos de livros, cuja tradução é dificílima para nós, sem os meios e os recursos para tradução daquele tipo. Então optamos por manter a remissão ao original em inglês [NTs]

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