Sharmine Narwani: Sobre a história secreta da derrota dos EUA na Síria ( Parte I)

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21/4/2019, Patrick Lawrence* entrevista Sharmine Narwani, Blog e Salon (1/2)

Quando a guerra na Síria foi recentemente declarada decidida, havia poucos correspondentes ou testemunhas a quem recorrer para um olhar confiável sobre o que aconteceu naqueles oito anos de conflito. Dentre as poucas pessoas capazes de responder as minhas muitas perguntas, sempre contei com Sharmine Narwani, cujo trabalho há muito tempo considero distintamente meticuloso e honesto em meio a uma cobertura que – na opinião dela e também na minha opinião – atingiu um novo patamar (baixo), com o colapso dos padrões profissionais do jornalismo investigativo e da ética.

“O conflito sírio constitui o principal campo de batalha em uma espécie de Terceira Guerra Mundial”, disse ela durante nossa longa troca de mensagens. “As guerras mundiais foram, em essência, guerras de grandes potências, depois das quais a ordem global reorganizou-se de algum modo, e estabeleceram-se novas instituições globais.” Isto, em linhas gerais, é o que Narwani vê diante de nós, agora que fracassou a última operação de “mudança de regime” orquestrada pelas potências ocidentais.

Narwani e eu conduzimos nossa conversa por e-mail, Skype e WhatsApp durante várias semanas no final de março e início de abril. Nessa primeira parte (de duas), Narwani disseca o papel de vários grupos de ação e de influência – jihadistas radicais e as nações que os apoiaram, a imprensa ocidental, ONGs – interessados em prolongar uma guerra que, na opinião dela, poderia ter terminado há muito tempo.

Essa é a versão editada, só para evitar repetições devidas a idas e vindas sobre assuntos muito próximos. A 2ª parte está em preparação.

Patrick Lawrence: Você voltou da Síria semana passada. – E esteve lá várias vezes no ano passado. Foram meses importantes, porque são os primeiros depois do fim da guerra. O que você viu?

Sharmine Narwani: Ano passado estive na Síria em maio e junho, nas semanas que antecederam a batalha pelo sul da Síria. Visitei Daraa, Suweida e Quneitra, as três províncias do sul mais críticas para a batalha que aconteceu em seguida próxima batalha. Foi experiência impressionante. Para mim, serviu para pôr fim a vários mitos e ideias erradas que eu ainda tinha sobre o conflito.

Uma dessas ‘descobertas’ foi a Al-Qaeda, que lá estava em campo, ativa na luta em Daraa, indistinguível dos grupos militantes apoiados pelo Ocidente em todos os principais teatros do mundo. Outro choque foi quando entrevistei ex-combatentes da Frente Al-Nusra e do Exército Sírio Livre (ESL) perto da fronteira com o Líbano: disseram que seus salários foram pagos pelos israelenses durante todo o último ano antes de se renderem, cerca de US $ 200 mil por mês, de Israel, só para militantes na cidade de Beit Jinn.

A batalha do sul foi muito rápida. Em seguida todo o foco mudou para o norte – para Idlib, onde os militantes mais extremistas reuniram-se na última fortaleza que lhes restava; e no nordeste, onde as tropas americanas começaram uma retirada lenta, ainda sem devolver ao estado sírio os territórios ocupados.

Semana passada, visitei Idlib para ver o que poderia descobrir sobre a próxima batalha, mas nada mudou muito. Antes terá de haver uma decisão política. Há quem espere que aconteça depois que Rússia, Irã e Turquia se encontrarem no final de abril. Idlib é diferente de Daraa, porque 80% dos militantes são da Al-Qaeda, e o restante são seus aliados. Mas no momento a Turquia e as potências ocidentais – inclusive EUA – continuam a proteger a Al-Qaeda.

Patrick Lawrence: O que você tem de mais recente em esforços de reconstrução, planos para uma nova constituição e um acordo político? Dizem que Rússia, Irã e Turquia estão tentando estabelecer um mecanismo constitucional de algum tipo na ONU. A Rússia e a Turquia concluíram com a Alemanha e a França planos de reconstrução – não que tenhamos visto uma palavra sobre isso na imprensa americana. Para onde tudo isso está indo, na sua opinião?

Sharmine Narwani: Precisamos colocar o que é comumente chamado de “processo político” sírio em perspectiva. Síria, Rússia e Irã venceram. A Turquia está prejudicada pelas perdas na Síria e está buscando desesperadamente um novo equilíbrio geopolítico. A França e a Alemanha estão muito preocupadas com mais refugiados – e extremistas – inundando suas fronteiras, e estão dispostos a romper com os objetivos dos EUA na Síria sobre esta questão.

Em suma, o “processo político” é o que Síria, Rússia e Irã querem que seja. Suas reuniões em Astana [capital do Cazaquistão, onde uma série de negociações de paz ocorreram] desmilitarizaram os pontos críticos na Síria e os colocaram de volta sob o controle do governo. E suas reuniões em Sochi [a cidade turística russa] conseguiram reunir sírios de todas as orientações, numa sala conversando. Então, esses três países vão descobrir o processo constitucional. Apenas espere que seja principalmente sob os termos do vencedor. Grandes concessões aos interesses ocidentais – em troca de fundos de reconstrução – serão improváveis, porque todo o Oriente Médio agora sabe que os EUA não cumprem seus acordos. A Síria não está apostando em fundos ocidentais, ao contrário do que sugerem os relatórios de mídia.

Prevejo que o final do jogo levará a Síria de volta para onde estava em 2011, logo depois de Assad ter feito reformas sem precedentes que a comunidade internacional decidiu ignorar.

Patrick Lawrence: Essa é uma observação muito interessante. Você sugeriu anteriormente que as negociações de paz de 2016 em Genebra levariam àquela mesma coisa. Muito poucas pessoas no Ocidente sabem que Assad propôs numerosas reformas em resposta à inquietação inicial em 2011. Algumas delas são impressionantemente liberais, por qualquer padrão que se use. Por favor, nos fale sobre isso. Por que você acha que, agora, as coisas voltarão às propostas que Assad tinha para 2011?

Sharmine Narwani: Quando o governo sírio introduziu reformas em 2011 e 2012, a única coisa que realmente ouvimos do ocidente foi que seria “tarde demais” e que seriam “reformas de fachada”. Mas foram reformas amplas e significativas. A carnificina teria sido evitada, se tivesse havido tempo e espaço para que o país se apossasse daquelas reformas.

A partir de 2011, Assad emitiu decretos suspendendo quase cinco décadas de leis de emergência que proibiam reuniões públicas. Foi grande coisa, já que outros líderes árabes estavam fazendo o oposto em resposta às suas respectivas “insurreições”. Outros decretos incluíam o estabelecimento de um sistema político multipartidário, limites de mandato para a presidência, a suspensão dos tribunais de segurança do Estado, libertação de prisioneiros, acordos de anistia, descentralização para autoridades locais, deposição de figuras políticas controversas, introdução de novas leis de mídia que proibiam a prisão de jornalistas e maior liberdade de expressão, investimento em infraestrutura, moradia, fundos de pensão, estabelecimento de diálogo direto entre populações e autoridades governamentais , estabelecendo uma comissão para dialogar com a oposição – muitos dos quais rejeitaram a oferta.

Você poderia sentir essas reformas se desdobrando em Damasco no começo de 2012. Eu dirigia por toda a cidade de Beirute, ligava para telefones celulares pessoais de figuras da oposição, visitava pessoas em casa, conversava com pessoas comuns sobre política. Podia acessar livremente o Twitter e o Facebook na Síria – plataformas que passaram anos proibidas.

Patrick Lawrence: Qual foi a reação entre os sírios? Houve de tudo, compreendo. Você escreveu que alguns dissidentes sírios também criticaram essas reformas.

Sharmine Narwani: Inicialmente, muitas pessoas estavam céticas sobre as reformas. As narrativas contra o estado sírio eram muito difundidas, o que confundia as pessoas, apanhadas entre informações dissonantes. A maioria das figuras da oposição doméstica estava certa de que Assad partiria em poucas semanas, o que comprometeu a disposição para dialogar com o governo ou apoiar publicamente as reformas. Mas mesmo assim a oposição – muita gente da oposição passara anos nas prisões sírias – rejeitou a intervenção estrangeira, a imposição de sanções e a militarização do conflito.

No início de 2012, os dissidentes que conheci zombavam das reformas, mas depois que Damasco foi destruída naquele verão, sob bombardeio massivo, percebi mudança muito marcante naquelas posições.

Em termos da população em geral, acho que os sentimentos foram divididos – não tanto quanto às reformas propriamente ditas, mas sobre se realmente seriam implementadas. Modo de avaliar o apoio público seria examinar quantos sírios compareceram ao referendo constitucional. Muitos boicotaram, mas a taxa de participação foi de quase 60%. Eu diria que uma maioria pequena, mas mesmo assim maioria, dos sírios estava disposta a confiar nas reformas.

Patrick Lawrence: Qual é a sua avaliação do plano dos EUA de se retirarem da Síria? Acho que você sugeriu, em algo que escreveu há algum tempo, que os EUA efetivamente perderam a Síria para a Rússia desde as primeiras missões aéreas russas em setembro de 2015.

Sharmine Narwani: Sim, em setembro de 2015, os EUA perderam o conflito para a Rússia e seus aliados. O motivo é muito simples. A intervenção russa proporcionou ao exército sírio e aos seus aliados terrestres a cobertura necessária para fazer o seu trabalho de forma eficaz. Quem domina o ar e o solo vence a guerra.

Para ser justo, também parecia altamente improvável que Obama estivesse preparado para transformar a Síria em guerra aérea total dos EUA. Acho que gostou de fazer uma “mudança de regime” daquele modo passivo-agressivo que os democratas fazem: toda “intervenção humanitária” e marketing e sons tenebrosos. Mas o ganhador do Prêmio Nobel da Paz não colocaria aviões pilotados pelos EUA no espaço aéreo dominado pelos russos sobre a Síria de maneira significativa – não depois do Iraque e do Afeganistão, e não depois que os russos e chineses bloquearam a rota de Obama para a guerra, vetando todas as resoluções da ONU que pudessem legitimar a intervenção.

Patrick Lawrence: Até que ponto você acha que a Síria fez a posição dos EUA no Oriente Médio mudar, como um todo? Parece que estamos saindo de uma passagem importante na longa história do envolvimento americano na região.

Sharmine Narwani: Os EUA já estavam saindo do Oriente Médio antes das chamadas “revoltas árabes” começarem. Quem quer que no aparato de segurança nacional dos EUA tenha tomado a decisão de permanecer por perto e redirecionar essas revoltas contra os adversários regionais cometeu um erro colossal. Ainda espero escrever sobre isso um dia porque é importante. Acredito que o conflito sírio constitui o principal campo de batalha, numa espécie de Terceira Guerra Mundial.

As guerras mundiais foram, em essência, guerras de grandes potências, após as quais a ordem global reorganizou-se um pouco e novas instituições globais foram estabelecidas.

Olhe ao seu redor agora. Tivemos uma remodelação no equilíbrio de poder nos últimos anos, com a Rússia, a China, o Irã em ascensão, e a Europa e a América do Norte em declínio. Isso não quer dizer que Washington, Londres ou Paris não tenham alavancas para operar: claro que têm e operam.

Mas foi na contramão do conflito sírio que se travou uma grande batalha de poder. Na sequência, novas instituições internacionais de finanças, defesa e formulação de políticas nasceram ou se transformaram.

Não falo apenas do fortalecimento dos BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul], da Organização de Cooperação de Xangai, do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura, da União Euroasiática etc. Quero dizer, as redes mundiais também estão mudando de mãos.

O que acontecerá com as rotas de navegação controladas pelo Ocidente agora que a Ásia começou a construir rotas terrestres mais rápidas e baratas?

O sistema SWIFT [mensagens para compensação de ordens bancárias] sobreviverá, quando uma alternativa for acordada para contornar as sanções dos EUA em todos os lugares? Existem muitos exemplos dessas mudanças.

Não estou querendo dizer que todas essas mudança devam-se a os eventos na Síria. Estou dizendo que a Síria desencadeou a batalha entre grandes potências que liberou mais rapidamente e com maior eficiência, a energia para construir essa nova ordem.

Tenha em mente que a Terceira Guerra Mundial em nenhum caso será guerra convencional. Será sempre guerra ‘híbrida’, que se expandiria em várias frentes – não apenas eventos de mudança de regime, mas também pressões financeiras, sanções, propaganda, atividades de subversão política, desestabilização, aumento do terrorismo, lutas ‘por procuração’ e assim por diante.

Mas a batalha pela hegemonia global realmente começou a se desenrolar na Síria – quando russos, iranianos e chineses decidiram traçar uma linha e lutar. Depois disso, o mundo mudou.

Patrick Lawrence: Como você acabou de sugerir, a Síria há muito parece ser um tipo diferente de guerra, um novo tipo – uma guerra travada com imagens, informações e desinformação, retratos verdadeiros e falsos de eventos, pessoas, organizações e assim por diante. Baseado no que você escreveu há muitos anos – e de dentro da Síria, no teatro de combate – eu acho que você concorda com isso.

Sharmine Narwani: De certa forma, a Síria nunca foi tão diferente. Todas as guerras ocidentais modernas foram combatidas com imagens manipuladas e desinformação. Demos o nome de “propaganda” e acusamos os nazistas e os soviéticos de fazê-lo, mas os EUA o fazem melhor do que ninguém. É literalmente a principal ferramenta no kit militar dos Estados Unidos: caso contrário, os americanos nunca aceitariam guerras intermináveis. Havia leis que proibiam o governo dos EUA de fazem propaganda para o povo americano. O governo Obama desfez muitas dessas barreiras legais.

Se você tiver uma chance de ler o manual de Guerra Não Convencional das Forças Especiais dos EUA (ing.), você verá o quanto a propaganda é fundamental para os esforços a que os EUA estão dedicados para manter a hegemonia. Tudo começa e termina com “definição de cena”; e “percepção oscilante” para preparar uma população para apoiar a invasão, ocupação, guerras de drones, “intervenções humanitárias”, rebelião, mudança de regime.

Não foi diferente na Síria. O governo dos EUA impôs narrativas-chave desde o primeiro dia – que Assad estava matando indiscriminadamente civis numa revolução popular e pacífica. Não. 88 soldados foram mortos em toda a Síria no primeiro mês de protestos. Você nunca ouviu isso na mídia ocidental. Essa informação teria alterado sua percepção do conflito.

A oposição síria costumava queimar pneus no topo dos edifícios para simular bombardeios para câmeras de TV. Você soube disso?

A única razão pela qual se pode ver a Síria, hoje, como “tipo diferente de guerra” foi que tivemos o Twitter e o Facebook e mídias alternativas abrindo buracos, todos os dias, na narrativa de Washington. E porque, claro, os sírios tiveram a audácia de resistir por oito anos. Ninguém consegue manter ativa uma mesma mentira por oito anos. A verdade escapa, esgueira-se. As pessoas percebem.

Patrick Lawrence: Vamos nos concentrar em alguns tópicos que você apontou como fatores-chave no prolongamento e, como você diz, na “armação” do conflito. A primeira delas é a questão da contagem de baixas. Num de seus artigos você chamou de “o circo da contagem de baixas”. Você pode resumir o que descobriu e como mostrou tão completo desacordo com os relatórios oficiais?

Sharmine Narwani: Investiguei pela primeira vez o número de mortes na Síria 10 meses depois de iniciado o conflito. Naquele mês, janeiro de 2012, o número de vítimas da ONU na Síria era de cerca de 5.000 mortos. A Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre a Síria divulgou seu primeiro relatório dois meses depois, em março, afirmando que 2.569 forças de segurança sírias haviam sido mortas no primeiro ano. Nessa mesma ocasião ficamos sabendo que metade dos mortos não eram civis nem da oposição. Metade dos mortos sírios eram forças de segurança. As mesmas forças de segurança sírias que me informaram que a oposição estava, sim, armada, treinada, organizada e era muito, muito letal.

E quanto à outra metade do total de mortes – as restantes 2.431 baixas? Descobri que eram uma mistura de civis pró-governo, civis pró-oposição e homens armados de oposição em trajes civis. Os “rebeldes” não estavam usando equipamento militar. Assim, era impossível distingui-los dos civis. A mídia tradicional simplesmente não queria saber dessas coisas óbvias. Nada perguntaram, nada investigaram.

Um ano depois, uma das principais organizações que divulgavam números de vítimas da oposição, o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que a mídia ocidental cita o tempo todo, me disse que era difícil diferenciar os rebeldes dos civis, porque “todos se misturavam, para se esconder”. Em segundo lugar, o número de mortos na Síria aumentou dez vezes, e a ONU divulgou uma análise de baixas que incluiu a informação de que 92,5% dos mortos eram do sexo masculino. Isso não é indicativo confiável de baixas numa “população civil”.

O ponto é: Por que não havia um único jornalista lá fora perguntando “Quem está matando e quem está morrendo?” Se eles tivessem feito essa pergunta elementar, a maneira como vemos esse conflito teria sido muito, muito diferente. Houve, no mínimo, paridade no assassinato, o que também significa que a resposta do governo sírio aos opositores não foi absolutamente desproporcional.

Patrick Lawrence: Outra área de interesse é a questão de quando e como a oposição – supostamente desarmada no início – chegou a estar armada. A questão das respostas proporcionais à violência tem a ver com isso, como você acabou de sugerir.

Sharmine Narwani: Elementos da oposição foram armados desde o início do conflito. Temos evidências visuais e de depoimentos, de esconderijos de armas, homens armados infiltrando-se pela fronteira libanesa e homens armados “estrangeiros” que aparecem em Daraa, a cidade [no sul da Síria] onde os protestos se manifestaram pela primeira vez. Nos primeiros dias, era difícil provar isso, porque foram feitos esforços para esconder a evidência de que a oposição tinha armas – e quem falasse sobre isso era imediatamente marginalizado. Mas então a Liga Árabe (que havia suspendido a Síria e, portanto, era vista como um órgão imparcial) enviou uma equipe de observadores que produziu um relatório impressionante – sobre o qual você não leu na imprensa ocidental. Essa missão de observação detalhou os bombardeios e o terrorismo da oposição e ataques a infraestruturas e civis.

Também sei que a oposição estava armada desde o início [março de 2011] por causa de minha própria investigação e descoberta de que 88 soldados sírios foram emboscados e mortos em toda a Síria no primeiro mês do conflito…. Tenho arquivados esses nomes, idade, posto nas fileiras militares, locais de nascimento – tudo. Então, em junho de 2011, mais de 100 soldados sírios foram assassinados em Jisr Shughour, na província de Idlib, muitos deles degolados, o que já ninguém poderia contestar. Mesmo assim continuamos a ouvir da mídia, ainda por muito tempo, que “a oposição está desarmada e é pacífica”.

Mas você perguntou sobre a proporcionalidade. Eu pergunto: e se de repente atiradores emboscados começassem a matar soldados norte-americanos, e matassem 88. Depois, em marços, outros 100 soldados são mortos só num dia, metade deles degolados. O que seria resposta “proporcional” para você? O que quero dizer é que a questão da proporcionalidade muda muito. Não há só uma proporcionalidade aceitável.

Patrick Lawrence: A próxima pergunta é óbvia. Quem armou a oposição? Somos capazes de dizer?

Sharmine Narwani: Hoje sabemos que os EUA, o Reino Unido, a França, o Catar, a Arábia Saudita, os EAU e a Turquia são os principais países que armaram, treinaram, financiaram e equiparam os militantes e encontraram maneiras intricadas para evitar a detecção, especialmente no início. Armas entraram na Síria de todos os cinco países fronteiriços em diferentes partes deste conflito – Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque, Israel – mas eu diria que a maioria das armas provavelmente chegou via Turquia, transferências de armas que foram muito coordenadas com seus da Turquia na Otan.

Patrick Lawrence: Quando, por que e como grupos como o al-Nusra se envolveram? Quais foram ou são suas relações com o ‘Exército Sírio Livre’ (ESL) e as ‘Forças Sírias Democráticas’?

Sharmine Narwani: A Frente Nusra é a franquia síria da Al Qaeda. Bombardeios em Damasco em dezembro de 2011 e janeiro de 2012 foram as primeiras ações atribuídas publicamente à Al Qaeda, e logo foram seguidas por um vídeo viral do chefe da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri, instando os colegas jihadistas a invadirem o teatro sírio. Não sei se você já ouviu falar do documento desclassificado da Agência de Inteligência da Defesa de 2012 sobre a Al Qaeda? Este artigo mostra que os EUA e seus aliados identificaram a Al Qaeda como a força de combate mais forte e mais capaz na Síria contra o governo de Assad; que esses extremistas tinham a intenção de criar um “principado salafista” na fronteira sírio-iraquiana; e que os EUA e seus aliados basicamente apoiavam isso. Muitos tentaram minimizar esse documento, mas Obama demitiu Michael Flynn como chefe da Agência de Inteligência da Defesa (DIA), e Flynn disse que o documento estava correto, que os EUA haviam “intencionalmente” apoiado todo esse inferno.

O ESL foi shitshow desde o início – nenhuma autoridade central, nenhuma cadeia de comando, nenhuma coesão, etc. “ESL” passou a ser usada como sigla para qualquer militante que combatesse o exército sírio. Muitos lutadores do ESL se juntaram à Al Qaeda e ISIS durante este conflito. O ESL frequentemente dava ou vendia suas armas fornecidas pelos EUA à Al Qaeda – e o Pentágono sabia disso o tempo todo. Quando perguntei a um porta-voz do CENTCOM [Comando Central dos EUA] em 2015 por que tantas armas dos Estados Unidos fornecidas a seus combatentes estavam aparecendo nas mãos da Al Qaeda, ele disse: “Não ‘comandamos e controlamos’ essas forças. Nós só os ‘treinamos e equipamos’.” Esse é o pano de fundo real.

Durante minha viagem a Daraa no ano passado, pouco antes da batalha para expulsar militantes do sul da Síria, descobri que a Al Qaeda estava em todas as principais áreas estratégicas ao lado das 54 facções militantes apoiadas pelo Ocidente que se preparavam para combater o exército sírio. Se você olhasse para qualquer mapa dos think tanks dos EUA antes da grande batalha pelo sul, você teria visto três cores: vermelho para o Exército Árabe Sírio; verde para os “rebeldes”; e preto para o ISIS. Então, onde estava a Al Qaeda? Eles estavam misturados aos “rebeldes” das áreas verdes. Assim a Al-Qaeda tornou-se indistinguível das forças que os EUA apoiaram neste conflito.

Patrick Lawrence: Você tentou, a certa altura, que o Departamento de Estado fornecesse um nome, que fosse, um só, de grupo de “rebeldes moderados”. Não sabiam ou não quiseram informar, como você relatou. Por favor, conte-nos sobre esse episódio.

Sharmine Narwani: Eu costumava pedir ao Departamento de Estado que nomeasse os chamados “rebeldes moderados” que os EUA apoiavam no conflito sírio. Jamais responderam, alegando que as informações poderiam comprometer a segurança dos grupos rebeldes.

Aqui está o meu argumento: A razão pela qual os EUA não nomearão os grupos militantes que financiaram e armaram é porque, no momento em que o fizerem, encontraremos vídeos de atrocidade e filmes feitos por esse grupo. Os problemas de responsabilidade são enormes. Mas a questão principal é que os EUA basicamente armaram grupos extremistas no conflito sírio e não precisam que o público saiba quem são essas pessoas.

Patrick Lawrence: Que grau de apoio para o governo de Assad você encontrou? E de que setores da população síria?

Sharmine Narwani: Primeiro de tudo, deixe-me dizer que Síria não é Tunísia ou Egito – onde as populações tinham conexão praticamente zero com seus líderes, fosse no front doméstico fosse em termos de visão de mundo. O estado sírio não é rico, mas garante serviços básicos, além de educação, saúde, alimentação básica para a população. E o estado sírio compartilha em grande parte sua visão de mundo, com a população – os sírios são anti-imperialistas, antissionistas, pela resistência contra poderes intervencionistas, pró-independência, etc.

Em suma, Assad, sobretudo nos principais centros urbanos, de Aleppo e Damasco, sempre conservou o apoio de partes muito importantes do eleitorado sírio – empresários, elites sociais, forças armadas (muito significativas), os grupos minoritários (alauitas, cristãos, drusos, xiitas, etc.) e os sunitas seculares. O partido [governante] Baath tem cerca de 3 milhões de membros, a maioria dos quais são sunitas. Essa é parte importante do apoio com que Assad conta. Então, à medida que as condições de vida se deterioravam e a violência política aumentava, muitos opositores fugiram para áreas controladas pelo governo e desistiram da luta.

Patrick Lawrence: Antes de abrir o foco, falemos um pouco mais da Síria. Havia dois fatores na guerra que desempenharam papéis decisivos na construção e manutenção da narrativa, como você diz. Em um certo ponto eles se cruzaram, mas vamos ver um de cada vez.

Primeiro, descreva suas impressões sobre o desempenho da mídia ocidental. Você os chamou de “ridiculamente bajuladores” num de seus artigos. Pode falar sobre isto? Foram, por exemplo, propositadamente cúmplices no “gerenciamento da percepção”, como dizem? É possível que os padrões profissionais tenham simplesmente colapsado, desde que deixei a reportagem?

Sharmine Narwani: Os principais meios de comunicação ocidentais foram absolutamente cúmplices na disseminação da desinformação sobre o conflito sírio para servir as agendas políticas de seus respectivos governos. Vivemos uma era de guerra de informação total. Interessante é que as populações reconhecem isso num plano, digamos, intestinal, porque as pessoas estão-se separando dos veículos tradicionais e procurando fontes alternativas de informação.

Os jornalistas não foram enganados neste conflito. Os jornalistas que trabalhavam na Síria eram, na maior parte, crentes fiéis da ordem liberal, do excepcionalismo dos EUA, do intervencionismo. E esses profissionais são contratados porque pensam dessa maneira. Citam absolutamente sem questionar qualquer coisa que seus governos digam, apesar das mentiras do Iraque, Líbia, Vietnã, etc. São profissionais que absolutamente não se preocupam se a guerra é legal ou não – EUA e Reino Unido bombardeiam a Síria, instalam bases militares pelo mundo, financiam guerras e armas grupos terroristas, tudo isso é ilegal, se se considera o Direito Internacional.

Vários jornalistas ocidentais que ousaram investigar mais profundamente foram demitidos, silenciados ou foram caluniados até que sua reputação fosse destruída. Conheço jornalistas que perderam o emprego. O Huffington Post parou de publicar meu trabalho depois que comecei a reportar de dentro da Síria. Mais ou menos um ano depois, excluíram todo o meu arquivo, do site. Outros jornalistas de veículos mainstream que questionaram as narrativas da Síria foram muito criticados – por seus colegas, de forma bastante chocante. – Alguns deles retrocederam, escrevam menos, tuítam menos. Na cobertura da Síria, as táticas de intimidação usadas contra colegas nossos foram implacáveis.

Em suma, a mídia ocidental, sim, ajudou na encenação e ajudou a ampliar o conflito. Já não acho que jornalistas devam ter qualquer tipo de imunidade, quando distorcem tanto a realidade, como distorceram a realidade da guerra na Síria, e pessoas morreram nesse processo. Prefiro vê-los com ‘jornalistas soldados’, que cumprem ordens. Parece-me descrição bem acurada do papel dos jornalistas nas guerras contemporâneas.

Patrick Lawrence: Agora vamos às ONGs ocidentais – Human Rights Watch e afins – ou ao Observatório Sírio de Direitos Humanos. Qual foi o papel deles? São organizações q trabalham por princípios? Foram citadas como fontes primárias na imprensa ocidental. Mas Patrick Cockburn, na London Review of Books, disse que são organizações de militantes anti-Assad. Não se pode dizer que sejam “fontes confiáveis”.

Sharmine Narwani: Na verdade, é bem interessante o papel que as ONGs desempenharam na operação de tecer esse conflito. Você está certo. Todas essas ONGs foram inteiramente unilaterais e pró-oposição. Divulgavam declarações e relatórios, baseados na definição mais vaga de “fonte” que já vi. E os jornalistas ocidentais seus amigos distribuíam aquele lixo por toda a mídia mundial. E os governos que se opunham ao governo sírio reagiam com indignação, sempre citando uma ou outra ONG e “a imprensa”, como se fossem fonte de fatos.

A maioria das entrevistas que se fizeram com sírios em campo eram coordenadas com pessoas ligadas à oposição militante – muitas feitas por Skype. Quem pode ter certeza sobre com quem fala? Por que diriam a verdade? Quem apresenta o jornalista à fonte? A maioria das informações vinham de ONGs – locais e internacionais. – Foram a fonte da maioria das informações que se encontrava sobre ataques com armas químicas, bombas de fragmentação, massacres, vítimas civis de ataques aéreos, etc.

A mais onipresente dessas ONGs é, claro, a “equipe de resgate” dos Capacetes Brancos financiada pelo ocidente, que só trabalhou em áreas com os grupos militantes mais extremistas e supostamente teria testemunhado vários dos supostos ataques químicos na Síria. Mas se você rastrear alguns assuntos pelo Facebook, rapidamente você encontrará fotos de dezenas dos mesmos funcionários dos Capacetes Brancos exibindo armas e posando ao lado de combatentes da Al Qaeda e do ISIS. Pois apesar de haver muitas evidências desse tipo, nas próprias páginas e sites das próprias ONGs, a mídia ocidental jamais deixou de usar esse grupo como fonte. E ainda usa, até hoje.

Patrick Lawrence: Nesta linha, você escreveu um artigo, logo depois do suposto ataque com gás em Ghouta Oriental – na primavera do ano passado, me parece. Excelente artigo. Tive o prazer de citá-lo em uma das minhas colunas do Salon . Você realmente encontrou e fotografou uma fazenda mantida por jihadistas cheia de equipamentos de armas químicas fornecidos pelos EUA. Só os jihadistas tinham esse tipo de arma. Mais ninguém tinha.

Você pode falar sobre essa experiência? Chama a atenção que você sempre consegue manter-se mais perto da realidade, que outros correspondentes, especialmente os ocidentais residentes em Beirute. E como as matérias sobre esses ataques comprovam, também se mantém mais perto da verdade.

Sharmine Narwani: Não tenho nenhuma vantagem particular sobre outros jornalistas estrangeiros que viajam para a Síria. Eu tenho que esperar o mesmo tempo para receber um visto, e cada visita é limitada a quatro dias, embora isso possa ser estendido no país com a permissão do Ministério da Informação.

Quando estive em Damasco em março passado, o ministério telefonou para os repórteres sobre um laboratório que haviam descoberto no dia anterior, enquanto liberavam algumas fazendas de Ghouta… Acontece que a instalação não era tão segura e tivemos que nos abaixar e atravessar alguns campos muito acidentados a pé, com morteiros e tiros disparados a poucos metros de distância. Eu não sou um repórter de guerra e não tenho treinamento algum nesse nicho especializado e louco, então não foi nada agradável. A instalação em si era um tipo de laboratório dirigido por uma facção militante, apoiada pelos sauditas, chamada Jaysh al-Islam. Ficou claro que ali estava acontecendo algo, que tinha utilidade militar, mas o laboratório tinha acabado de ser descoberto e ainda não estava claro o que havia ali.

A propósito, nunca escrevi que se tratasse de laboratório de armas químicas. Vê-se nas fotos o nível de sofisticação do equipamento, as grandes unidades de compressão de gás, os tubos indo do laboratório para os aparelhos mais pesados abaixo. A única conclusão que tirei daquela descoberta foi que militantes sírios claramente tinham os meios para acessar equipamentos cuja venda é proibida, estrangeiros e até americanos, com tecnologias de uso duplo, que tinham meios para montar linhas de produção em plenas zonas de guerra, que tiveram acesso a substâncias tóxicas. Encontrava-se cloro em contêineres enfileirados em frente da instalação. Antes, a narrativa oficial rezava que os “rebeldes” não poderiam ser responsáveis por ataques com armas químicas porque não poderiam nem produzi-las, nem comprá-las. Aquela instalação mostrou que, sim, podiam produzir armas químicas.

Patrick Lawrence: Interessante. Seu relato obriga-me a fazer outra pergunta. Entendo que você foi levada àquele local por autoridades sírias. Havia como ter certeza de que não fosse operação do próprio governo?

Sharmine Narwani: De fato, soldados sírios levaram duas outras equipes de mídia – emissoras de TV – e eu, até aquelas instalações, com permissão do Ministério da Defesa. Vários sinais me levaram a acreditar, com razoável confiança, de que não estávamos entrando em cenário montado. Toda a área havia sido pesadamente bombardeada – havia detritos e poeira cobrindo a maior parte do equipamento, o que é um dos itens que se considera para saber se o material poderia ter sido posto ali na véspera, para a encenação. Ainda se ouviam tiros e bombardeios a poucos metros, na área; ninguém chamaria aquilo de “terra libertada” há tempo suficiente para que o exército sírio tivesse podido levar aqueles equipamentos para lá, que tivesse transportado aqueles materiais explosivos através dos campos esburacados sulcados até aquele laboratório, e que em seguida teria coberto tudo com restos de argamassa e poeiras cenográficos. Não. Não foi assim que aconteceu.

Além de tudo isso, também o grupo militante que ocupara aquele laboratório, o Jaysh al-Islam, apoiado pelos sauditas, não só não negou que o laboratório fosse seu, como também já admitiu ter usado agentes tóxicos no conflito sírio – contra os curdos, no bairro de Sheikh Maqsood, em Aleppo.

Patrick Lawrence: Para mim, o episódio em Ghouta, que terminou nos bombardeios norte-americanos, britânicos e franceses contra mísseis de Damasco, foi o segundo mais malfeito de todos. O primeiro lugar vai para o incidente de agosto de 2013: nem bem os inspetores de armas químicas da ONU acabavam de se instalar no hotel em Damasco – a convite de Assad – e acontece mais um ‘ataque químico’ em Ghouta. Instantaneamente os EUA culparam Assad. Absurdo. Já não se fazem nem operações de ‘falsa bandeira’ e ‘operações psicológicas’ como antigamente! Ou, talvez, sejamos hoje, nessa era saturada de mídia, capazes de ver mais.

Será que se pode dizer que todos aqueles incidentes na Síria foram falsificados, encenados? É possível algum julgamento conclusivo?

Sharmine Narwani: Não posso fazer nenhum julgamento conclusivo, mas, considerada a minha experiência, tenho algumas ideias sobre esse assunto. Nos primeiros dias, foi como quase cronometrado: na véspera de cada reunião do Conselho de Segurança da ONU para discutir a Síria – ou imediatamente antes da chegada de alguma “equipe internacional” ao país –, acontecia algo violento e horrível. Podia-se praticamente cronometrar esses massacres e ataques com armas químicas, de acordo com o evento politicamente significativo que estivesse prestes a ocorrer em alguma capital ocidental. Difícil não perceber esse padrão e ainda mais difícil não desconfiar desses “ataques” sempre atribuídos ao governo sírio.

Fiz algumas investigações de primeira hora sobre os ataques com armas químicas, incluindo o incidente de 2013 em Ghouta. Não posso dizer exatamente o que aconteceu, mas posso passar o que realmente sei sobre esse incidente. Havia em Ghouta um jornalista jordaniano que, no dia seguinte aos ataques, entrevistou moradores, militantes e suas famílias. Esse jornalista e um repórter da AP publicaram matéria em que noticiavam que militantes haviam retirado algumas armas novas e desconhecidas de contêineres dos sauditas, e que essas armas haviam sido mal usadas e causaram as mortes.

Na sequência, um dos funcionários de mais alto escalão da ONU na Síria nos disse: “A inteligência saudita esteve por trás dos ataques. Infelizmente, ninguém ousará dizer isso”. Sabemos com certeza que o mesmo funcionário deu a mesma informação a pelo menos dois outros repórteres ocidentais – que nada informaram sobre isso.

Este é um padrão que se constata em praticamente todos os demais ataques – evidência manipulada, cadeia de custódia [ing. chain of custody] desconhecida, acesso para investigadores sempre controlado e limitado. A maioria dos ataques ocorre em áreas controladas por militantes, de modo que a oposição tem controle total sobre o acesso e o fluxo de informações. Não acredito que seja possível processar o governo sírio em tribunal imparcial e condená-lo, em qualquer um desses casos. Além do mais, também no plano lógico, o estado sírio é a entidade que menos se beneficia de qualquer desses incidentes de guerra química, ou desses massacres. O governo sírio simplesmente não tinha motivo para fazer esse tipo de ataque. Por que usar munição química, altamente controversas, quando se pode causar danos ainda mais extensos, com as convencionais – e escapar de qualquer censura?

Patrick Lawrence: Como sugeri há pouco, a sua reportagem é sui generis porque desce aos mínimos detalhes. Na Síria, pode-se dizer que você é única, nesse aspecto. Fiquei particularmente intrigado com uma de suas fontes, o padre Frans van der Lugt, o padre holandês que viveu muitos anos em Homs, onde foi morto na primavera de 2014. Fale, por favor, sobre ele.

Sharmine Narwani: Nunca entrevistei o padre Frans. Mas, sim, visitei o seu túmulo, na igreja onde trabalhou, numa visita que fiz a Homs, pouco depois de ele ter sido morto. Mas, com seus escritos, este padre holandês nos deu algumas ideias preciosas e muito objetivas sobre o que aconteceu nos primeiros dias da crise – eventos que ele testemunhou em primeira mão.

Em setembro de 2011, ele escreveu: “Desde o início tem havido o problema dos grupos armados, que também fazem parte da oposição (…). A oposição de rua é muito mais forte do que qualquer outra oposição. E essa oposição está armada e frequentemente emprega brutalidade e violência, para, em seguida, culpar o governo”.

E então, em janeiro de 2012, ele expandiu: “Desde o início, os movimentos de protesto jamais foram puramente pacíficos. Desde o início, vi manifestantes armados marchando nos protestos. E eles começaram, antes de todos, a atirar na polícia. Muitas vezes a violência das forças de segurança têm sido reação à violência brutal dos rebeldes armados”.

O padre Frans van der Lugt, de 75 anos, foi baleado a queima-roupa, quando estava sentado num jardim da igreja, na parte de Homs então ocupada pelos rebeldes. [Fim da primeira parte]

* Patrick Lawrence é colunista de assuntos estrangeiros de Salon. Correspondente de longa data no exterior, principalmente para o International Herald Tribune e The New Yorker. É ensaísta, crítico, editor e escritor colaborador de The Nation. Seu livro mais recente é Time no longer: American Century 

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

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