A batalha de Allepo e o novo jogo do Oriente Médio 1

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Resultado de imagem para +A Vitoria do Exercito Sírio em allepo

A vitória das forças Sírias em Allepo revela ao mundo uma pendência do projeto americano diante da nova ordem mundial que pretendem implementar. O projeto é longo, extenso, complexo, dinâmico, mas foi barrado basicamente porque os russos disseram não as intenções da Casa Branca.

Mas o que de fato se passa neste insistente conflito e que agora toma conta das redes sociais e do noticiário? O que se passa na Síria? Quem luta contra quem? Lutam pelo que? Qual motivo de correntes brasileiras se posicionarem ao lado do imperialismo americano contra a unidade territorial Síria? Qual a influência da luta sectária?

Tentarei responder essas e outras perguntas neste breve artigo.

Por Diego Rabelo*

“O Orientalismo, portanto, não é uma visionária fantasia europeia sobre o Oriente, mas um corpo elaborado de teoria e prática em que, por muitas gerações, tem-se feito um considerável investimento material. O investimento continuado criou o Orientalismo como um sistema de conhecimento sobre o Oriente, uma rede aceita para filtrar o Oriente na consciência ocidental, assim como o mesmo investimento multiplicou – na verdade, tornou verdadeiramente produtivas – as afirmações que transitam do Orientalismo para a cultura geral.” (Edward Said – Orientalismo, o oriente como invenção do ocidente)

O Oriente médio

O Oriente Médio é um lugar estratégico para a geopolítica global seja pelos seus recursos naturais, pela sua diversidade cultural, ou mesmo pela proximidade a dois atores globais como Rússia e China. É um local onde se realizou encontros de civilizações e que por séculos se estabeleceu como a principal rota da história do comércio mundial.

Para compreender o conflito sírio é necessário entender o complexo jogo do oriente médio e suas multifacetadas realidades. Há hoje dois grandes projetos em disputa pelo futuro político na região. O primeiro deles é o projeto hegemônico das grandes potências ocidentais, liderado pelos Estados Unidos, França, Reino Unido, além dos aliados locais como Israel, Turquia, Monarquias do golfo (Arábia Saudita, Qatar, Emirados, Bahrein. etc). O segundo, do outro lado, é o projeto denominado de resistência, ou arco da resistência como preferem chamar alguns analistas, que congrega o Irã, a Síria, o Hezbollah no Líbano e até pouco tempo o Hamas na Faixa de Gaza (falarei deles mais a frente).Existem ainda outros atores nestes dois espaços, mas para tentar simplificar a compreensão trabalharei com estes.

Os meios de comunicação ocidentais preferem definir o arco da resistência como um “eixo xiita” no intuito de trazer o conflito sectário como o centro dos grandes problemas enfrentados na região. Já tive a oportunidade de tratar essa questão em outros textos produzidos sobre os conflitos sectários e\ou semânticos, um deles aqui. Mas o que importa dizer sobre este aspecto é que a religião é uma constante na região e é justamente por esse motivo que a interpretação pelo viés sectário é uma poderosa ferramenta para justificar e mascarar os conflitos políticos. Por tanto, o que se deve ter em mente é que estes choques são eminentemente políticos, porém, instrumentalizados pelo projeto hegemônico para contribuir com a fratura política da região.

As “Primaveras” Árabes

Em 2011 a região atravessou um profundo período de mudanças que a desestabilizou por uma série de fatores. Todos os regimes foram questionados por uma formula explosiva que combinava três fatores comuns nos distintos países: a) anos de regimes autoritários; b) acesso a novos aparelhos celulares e as mídias como facebook, youtube e etc; e c) uma imensa quantidade de jovens. Alguns desses regimes não conseguiram conter a ascensão das amplas massas e foram derrubados como Hosny Mubarak no Egito e BenAli na Tunísia.

Contudo, é importante destacar que as “Primaveras” não foram movimentos homogêneos, claros e objetivos como tentam simplificar alguns setores da esquerda pequeno-burguesa. Houve nas primaveras árabes o que eu chamo de um processo de “recuperação” (conceito emprestado de João Bernardo e Luciano Pereira da obra “O capitalismo Sindical”) dessas mobilizações políticas que as direcionou em outro sentido para além daquelas mobilizações populares.

Quando se iniciaram os processos de mobilização todos (dos Estados Unidos ao Hezbollah, passando pelo Iran e pela Arábia Saudita) correram para garantir os seus interesses, tendo em vista que todo mundo, sem exceção, tem interesses na região. Os americanos e seus aliados perceberam que poderiam utilizar aquele levante espontâneo das massas e as canalizaram para derrubar regimes que lhes eram hostis e assim aconteceu na Líbia de Khadafi. Os mesmos “moderados” que operam hoje na Síria, operavam em Trípoli e com os mesmos argumentos e instrumentos.

Há um debate em torno do que foram as “Primaveras” Árabes no Oriente Médio mas que, infelizmente, vem se reproduzindo no caos do “fla-flu” muito comum nas redes sociais. Uns atestam que é uma revolução, outros uma contra-revolução. Particularmente, tendo a inserir mais elementos nessa interpretação e defino da seguinte maneira: a) sim, aconteceram grandes mobilizações políticas por mais participação, por mais abertura, por melhores condições de vida; b) sim, esse descontentamento foi incorporado a agenda imperialista e impulsionado para desestabilizar governos não alinhados.

Vale ressaltar que um conjunto de fatos e resultados saídos das “Primaveras” vão ao encontro dos interesses mais escusos dos sauditas, qataris e bahreins. Há uma teoria de que o mercado imobiliário de Dubai chegou a um pico, com pessoas ricas em países instáveis – como Egito, Líbia, Síria e Tunísia – comprando casas e apartamentos em lugares mais seguros, como forma de proteger seu patrimônio. Esse efeito teria sido sentido também em cidades como Paris e Londres.

A interpretação e formulação sobre as revoluções coloridas e guerras hibridas tem produzido excelentes resultados sobre os mecanismos de intervenção que os Estados Unidos têm se utilizado para restabelecer suas posições no mundo. Por tanto, deve-se rejeitar as teses que reivindicam definições a priori sobre esse ou aquele fenômeno, esforçando-se para compreender caso a caso. Mas isso é um tema pra uma próxima abordagem.

A crítica ao “campismo”

Um dos mecanismos para justificar a política dos setores capituladores e pró-imperialistas é a máxima de que a tese de um arco da hegemonia e outro da resistência é um campismo que serve apenas para encobrir o apoio a ditadores sanguinários. Costumo dizer a estes segmentos que do ponto de vista da academia e do diletantismo pode-se dizer e escrever absolutamente tudo. Pode-se afirmar preconceitos, aprofundar diferenças, falar bobagens fumando bons charutos, galantear esquerdices em eventos inúteis, ou publicar panfletos como se fossem grandes contribuições a luta de classes. Mas existem responsabilidades sobre o que se faz e o que se diz e, invariavelmente, a política se mostra como ela é.

Era possível se opor a Kadafi e, ao mesmo tempo, se opor a uma guerra contra Kadafi?  É claro que sim.  Esta é uma posição que todos deveriam adotar no meu ponto de vista. Aliás, esta era a posição do Arco da Resistência, inclusive do Hezbollah, como podemos ver aqui. Como é possível se opor ao governo do seu país e, ao mesmo tempo, se opor a uma intervenção militar estrangeira com o intuito de derrubá-lo do poder. Mas alguns segmentos parecem não conseguir diferenciar essa linha política e simplesmente passaram de “mala” e “cuia” ao colo dos Estados Unidos, do Sionismo e do Wahhabismo saudita.

Todos sabem que o regime de Kadafi, assim como o de Saddam Hussein foi mantido pelo imperialismo norte-americano até quando os seus interesses estiveram assegurados. Mesmo apoiando o regime líbio durante uma década, os Estados Unidos estavam prontos pra inserir uma zona de exclusão aérea no país e contar ao mundo que estavam a levar a democracia a mais uma nação. A posição mais correta a se adotar, neste caso, foi feita ainda no início das mobilizações da “Primavera” quando os manifestantes exibiram cartazes mostrando que se opunham a qualquer intervenção estrangeira. Era nítido que uma destituição do governo iria piorar as coisas, como de fato aconteceu.

A defesa da autodeterminação dos povos não pode ser um penduricalho proferido em palestras acadêmicas quando assim soaram audíveis nos auditórios mundo à fora. O direito de decidir o seu próprio destino é parte dos direitos humanos e devemos dizer não a intervenção estrangeira que promove o caos em países estáveis. Não se trata de adotar um pacifismo diante dos distintos cenários que se apresentam, mas de impedir a ação do imperialismo legitimado a cada desestabilização provocada no mundo.

O estado islâmico\Isil\ISIS\Daech\Daesh

Não é exatamente uma novidade a utilização de grupos terroristas como estratégia do imperialismo para as suas guerras por procuração. O departamento de Estado e a sabem exatamente quem são e como esses grupos operam no Oriente Médio, mas sabem também a importância dos mesmos para a política externa americana.

O que é surpreendente nisso tudo é que, mesmo com o conhecimento público da relação dos Estados Unidos e outras potências ocidentais com esses grupos, o cinismo permanece reproduzido nas grandes corporações midiáticas do mundo inteiro. A legitimidade econômica e militar dos EUA chegou a um nível tão inimaginavelmente grande que poucos são capazes de se fazerem ouvir ao denunciar essas relações.

Nunca é demais lembrar que foram os Estados Unidos que montaram a AL Qaeda e toda a sorte de terroristas salafistas, wahhabitas que hoje habitam fortemente o Oriente Médio e que inspiram loucos e degenerados pelo mundo inteiro através da tática do lobo solitário. Quando alimentaram, financiaram e protegeram Bin Laden para combater os soviéticos no Afeganistão, os americanos criaram um tipo de jihadismo que a época eles chamavam, pomposamente, de mujahedins.

Há um conjunto de artigos e documentos que comprovam essa relação e eu já tive oportunidade de compartilha-los. Mas, sem dúvidas, um dos melhores e mais atuais artigos desta categoria é o que foi escrito pelo professor Jeffrey Sachs no final de 2015 sobre como os EUA alimentam e distribuem esses grupos pela região. Vale a pena a leitura aqui.

O Daesh ou Estado Islâmico só existe por conta da política externa americana que, ao tentar impor uma nova ordem à região, destruiu parte significativa das unidades territoriais fragilizando ainda mais a já frágil ordem existente. A guerra do Iraque em 2003 foi determinante para o surgimento de grupos como esse e se aproveitou justamente do vácuo de poder deixado pela intervenção americana com a derrubada de Saddam Hussein quando este não mais servia aos interesses ocidentais.

Foi com o início das “Primaveras” Árabes e o processo de desestabilização produzido em toda a região que fez com que o Daesh atravessasse a fronteira do Iraque e fosse combater na Síria ganhando territórios com impressionante velocidade e facilidade. O resultado é o que vemos hoje, parte significativa do território sírio e seus campos petrolíferos sob domínio dos terroristas, pra não falarmos do Iraque que é onde o Isis está estabelecido e é mais forte.

Síria

“Assad tem que sair”. Essa era a então palavra-de-ordem das diplomacias ocidentais replicadas pelos seus aliados no Oriente Médio enquanto o Daesh avançava pelos territórios iraquianos e sírios e assim estabelecer o seu Califado. Mas a habilidade da política externa russa foi paciente como um jogador de xadrez a ponto de expor os verdadeiros interesses americanos e seu instrumental apoio ao terrorismo wahhabita.

A Síria está localizada justamente no coração do conflito atual do Oriente Médio. Ela é o elo de ligação entre o Irã e os demais grupos de resistência que se organizam na região e tentam se opor ao projeto hegemônico. Mas, fundamentalmente, a Síria é peça importante na resistência Palestina e na resistência contra projeto de Israel em anexar por completo os territórios dos palestinos. É na Síria que se encontra a principal oposição militar e diplomática aos interesses sionistas e diversos grupos palestinos operam de lá.

Além disso, a síria é o “corredor” da ajuda técnica, política e militar que o Irã presta aos distintos grupos que se defendem de Israel, da Arábia Saudita e dos Estados Unidos, em especial ao Hezbollah libanês, único grupo armado que conseguiu infligir consecutivas e seguidas derrotas militares ao sionismo.

Não é à toa que durante os combates contra o terrorismo o regime sírio foi atacado diversas vezes pela força aérea israelense sob o pretexto de não permitir ao Hezbollah acesso a armas mais sofisticadas para enfrentar a guerra contra o país. É claro que Israel faz parte do jogo que visa desestruturar e derrotar Assad, mas em alguma medida a sua preocupação com as armas que chegam ao Hezbollah é parte dos preparativos para o próximo conflito que alguns dizem estar marcado para acontecer.

Na nova arrumação que os Estados Unidos pensavam para o Oriente Médio estava em equacionar o programa nuclear iraniano, desejo da gestão Obama, e em troca, arrancar o governo Assad. Ao retirar Assad os EUA cumpriria dois objetivos com dois de seus principais aliados no mundo: a) Isolaria o Iran enfraquecendo o seu papel, sonho do reino saudita. E b) sem o corredor sírio quebraria o apoio para o Hezbollah, sonho do sionismo.

Quando Obama retorna das rodadas de negociação sobre o programa nuclear iraniano ele vai até o rei saudita e garante que Assad sairá. Essa seria a troca pelo desapontamento do acordo com os aiatolás. Acontece que, como vemos, não foi bem assim que as coisas aconteceram. Tudo isso, é claro, porque os russos, ao que parece, estudaram com alguns anos de antecedência essa possibilidade (de intervenção americana na Síria) e rapidamente sinalizaram que responderiam e fecharam 2015 estacionando os seus caças no país, antecipando-se a zona de exclusão aérea que ocorreria, assim como na Líbia 3 anos antes.

Uma das teses era derrubar Bashar e substituí-lo por um regime da Irmandade Muçulmana por isso há um envolvimento tão significativo da Turquia e, principalmente, por isso o desalinhamento do Hamas do Arco da Resistência. Aliás, se a primavera árabe não conseguiu cumprir todos os seus objetivos um deles foi suficientemente satisfatório, pois, justamente conseguiu afastar e neutralizar o principal grupo palestino que tinha a sua sede em Damasco e logo nos primeiros anos rompeu com o governo e passou a apoiar os rebeldes do ocidente.

É importante dizer e repetir que Assad enquanto indivíduo é menos importante do que o imperialismo gosta de frisar. Ele é importante se for entendido no contexto do que a síria representa no bloco da resistência e como este bloco está preparado para barrar os projetos políticos de ocidentais e aliados.

Allepo

A vitória de Allepo vem sendo planejada há pelo menos dois anos pela aliança Russia\Irã\Síria\Hezbollah. Com Damasco relativamente segura era necessário fechar o conjunto das principais cidades, tanto do ponto vista populacional, como industrial. Se o governo passasse a controlar, além da capital, Allepo, Homs, Hama e Latakia, controlaria a Síria que interessa, pois, estaria dirigindo 70% da população e todos os centros industriais/comerciais importantes.

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Do ponto de vista da estabilização síria, o jogo estará praticamente decidido e a palavra de ordem de que “Assad tem que sair”já não faz mais o menor sentido na boca de quem quer que seja. As demais cidades ainda controladas pelo jihadismo é um grande fundo rural que poderá demorar anos para ser retomada. Mas do ponto de vista da geopolítica e da influência regional, o governo sai fortalecido inclusive num cessar-fogo futuro.

 

Mas Aleppo também demonstrou uma outra guerra extremamente importante que são as guerras de informações. O mais curioso foi a surpresa como os portais ocidentais “descobriram” “civis” com inglês tão fluente a passar informações sobre as “atrocidades” cometidas pelo governo e pelos russos. Estupros, mensagens finais, crianças como contas no Twítter (que depois se revelaram serem filhas de pais ligados a AL Qaeda, veja aqui) faz parte de uma sofisticada máquina de mentiras para comover a opinião pública. Sempre há arranhões, mas creio que os serviços de contrainformação conseguiram responder com relativo êxito a este tipo de campanha como este texto que faz duras críticas ao governo, mas desnuda a torrencial de mentiras sobre o que se passava na cidade. Veja aqui.

Os conflitos híbridos tem demonstrado muita habilidade em lidar com esse tipo atuação e fazer modificar os lados em conflitos. Os jihadistas, intolerantes e que apostam na fratura sectária do país estão lutando ao lado do imperialismo anglo-sionista e não o contrário. Afinal de contas, com toda a pressão e a atenção da comunidade internacional preparada para denunciar verdades ou mentiras contra sírios e russos, qual o sentido do exército cometer estupros, abusos e massacres? Responde-lhes, nenhum. Os casos que não fazem parte dessas mentiras sorrateiras, se existiram, foram isolados. A verdade é que o povo foi as ruas para comemorar a libertação de Aleppo e, mesmo contra o gosto dos portais de notícias, tiveram que mostrar. Veja aqui e aqui.

Se houve algo de civil nesta guerra foi rapidamente transformado em um conflito geopolítico de interesse das potências ocidentais e seus aliados regionais. Se um dia aquilo que se chamou de “Exército ´livre´ Sírio” foi algum tipo de oposição ao regime, foi rapidamente engolido pela Jabhat al-nusra, atual JabhatFateh al-Sham, que nada mais é do que a AL Qaeda da Síria. Quem está com este exército “livre” esta com o que de pior existe na região e é instrumentalizado pelos Estados Unidos e parceiros. Só não enxerga isso quem não quer, ou tem interesses duvidosos e colaterais na manutenção do conflito.

Uma nota importante, mas repercutida de modo bastante discreto, foi a base da OTAN que foi estourada pelo Exército Árabe Sírio, em Aleppo, em que se encontravam militares de inteligência de distintos países entre eles Israel, Arábia e Estados Unidos, e que prestavam apoio e assessoria ao chamado exército “livre”. A ONU reuniu-se de portas fechadas para tratar deste assunto e não se sabe ao certo o encaminhamento desta questão. Pode-se ler esta notícia aqui. Acompanhemos os próximos passos desta situação.

Idlib e futuro

Parte das operações que seguiram em Aleppo só tiveram um fim após a negociação da retirada dos grupos jihadistas para zonas que os mesmos ainda controlam na Síria. Os famosos ônibus verdes encaminharam um conjunto de combatentes que só conseguiram sair livremente da cidade graças a grande quantidade de civis que serviam como proteção para eles.Síria Idleb – Bing images

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A luta por Allepo revelou de uma vez por todas que os “moderados” patrocinados e apoiados pelo ocidente não diferem em absolutamente dos grupos takfiris que combatem no Oriente Médio. A aliança e mistura, se é que de fato são grupos diferentes, entre os “livres” sírios e AL Qaeda ficou evidenciado em diversas oportunidades como quando em um protesto em frente à embaixada russa na Turquia bandeiras dos dois grupos eram sacudidas lado a lado acompanhadas de gritos raivosos contra a aviação russa.

Agora Idlib é principal zona de influência destes grupos que cada vez mais reduzem a sua presença militar no país. Isso não quer dizer que a guerra está terminada, nem tão pouco vencida, mas empurrá-los até lá foi a principal vitória do Exército Árabe Sírio desde 2011 quando iniciaram-se os conflitos a rápida escalada dos conflitos armados. Mas, haverá uma ofensiva aos moldes de Allepo em Idlib?

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Essa pergunta não é possível de ser respondida neste momento, pois, deverá esperar o comportamento acerca dos primeiros meses de mandato de Donald Trump e o que os americanos farão diante da vitória e do prestígio com que saem iranianos e russos deste conflito.

Neste momento o governo sírio concentra-se em terminar de limpar Aleppo de pequenos grupos que ainda resistem na cidade, além de preparar o início da reconstrução da infraestrutura destruída pela guerra. Há muito trabalho a fazer, mas a tranquilidade e o alívio de que a Síria não será quebrada como foi a Líbia é um prêmio depois de meia década de guerra. Ademais, o governo perdeu a simbólica e estratégica cidade de Palmira enquanto as operações em Aleppo estavam no auge. Ao que consta os americanos permitiram a passagem dos terroristas do Daesh do Iraque para a cidade, fazendo vistas grossas e pegando o Exército Árabe Sírio de surpresa segundo aponta a agência Sputnik aqui. Nos próximos dias o governo estará concentrado em retomar este território.

Contudo, há uma série de dúvidas sobre o futuro do país que não está suficientemente claro, ao menos neste momento. Uma delas é questão dos curdos no norte da Síria que ainda desejam a construção do seu próprio país e ainda dirigem algumas cidades no norte do país. Esse talvez seja o ponto mais espinhoso, tendo em vista que os mesmos curdos, aliados do governo de Bashar sempre fizeram um jogo dúbio de difícil interpretação. Hora aliado dos americanos, hora ao lado dos russos, hora ao lado do governo sírio contra Erdogan e por vezes em conflito com Assad acerca da devolução dos territórios que pertence a Síria. Bashar já disse com todas as letras que reconhecem os curdos em uma mesa de negociação sobre o futuro da Síria, mas é terminantemente contra qualquer solução de federalização do seu território devido ao tamanho do país.

Por outro lado há algo ainda mais preocupante nas trincheiras da resistência que é a insistente notícia de que há um acordo que substituirá Bashar por outro dirigente, mesmo que, alinhado com a política do arco. A última notícia sobre este tema da conta de que há um acordo em andamento entre Iran, Rússia e Turquia pode ser lida aqui. Particularmente não creio nesta possibilidade, até porque os turcos não são parceiros confiáveis de negociação. Talvez, o que se esteja em andamento é um mecanismo de neutralizar o papel do país no sentido de estancar a passagem de terroristas para o território sírio. É preciso aguardar para ver.

Muito barulho sobre a Síria e um silêncio sepulcral sobre o Iêmen

Ha um pais vizinho da Arábia Saudita que também foi sacudido pelas mobilizações das primaveras árabes. Um governo assassino, mas aliado dos sauditas e dos Estados Unidos, caiu, e os rebeldes assumiram o controle das principais cidades do pais.

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Há dois anos o Reino da Arábia Saudita (democratas que não permitem mulheres no parlamento e executam dissidentes em processos de dar inveja a Stálin) bombardeia impiedosamente o pais com caças f16 de quarta geração. Aliás, a mesma Arábia saudita, segundo a conservadora revista britânica The Economist, é o país com o maior crescimento em investimento militar no último triênio, maior que o investimento russo, inclusive. (Algo em torno de 80 bilhões contra 70 bilhões dos russos, ler matéria com gráfico aqui.)
A resistência iemenita são os houthis, que combatem toda sorte de psicopatas patrocinados pelo reino saudita, além das tropas das monarquias do golfo. Tudo isso com supervisãopolítica/militar da CIA. Ver matéria aqui.

Talvez ninguém nunca tenha ouvido falar, por isso as redes sociais não viram nenhuma campanha que propusesse “chorar pelo Iêmen” e seus filhos bombardeados em escolas e hospitais, assim como houve com Allepo.

Neste sentido, é possível antagonizar os seguimentos pró-imperialistas que reivindicam Direitos Humanos em frente às câmeras e a opinião pública, ao confrontá-los com a análise dos mesmos portais e setores que denunciam “atrocidades” em Allepo e se calam sobre o Iêmen. A situação, mesmo sendo bastante parecida, parece propositalmente esquecida, assim como era esquecida e silenciada a escalada do ISIS em todos os países que, de alguma maneira, representavam qualquer resistência aos planos ocidentais e sauditas.

Estes seguimentos precisam ser combatidos e desmascarados, pois, parte deles, são a cobertura de esquerda da política dos Estados Unidos no Médio Oriente. Não devemos nos enganar, diante de uma intervenção imperialista em qualquer país latino americano que confronte a nova ordem em curso dos EUA, estes segmentos estarão lado a lado com o intervencionismo ianque. Hoje são os irmãos árabes, entretanto amanhã poderá ser conosco. Exagero de minha parte? Eu não duvidaria depois de ler isso aqui.

Por Diego Rabelo –  Ex Diretor de Direitos Humanos da UNE e militante do Coletivo 4 de Novembro. Estuda os conflitos do Oriente Médio com ênfase em questões relativas a patrimônio cultura. Seu trabalho de conclusão de curso é sobre a cidade de Palmira na Síria, e a destruição do patrimônio pelo Daesh.

(1) SAID, W. Orientalismo, o oriente como invenção do ocidente. Tradução RosauraEichenberg – 1ª Edição – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
(2) SACHS, Jeffrey. Valor Econômico: Como deixar de alimentar o terrorismo, 2015. Disponível em: <http://www.valor.com.br/opiniao/4323276/como-deixar-de-alimentar-o-terrorismo> Acesso em 12.05.2016
(3) NASSER, Salem. Espaço público recebe Salem Nasser,2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5n0BzZ_I3Pk Acesso em: 10 de maio de 2016.
(4) ______________ Seminário Chacina na Síria, 2013. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=jZ3NZrBLFlg Acesso em: 10 de maio de 2016.
(5)FISK, Robert. Thereis more thanonetruthtotell in theheartbreakingstoryof Aleppo. 2016. Disponível em:http://www.independent.co.uk/voices/aleppo-falls-to-syrian-regime-bashar-al-assad-rebels-uk-government-more-than-one-story-robert-fisk-a7471576.html?amp Acesso em: 22 de Dezembro de 2016.
(6) MEYSSAN, Thierry. LibérerIdlebaprésAlep-Est,2016.Disponível emhttp://www.voltairenet.org/article194703.html Acesso em: 25 de dezembro de 2016.
(7) RABELO, Diego. Algumas considerações sobre questões políticas e militares, 2015. Disponível em: http://oestopimba.blogspot.com.br/2015/03/algumas-consideracoes-sobre-questoes.html Acesso em: 20 de dezembro de 2016.

 

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Um comentário sobre “A batalha de Allepo e o novo jogo do Oriente Médio

  1. Responder C.Poivre jan 3,2017 12:24

    Sou brasileiro e apoio totalmente o governo de Assad em sua luta contra a invasão de mercenários terroristas patrocinados pela OTAN e alguns países vizinhos à Síria. Além da questão do gasoduto, que os países da OTAN pretendiam levar gás à Europa a partir do Catar, passando pela Síria, há uma questão mais profunda e extensa, vc falou, do projeto de hegemonia ocidental que seguiria depois da Síria para o Iran, China e terminaria na Rússia. É esse projeto que está em jogo e ao qual o Iran, a China e a Rússia se opõem tenazmente.

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