Um olhar franco sobre interesses, valores e erros dos EUA na Síria

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Por Camille Otrakji, The Syria Page
Tradução: Oriente Mídia

São muitos a quem acusar pelo que deu errado na Síria. “O regime sírio” ainda tem a maior parte [orig: lion’s share] da culpa, mas o presidente Obama, a coalizão de oposição da Síria, Irã, Hezbollah, Turquia, Qatar e ISIS [Islamic State of Iraq and Sham – Estado Islâmico do Iraque e Levante (Sham, em árabe)] também são frequentemente mencionados.

Além dos atores acima que merecem suas parcelas de culpa, neste artigo eu gostaria de culpar também: “a revolução” e “os Estados Unidos da América”… Ambos foram promotores entusiasmados da Primavera Árabe… uma aberração catastrófica.

Exuberância irracional:

Os EUA (governo, think tanks, jornalistas e ativistas) cometeram um grave erro: acreditaram na Primavera Árabe e em seguida exaltaram-na, elevando suas expectativas à estratosfera. Os revolucionários foram levados a crer que eram todos heróis nobres, brilhantes e corajosos. A mudança foi prometida na velocidade dos filmes de ação de Hollywood (com a elegância e final feliz dos contos de fadas da Disney).

A exuberância irracional levou a expectativas não atendidas, que por sua vez levou a raiva, muitas vezes expressa através de derramamento de sangue, violência, negação e rebeliões perpétuas. Não obstante quaisquer erros ou variações, a maioria dos países, que foram infelizes o suficiente para experimentar a “Primavera Árabe”, pagaram um preço muito alto.

Exuberância Irracional

IÊMEN: Agora um Estado falido
EGITO: Confrontos entre Irmandade Muçulmana e Exército
SÍRIA: 200.000 mortos, 30% destruída
LÍBIA: Governada por mafiosos e islamitas

Exuberância Irracional da Primavera Árabe
“Ao que parece, a grande fonte da miséria e ainda das perturbações da vida humana se origina de se superestimar a diferença entre uma situação permanente e uma outra. A pessoa sob influência de qualquer dessas paixões extravagantes não é apenas desgraçada em sua situação atual, mas muitas vezes inclina-se a perturbar a paz da sociedade, para alcançar o que tão tolamente admira”
Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais

A quem culpar pelo ISIS?

Os rebeldes sírios seriam incomensuravelmente mais fracos hoje sem a al-Qaeda em suas fileiras. Em geral, os batalhões do Exército Sírio Livre [FSA na sigla em inglês] estão cansados, divididos, caóticos e ineficazes. Sentindo-se abandonados pelo Ocidente, as forças rebeldes estão cada vez mais desmoralizadas enquanto enfrentam o exército profissional de Assad e seu armamento superior. Combatentes da Al-Qaeda, no entanto, podem ajudar a melhorar a moral. O afluxo de jihadistas traz disciplina, fervor religioso, experiência de batalha do Iraque, financiamento de simpatizantes sunitas no Golfo e mais importante, resultados mortais. Em suma, o FSA precisa da al-Qaeda agora.”

Ed Husain, Council on Foreign Relations

Na Síria, os EUA não mantiveram uma distância igual dos dois grandes campos: o campo pró-governo (com milhões de adeptos) e do campo pró-oposição (eventualmente incluindo milhões de adeptos, mas inicialmente, muito menor). Em 2011, os EUA não se alinharam com “o povo sírio”. Nem sequer com a “maioria sunita”… alinharam-se com o campo da vingança-de-Hama, com o campo da Primavera Árabe sectária e não liberal… Alinharam-se a QUALQUER UM motivado o suficiente para ajudar os EUA a derrubar o regime e que soubesse como dizer as coisas certas (sem constranger os EUA). Eles tomaram partido dos oportunistas… aqueles que estavam dispostos a tirar dinheiro do Qatar (gastou 3 bilhões de dólares somente nos primeiros 2 anos), Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, e do Ocidente. Estima-se que 10 bilhões de dólares foram gastos com a operação de mudança de regime até agora.

Aos poucos liberais “da revolução” foi concedido destaque superficial (reunião com líderes ocidentais, exposição na mídia, sendo escolhidos para liderar conselhos de oposição e coligações), enquanto o verdadeiro poder nos bastidores foi, inicialmente, a Irmandade Muçulmana (patrocinada pela Turquia e Qatar) a quem mais tarde se juntaram grupos extremistas de vários tons, apoiados pela Arábia Saudita e o Ocidente.

Graças à Primavera Árabe, liberais que queriam ter um papel nas revoluções, começaram a falar em termos religiosos e de mãos dadas com os islamitas que costumavam abominar. Figuras cristãs da oposição, como Michel Kilo e George Sabra estavam entre os defensores mais consistentes de rebeldes islamitas.

O proeminente filósofo sírio Dr. Sadek J. Al-Azm (palestrante da Universidade de Princeton, um ateu que costumava ridicularizar a religião) passou a defender a causa dos sunitas na sua luta para afastar os alauítas do poder… a qualquer preço.

Outros islamitas perceberam que tudo que precisavam fazer era aparar suas barbas e prometer boas relações com os Estados Unidos e Israel, e repetir (quando entrevistados pela mídia ocidental) que respeitam os direitos das minorias e das mulheres.

Think tanks americanos e ocidentais (e agências de inteligência) começaram a contratar especialistas ou convidar para palestras, membros ou simpatizantes da Irmandade Muçulmana, uma organização que é agora classificada como terrorista na Síria, Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Em 2010, documentos do Departamento de Estado revelados pela administração Obama sobre a Irmandade e outros islamitas, concluíram que os Estados Unidos deveriam abandonar o seu apoio de longa data para a “estabilidade” em favor dos islamitas.

O LA Times revelou que, em 2011, o presidente Barack Obama realizou mais telefonemas para primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan que para qualquer outro líder (além do primeiro-ministro britânico). Um ano antes, o mesmo Erdogan foi citado em telegrama da embaixada dos EUA na Turquia, dizendo em privado que “Democracia é como um trem. Devemos descer quando chegarmos a estação que queremos”. Outros cabos descrevem membros do círculo íntimo de Erdogan (como atual primeiro-ministro da Turquia, Ahmet Davutoglu) como crentes da islamização da Europa e da retomada da Espanha.

Ex-aluno do professor Davutoglu, Behlul Ozkan, escreveu um artigo no New York Times em agosto passado, no qual descreve Davutoglu como um crente em contos de fadas sobre o renascimento do império islâmico turco, que reinará nos territórios que já foram dominados pelos Império Otomano. Davutoglu acredita que “os Estados nacionais estabelecidos após a dissolução do Império Otomano são criações artificiais e a Turquia deve agora conquistar o seu próprio Lebensraum [NT: espaço vital]. Ele “previu que as ditaduras [árabes] derrubadas seriam substituídas por regimes islâmicos, criando assim na região ‘um cinturão da Irmandade Muçulmana’, sob a liderança da Turquia”.

Também não incomodou os americanos (e seus aliados ocidentais), que em árabe, os principais líderes da Irmandade não negavam que seu objetivo era começar com um governo islâmico, então, quando se tornassem mais poderosos, planejavam… “governar o mundo”.

Os Clinton desempenharam um papel de destaque na promoção da Irmandade (e da liderança Qatari/Turca da Primavera Árabe). A senhora Clinton, mais do que ninguém, deve ser responsabilizada por este oneroso erro.

Felizmente, em 2014, a maioria das figuras liberais no campo revolucionário aprenderam, a duras penas, que é impossível trabalhar com a Irmandade. (leia o post da oposicionista Lama Atassi). É claro que algumas das críticas afiadas à Irmandade, são também resultado da conscientização da oposição de “que os Estados Unidos deixaram de apoiar o projeto Turco/Qatari/Irmandade em favor de um papel maior para os sauditas, odiadores-da-Irmandade.”

Before and after

Como a “comunidade internacional” transforma islamitas em revolucionários moderados pró-democracia: apara suas barbas e apresenta-lhes os tópicos corretos a tratar. Fotos “antes e depois” de Fida Al-Sayed (acima), administrador/porta-voz da principal página do Facebook da revolução Síria. Abaixo está Abdelhakim Belhaj, um jihadista líbio. Ele é fundador do Grupo de Combate Islâmico Líbio (LIFG [na sigla em inglês]) e seu emir de facto. Mais tarde incorporou-se à al-Qaeda iraquiana combatendo os EUA. Agora Belhaj é um comandante militar em Trípoli. Todos os altos comandantes militares líbios pertencem ao LIFG.

A falsa dicotomia regime maligno e ISIS/ISIL maligno que “sequestrou a revolução pacífica e democrática” deve ser substituída por imagem mais realista: a maioria da coalizão antirregime é feita de vários (tênues) tons de ISIS. Na melhor das hipóteses se encontram liberais sectários que não suportam os xiitas e alauítas. Cânticos iniciais de “o povo sírio é um só” foram concebidos para atrair o Ocidente e as minorias sírias. A verdadeira energia estava por trás dos cânticos “não ao Irã e ao Hezbollah, queremos um presidente temente a Deus”, como os cânticos procurando vingança “o povo quer matar o presidente”.

Isso não quer dizer que o povo sírio em geral seja deste tipo (longe disso), mas dentro da “revolução”, vários tons de sectarismo podem ser dominantes, especialmente entre seus militantes mais apaixonados.

O ISIS cresceu gradualmente enquanto o campo queda-do-regime continuou a tolerar ou até mesmo receber bem e admirar mais e mais religiosidade e violência.

  • No início, o fato de que a maioria das manifestações saíram das mesquitas e eram exclusivamente masculinas, foi justificado (temos que proteger nossas mulheres da brutalidade do regime).
  • Em seguida, os manifestantes começaram a atender aos pedidos do excêntrico xeique saudita Ar’our. Fomos informados de que são jovens e apaixonados, tudo bem.
  • Então, quando cânticos sectários e uma obsessão com a “justiça” (ou seja, violenta vingança) tornou-se a norma, foi-nos dito “não se preocupem, lembre-se dos cânticos de nossos manifestantes pacíficos ‘o povo sírio é um só’… ESTES representam o espírito da ‘verdadeira revolução'”.
  • Em seguida, eles formaram seu grupo rebelde… FSA. Mas eles prometeram que era apenas para proteger os manifestantes pacíficos que carregavam ramos de oliveira.
  • Então, quando o FSA (ou dezenas de diferentes grupos rebeldes de então) começaram a crescer em tamanho e atacar cidades, eles explicaram “O FSA está libertando nosso povo nas cidades do assassino Exército de Assad”.
  • O FSA sempre se comunicou em linguagem muito religiosa. Disseram que isso era bonito e que devíamos aceitar o fato de nossos heróis da liberdade acreditarem em Deus.
  • Em seguida, versões mais e mais radicais do FSA começaram a aparecer … eles começaram a declarar publicamente seu ódio a qualquer coisa democrática e seu compromisso de estabelecer um Estado islâmico na Síria. Isto, mais uma vez, foi bem recebido pelos revolucionários liberais que explicaram que tudo vai ficar bem, pois nossos rebeldes são livres para desejaram qualquer coisa na nova Síria, inclusive um Estado islâmico, mas não se preocupem, porque “o povo sírio” quer a democracia e a revolução é para todos os sírios, cristãos, alauítas ou muçulmanos…
  • Então a al-Nusra (filial oficial da al-Qaeda na Síria) começou a superar todos os outros (1200) grupos rebeldes. Os EUA classificam al-Nusra como uma organização terrorista, mas a maioria dos revolucionários sírios protestaram e chamaram al-Nusra de heróis e combatentes da liberdade. Até este ponto, os “liberais”, incluindo alguns ateus que conheço, admiravam e defendiam a al-Qaeda (seu melhor grupo rebelde).
  • O ódio ao Irã e aos xiitas tornou-se socialmente aceitável… não havia mais necessidade de se esconder o ódio xiita/alauíta. Alguns protestaram, mas isso ainda era considerado “um ponto de vista” e ninguém foi boicotado por ser sectário.
  • Então o ISIS surgiu… negação era a regra… membros da oposição disseram aos seus partidários que as agências de inteligência do regime estão por trás do ISIS… Prova? Regime e ISIS nunca se enfrentaram.

Mas na verdade… Quão diferente é o ISIS da al-Nusra? Quão diferente é al-Nusra da Frente Islâmica?.. Quão diferente é a Frente Islâmica do “FSA“, que todos admiram até hoje?

Para saber mais sobre como o ISIS (a própria definição do mal) cresceu tanto, ler sobre “a ladeira escorregadia para o mal” [slippery slope to evil] do psicólogo americano Phillip Zimbardo (Universidade de Stanford). A linha entre o bem e o mal é permeável… hoje em dia, pessoas boas apoiam ou toleram o ISIS e muitos mais apoiam al-Nusra/al-Qaeda, incluindo alguns que fazem parte do Council on Foreign Relations [Conselho de Relações Exteriores].

legenda

Uma coalizão problemática pela liberdade
Os EUA e seus aliados no Oriente Médio e Europa, montaram uma altamente problemática coalizão para troca de regime na Síria. Figuras aparentemente liberais (mas majoritariamente sectárias) foram promovidas pela mídia, mas a maior parte do real poder da coalizão está do outro lado do espectro oposicionista (ou perto disso), onde reside o ISIS (os mais violentos e takfiri da coalizão).

Então, o que os EUA querem na Síria?.. Nada?

Desde o início do conflito armado na Síria, venho periodicamente pedindo a amigos que têm acesso aos principais decisores americanos, sobre atualizações do atual estado de espírito em relação à Síria. A resposta que obtive foi sempre alguma variação do seguinte tema: “Nós realmente não nos importamos com a Síria. A Síria é um país pequeno, de alta complexidade. O retorno do investimento não é atraente. Se nós a quebrarmos, teremos de possuí-la. Nós não temos nenhum cavalo nesta corrida. Todos eles nos odeiam, especialmente a oposição (e nós sabemos disso). Não há mocinhos na Síria. Tudo o que queremos é garantir que não hajam vazamentos, porque nossos aliados no Líbano, Iraque, Jordânia ou Israel estarão expostos à violência, então seremos forçados a agir”.

Isto é, naturalmente, muito diferente de declarações públicas frequentes, que sempre expressaram preocupação e atenção da administração para o sofrimento humanitário catastrófico na Síria e seu apoio claro da oposição síria em se unir a, ou liderar, todos os esforços internacionais que buscam derrubar o governo sírio.

Então, por que eles gostam de pensar (ou afirmar) que não se preocupam com a Síria? A Síria é realmente insignificante ou desconectada dos interesses dos EUA no Oriente Médio? Estarão todos os líderes sírios e ativistas (governo ou oposição) em desacordo com os valores americanos?

A política externa dos Estados Unidos deve ser decidida entre o Presidente e o Congresso (veja o artigo II da Constituição). Mas cada vez mais, vários outros centros de poder influenciam a tomada de decisão da política externa: think tanks, meios de comunicação, redes sociais, ONGs que promovem a democracia, ONGs humanitárias, Israel, lobistas árabes, empresas petrolíferas e de defesa, agências de inteligência e organizações cristãs sionistas.

Infelizmente, todo o sistema, em geral, tem quase zero incentivos para se preocupar com o que é bom para a Síria.

O presidente Obama levou mais de um ano para ser capaz de conduzir a nomeação (em 2010) do embaixador na Síria, Robert Ford. Congressistas, jornalistas e ativistas de direitos humanos se opuseram a ela. A Síria tem muito poucos amigos em Washington.

Meios de comunicação americanos, think tanks e ativistas no Twitter alinharam-se esmagadoramente com “a revolução”. Não é o presidente Obama, que deve ser responsabilizado pela decisão insensata dos EUA em continuar a armar os rebeldes “moderados” na Síria, é toda essa gente que nunca parou de encobrir tudo o que está errado no lado do conflito que eles apoiaram.

Em 2010, o analista conservador Lee Smith escreveu no The Weekly Standard:

“A discussão sobre como se envolver na Síria engloba, estratégia tanto sentimental quanto lógica. É um debate em que as emoções são surpreendentemente elevadas para um país que não tem nem de perto a importância da China, Rússia ou o Irã”… “o regime [sírio] que muitos em Washington amam odiar”… “Muitos daqueles que são mais desdenhosos do regime sírio podem ser encontrados no Departamento de Estado”

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A política dos EUA é formada por um sistema complexo, em que grupos diferentes, direta ou indiretamente, influenciam no resultado final. Novas administrações fazem pouca diferença, já que a maior parte dos centros de poder geralmente se opõem à melhora das relações entre EUA e Síria.

Compreendendo as intervenções americanas na Síria e no Oriente Médio: Humanidade E Política

Em seu livro “O Lexus e a Oliveira” [The Lexus and the Olive Tree] (página 262) Thomas Friedman escreveu sobre um diálogo fictício entre o ex-secretário de Estado Warren Christopher e o ex-presidente sírio Hafez el-Assad, que Friedman imaginou dizendo:

“Você sabe o que realmente me incomoda sobre vocês americanos, vocês querem sempre as duas coisas o tempo todo. Vocês querem ensinar a todos sobre seus valores, sobre independência e liberdade, mas quando esses valores ficam no caminho de seus interesses políticos ou econômicos, basta esquecê-los. Então, poupe-me da aula sobre valores, Chris. Vocês é quem precisam decidir se querem ser uma superpotência que representa seus super valores ou um caixeiro-viajante que representa seus supermercados. Decidam-se. Até lá, fiquem fora da minha vida.”… “Eu vou fazer a paz com os judeus somente de uma forma que me estabeleça como um líder árabe que saiba como fazer a paz com dignidade, que não se humilhe da maneira como esses lacaios Arafat e Sadat fizeram.”

Voltando a 1947:

“Os políticos na Síria, Líbano, Iraque e Egito parecem terem sido eleitos, mas que eleições! Os vencedores foram todos candidatos de potências estrangeiras, antigos proprietários de terras que dizem a seus inquilinos e aldeões como votar, ou bandidos ricos que podem comprar seus votos. Mas os povos desses países são inteligentes, e têm uma inclinação natural para a política. Se há uma parte do mundo que está chorando para um processo democrático, este é o mundo árabe”.

Chefe de estação da CIA Miles Copeland descrevendo um discurso por um membro de um grupo de intelectuais na embaixada dos EUA em Damasco. O grupo queria afinar o processo democrático no Oriente Médio, mas depois decidiram que a melhor maneira de ajudar a Síria a se tornar mais democrática, seria a de financiar e apoiar o primeiro golpe militar contra líderes democraticamente eleitos do país.
[mais detalhes aqui]

Voltando a 1868:

“A primeira tentativa americana para ajudar os árabes ocorreu na Síria em 1868. Veteranos americanos da guerra civil levaram 80 árabes a uma revolta contra o domínio otomano. Armados com rifles e obuses os rebeldes entraram em confronto com uma força otomana superior perto da cidade síria de Hama. Os rebeldes (e seus camelos) foram mortos. O cônsul americano em Damasco, preocupou-se que o incidente daria a impressão aos povos do Oriente Médio de que os americanos simpatizavam com os esforços para derrubar governos despóticos e incentivá-los a se revoltar. Em contraste com as potências europeias, ele ressaltou que ‘a missão da América foi de humanidade e não política’

Michael B. Oren: “America in the Middle East 1776 to the Present” [A América no Oriente Médio 1776 até o Presente]

Na teoria, e por vezes, na prática, os EUA intervém para promover tanto o seu interesse quanto seus valores morais.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu é muito consciente disso. Quando ele encontrou em 2011, com apoiadores americanos de Israel, assegurou-lhes:
“Quando você apoia Israel, você não tem que escolher entre seus interesses e seus valores; você tem ambos.”

Os Estados Unidos contam ativamente como seus aliados no Oriente Médio, países que possam impactar de forma significativa, positiva ou negativa, os interesses americanos. Isso inclui países que são financeiramente poderosos, países militarmente fortes, ou países que têm grandes populações e tamanho.

Mas para regozijar o status de valioso aliado dos Estados Unidos, influentes países do Oriente Médio também precisam alinhar-se, até certo ponto, com uma série de valores norte-americanos: respeitar a segurança de Israel, adotar a economia de mercado, “moderação” (conforme definido pelas preferências dos EUA), e espera-se: a democracia e os direitos humanos.

Outros aliados árabes dos EUA não podem igualar o status de Israel como aliado favorito. Arábia Saudita pode servir aos interesses americanos (como poder financeiro e um líder do Islã sunita), mas está longe de ser perfeitamente alinhada com os valores americanos. O Líbano é uma democracia que respeita a liberdade de expressão, direitos das mulheres e das minorias. Por isso, é um aliado que os Estados Unidos estão orgulhosos em ter. Mas o Líbano é um país fraco com o qual os EUA não podem contar militar, politica e economicamente. A Jordânia é um “estado moderado árabe”, mas não é uma democracia e também não um aliado influente.

Em outras palavras, Israel é o único país no Oriente Médio que tira altas notas ao longo das duas dimensões (apesar de seu tratamento horrível aos palestinos nos territórios que ocupa e apesar de violar dezenas de resoluções da ONU… mas isso é outra história).

Então onde a Síria se encaixa nesta matriz de bidimensional?

Desde 1970 a Síria tem estado constantemente em movimento, tentando se posicionar mais perto do ilusório quadrante superior direito (que serve aos interesses americanos e em conformidade com os valores americanos), onde Israel, e só Israel existe.

Mas a Síria queria comer seu bolo e possui-lo também. Queria manter a sua tomada de decisão independente, incluindo o direito de opor-se (muitas vezes com sucesso) a iniciativas dos EUA às quais a liderança da Síria considerasse injustas ou perigosas, mas esperava que os Estados Unidos pudessem mostrar alguma compreensão e respeito pelo direito da Síria em não concordar com os desejos americanos.

Infelizmente, os Estados Unidos nunca estiveram certos de que precisavam tolerar um país que não era grande o suficiente… nem populoso o suficiente… nem rico o suficiente… e nem compatível o suficiente com os valores americanos. A Síria satisfaz ALGUNS dos requisitos de valores morais da América: é um Estado laico que respeita os direitos das minorias, os direitos religiosos e os direitos das mulheres. A Síria sempre manteve-se moderada e prudente em sua “resistência” à ocupação e agressão de Israel. A Síria adotou uma forma limitada de economia de mercado livre. Mas definitivamente não era uma democracia e carecia de qualquer tolerância de oposição política.

O resultado é que a Síria era empurrada para trás e rebaixada, cada vez que conseguia crescer em influência e/ou respeito. Quem a rebaixava? Eram sempre os Estados Unidos e seus aliados na região (e na Europa). Como isso foi feito?

  1. Por meios militares e econômicos: a invasão israelense do Líbano em 1982, os rebeldes/jihadistas na atual guerra de mudança de regime, boicote econômico… nada de empréstimos e subsídios…
  2. Via humilhação e demonização: boicote diplomático, colocando a Síria em uma lista de Estados que apoiam o terrorismo, ataques da mídia, ampliando as violações da Síria aos Direitos Humanos, resolução da ONU que forçou uma retirada humilhante de tropas sírias do Líbano…

Em 1978, a Síria se opôs à intermediação dos EUA ao tratado de paz exclusivo entre o Egito e Israel, argumentando que, com o Egito fora do caminho, Israel nunca terá qualquer incentivo para devolver os territórios ocupados para a Síria e os palestinos. A Síria estava certa, é claro, mas a administração Carter decidiu punir a Síria. Houve apoio à Irmandade Muçulmana (através de aliados regionais dos Estados Unidos) e outras táticas de pressão. Mas para aplicar as sanções econômicas contra a Síria e humilhar e isolar Hafez Al-Assad, os americanos vieram com uma “lista de Estados que apoiam o terrorismo”. A lista foi criada em 1979 especificamente para a Síria. Até hoje a Síria é o único país que sempre permaneceu na lista (por abrigar “terroristas” como Khaled Mashaal por exemplo… embora hoje ele viva no Qatar, aliado dos Estados Unidos).

Aliás… Você sabia que os Estados Unidos recentemente adicionaram a Síria à lista de países que “não fazem o suficiente para combater a escravidão”? (não é uma piada, veja este link).

Em outras palavras: os EUA periodicamente decidem empurrar a Síria para baixo (mais fraco) e à esquerda (menos respeitado) no gráfico abaixo.

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A Síria vem tentando constantemente ser percebida como influente (ter impactato nos interesses dos EUA) e construtiva/civilizada (compartilhar valores americanos). Cada tentativa terminava com uma campanha internacional que levava a uma Síria a ser mais fraca e demonizada. O gráfico mostra os anos de 2005 à 2013.

Mas a Síria sempre conseguiu se recuperar e expandir seu poder e reconquistar o seu respeito, até certo ponto… então é submetida à próxima campanha de redimensionamento pelos Estados Unidos e seus aliados.

Para ilustrar o dramático passeio de montanha russa que a Síria vem atravessando desde 1970, vou citar dois artigos de opinião diferentes, no jornal saudita baseado em Londres Asharq Alawsat. Em primeiro lugar, por um proeminente jornalista e acadêmico, Mamoun Fandi que escreveu um artigo de opinião em setembro de 2005, quando a Síria estava isolada, humilhada e fraca, aconselhando os líderes da Síria a desistir e se render.

“A Síria já está em apuros. O que pode ser feito para salvar a população síria de pagar o preço das decisões equivocadas de seu governo? A solução é uma reunião entre todos os países árabes, incluindo a Síria, com a condição de que a Síria ouça sem que se permita um único de seus longos discursos desdenhosos. O objetivo de tal reunião seria dar à Síria uma cobertura política para que saia do gargalo atual. Também apresentaria à Síria uma moldura para preservar a sua dignidade, uma vez que ela desista do pacote de políticas que refletem um estado de obstinação. Sem essa desistência rápida da Síria e sem o rápido envolvimento político árabe, certamente assistiremos a Síria rumar para o inferno na velocidade da luz. Um grupo de árabes tolos permanecerá aplaudindo a Síria enquanto ela ocupa o fim da fila do nacionalismo árabe. Espero também que a Síria não imagine que esse cenário demorará muitos anos para ser executado, ou que o regime de Bush possa ter terminado, antes que seus efeitos tenham impacto total na Síria.”

E, em nítido contraste ao tom acima, em 28 de junho de 2010, o jornalista mais proeminente da Arábia Saudita, Abdel Rahman Elrashed (normalmente um crítico da Síria) escreveu:

“No palco árabe, a Síria hoje é o único país que atuou de forma contínua e em todas as direções. Ela detém as chaves para muitos conflitos. Apesar dos seus recursos limitados (sem exército forte, economia fraca e continuamente isolados pelos EUA). O segredo para a influência da Síria é sua diplomacia hábil. Ela inventa novas realidades, impõe novas agendas que eram impossíveis no passado e mantém a região ocupada com os desejos da Síria e não o contrário. Notei que os sírios são criativos em permitirem que atores externos desempenhem papéis no mundo árabe e são hábeis em utilizar essas funções em proveito próprio. Na verdade, foram os sírios que inventaram o papel da Turquia como um novo hóspede para negociações de paz com Israel. Após 80 anos de ausência, Erdogan é agora um ator principal nos arquivos iranianos e palestinos.
Antes dos turcos, a Síria deu ao Irã um papel. Sem Damasco, o Irã não tinha qualquer papel a desempenhar. Da mesma forma, os sírios inventaram um papel para o Qatar e o ajudou a resolver o conflito no Líbano (2008) e até ajudou o Qatar a participar em conversações com o Hamas. Não devemos esquecer que os sírios tinham sérias divergências com o ex-presidente francês Jacque Chirac, mas foram os sírios que deram ao presidente Sarkozy um papel a desempenhar no Oriente Médio e fez dele o único mediador ocidental. Ele, por sua vez, tentou ajudar a Síria e os Estados Unidos a se comunicarem novamente. Sem a sírios Sarkozy não teria tido qualquer papel a desempenhar.”

Está claro que, até 2010, a Síria desempenhava um papel muito maior do que a maioria de seus adversários estavam dispostos a admitir.

Então novamente era hora de trazer a Síria para baixo. Neste capítulo, a Primavera Árabe liderada pela Turquia e Qatar (no início) tentou transferir o poder para as mãos da Turquia, uma vez que tentou garantir que seus aliados, a Irmandade Muçulmana, lideraria em cada república árabe afetada pela Primavera Árabe. Na Síria, eles primeiro tentaram convencer o presidente Assad a permanecer (ele era muito popular) como uma peça chave, mas quando ele não quis jogar, eles passaram a exigir que ele renunciasse (ou cedesse) [steps down (or aside)].

O gráfico abaixo ilustra a constante mudança da natureza da influência síria no Oriente Médio entre 1970 e 2011.

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Altos e baixos da influência regional da Síria (1970/2011)

1. Síria e Egito são considerados heróis do mundo árabe após a guerra de 1976. Então em 1976, a Síria ganhou mais influência após o sinal verde dos EUA para enviar tropas para controlar a guerra civil no Líbano.
2. Em 1977, o presidente Sadat abandonou a luta deixando a Síria mais fraca e para sempre incapaz de confrontar Israel militarmente. Após a oposição a Camp David, a administração Carter decidiu por pressionar a Síria. Seguiu-se uma série de dificuldades, incluindo: 3 anos de violência da Irmandade apoiada por aliados regionais dos EUA; invasão israelense do Líbano resultando em grandes perdas à Síria; boicote econômico e o esgotamento de empréstimos internacionais e árabes; Líbano assina tratado com Israel em separado, apesar das objecções sírias
3. Em 1984, Hafez Assad consegue sair vitorioso. O novo presidente libanês rascunha um tratado de paz. Diplomatas europeus apoiam Damasco.
4.Outro revés quando a Síria foi acusada de tentar explodir um avião comercial Israelence (o caso Hindawi). A Sra. Thatcher tentou convencer a Europa a boicotar a Síria, mas os líderes francês e alemão vazaram para a imprensa de sua convicção de que a operação teria sido armada pela inteligência israelense, com o intuito de isolar a Síria diplomaticamente. 3 anos depois, a URSS e aliados sírios da Europa Oriental, iniciaram nova gestão sem ligações ideologicas com a liderença síria. A Síria perdia seu principal financiador militar. A administração Reagan boicota a Síria entre 1983-1988.
5. Fim da administração Reagan. George Bush e James Baker não perdem tempo em trabalhar com Damasco para terminar a guerra civil libanesa (acordo de Taef), e reconciliar Síria e Egito (1989) o que permitiu que o Egito voltasse à Liga Árabe após 11 anos de boicote. Em 1991, Hafez Assad foi fundamental para que a guerra dos EUA fosse limitada a expulsar o Exército Iraquiano do Kuwait. A administração Bush e o pacifista Primeiro Ministro israelense colocaram a Síria energicamente no caminho das negociações de paz. Árabes do CCG estavam altamente gratos pelo papel da Síria na guerra de 1991.
6. Likud volta ao poder e a orientação política de “ruptura” de Netanyahu deixou claro que Israel não mais devolverá territórios ocupados em troca da paz. A Turquia ameaça invadir a Síria em 1998. Hafez Assad morre 2 anos depois.
7. Após uma breve lua de mel com o Ocidente e seus aliados árabes, ficou claro que o novo presidente Bashar Assad não abandonaria os compromissos de seu pai sobre os direitos sírios e palestinos, e também que não iria acelerar as reformas democráticas. Quando GW Bush decidiu invadir o Iraque, foi dito à Assad “participe, ou a Síria será a próxima”. Hariri foi assassinado e entre 2003 e 2008, a Síria estava isolada novamente da “comunidade internacional”, que tentou derrubar o regime através de pressão e humiliação.
8. Em 2006 o aliado da Síria Hamas ganhou as eleições palestinas e seu outro aliado, Hezbollah, superou o exército israelense no Líbano. Enquanto isso, o projeto neoconservador no Iraque certamente não ia bem. A Síria era novamente um forte ator regional. Em 2010 a Síria possuía aliados liderando na Turquia, Líbano, Irã, Iraque e Palestina. O presidente Sarkozy da França visitava Damasco.
9. A Primavera Árabe era um plano que permitiria à Turquia comandar a região através de seus aliados da Irmandade Muçulmana. A Síria mais uma vez frustrou este último plano Ocidental para a região. Hoje a Síria está em seu ponto mais baixo dos últimos 50 anos, mas sua sorte está em ascensão novamente…

EUA querem que a Síria seja o Líbano, que Assad seja Sadat

“Begin permaneceu intransigente, então Carter convenceu Sadat a desistir de sua demanda por um Estado palestino, para a indignação de seus conselheiros”

A Guerra de 50 anos, um documentário da PBS.

“Um homem extraordinariamente brilhante e com um bom senso de humor, também era cruel e apaixonadamente nacionalista.”… “O tipo de homem que entrava num jogo de pôquer com uma mão de dois e três, e levava o pote inteiro; o político mais inteligente no Oriente Médio”

Impressões de Henri Kissinger sobre Hafez Assad

Os Estados Unidos não gostam de lidar com líderes árabes que são “apaixonadamente nacionalistas e extraordinariamente brilhantes”. É por isso que o presidente Carter, eventualmente, optou por trabalhar com Sadat do Egito, em vez de Hafez Assad da Síria. Sadat foi a Camp David despreparado e, quando confrontado com uma pequena demonstração de táticas de negociação linha-dura de Israel, seguidos de alguma pressão americana, ele simplesmente desistiu da demanda egípcia para um retorno às fronteiras de 1967. Sem Jerusalém, sem a Cisjordânia e Gaza, e sem as Colinas de Golã. Os Estados Unidos o amaram.

Sadat fez com que Assad e a Síria, parecessem desarrazoados em comparação com sua flexibilidade ilimitada. A maioria dos outros líderes árabes também foram consistentemente sensíveis às demandas e recomendações dos Estados Unidos. Aqueles foram conhecidos como “os árabes moderados”. A Síria era muito difícil de lidar, talvez tão difícil quanto Israel e sua liderança Likud no momento.

Os Estados Unidos podem ser uma democracia dentro de suas fronteiras, mas no cenário mundial, eles “pressionam” líderes desobedientes dos países mais fracos até que eles obedeçam, ou sejam removidos. [ex: Mosaddeq do Irã em 1953, Bashar Al-Assad em 2005]

O que as pessoas querem na Síria não tem muito peso. Em 2005, o editor associado do Washington Post, David Ignatius, visitou a Síria durante os dias que a administração Bush abertamente ameaçava que “a Síria será a próxima”.
Em vez disso, em um artigo de opinião intitulado Careful with Syria [cuidado com a Síria], Inácio admitiu que
“É difícil encontrar um sírio que não queira que Assad permaneça pelo menos como influente líder político [figurehead]”. Mas depois, ainda sugeriu que os EUA e embaixadas da França em Damasco deveria trabalhar na promoção e apoio a quem quisesse eventualmente derrubar o popular presidente; “Mais pressão sobre a Síria será necessária se o regime de Assad desafiar abertamente as Nações Unidas… América e França devem ampliar o seu alcance aos dissidentes sírios, grupos de direitos humanos, artistas, professores – na verdade, qualquer um que esteja disposto a falar com forasteiros. Eles devem transmitir a mensagem de que o Ocidente está ao lado do povo sírio, enquanto rumam em direção ao futuro. Quando a Síria estiver realmente madura para a mudança, essas mãos amigas poderão garantir uma transição segura.”

Depois que a primeira onda de protestos da Primavera Árabe atingiu a Síria, o presidente Assad foi apresentado com uma lista de dez nomes de potenciais figuras da oposição moderada, que poderiam ser mais adequados para a formação de um governo de coalizão nacional que satisfizesse os opositores do regime. O Presidente olhou para a lista e disse ao meu amigo que a propôs: “apenas dois dos dez são sírios patrióticos, os outros 8 são ‘figurinhas de embaixada’ [embassy types]. Figurinhas de Embaixada são artistas, pensadores liberais, curdos e outros opositores do governo que estão sempre nas embaixadas americanas, francesas ou britânicas. Foram estes os sugeridos por David Ignatius. Os Estados Unidos acham normal que devam influenciar, organizar, promover ou realizar lavagem cerebral em ativistas locais.

Em 2006 William Roebuck, naquele momento Charge d’Affaires e chefe da embaixada, na ausência de um embaixador em Damasco, escreveu um telegrama traçando estratégias para desestabilizar o governo sírio. No resumo do telegrama, Roebuck escreveu:

“Acreditamos que as fraquezas de Bashar estão em como ele escolhe reagir a questões iminentes, tanto percebidas quanto reais, como conflitos entre as etapas da reforma econômica (ainda que limitada) e as forças corruptas entrincheiradas, a questão curda, a ameaça potencial para o regime da crescente presença e trânsito de extremistas islâmicos. Este cabo resume nossa avaliação dessas vulnerabilidades e sugere que podem haver ações, declarações e sinais que o governo dos EUA pode enviar, que irão melhorar a probabilidade de tais oportunidades surgirem.”…Ou seja, a probabilidade de que tais conflitos e ameaças surjam.

Em outro telegrama, Roebuck escreveu:

“- Possível ação: JOGAR COM O MEDO SUNITA DA INFLUÊNCIA IRANIANA: Há temores na Síria, que os iranianos estão ativos tanto no proselitismo xiita quanto na conversão de, em sua maioria pobres, sunitas. Embora muitas vezes exagerados, tais temores refletem um elemento da comunidade sunita na Síria, que está cada vez mais perturbada e focada na expansão da influência iraniana em seu país, por meio de atividades que vão desde a construção de mesquitas à negócios. Ambas as missões locais de egípcios e sauditas aqui, (assim como líderes religiosos sunitas sírios proeminentes), estão dando cada vez mais atenção ao assunto e devemos coordenar de forma mais estreita com estes governos sobre formas de publicitar e concentrar a atenção regional sobre a questão.”

Os líderes árabes que entendem seus limites, começam a desfrutar em vida o respeito dos Estados Unidos. Quando visitam Washington DC, recebem as boas-vindas oficiais na Casa Branca, Christiane Amanpour se abstém de tentativas de humilhá-los quando os entrevista na CNN, e quando morrem, todos os ex-presidentes americanos sobreviventes e ministros estrangeiros aparecem para prestar seus respeitos em seus funerais.

Quando Anwar Sadat desistiu da Palestina e outros direitos árabes, a revista Time o colocou em sua capa sete vezes, quatro em um ano. Ele também foi nomeado o “homem do ano” na revista.

Então, que tipo de Síria os Estados Unidos gostariam de ver? Uma “Síria democrática”, é claro. Mas que tipo de democracia?

Entre 2003 e 2008 os EUA muitas vezes acusaram a Síria de ingerência nos assuntos libaneses.

Em 1º de agosto de 2007, o presidente Bush emitiu uma ordem executiva intitulada “Congelamento de bens pertencentes a pessoas que minam a soberania do Líbano ou de seus processos e instituições democráticas.”

Qualquer um que se envolvesse em qualquer ato violento ou não violento, contra o governo do Líbano arriscava ter seu bens congelados.

A interferência síria no Líbano constitui uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”, Bush afirmou, acrescentando: “Portanto declaro ser uma emergência nacional lidar com essa ameaça.”

Wikileaks 002602 (Dez 2006) é um telegrama enviado do embaixador norte-americano Jeff Feltman para um dos muitos neoconservadores da administração Bush, Elliott Abrams. O embaixador soou satisfeito e contente:

“9. (C/NF) Em uma positiva observação, Hariri elogiou com aparente sinceridade o desempenho do PM Fouad Siniora durante esta crise. ‘Se eu tivesse escolhido Bahije (Tabbarah, ex-ministro da Justiça) há um ano’, disse ele, sua voz sumindo enquanto balançava a cabeça. Nós pensamos ser este um reconhecimento tácito, ao estilo Saad, que o forte conselho, que nós e os franceses demos, sobre a escolha de Siniora sobre sua escolha inicial do Tabbarah, era o caminho certo. Mas o que foi animador no elogio de Saad para Siniora, foi a sugestão de que os dois agora serão capazes de cooperar sem as rivalidades internas e ciúmes que atormentaram seu relacionamento no início deste ano. Em geral, pensamos que Siniora faz um trabalho melhor quando não tem que se preocupar com o menos experiente, mas politicamente mais poderoso Saad duvidando dele”.

Então os Estados Unidos e a França podem nomear o primeiro-ministro do Líbano, oferecendo “fortes conselhos” para o líder da coalizão que venceu as eleições de 2005, forçando-o a efetivamente abandonar sua própria escolha para primeiro-ministro (Tabbarah) e aceitar a escolha dos Estados Unidos (Seniora).

O Sr. Feltman mais tarde admitiu que os Estados Unidos e seus aliados gastaram mais de 500 milhões de dólares tentando enfraquecer a coalizão política Aoun/Hezbollah (pró-Síria). Outros cabos do Wikileaks mostram que os EUA e embaixadores franceses em geral tiveram forte influência na tomada de decisão dos líderes democraticamente eleitos do Líbano.

Esta é a democracia que os Estados Unidos acusaram a Síria de ameaçar. É também o modelo de democracia preferido que foi promovido para a Síria após a Primavera Árabe, pelos Estados Unidos, Turquia, Qatar e Arábia Saudita. Querem transformar a Síria em outra democracia libanesa, que é sempre fraca, contando com potências estrangeiras para resolverem seus conflitos internos e sempre presa a conflitos intermináveis​​, porque irá sofrer com a mesma complexidade multidimensional da política libanesa onde cada político leva em conta os desejos de quatro chefes: seu primeiro-ministro ou presidente, o seu favorito líder religioso (Nasrallah, o Patriarca Sfeir, Shaikh el-Aql, o Mufti…) o poder regional ou estrangeiro que o apoia ou seu partido (Síria, o Irã, os EUA, Israel, França, Arábia Saudita …) e, talvez, um líder político local, cuja família tem a confiança de seu povo para liderá-los ou proteger seus interesses sectários (Geagea, Hariri, Jumblatt, Gemayel, Chamoun, Frengiyeh, Aoun…). Imaginar o mesmo para a Síria seria preocupante. A região irá frequentemente sofrer da falta de estabilidade da Síria, tendo em mente que a Síria é muito maior que o Líbano e afeta e faz fronteira com outros pontos quentes, como Iraque, Israel e regiões curdas da Turquia. Uma Síria disfuncional atrairá competição mais ativa entre as potências da região o que irá levar à instabilidade continuada.

Se os Estados Unidos estão interessados ​​em deixar de lado seus próprios interesses e se concentrarem mais no que é bom para a Síria, então há espaço para reformas constitucionais significativas, desde que não ameacem a independência e a estabilidade do país; a religião não deve fazer parte da política da Síria e a Presidência na Síria não deve estar aberta para quem der o maior lance da Arábia Saudita ou Qatar…

Avançando: opções dos EUA em lidar com a crise ISIS

Opção 1: Selecionar, armar e treinar “rebeldes moderados” = mais alguns anos = uma guerra de desgaste.

“Mesmo em uma época de armas de precisão, guerra é o inferno; pode ser civilizada até certo ponto, em função das regras de conduta, mas a coisa mais humana a se fazer é acabar com isso o mais rápido possível.”

Revista Time, revisitando a “Rodovia da Morte” história onde a força aérea dos Estados Unidos desnecessariamente matou milhares de soldados iraquianos em retirada.

Em meados de 2011, os Estados Unidos foram fortemente críticos ao regime sírio pela repressão violenta dos manifestantes, que levaram na época a centenas de vítimas. No entanto, decidir trabalhar na construção de uma força de combate de 10000 membros de “rebeldes moderados”, é também uma decisão de prolongar a guerra por anos, o que também significa que dezenas de milhares provavelmente irão morrer.

Até agora, o presidente Barack Obama continua a aplicar os freios para desacelerar seus principais aliados (Turquia e Arábia Saudita) que estão empurrando os Estados Unidos a abrir seus depósitos de seus armamentos para os não-existentes “rebeldes moderados”. O enviado presidencial especial John Allen, em resumo aos repórteres sobre combate ao ISIS, disse: “E então essa é a intenção. Não vai acontecer imediatamente. Estamos trabalhando para estabelecer os locais de treinamento agora e nós, em última análise, passaremos por um processo de verificação e começaremos a trazer os treinadores e os combatentes para começar a construir esta força”.

Mas, nos últimos três anos, o conflito tem constantemente levado seus acionistas a escalar seus compromissos acima do que o previsto inicialmente.

Opção 2: Tropas no campo de batalha [boots on the ground],… mas de quem?
Hoje os Estados Unidos não têm aliados aceitáveis em sua luta contra o ISIS (e outros extremistas). Aqui está o que é necessário:

  • Exército poderoso e numeroso o suficiente
  • Continuará empenhado em lutar por anos e a morrerem às dezenas de milhares
  • Um exército que o povo sírio e iraquiano não se oponham
  • Um país (liderança) que os Estados Unidos e seus aliados não se oponham
  • Um país que os EUA conheçam e não se oponham a vê-lo crescer em importância e influência depois de ter sido declarado parceiro norte-americano nesta luta.

Os critérios acima excluem os seguintes exércitos: Israel, Síria, Turquia, Iraque, Irã, Arábia Saudita, Jordânia, Egito e o “FSA“.

A Turquia sob a liderança de Erdogan é ideologicamente mais próxima dos rebeldes extremistas na Síria que do Ocidente liberal. Prefere lutar contra os curdos e não matar outros muçulmanos (ISIS/al-Nusra). A Arábia Saudita estará cometendo suicídio se enviar seu exército para lutar contra milhares de rebeldes wahabitas da Arábia Saudita, na Síria. O Egito está muito ocupado com seus próprios desafios internos ameaçadores e seu exército está começando a trabalhar mais perto de casa no combate a rebeldes extremistas na vizinha Líbia. A Jordânia é muito pequena e sua população inclui um grande segmento de simpatizantes do ISIS (a inteligência dos EUA está ciente disso). Israel não está interessado e nem é capaz de a combater jihadistas na Síria e no Iraque durante anos. O Exército do Iraque foi projetado pelos Estados Unidos para ser uma força não-ideológica. Está mais perto de uma força policial do que de um exército real. Até agora não conseguiu combater o ISIS de forma consistente. O Irã é poderoso e motivado o suficiente para lutar contra os grupos wahabitas odiadores de xiitas, mas o Irã ainda é classificado como um adversário dos EUA e, mais importante, os EUA estariam arriscando alienar todos os seus outros aliados se formar parceira com o Irã, na Síria e no Iraque.

O novo exército de “rebeldes moderados”?.. Além da conclusão da CIA que armar os rebeldes raramente funciona, o porta-voz do novo exército nacional rebelde foi recentemente entrevistado na Orient TV (árabe). Ele disse: “نحن كجيش وطني يجب أن نستوعب جميع المجاهدين” ou “Nós, como um exército nacional, devemos dar boas vindas a todos os jihadistas”. Uma olhada sobre o primeiro lote de soldados treinados sugere que eles não são exatamente seculares. De forma simples e direta: para lutar e morrer você precisa odiar o inimigo e amar alguma causa. A maioria destes “rebeldes moderados” não vão morrer lutando outros islamitas e eles não vão morrer por democracia e liberdade.

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Nenhum aliado disposto, poderoso e aceitável
Os EUA não querem enviar seus soldados para lutar e morrer. São necessários aliados locais que possam efetivamente lutar contra os fanáticos (por anos). Não há nenhum; aliados tadicionais dos EUA são muito fracos e arriscariam a se indispor com parte de sua população. O grupo Irã/Síria/Hezbollah é capaz e diposto, mas os EUA não querem fortalecê-los… não até que o Irã e os EUA reconciliem suas diferenças.

SÍRIA: EUA não podem enfurecer seus aliados cooperando com o Exército Sírio.
TURQUIA: Quer que os EUA estabeleçam uma Zona Demilitarizada e tentam derrumbar o regime sírio.
EUA: Presidente Obama e o povo americano não querem enviar suas tropas para guerra novamente.
IRÃ: É visto como uma força xiita hostil, temida por muitos dos aliados americanos: árabes+Turquia.
FSA: Selecionar rebeldes moderados e seculares o suficiente provou-se uma fantasia até agora. Não há tempo.
IRAQUE: Falta ao exército ideologia nacionalista, que também é algo sectário. Falhou no combate ao ISIS até o momento.

Solução?.. Sim, mas será preciso grande determinação e muitos anos… e uma ruptura com o passado

Não há soluções no horizonte. Em vez disso, há uma longa lista de desafios formidáveis ​​que não foram devidamente reconhecidos, avaliados ou abordados. Coletivamente, servem como um lembrete de que estamos longe de ver o fim dos vários conflitos na Síria, no Levante e no Oriente Médio em geral. Aqui estão alguns dos principais desafios:

  • Relações EUA/Síria (regime) que, quando na sua pior forma, sempre estão relacionadas a mais caos no Oriente Médio.
  • Aliados dos EUA no CCG [Conselho de Cooperação do Golfo] estão em pânico com a notícia do iminente acordo entre EUA e Irã.
  • A Arábia Saudita, no seu modelo atual, não é sustentável. Alterando-a de uma forma drástica seria muito arriscado.
  • A Turquia é liderada por ideólogos perigosos com amplas ambições regionais. É um país com ideologias e lealdades conflitantes, talvez irreconciliáveis​​. A Turquia é altamente frágil.
  • Estados religiosos/sectários: Irã, Arábia Saudita e Israel são considerados como ameaças a alguns dos seus vizinhos.
  • Depois de décadas de ativismo wahabita, conservadores religiosos superam amplamente liberais nos estados do Oriente Médio anteriormente seculares.
  • Existe um conflito intenso entre liberais e extremistas religiosos em todo o Oriente Médio.
  • A população do Egito e Síria é jovem, pobre, sem emprego e vem crescendo rápido
  • Não existe solução fácil que satisfaça os curdos, mas que não ameaçam a integridade e estabilidade dos quatro países que fazem fronteira com o “Curdistão”
  • O conflito árabe-israelense e o viés americano pró-Israel continuará a complicar as soluções para muitos conflitos
  • O Líbano não é um país que pode funcionar enquanto há conflitos regionais. Potências regionais deixam de gerir o Líbano quando não estão conversando entre si.
  • A organização Irmandade Muçulmana (e a Turquia por trás dela) agora está em guerra com todos e não pretende aceitar a derrota.
  • Os povos que querem formar entidades maiores (ou proteger as fronteiras atuais), irão enfrentar/combater aqueles que querem dividir suas nações em novas entidades menores, mais coesas (problema mundial).
  • Os Estados Unidos são extremamente impopulares entre os seus aliados do Oriente Médio e esgotaram suas ideias sobre como resolver este problema (o apoio à Primavera Árabe e a liderança turca do mundo muçulmano foi a mais recente tentativa fracassada).
  • Fronteiras políticas são desafiadas por forças que buscam estabelecer fronteiras sectárias.
  • Populações jovens e melhor informadas também são mais egoístas, impacientes e menos submissas a qualquer liderança. Vai ser difícil geri-los, proporcionando mais liberdade.
  • Muitos estrategistas norte-americanos e israelenses estimulam conflitos em curso (fãs da dupla contenção). Eles continuam a coordenar com sucesso seus esforços nesse sentido. Seu objetivo é enfraquecer ou dividir os vizinhos de Israel e, talvez, fomentar um conjunto de confrontos militares controlados, entre sunitas e xiitas (e isto não é uma “teoria da conspiração”).
  • Síria e Egito estão falidos e suas populações em rápido crescimento continuam demandando subsídios do governo, educação e saúde gratuitos.

Se os Estados Unidos levam a sério a promoção dos seus valores morais, então precisam trabalhar (com todos, e não só com os seus aliados/clientes) cada um dos desafios acima.

Neste longo artigo abordei a história das relações americano-sírias. Há muito que precisa ser dito, mas os Estados Unidos devem agir conforme a declaração do Presidente Obama sobre o Oriente Médio em maio de 2011, quando alertou que “o status quo não é mais sustentável”. É hora de soluções construtivas e criativas. Deixar todos os irados, sectários, narcisistas e delirantes e formar novas alianças que estão à mesma distância dos antagonistas de cada conflito.

Quanto a melhores relações com a Síria (ou a parte da Síria que apoia o governo, que é erroneamente reduzida ao “regime”), uma vez que a estrutura atual de liderança (incluindo o Exército Sírio) não mudarão tão cedo, e como a Síria e a região não precisam de uma nova explosão de caos pós-colapso-do-regime, a mais racional e mais genuinamente humanitária decisão baseia-se em facilitar a cooperação e a comunicação entre todos os antagonistas, incluindo o exército e a liderança sírias.

Mas há cinco objeções contra a melhoria das relações que são ouvidas em Washington:

  1. A Síria é irrelevante… pequena demais para desperdiçarmos nosso tempo e energia. Temos coisas melhores a fazer.
  2. Muito sangue foi derramado pelo regime. Não fazemos negócios com criminosos de guerra.
  3. A maioria sunita precisa recuperar seu país. Assad e os alauítas devem abandonar o poder.
  4. O regime tem muitos inimigos e nenhum aliado em Washington… E nós dissemos que Assad tem que ir.
  5. A Síria é um aliado do Irã, o que vai contra interesses (e desejos) americanos e israelenses.

Os números 1 e 5 são sobre os interesses norte-americanos. Os números 2 e 3 são “argumentos morais”, e o número 4 é um argumento emocional.

1. A Síria não é relevante:

Tenho discutido este ponto em detalhes ao longo deste longo artigo. A relevância da Síria nem sempre é evidente, mas existem provas suficientes de que desestabilizar a Síria sempre leva à desestabilização de muitas outras partes do Oriente Médio (pense em todos os anos de mudança de regime: 2011/2014, 2003-2008 e 1980-1988). Inversamente, melhorar as relações americanas com a Síria tem um efeito calmante sobre toda a região (vide a década de 90, 2008-2010, 1973-1976). A Síria é o círculo no centro do Oriente Médio, o “regime sírio” é o policial velho e experiente, que sabe como minimizar os engarrafamentos naquele círculo.

2. A responsabilidade do regime pelo banho de sangue:

Todos são responsáveis​​, a começar pela liderança em Damasco. Mas qualquer um que está por trás do projeto de mudança de regime também é muito responsável. Qualquer pessoa que clamou por armar os rebeldes, ou que não exerceu o diálogo, que foi para o conselho de segurança tentando aprovar uma resolução sob o capítulo 7, que permitiria à OTAN bombardear a Síria, alguém cujo objetivo (fazer do Assad anteriormente popular, menos popular) necessitasse de derramamento de sangue e caos para ter sucesso, qualquer um que usou seu formidável império de mídia para a fabricação de fúria e ódio e divisão sectária na Síria, qualquer especialista ou ativista no Twitter que trabalhou incansavelmente para pressionar o presidente Obama a bombardear a Síria ou para enviar mais armas aos “rebeldes moderados”…

Além da liderança síria e seus aliados, os Estados Unidos e todos os seus aliados são totalmente responsáveis​… ao nível do governo, mídia, neoconservadores e intervencionistas liberais… O argumento moral se aplica a todos, ou a ninguém. É melhor esquecer o passado, uma vez que não será possível punir todos aqueles que, à sua maneira, contribuíram para o derramamento de sangue.

Na segunda guerra mundial os aliados decidiram ir à guerra, quando se depararam com uma ideologia perigosa. Sessenta milhões (60.000.000) de pessoas morreram nessa luta. Há sempre uma maneira de justificar as decisões de usar a força. De acordo com uma fonte confiável, em uma conversa privada no final de março de 2011, o presidente Assad disse: “Basicamente, eles querem que eu passe gradualmente a Síria para a Irmandade. Este será um conflito longo e difícil”. Como o presidente Assad foi o único líder do Oriente Médio que se opôs, em 2002 e 2003, aos planos do governo Bush para invadir o Iraque (que levou a centenas de milhares de vítimas), e uma vez que a maioria dos “amigos da Síria” já perceberam o erro de promover o projeto regional grandioso do primeiro-ministro Erdogan (dominar o mundo árabe através de seus aliados da Irmandade Muçulmana e do conto de fadas exagerado sobre “liberdade” da Primavera Árabe), então o argumento moral contra Assad merece um exame sério. O projeto nazista era mais perigoso que os projetos da Irmandade+wahabitas/Al-Qaeda (al-Nusra/ISIS/Frente Islâmica etc)?.. Foi duas vezes mais perigoso? Dez vezes?.. 300 vezes mais perigoso? Porque o número de mortos da Segunda Guerra Mundial foi 300 vezes maior que o da Síria.

O uso seletivo do argumento moral em boicotar os tomadores de decisão específicos que decidiram usar a força, é mais política e propaganda do que a justiça. Os decisores e generais trabalham sob um conjunto diferente de valores morais que aqueles aplicados no nível pessoal. Se o presidente Clinton ainda pode ser comparado favoravelmente em relação ao presidente Bush Jr., embora suas sanções contra o Iraque nos anos 90 tenham matado um milhão de civis, incluindo meio milhão de crianças (ver seu secretário de estado confirmar na CBS que “aquilo valeu a pena”… alguém perguntou o que era “aquilo” pelo que valeu a pena matar um milhão de iraquianos?), então seria justo não usar o argumento moral para complicar esforços para acabar com a guerra síria, até que seja permitido a todos os lados uma oportunidade justa para explicar a sua lógica para o uso da força.

Mais uma vez, e independentemente de qualquer potencial justificativa racional ou estratégica, o regime ainda é parcialmente responsável. Se tivesse uma forma mais refinada de lidar com os protestos iniciais, teria havido menos raiva e menos derramamento de sangue. Mas a palavra-chave aqui é “menos”. Mesmo que o regime fizesse tudo certo, a coligação da Primavera Árabe estava determinada a mudar a Síria, por todos os meios. Outro número (uma proporção, na verdade) a considerar: baixas no lado pró-governo (exército, polícia, forças de segurança, milícias) são comparáveis às baixas entre os “rebeldes”. Você bombardeia o governo sírio com até 150 mil rebeldes, então não se surpreenda com os resultados. O governo usou de força excessiva apenas até julho, quando os seus aliados iniciaram a força rebelde “FSA”. Desde então foi aplicado o princípio do “monopólio do uso da violência” dos Estados modernos. Voltando à proporção de mortes… uma proporção de 1:1 está longe daquelas de Israel em Gaza e no Líbano, ou da proporção da América no Iraque (ou na Segunda Guerra Mundial)… (aquelas variaram entre 100:1 e 1000:1). “A proporcionalidade deve ser uma diretriz na guerra”.

3. A maioria sunita deve governar, alauítas são muito poderosos:

As minorias religiosas na Síria somam cerca de 25% da população. Minorias, incluindo os curdos são 35%. É-nos dito por muitos intervencionistas americanos (e europeus), o fato de que “minorias governam a Síria nos últimos 50 anos” é por si só uma justificativa para continuar a lutar até que “a maioria sunita” possa recuperar o poder.

Compare isso com a situação nos EUA.

Após dezenas de eleições democráticas (ao longo dos últimos 225 anos), quase metade dos presidentes dos EUA foram episcopais ou presbiterianos, mesmo que essas “minorias” (ou “ramificações” da “maioria religiosa” [cristianismo católico]) que dominaram a política dos Estados Unidos perfizessem 0,6% (1,85 milhões) e 0,62% (1.950.000) da população dos Estados Unidos de 313 milhões… ou quase 1,2% combinados. E isso vem acontecendo há 225 anos.

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Nos últimos 225 anos, católicos (o maior grupo religioso dos EUA) nunca chegaram à presidência*. Aproximadamente metade dos presidentes dos EUA eram episcopais ou prebiterianos… apesar dos dois grupos somados formarem uma minoria de 1,2% do povo americano. Por que os EUA insistem que a justiça na Síria requer um ajuste sectário?
* Exceto o presidente Kennedy… que foi assassinado.

Por outro lado, os católicos (o maior grupo religioso na América) só teve um presidente e ele foi assassinado. Isto quer dizer que uma “revolta católica” deveria estar a caminho e que todos deveríamos apoia-la?

Da mesma forma, os não-judeus nos Estados Unidos (a “maioria” de 97%) deveriam reclamar do poder excepcional da “minoria” de 3%, que têm judeus americanos em todos os setores, como: Hollywood, meios de comunicação, Wall Street, judiciário e meio acadêmico?

Não reclamam. Na verdade, segundo uma recente pesquisa do Pew Research, os judeus são o grupo religioso mais apreciados nos Estados Unidos.

Então, se nos últimos 50 anos, as minorias (e não-minorias de sunitas liberais da Síria, bem como de áreas rurais sunitas) tinham poder aquém de sua cota, é um desastre que merece a destruição da Síria?

Sunitas na Síria ainda controlam a maior parte da economia. Eles ainda existem em grande número no exército e formam a grande maioria dos ministros sírios ou membros do parlamento. Além disso, “o regime” permitiu a islamitas demasiado espaço a desempenhar na Síria. Ouça os testemunhos de duas figuras islamitas proeminentes: o qatari al-Qaradawi (“o povo sírio considera Assad um sunita”) e o saudita Al-Arifi que disse a seus fãs em uma mesquita de Alepo que o governo sírio é mais brando com eles (islamitas) do que qualquer outro governo árabe e que eles deveriam ser gratos.

Alauítas desempenham um papel maior do que sua proporção na segurança nacional ou no exército, mas se você olhar para o exército dos Estados Unidos, os afro-americanos estão lá em números que são o dobro do seu tamanho na população dos Estados Unidos. Seria o caso dos americanos brancos reclamarem?

Existem inúmeras queixas válidas contra as forças de segurança da Síria ou contra muitos oficiais do exército que abusaram de seu poder para se beneficiarem da corrupção. “O regime” deve perceber a necessidade de ouvir e agir sobre qualquer reclamação legítima. Mas aqueles que estão obcecados com a redução do poder das minorias, devem esperar até que os católicos americanos iniciem uma revolução contra a igreja Anglicana, Presbiteriana ou contra os judeus. ENTÃO, sectários da Síria e seus promotores ocidentais estariam justificados a acompanha-los.

A Síria precisa de responsabilização e justiça que impeça qualquer pessoa (minoria ou não) de abusar de seu poder.

A liderança síria precisa considerar seriamente a passar grande parte de seu poder a um forte, democraticamente eleito primeiro-ministro (que provavelmente seria um muçulmano sunita). O regime tem sido altamente qualificado e maduro em sua defesa nacional ou política externa (e deve manter o controle sobre essas áreas), mas está longe de ser bem-sucedido em suas políticas internas… hora de passar o dia a dia a um governo eleito.

Os Estados Unidos têm a responsabilidade de deixar claro aos opositores do regime que a sua agenda sectária não é bem-vinda. Leia o que eles escrevem em árabe e ouçam suas conversas com seus amigos se você quiser detectar os problemas políticos sectários. Não fique satisfeito com suas declarações públicas politicamente corretas.

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Cartoon oposicionista retratando a política externa do governo sírio como elegante e sexy, e sua política doméstica como pesada e sangrenta.

4. O regime tem muitos inimigos em Washington:

É verdade. Washington DC está cheia de inimigos do regime sírio (ver novamente a citação de Lee Smith acima), que estavam em vários pontos comprometidos publicamente em desafiar a liderança síria (sem sucesso). Um novo livro sobre as relações franco-sírias do renomado jornalista francês George Malbrunot, concluiu que a tomada de decisões relacionadas com a Síria por líderes franceses, era muito frequentemente “infantil e beiravam o revanchismo”. Isso inclui os ex-presidentes Chirac e Sarkozy, assim como o ex-ministro das Relações Exteriores Alain Juppé.

Mas os Estados Unidos são uma superpotência que tem responsabilidades sérias hoje. Se Dennis Ross, Elliott Abrams, Dick Cheney, Steven Heydemann, Fred Hof e o senador McCain estão ansiosos por uma vitória sobre “o regime sírio”, o presidente Obama não tem a necessidade emocional de uma vitória como esta e os Estados Unidos certamente não precisam marcar pontos de “orgulho nacional” sobre a pequena Síria. A América marca pontos todos os dias nas ciências ou nas artes.

O presidente Assad tem constantemente evitado declarações de confronto contra os Estados Unidos. Sua mensagem é uma variação sobre o tema: os Estados Unidos estão cometendo um erro em nosso país. Vamos esperar até que um dia eles percebam seu erro. Compare seu tom com o de Saddam Hussein ou Kadafi da Líbia, por exemplo. O orgulho nacional na Síria é puramente sobre a independência da tomada de decisões e não sobre revide. A Síria tem sido correta e sábia, enquanto o Ocidente e seus aliados têm errado há décadas. (Eu posso perfeitamente esclarecer em maiores detalhes em outro artigo).

Aqueles das grandes nações do Ocidente, que têm a necessidade de humilhar pequenos países estrangeiros, devem procurar terapia profissional, ao invés de serem ouvidos como “especialistas”.

5. Relações (aliança) com o Irã:

A Síria sob a liderança dos dois Assad sempre tentou equilibrar suas relações regionais e internacionais. Quando a União Soviética estava ocupada fornecendo à Síria bilhões de dólares em armas gratuitas, o presidente Assad reunia-se com o presidente Nixon e Henry Kissinger tentando estabelecer as melhores relações possíveis com os Estados Unidos. Quando o Irã apoiou economicamente a Síria contra um boicote liderado pelos EUA/Arábia Saudita (2003 a 2011), a Síria estava trabalhando no estabelecimento de relações com a Turquia e Qatar que balanceavam a relações com o Irã. A Síria sempre ficou do lado da Arábia Saudita, mesmo quando tais posições decepcionavam o Irã. 1) Em 2010, a Síria apoiou o candidato moderado da Arábia Saudita, Iyad Allawi, que estava competindo contra o candidato do Irã (Al-Maliki). 2) Em 2009, a Síria declarou seu apoio à Arábia Saudita em sua luta contra os houthis no Iêmen, que são apoiados pelo Irã, e 3) em 2011 Síria votou para legitimar a presença do exército saudita no Bahrein, mais uma vez decepcionando o Irã.

Em 2010, a Turquia estava trabalhando duro tentando estabelecer relações especiais com todos os seus vizinhos, mas a Síria tinha mais peso do que qualquer outro país na região. O Ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu, disse: “Nós acreditamos que esta relação [entre Turquia e a Síria] irá mudar o destino da região”.

Certamente ele não teria planejado esta parceria, caso a Síria fosse um satélite iraniano. Em 2010 a Síria abriu suas fronteiras com a Turquia e assinou acordos econômicos que favoreceram fortemente os produtores da Turquia e penalizaram a Síria (levando a grandes falências entre os industriais estabelecidos de Alepo). Quatro das grandes avenidas de Alepo foram batizadas com nomes de Sultões Otomanos (que sempre foram odiados pela maioria dos sírios), séries de TV românticas turcas (e não iranianas) inundavam o mercado sírio, e na agência de notícias oficial da Síria, SANA, notícias diárias eram divulgadas em árabe, inglês e turco.

Agora que milhões de sírios (do campo pró-revolucionário) passaram a nutrir sentimentos altamente negativos em relação ao Irã, é razoável esperar que a liderança da Síria faça algo para acomodar as suas preferências ou medos. Mas o que sempre incomodou os Estados Unidos não é que a Síria seja um satélite iraniano (que não é absolutamente). O problema é que os Estados Unidos querem a Síria como um satélite americano/saudita. Talvez os Estados Unidos reconsiderem o que significa democracia fora das suas fronteiras. Permitir que a Síria desfrute de excelentes relações com os Estados Unidos sem forçá-la a rebaixar suas relações com Irã e Rússia. Em comparação, Irã e Rússia nunca forçaram a Síria a abandonar suas tentativas de melhorar relações com os Estados Unidos. Observe como a Síria foi tratada pelo ocidente, e compare a forma como os Estados Unidos e seus aliados boicotaram periodicamente, pressionado e até mesmo apoiando a instabilidade e o terror na Síria.

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As relações sírias com os EUA e seus aliados europeus e regionais têm sido turbulentas. Os EUA periodicamente conduziram campanhas de troca de regime (ou de comportamento). As relações com o Oriente têm sido estáveis e amigáveis.

Não há nada errado em os Estados Unidos perseguirem seus interesses nacionais. Mas a promoção dos valores morais da América não deve ser semelhante à forma como fanáticos religiosos dogmáticos promovem seus valores morais (e rótulos). Os Estados Unidos podem liderar melhor se derem o exemplo: ao não usar a violência, exceto como uma última opção…, agindo como um juiz justo…, combatendo o sectarismo…, aceitando serem responsabilizados…, ao dizer a verdade e nada além da verdade…, respeitando aqueles que, ocasionalmente, discordem.

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Um “posto avançado do mundo livre” que força o mundo a ser cliente dos EUA… ou viver eternamente sob sanções.
Acima: foto da United Press em 4/9/1957, descreve a embaixada da URSS em Damasco como “o quartel-general das operações russas”
Abaixo: foto da United Press em 4/9/1957, descreve a embaixada dos EUA em Damasco como “o centro de atividade para os diplomatas americanos na conturbada Síria e um posto avançado do mundo livre”


Original: A frank look at America’s interests, values and mistakes, in Syria

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