The Saker: Sobre o resultado ganha-ganha-ganha-ganha na Síria

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23/9/2019, The Saker, Unz Review e The Vineyard of the Saker. Trad. btpsilveira (ed. revista)

Imagem: Assad e seus comandantes militares

Em artigo recente, “Estrada para Damasco: como a guerra da Síria foi vencida”, Pepe Escobar resume da seguinte maneira o resultado da Guerra da Síria:

“É vitória quádrupla. Os EUA conseguem saída que lhes salva a cara, a qual Trump pode vender como meio para evitar conflito com a Turquia, aliada dos EUA na OTAN. A Turquia obtém a garantia – dada pelos russos – de que o Exército Árabe Sírio controlará a fronteira turco-síria. A Rússia impede que a guerra escale e mantém vivo o processo de paz Rússia-Irã-Turquia. E a Síria, com o tempo, alcançará novamente o controle sobre todo o nordeste” (Pepe Escobar, 18/10/2019, Consortium News, Oriente Mídia).

Esse resumo – aliás, excelente – ignora dois ou três membros do “Eixo da Gentileza”, incluindo Israel e Arábia Saudita (AS). Claro que posteriormente Pepe menciona esses atores em sua análise, e inclui ainda o Kuwait. Além disso, debate mais profundo tem também de incluir China, Hezbollah, Iêmen e União Europeia (UE). (Bem, os únicos países que importam são Reino Unido e França. Os demais não passam de colônias dos EUA, que sequer podem opinar).

A maioria das análises feitas até aqui se focam no “quê”. Tentarei examinar “porquê” e “como”, nos acontecimentos da Síria. Mesmo assim, não proponho análise muito detalhada, mas quero reclassificar de outro modo os atores: pela respectiva força teórica/relativa.

Ator Força teórica
O “Eixo da Gentileza”:

EUA + CENTCOM + OTAN + Israel + Arábia Saudita

Segundo quase qualquer medida, o mais poderoso ator no palco: força militar maior que todos os outros atores combinados (ao menos se se considera só regionalmente), grande poder econômico (o dólar ainda é a divisa nº 1 do planeta), controle total da região (via CENTCOM) e apoio quase incondicional da Europa (via OTAN). Finalmente, Israel tem pegada militar bem forte. Esse ator tem apenas UMA fraqueza (adiante falarei sobre isso).
Irã + Hezbollah + Houthis +
forças xiitas no Iraque
Em termos regionais, o Irã é a superpotência local que pode desafiar com chances de sucesso as forças do Eixo da Gentileza (aliás, tem feito exatamente isso desde a Revolução Islâmica de 1979).
Rússia + Síria Coloquei Rússia e Síria no mesmo grupo e poderia acrescentar o Irã. Mas, dado que acredito que a Rússia tenha mais poder de influência sobre o governo sírio que o Irã, penso que seja mais importante pôr juntas Rússia e a Síria, simplesmente porque Damasco não pode dizer “não” para Moscou, mas pode, pelo menos em teoria, dizer não a Teerã. Finalmente, Rússia e Irã concordam em muitas questões, mas têm visões diferentes do futuro do Oriente Médio. Assim, essa é mais uma razão para não os pôr juntos, mesmo que não necessariamente em oposição. Em termos militares, a Rússia é muito forte, e então muito vulnerável, depois muito forte novamente, dependendo do nível de quem analisa (veja abaixo).
Turquia + facções pró-Turquia na Síria Esse é ator difícil de classificar. Por um lado, a Turquia não tem qualquer aliado regional (o Império Otomano deixou apenas ódio e ressentimento profundo entre suas antigas colônias). Por enquanto, apenas as facções pró-Turquia, as quais foram liberalmente inundadas com armas, dinheiro, treinamento, apoio logístico, etc., pelos EUA e Arábia Saudita. Mas essas facções foram-se tornaram mais e mais fracas até chegar a um estado de impotência avançada, deixando a Turquia praticamente sozinha (veremos isso melhor abaixo).
Curdos Por algum tempo, pareceram potencialmente poderosos: não tinham apenas enorme poder militar (embora muito restrito à infantaria), como, além disso, tinham o apoio do Eixo da Gentileza e, especialmente, de Israel, que via qualquer modalidade de um Curdistão Independente como ferramenta espetacular para enfraquecer e até ameaçar Iraque, Turquia, Irã e Síria. Além disso, os curdos controlavam regiões ricas em petróleo e sempre poderiam, se necessário, retirar-se para as montanhas.
Os Takfiris (quer dizer, as franquias inúmeráveis e denominações sempre mutáveis, do que antigamente se conhecia como al-Qaeda). Na realidade, os Takfiris deveriam ser classificados juntos com o Eixo da Gentileza, dado eles têm sido os soldados no terreno/bucha de canhão para os Anglo-sionistas desde os anos 80 (do Afeganistão para os dias atuais na Síria). De qualquer forma, vamos considerá-los separados do resto das forças do Eixo da Gentileza.

 

Claro que, como qualquer trabalho de taxonomia, esse também é necessariamente um tanto subjetivo; outros analistas podem usar critérios ou categorias diferentes.

Vejamos agora o que acredito que seja a chave para o controle de toda a região: a capacidade para colocar “tropas no terreno”, ou a incapacidade para fazer isso.

 

Ator Capacidade para colocar tropas no terreno
O “Eixo da Gentileza”:

EUA + CENTCOM + OTAN + Israel + Arábia Saudita

Esta é uma das grandes fraquezas dos membros do Eixo da Gentileza: mesmo tendo poderosas forças armadas e até armas nucleares, e embora possam mobilizar forças enormes, mesmo que possam (teoricamente) adquirir supremacia/superioridade aérea e naval praticamente em qualquer local da região, eles não têm como operar qualquer dessas opções com uma força razoável no terreno. Ainda que essa evidência seja sempre ofuscada pela propaganda enganosa anglo-sionista, as forças armadas dos EUA, Israel e AS, em solo, só são capazes de assassinar civis ou de lutar contra força de resistência primitivas. Mas no momento em que aquelas forças encontram opositor que não se importe de lutar em terra, são derrotadas. TENHO CERTEZA de que NINGUÉM consegue mencionar sequer UMA, apenas, que seja, vitória significativa do Eixo da Gentileza nas duas últimas décadas ou até em período mais longo!).
Irã + Hezbollah + Houthis + forças xiitas no Iraque Os iranianos e seus aliados locais (chamá-los de “mandatários” ou “procuradores” ou “representantes” não dá conta da natureza real do relacionamento entre o Irã e essas forças regionais!) são totalmente capazes de colocar no terreno forças significativas. Na realidade, têm feito exatamente isso com grande sucesso (especialmente o Hezbollah). O que o Irã garante a essa aliança informal é que pode reforçá-la com armas novas, com tecnologia moderna e de ponta, entre as quais mísseis antinavios, defesa aérea, ATGMs (mísseis antiblindados), drones, comunicações, etc.

Essa aliança é a mais poderosa da região em termos de forças terrestres.

Rússia + Síria Tanto as forças russas quanto as sírias são competentes e bem equilibradas na Síria. No entanto, verdade seja dita, acredito que o Hezbollah+Irã atualmente têm maior peso militar, ao menos em termos de forças no terreno na Síria. Deve-se ter em mente que: se no interior do país houvesse só forças russas (em Tartus, Hmeimim, mais algumas unidades especiais espalhadas pela Síria), nesse caso, sim, as forças russas definitivamente seriam mais fracas que o Eixo da Gentileza. Mas quando se entende que as forças russas fora da Síria podem (e provavelmente o farão!) intervir para defender as forças russas no país, toda a equação muda e Rússia aparece como ainda mais poderosa que o Eixo da Gentileza (adiante, explico mais detalhadamente).
Turquia + facções pró-Turquia na Síria Não há dúvidas de que no início da agressão internacional contra a Síria, a Turquia tinha uma força militar preponderante. Então algo deu errado. Dali em diante, a cada desenvolvimento dos acontecimentos (começando com a tentativa de golpe contra Erdogan), a Turquia enfraqueceu gradativamente. O mesmo país que ousou derrubar um avião Su-24 russo, viu-se de repente na posição humilhante de pedir ajuda à Rússia não apenas uma, mas várias vezes em sequência. A última invasão turca no norte da Síria prova que, mesmo que os turcos ainda possam bater os curdos, é só o que podem fazer e mesmo assim com dificuldade.
Os curdos Francamente nunca acreditei que os curdos conseguiriam realizar algo sequer remotamente parecida com um Curdistão Independente. Claro, com certeza, minhas simpatias estavam sempre com eles (pelo menos em seus conflitos com a Turquia), mas sempre soube que a ideia de impor um tipo de estado novo (e artificial), contra a vontade de TODOS os poderes regionais, era ao mesmo tempo ingênua e natimorta. A verdade é que EUA e Israel *usaram* os curdos sempre que precisaram e os jogaram no lixo quando se tornou óbvio que já não tinham qualquer serventia. O melhor que os curdos podem conseguir é uma autonomia regional no Irã, Iraque e na Síria. Qualquer coisa maior que isso é perigosa ilusão.
Os Takfiris (quer dizer, as franquias inumeráveis e que mudam de nome constantemente, do que antes se conhecia como al-Qaeda). Da mesma forma que os curdos, as várias ramificações de Takfiris no início da agressão contra a Síria pareciam compor força poderosa. E se a Guerra Global dos EUA Contra o Terror (US GWOT, ing.) parecia ser benção celeste para os “bons terroristas” (que eram, claro, todos os terroristas da região) é porque disso se tratava, precisamente. Na sequência, a coisa desandou, e hoje os takfiris parecem tão fracos quanto os curdos.

 

Resumidamente, eis como evoluiu o poder relativo desses atores regionais, desde o princípio da agressão anglo-sionista contra a Síria:

Atores Evolução do poder de cada ator regional
O “Eixo da Gentileza”:
EUA + CENTCOM + OTAN + Israel + Arábia Saudita
CAIU: de ator mais forte para um dos mais fracos na região.
Irã + Hezbollah + Houthis + forças xiitas no Iraque SUBIU: provavelmente a força militar mais equilibrada da região
Rússia + Síria SUBIU: em processo visto apenas como *pura sorte*, Rússia e Síria se tornaram cada vez mais fortes, com o passar dos anos de conflito.
Turquia + facções pró-Turquia na Síria CAIU: em forte contraste com a Rússia, numa evolução esquisita e que foi encarada como “má sorte”, a Turquia e seus aliados na Síria pareceram enfraquecer com o decorrer do conflito.
Os curdos CAIU: os curdos foram prejudicados pelo imenso erro de acreditar em promessas vazias (denominadas “plano B”, “plano C”, “plano D”, etc.) feitas pelos anglo-sionistas. Agora, tudo o que sonharam desvaneceu-se e eles terão de se estabelecer numa região autônoma entre Iraque e Síria.
Os Takfiris (quer dizer, as franquias inumeráveis e que mudam de nome constantemente, do que antes se conhecia como al-Qaeda). CAIU: sua situação é quase tão ruim quanto a dos curdos. A única vantagem dos Takfiris é que não são ligados a nenhum pedaço de terra e podem tentar reagrupar-se em qualquer lugar da região (ou até do mundo); jamais diga jamais, mas acho que, se isso acontecer, não será no futuro imediato/previsível.

 

Tentemos agora dar sentido a tudo isso e responder a pergunta: “Por que um determinado grupo relativamente forte entre os atores teve tal má sorte e tornou-se cada vez mais fraco, com o decorrer do tempo, enquanto os fracos se fortaleciam?”

A primeira coisa que temos que ter em mente é que, independente das respectivas posições públicas, cada grupo sempre fala e falou para os demais. Esta “conversação” pode ser oficial e pública ou ocorrer a portas fechadas, ou alguém pode servir-se de intermediários e, por último mas não menos importante, a “conversação” pode dar-se numa versão estatal de “linguagem corporal”: mediante essas ações cada ator envia uma mensagem para outro ator ou atores. Mas embora as coisas se passem absolutamente assim, o que faz a diferença é a qualidade das comunicações entre as partes. Quando, digamos, Netanyahu ou Trump proclamam publicamente que pouco estão ligando para seja lá o que for (até para a Lei Internacional) e que se reservam o direito de ameaçar e até mesmo atacar qualquer um, a qualquer tempo, seja lá por qual razão, essa é mensagem muita clara para, digamos, os iranianos. Mas de que mensagem se trata? Porque, sim, aí se dizem algumas coisinhas:

1. É inútil resistir porque somos muito mais fortes que você [e portanto],

2. Não estamos interessados em você nem em seus interesses nacionais [e portanto],

3. Não queremos negociar com você (ou seja lá com quem for). A você, só resta submeter-se a nós.

Essa informação é crucial. Aí, EUA e Israel proclamam sua superioridade sobre todo o planeta e especificamente sobre qualquer outro ator no Oriente Médio. Além disso, toda a ideologia e visão de mundo de EUA e Israel assenta-se no senso muito forte da própria superioridade militar desses dois atores. Pergunte a qualquer israelense ou norte-americano o que seus países devem fazer se alguma outra coligação de poderes locais atacar com sucesso as suas forças: responderão algo na linha de “nós simplesmente vamos lançar bombas nucleares sobre todos essa maldita negrada do deserto cabeças de toalha – F….-se eles!”. Esse tipo de afirmação sempre vem em tom de certeza final e absoluta. Mentalmente, acrescentam alguma variante de “e tenho dito!”

Infelizmente para o Eixo da Gentileza, trata-se de crença completamente contrafatual. Por quê?

Por um lado, ter de apelar a bombas nucleares é admitir que alguma coisa vai muito mal com o resto das forças armadas do Eixo da Gentileza. Por outro lado, os poderes regionais reais entendem que não é de seu interesse dar motivo para que EUA ou Israel usem bombas nucleares. Assim, digamos, mesmo que os iranianos tenham os meios para bombardear Israel ou qualquer outro alvo do CENTCOM no Oriente Médio, sempre tomam cuidado para não atingir aquele limite perigoso no qual a ação da mídia corporativa faria ignorar a magnitude do desastre e exigiria que bombas nucleares fossem usadas (sim, se acontecer algo parecido, a mídia norte-americana e a mídia israelense exigiriam bombardeios nucleares, tanto quanto sempre aplaudem toda qualquer guerra de agressão desfechada por EUA ou Israel).

Em segundo lugar, precisamente porque EUA e Israel são incapazes de ter aliados reais (eles só tem colônias, onde quem manda é a elite comprador), não podem também trabalhar com sucesso em algum tipo multilateral de relacionamento com outros atores. O contraste entre EUA/Israel por um lado e Rússia e Irã por outro, pode não ser grande. Mas tanto Rússia quanto Irã entendem que é muito mais vantajoso ter aliados de verdade, que fantoches. Por quê? Porque para convencer alguém a ser seu aliado você precisa oferecer algo tangível como parte de um compromisso para alcançar um objetivo comum. Quando isso é feito de forma correta, a parte mais fraca sente que está defendendo seus próprios interesses, não apenas interesses de um “patrão” que pode não ser digno de confiança e pode inclusive atacar pelas costas.

Em terceiro lugar, um dos melhores especialistas dos EUA na Teoria das Negociações, professor William Zartman, escreveu em seu livro seminal, The Practical Negotiator [lit. “O Negociador Prático”]:


“Um dos eternos paradoxos das negociações reside no fato de que permite aos fracos confrontarem os fortes e mesmo assim conseguir algo que não seria possível se fraqueza ou força fosse tudo o que importasse (…). Partes mais fracas tendem a procurar negociações mais formais e a reforçar seus argumentos mediante organizações (…) Estados fracos podem dar-se ao luxo de, mais facilmente que Estados fortes, exibir comportamento errático ou irresponsável, particularmente quando as regras de regularidade e responsabilidade favorecem a parte mais forte (…). Estados fracos fazem o seu melhor para recompensar as concessões dos Estados fortes, em vez de tentar mostrar força e “aguentar firme” ou pedir demais no início, para demonstrar suas necessidades e facilitar as recompensas (…). As táticas de dureza e suavidade variam de acordo com a força das partes: sob condições simétricas, a dureza tende a levar à dureza; e a dureza sob condições assimétricas, à suavidade, com partes fracas seguindo a liderança do líder das partes mais fortes.

Há muito para descompactar nesse parágrafo (e muito mais no livro, que recomendo muito para todos!).

Primeiro, vamos comparar e contrastar as atitudes de Rússia e EUA na criação de fóruns de negociações. Os EUA inventaram o Fórum “Amigos da Síria” que só foi notável por duas coisas: apesar de se chamar “Amigos da Síria”, esse grupo reunia a elite dos inimigos da Síria, do Irã e da Rússia (igualzinho aos “Amigos da Líbia”, aquele saco sem fundo de países hostis à Líbia).

Em segundo lugar, os evidentes (e sequer negados) propósito e função desse grupo foi burlar o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Nada de novo, os EUA têm tentado tomar o lugar da ONU e seu papel de fazer respeitar a Lei Internacional mediante todo tipo de truques, dentre os quais as famosas “coligações de vontade” ou apelos para uma “ordem internacional baseada em regras”. Desnecessário dizer que com a possível exceção de alguns propagandistas obscuros, todos esses truques e malícias são destinados a evitar submissão a fóruns internacionais já existentes, começando com a própria ONU. A Rússia, em contraste, não apenas se valeu da ONU por tudo o que representa (apesar das limitações), como teve sucesso em forçar os EUA a aceitar resoluções sobre a Síria (ou sobre a Ucrânia, por falar nisso) com as quais os EUA não queriam concordar, mas que não podiam vetar por razões políticas.

Não só isso, a Rússia também criou o processo de paz de Astana, o qual, diferente das fantasias engendradas pelos EUA, reuniu diferentes atores, alguns hostis uns aos outros. O movimento mais brilhante da Rússia foi impor a todas as partes a noção de que “aqueles que querem negociar são parte legítima do processo, cujos interesses têm de ser preservados, e aqueles que se recusam são todos terroristas”. Claro que as muitas franquias da al-Qaeda tentaram jogar o “jogo da reformulação”, mas isso não ajudou. Você pode mudar o nome uma vez a cada 24 horas, caso queira, mas se não sentar à mesa de negociações você é terrorista e, portanto, alvo legítimo para os ataques das forças russas/sírias/iranianas. Dado que o Império teve de aceitar esses termos, que foram apoiados por uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, acabou preso a um processo que só uma vitória militar conseguiria alterar.

Assim voltamos à questão das tropas no terreno. Apesar de todo o seu poder militar combinado, o Eixo da Gentileza não tem tropas para pôr no terreno. Enquanto isso, os sírios, o Hezbollah, o Irã e a Rússia, cuidadosamente e com muita efetividade (mesmo que informalmente), concordaram com o seguinte compromisso de trabalho:

  1. Os sírios deixarão os russos reorganizarem suas forças armadas, especialmente algumas unidades de elite, e devagar, passo a passo, liberarão suas terras.2. Os iranianos e o Hezbollah agirão como uma brigada de bombeiros, e apoiarão diretamente as operações sírias com suas próprias forças, em setores cruciais da linha de contato.3. Os russos tomarão controle do espaço aéreo sírio e providenciarão proteção para sírios, Hezbollah e iranianos, contra os ataques de bombas e mísseis anglo-sionistas. Finalmente, as forças russas de operações especiais serão engajadas em operações de alta prioridade que estariam além das capacidades dos iranianos ou do Hezbollah.Qual foi o maior obstáculo para os planos de Síria/Irã/Hezbollah/Rússia?A Turquia, claro. Os turcos sempre odiaram Assad (pai e filho), e suas ilusões neo-otomanas ainda lhes dá uma, digamos, “vontade especial” de intervir além das próprias fronteiras. Além disso, a Turquia sempre viu a Síria como fator de agravamento de seu “problema curdo”. Finalmente, a Turquia tem um tipo de exército que lhe dá condições para ameaçar e tentar intervir, até para intervir realmente no Iraque ou na Síria (claro que não contra o Irã). Assim sendo, a Rússia tinha de tirar da equação a Turquia ou, ao menos, enfraquecê-la o mais possível. E foi exatamente o que a Rússia fez.

    Para o Kremlin, a derrubada do Su-24 foi equivalente a uma declaração de guerra. Só que os russos, totalmente conscientes de sua relativa fraqueza se comparados a EUA/OTAN/CENTCOM/Turquia, sabiamente decidiram não retaliar nos mesmos termos e, digamos, bombardear instalações militares turcas. Mas Putin prometeu: “você não escapa só com um embargo aos tomates que nos vendia” (a Rússia impôs um embargo a vários itens turcos de exportação). Além de sanções econômicas e políticas, não há dúvidas de que os russos decidiram usar todos os seus métodos e meios para enfraquecer e desestabilizar Erdogan, pessoalmente; e a Turquia, como um todo. Recapitulando alguns eventos:

– Dia 24/11/2015, Turquia derrubou um Su-24 russo.

– Nos dias seguintes, a Rússia fechou o espaço aéreo do norte da Síria, cortou todos os contatos com o exército turco, declarou que abateria qualquer avião turco que atacasse qualquer alvo na Síria (não importava a partir de qual espaço aéreo) e impôs sanções econômicas e políticas.

– Em dezembro, Putin declarou, ameaçador, que

“Se alguém que cometeu contra nós vil de guerra vil supõe que escapará apenas sem vender tomates ou com alguma restrição na construção civil e outras indústrias, está profundamente enganado”.

– Em junho de 2016, Erdogan escreveu ao presidente russo Vladimir Putin, manifestando “pêsames e profundas condolências”.

– Em 15/7/2016, houve uma tentativa de golpe de estado contra Erdogan, que quase lhe custou a vida. A Rússia agiu intensamente por trás dos panos e, sabe-se lá como, salvou a vida e o poder de Erdogan.

– Na sequência do golpe fracassado, a Turquia operou realinhamento total e pôs-se resolutamente ao lado de Rússia e Irã, mesmo considerando que o movimento significava aceitar Assad no poder na Síria.

O que exatamente a Rússia fez por trás das cortinas provavelmente permanecerá em segredo por muitos anos (as versões vão, de ter avisado Erdogan, até ter usado forças especiais russas para evacuá-lo in extremis). Mas não tem importância. O quer realmente sabemos com certeza é que, depois do golpe, Erdogan mudou em 180 graus a própria rota. Pessoalmente, creio que os russos de algum modo conseguiram atrair os EUA e seus marionetes Gulenistas da CIA para tentar derrubar Erdogan; e, na sequência, apareceram para ‘salvar’ Erdogan. Acho difícil engolir as outras duas opções (a Rússia é país de sorte extraordinária; e os EUA são fantasticamente incompetentes). Mas ainda que se aceitem essas duas opções ou alguma combinação delas, a Rússia manejou muito habilmente os eventos (por exemplo, ao usar como pretexto a derrubada pela Turquia do Su-24, para reforçar muito a posição defensiva dos russos na Síria); e a Turquia perdeu a importância de “ator poderoso e hostil” na equação russa do Oriente Médio.

Depois disso, restou só uma espécie de “operação política de limpeza”.

Repetidamente, a Rússia tentou fazer os curdos entenderem que a estratégia de lutar contra todos e quaisquer vizinhos é estratégia fracassada desde o início e inevitavelmente sairá pela culatra. Infelizmente para o povo curdo, seus líderes são iludidos ou tão corruptos que não conseguem entender.

Erdogan e o resto do establishment político turco são irredutíveis ao afirmar que a Turquia em nenhuma circunstância permitirá que os curdos sírios (ou iraquianos) estabeleçam seu próprio Estado.

BARRA LATERAL: sinto muito, muito mesmo, pelos curdos, mas tenho que registrar que cavaram o próprio infortúnio. É questão a ser estudada sistematicamente no futuro, mas parece que só dois tipos de nações pequenas são viáveis: as espertas o suficiente para manipular dois vizinhos grandes, um contra o outro, ao mesmo tempo em que colaboram com ambos (por exemplo, Cazaquistão ou Mongólia); e as que não têm nem qualquer mínimo senso histórico e repetem indefinidamente os mesmos erros (exemplos: poloneses e curdos). Essas nações sempre têm senso exacerbado da própria importância, o que as leva a agir como se fossem as mais fortes do grupo; assim, só conseguem afastar os vizinhos realmente fortes. Aparentemente, independente do número de vezes que essa população seja esmagada, um narcisismo historicamente autoalimentado e, digamos francamente, muita arrogância, os põe em posição de serem invadidos, depois invadidos novamente e outra vez… Há quem diga que nasceram perdedores ou que “não conseguem aprender as lições da história”. Na realidade, dá no mesmo.

Para o Kremlin, a solução era óbvia: use os turcos para forçar os curdos a aceitarem o inevitável, mas não permita que os turcos estabeleçam uma invasão permanente no norte da Síria.

É verdade que os russos manifestaram desaprovação morna, quando da invasão turca e chamaram todo mundo de volta para a mesa de negociações. Foi exemplo raro de caso no qual a retórica russa não bate com suas ações, porque na realidade a operação turca seria absolutamente impossível, se os russos não dessem a Ancara alguma permissão confiável para ir em frente, mesmo que não oficial. Além disso, de acordo com ao menos um relato (que considero razoavelmente correto), a força aérea russa empenhou dois Su-35S para enfrentar dois F-16 turcos, os quais, ao perceberem o que estava para acontecer, decidiram fugir para salvar suas vidas. Ainda assim, sabemos que, de fato, em outras circunstâncias, F-16 foram usados para atingir alvos curdos. Fica muito claro que não só os russos avisaram Erdogan sobre o que era aceitável e o que não era, como também fizeram um “ajuste fino” da operação turca, para que apenas forçasse os curdos de volta para a mesa de negociações, mas sem deixar que os turcos estabelecessem qualquer tipo de presença significante no norte da Síria.

O que aconteceu a seguir foi efeito dominó. Os curdos tentaram lutar o melhor que podiam, mas logo perceberam que seriam exterminados. Os norte-americanos, de forma previsível e lógica, também trataram de se salvar. Trump espertamente usou os acontecimentos (totalmente reais, mas mesmo assim usados como pretexto) para sair da Síria (ao menos oficialmente), não apenas para salvar vidas norte-americanas, mas também para se arrancar da areia movediça que se tornou a Síria, para o Eixo da Gentileza.

Por último, mas não menos importante, lá estavam os israelenses, absolutamente lívidos, e por uma boa razão: não restava a menor dúvida de que eram os maiores perdedores em todo esse processo; e de que mais uma vez estavam na situação de depender de uma suposta superpotência, a qual nada podia fazer de realmente importante (exceto distribuir montes de dólares, que os israelenses poderiam gastar em montes de equipamento inútil).

Os eventos recentes na região mostraram não só que as forças terrestres dos EUA são imprestáveis, mas também que as garantias dos EUA valem nada; e, por outro lado, que os sistemas de armas norte-americanos são ridiculamente supervalorizados.

Chegamos finalmente ao que acredito ser o desenvolvimento único mais importante no conflito: TODOS os inúmeros planos desenvolvidos pelos israelenses para a região ruíram, um a um. Ainda mais patético, todas as viagens que Netanyahu fez à Rússia, sempre tentando engabelar os russos, a fim de que levassem a sério os israelenses, falharam. Por quê?

Porque os russos já compreenderam há tempos que Israel não passa de tigre de papel, com rugido realmente impressionante (também conhecido como “a maciça máquina de propaganda internacional sionista”, que responde também como “mídia livre ocidental” entre crianças de colo e chatos de galocha) mas, também, que é incapaz de fazer qualquer coisa de tangível que o rugido insinuasse.

Sim. Sei que quanto mais as coisas dão errado para os israelenses mais frenética se torna sua máquina de propaganda: depois de ter prometido que o “invencível exército de Israel” conduziria “centenas” de bombardeios na Síria e no Iraque, eles agora fazem alarido sobre ter uma “lista de assassinatos” que inclui Hassan Nasrallah. Bobagem. Quanto aos “bombardeios às centenas”, Israel tem no currículo a provavelmente mais inepta e mais mal executada campanha aérea, desde o fracasso total da campanha aérea da OTAN no Kosovo. Responda você mesmo:

Se os israelenses conduziram “centenas” de bombardeios aéreos na Síria – por que eles não tiveram qualquer efeito perceptível sobre a situação militar no terreno?

Afinal, foram os russos que mudaram tudo: a (muito pequena) força-tarefa Aeroespacial Russa na Síria, sim, reverteu o curso dessa guerra.

Por que a campanha aérea russa rendeu esses resultados fenomenais, e a campanha aérea dos israelenses rendeu absolutamente nada (a não ser as tão necessárias sessões de psicoterapia para muitos sionistas acometidos do que Gilat Atzmon identificou, brilhantemente, como “transtorno de estresse pós-traumático”)?

A resposta é simples: a campanha aérea russa uma foi verdadeira campanha militar; a campanha aérea dos israelenses não passou de jogada de Relações Públicas.

Bom exemplo da tese de Zartman de que “Estados fracos podem dar-se ao luxo de exibir comportamento errático ou irresponsável,  mais facilmente que Estados fortes, particularmente quando as regras de regularidade e responsabilidade favorecem a parte mais forte” pode ser encontrado na posição relativa de, por um lado, Irã, Hezbollah e Houthis; e, do outro lado, de EUA e Israel. Não que o Irã e seus aliados tenham agido de forma irresponsável. Não é isso. O que aconteceu foi que, quando reagiram, sempre traziam mensagem ambígua: não queremos guerra, mas estamos prontos para ela. Fato é que, quando os EUA empenham-se em disparar ameaças cruas (pense em todas as estúpidas ameaças que Trump fez durante seu governo, incluindo a mais atual, de atacar a Turquia, se necessário, não se trata de piada: veja aqui), essas ameaças sempre resultam em enfraquecimento dos EUA, cada vez mais. É uma benção para Rússia, Irã, Hezbollah e para os sírios, que seus inimigos sejam não só ineptos, mas também eficientíssimos em se autoencurralar nas piores situações.

No final, os EUA conseguiram quebrar a cara – ainda que ninguém mencione o assunto. O que quero dizer?

Considere-se o panorama: Trump escreveu carta desaforada para Erdogan (parecia escrita por um moleque de dez anos), tão insultuosa, que Erdogan jogou-a no lixo, sem titubear. E fez questão de instruir os subordinados a fazer chegar à mídia o modo como tratara as ameaças idiotas e os insultos de Trump. A Turquia também lançou uma invasão de larga escala e desafiou os norte-americanos. Nesse ponto, os “gênios” na Casa Branca (Pompeo e o vice Pence) tiveram de correr a Ancara, em evidente missão de “controle de danos”. Imploraram que os recebessem. E pediram aos turcos que concordassem com um cessar-fogo simbólico, que daria tempo aos curdos para concordar com todos os termos impostos pelos sírios, e ao Exército Sírio para se posicionar e controlar grandes pedaços de terra sem disparar um só tiro. E agora vamos ao mais bonito de tudo:

Pompeo e Pence pediram a Erdogan que aceitasse exatamente o resultado equilibrado que os russos há tanto tempo desejam! Estou ainda estupefato: até agora, a Mídia Democrata ainda não acusou Pompeo e Pence de serem agentes russos! De fato, o que a dupla “pediu e obteve” da Turquia foi exatamente o que Putin queria.

Evidentemente, tudo foi embrulhado no mesmo saco, com todo o tipo de ameaças e promessas de destruir esse ou aquele país (até a Turquia, membro da OTAN que pode, em teoria, invocar o artigo 5º e pedir ajuda à OTAN para que a defenda contra os EUA! Claro que nada disso vai acontecer, pois poderia ser o fim da OTAN), e todo o resto dos latidos histéricos obrigatórios que sempre ouvimos dos EUA quando o “melhor exército da história da humanidade” não consegue conquistar absolutamente coisa alguma (e nada muda, por mais que Trump insista que teriam sido os EUA – não a Rússia – a derrotar os Takfiris que o ocidente amou com tanto fervor, apoiando, aglutinando e – como creio firmemente que acontecerá – os quais continuará a dirigir ainda por décadas).

Sim, Trump fez a coisa certa ao declarar que queria as forças norte-americanas fora da Síria, mas não se deixe enganar. Trump não ordenou a retirada porque seja grande humanista, mas porque turcos, curdos, sírios e quem mais quisesse bateriam duramente nas tropas dos EUA na região. Isso, sim, poderia resultar em conflito de grandes proporções que certamente custaria para Trump, a reeleição.

O que nos leva de volta à força-tarefa russa na Síria. É unidade forte, depois fraca, depois novamente forte. Tudo depende de suas deduções:

– Se você olhar apenas para a força-tarefa estacionada em Hmeimim e Tartus, verá que está protegida pelos sistemas de armamento russo de primeira linha, incluindo S-400s, Su-34, Su-35S, estações de guerra eletrônica, estações de gestão de batalha, etc. É o que basta para derrotar/frustrar um bombardeio realmente forte de mísseis ou bombas. Nesse caso, você pode considerar que a força-tarefa russa na Síria é forte e capaz de lidar com muitos tipos de ameaça que venha a sofrer.

– Mudando de nível, no entanto, torna-se óbvio que a maior fraqueza da força-tarefa russa na Síria tem sido desde o início o tamanho reduzido. Independente da sofisticação, as defesas aéreas russas podem ser ultrapassadas por um ataque determinado por qualquer combinação de forças do Eixo da Gentileza, simplesmente porque, no final, defesas aéreas são sempre parte de um jogo de números.

No melhor dos casos, a defesa aérea da Rússia na Síria só pode lidar com uma onda de ataque de mísseis ou aviões. Para que tal ataque seja bem-sucedido, tudo o que o Eixo da Gentileza precisa fazer é calcular quantos mísseis os russos têm, e disparar cerca de 1,5 vezes esse número de (mesmo antiquados) Tomahawks; então, tão logo os russos tenham usado seus estoques, disparar uma segunda onda de mísseis, desta vez mais modernos e difíceis de atingir. Nesse ponto, os russos só poderiam replicar com artilharia antiaérea e capacidades para guerra eletrônica. Inevitavelmente, chegar-se-ia a um ponto em que os recursos russos seriam ultrapassadas. Nesse cenário, a Rússia é a parte mais fraca; e a força-tarefa russa estaria perdida no caso de um ataque sustentado da combinação EUA/OTAN/CENTCOM.

– Finalmente, há um terceiro nível, que os anglo-sionistas tem de levar em conta: os russos já tornaram claro o suficiente que em caso de ataque contra sua força-tarefa na Síria, a Rússia usará sua impressionante capacidade estratégica, para proteger sua força-tarefa. Tais medidas poderiam incluir: ataque de mísseis de cruzeiro de longo alcance e bombardeios aéreos (talvez a partir do espaço aéreo iraniano). Nesse caso, como meu amigo Andrey Martyanov explicou muitas vezes, incluindo no artigo “Potencial Defensivo da Rússia: o gorila de 400 quilos na Síria” (ing.) que ele conclui com as seguintes palavras:

Esse simples e único fato operacional mostra precisamente porque por dois anos um relativamente pequeno contingente de militares russos tem sido capaz de trabalhar tão efetivamente na Síria e, de fato, ditar as condições no terreno e na área de suas operações. A resposta é simples – vários viciados em adrenalina foram colocados em uma jaula que foi baixada na água entre os tubarões, com apenas grades de metal separando-os dos mortíferos tubarões. Ainda assim logo acima, no barco de onde a jaula foi baixada sempre há uma pessoa com uma arma pronto para intervir no caso de uma emergência mortal se a grade ceder. O contingente militar russo não se trata de apenas uma base do exército russo – é uma força estreitamente integrada com as Forças Armadas da Rússia, que tem alcance e capacidade suficiente para que qualquer um tenha que fazer escolhas extremamente desagradáveis, incluindo o farto de que é a Rússia, e não os EUA que controla a escalada para um dado limite, o que pode explicar a histeria ininterrupta contra a Rússia na mídia dos EUA, desde que o resultado da guerra da Síria se tornou claro.”

Mais uma vez temos a mesma postura do Irã: não queremos a guerra, mas estamos prontos para ela. Poder-se-ia dizer que a postura dos EUA é o contrário: nós queremos a guerra (diabos, nós *precisamos* dela por motivos políticos e econômicos!), mas não estamos completamente preparados para ela (até mesmo psicologicamente).

Conclusão: Lembrem-se de quantos (muitos!) estão hoje já comprovadamente errados!

Não esqueçam todas aquelas pessoas que previram com absoluta confiança que “a Rússia está vendendo a Síria”. Eles começaram com sua ladainha quando a Rússia impediu um ataque dos EUA contra a Síria, pegando-o pela palavra o oferecendo a remoção de todas as armas químicas da Síria. Não só aquelas armas eram inúteis, mas formavam um pretexto perfeito para que o Eixo da Gentileza bombardeasse a Síria. Os EUA tiveram que aceitar, embora rangendo os dentes de raiva. Bem, imediatamente todos os que papagueavam “Putin/Rússia está/estão vendendo” a Síria imediatamente bradaram que a Rússia estava desarmando a Síria para facilitar um ataque de Israel.

Assim, na realidade nenhum ataque (significativo) de Israel se materializou.

Então, as mesmas pessoas clamaram que a Rússia “permitiu” que Israel atacasse a Síria, que os russos desligaram seus S-300s/S / S-4aa, etc. etc. etc.

Na realidade os EUA desistiram de qualquer ataque, enquanto os israelenses reivindicaram “centenas” de sortidas. Talvez eles tenham atingido algum edifício vazio e portanto desprotegido, quem sabe?

Depois houve o coro massivo de trolls, a dizer que a Rússia queria repartir a Síria. Mesmo assim, apesar de todos os argumentos altissonantes (pelo menos para quem não entende nem a Rússia nem o Oriente Médio), os quartéis generais dos vários grupos de “terroristas do bem” caíram um a um ante o exército sírio. Nesse momento, há mais território sírio liberado que em qualquer outro. Quanto aos turcos, eles podem sonhar sobre uma Grande Turquia ou sobre criar algum tipo de zona de segurança/tampão, mas eles entendem que não podem fazer aquilo que entra em oposição aos desejos da Rússia e da Síria ao mesmo tempo. De fato, a Turquia prometeu oficialmente respeitar a integridade territorial da Síria[1].

Memorando de Entendimento entre Turquia e a Federação Russa
Kremlin, Moscou, 22/10/2019 (negritos do Saker)O presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdogan e o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin concordam sobre os seguintes pontos:1. Os dois lados reiteram seu compromisso com a preservação da unidade política e integridade territorial da Síria e a proteção da segurança nacional da Turquia.2. Enfatizam sua determinação de combater o terrorismo em todas as suas formas e manifestações e interromper agendas separatistas no território sírio.3. Nesse ordenamento, o status quo estabelecido pela Operação Primavera de Paz na área que cobre Tel Abyad e Ras Al Ayn, com profundidade de 32 km será preservado.

4. Ambos os lados reafirmam a importância do Acordo de Adana. A Federação Russa facilitará a implementação do Acordo de Adana nas circunstâncias atuais.

5. A partir das 12h00 de 23 de outubro de 2019, a Polícia Militar Russa e os guardas de fronteira sírios entrarão no lado sírio da fronteira entre Síria e Turquia, fora da área de operação da Operação Primavera de Paz, para facilitar a remoção dos membros do YPG e suas armas para uma profundidade de pelo menos 30 km a partir da fronteira Turquia/Síria, ou que deverá ser finalizado em 150 horas. A partir daí, patrulhas conjuntas Russo/Turcas começarão no leste e no oeste da área da Operação Primavera de Paz com profundidade de 10 km, exceto na cidade de Qamisshli.

6. Todos os membros do YPG e suas armas serão removidos de Manbij e Tal Rifat.

7. Ambos os lados tomarão as medidas necessárias para impedir infiltração de elementos terroristas.

8. Esforços conjuntos serão lançados para facilitar o retorno de refugiados de maneira segura e voluntária.

9. Um mecanismo conjunto de monitoramento e verificação será estabelecido para supervisionar e coordenar a implementação desse memorando.

10. Os dois lados continuarão a trabalhar para encontrar uma solução duradoura para o conflito sírio dentro do mecanismo de Astana e apoiarão a atividade do Comitê Constitucional.

Pontos fundamentais do Memorando de Entendimento são:

1. EUA fora, Rússia dentro.

2. As fronteiras sírias não poderão ser mudadas.

Se isso não é uma vitória da Diplomacia Russa, não sei o que é!

Para assistir à conferência de imprensa de Putin e Erdogan, na íntegra (leg. Ing.), clique aqui.

E aqui, a reação de um dos piores veículos de propaganda anglo-sionista em toda a Europa (imagem): Capa de Der Spiegel, 19/10/2019: “A capitalização do Ocidente” (al. no original)

 

E aos que discordam, permitam-me propor uma questão retórica:

Se é verdade que Putin é um perdedor que “vende” tudo e que trabalha em conluio, para Israel e Netanyahu especificamente, se a Rússia é tão fraca e ingênua, por que não é o povo russo que está denunciando uma “capitulação”? Por que todos os inimigos da Rússia que estão surtando ‘porque’ a Rússia estaria “capitulando”?

*******

A partir daí, para onde iremos?

Na realidade estou cautelosamente otimista, dado que há uma grande diferença entre Rússia e EUA: os EUA precisam de guerras constantes simplesmente para sobreviver; a Rússia necessita de paz para progredir. Agora que os russos são os principais atores no Oriente Médio (claro que em conjunto com os iranianos), podem usar o fato chave de que gozam de bom relacionamento com todos incluindo (antigos?) inimigos da Rússia como Arábia Saudita ou Emirados Árabes Unidos.

Evidentemente, não haverá paz entre Israel e o resto do Oriente Médio, dentre outras razões porque a natureza de Israel é ser sempre a mesma ameaça mortal para todos os países da região, até para países que colaboraram ativamente com Israel (como a Arábia Saudita).

Vídeo: Tropas dos EUA saem apedrejadas da Síria
Vídeo: Tropas dos EUA saem apedrejadas do Iraque

Mais uma vez: sintam o nenhum amor, nenhum respeito e nenhum medo. 🙂

A única maneira de interromper o longo sofrimento do Oriente Médio, para finalmente viver em paz, seria que “desapareça na arena do tempo o regime de ocupação sionista sobre Jerusalém” para usar as famosas e frequentemente mal traduzidas palavras do Aiatolá Khomeini.

O atual Líder Supremo iraniano, Aiatolá Khamenei, também foi claro sobre a única maneira de resolver a questão palestina e conquistar a paz no Oriente Médio:


“A proposta da República Islâmica para ajudar a resolver a questão Palestina e curar essa ferida é uma iniciativa clara e lógica baseada em conceitos políticos aceitos pela opinião pública mundial, e que já foi apresentada em detalhe. Não sugerimos que exércitos dos países muçulmanos lancem guerra clássica, ou jogar os imigrantes judeus ao mar, ou mediação pela ONU e outras organizações internacionais. Propomos que se realize um referendo com [a participação da] nação Palestina. A nação Palestina, como qualquer outra, tem o direito de determinar seu próprio destino e escolher o sistema de governo do país.”
(3/10/2011, em Conferência sobre a Palestina).

Ambos os líderes iranianos estão absolutamente certos. Nunca haverá paz na região enquanto esse regime racista e louco que só tem desprezo pelo resto do planeta continuar seu lento movimento de genocídio contra a população original da Palestina.

Entrementes, agora que Síria, Rússia, Irã, Houthis e Hezbollah e as forças xiitas no Iraque mostraram com sucesso ao ‘Tio Shmuel’ a porta de saída da Síria, o último plano israelense (talvez o “plano S”, de Sionismo) também colapsou, junto com qualquer esperança de criar um Curdistão Independente.

Israel não tem condições de formar coligação assim tão forte. Eu argumentaria que nem os EUA podem vencer contra esta força, mesmo que ainda possam desencadear um massacre (como os israelenses fizeram em 2006).

Dentre os fracassos estratégicos que vimos nos governos Obama e Trump, a perda de influência no Oriente Médio é provavelmente o maior de todos. É acontecimento positivo para a região e o mundo. Esperemos agora que, seja quem for que ocupe a Casa Branca em 2020 compreenda que se trata de fato definitivo e não tente fazer o “Império grande outra vez”, porque qualquer tentativa de reverter o atual curso dos acontecimentos pode resultar em grande guerra regional.

[assina] The Saker

[1] Ver também, sobre o Memorando de Entendimento, “Um foguete forçou os EUA à retirada”, Elijah J. Magnier, 14/10/2019 (ing.), traduzido no Oriente Mídia

Traduzido por  btpsilveira (ed. revista e distribuída por Vila Mandinga )

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