Seymour Hersh não compreendeu o que realmente aconteceu

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21/12/2015,  Moon of Alabama

“O novo artigo de Sy é perigoso, coisa p’ra ler com cuidado. Longos parágrafos de conversas intra-Pentágono nuas e cruas sem diluir. Mas acerta na mosca sobre a abissal estupidez da equipe de “conselheiros” de Obama. Algumas das mais inteligentes cabeças do Pentágono sabem que Moscou está seguindo o único caminho possível, e concordam. E toda a melhor inteligência acumulada de EUA, Rússia e China – TUDO SOMADO – concordam que, advinhem, o problema é o Sultão. Nada faz diferença alguma, porque Obama parece que grudou naquela tal “política” da parte mais servil do Pentágono liderada por uma leva de palhaços
(20/12/2015, Pepe Escobar, Facebook)

“O problema é que Sy não investiga. Só faz organizar informação que ouve das fontes dele”
(Comentário de leitor, na página de PE no Facebook)
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O mais recente artigo de Seymour Hersh argumenta que o Comando Conjunto de Chefes do Estado-maior dos EUA [orig. Joint Chiefs of Staff (JCS)] com o general Dempsey à frente, trabalharam para minar a política oficial da Casa Branca na Síria. O ímpeto deles para fazer tal coisa brotou depois que análise construída pela Agência de Inteligência da Defesa [orig. Defense Intelligence Agency (DIA)] descobriu que em 2012 praticamente não havia qualquer “rebelde moderado” na Síria, só islamistas combatendo contra o estado sírio. A CIA estava, pelo menos desde o início de 2012, entregando armas lá, da Líbia para a Turquia e também por outras rotas.

general Dempsey

O embaixador dos EUA na Líbia Chris Stevens foi morto dia 11 de setembro de 2012 em Benghazi por conta de questões surgidas nessa transferência de armas. Uma vez na Turquia, as armas, assim como aviões carregados de outras armas compradas por Qatar e Arábia Saudita, eram entregues a “rebeldes moderados” que as levavam para a Síria. Na Síria, eles vendiam pelo menos parte de cada carregamento de armas e munição a gangues de terroristas islamistas as quais eram, como continuam a ser até hoje, financiadas pelos estados wahhabistas do Golfo. Matéria recente da BBCRadio4  de Peter Oborne explica em detalhes como opera esse sistema.

O Comando Conjunto de Chefes do Estado-maior dos EUA sob Dempsey andava muito incomodado pela evidência de que armas mandadas para lá pela CIA estivessem indo diretamente para a mesma gente contra a qual os EUA haviam combatido no Iraque e no Afeganistão, apenas poucos anos antes. Então decidiram, segundo a fonte de Hersh, ‘minar’ o programa de mudança de regima da Casa Branca e da CIA.

Forneceram inteligência à Síria, via Alemanha, Rússia e Israel. Também convenceram a CIA de que seria preferível distribuir armamento velho, que se podia encontrar lá mesmo, na Turquia, em vez de armas novas, mais de mais difícil transporte, a partir da Líbia. Nas palavras do próprio Hersh:
‘Nossa política de armar a oposição contra Assad fracassou e, na verdade, teve impaco negativo’ – disse [a Hersh] o ex-conselheiro do JCS. ‘Os comandantes do Estado-maior conjunto entendiam que Assad não deveria ser substituído por fundamentalistas. A política do governo [Obama] era contraditória. Queria que Assad saísse, mas a oposição era controlada por terroristas. Assim sendo, quem substituiria Assad?

Muito fácil dizer que ‘Assad tem de sair’, mas a conclusão, se se leva adiante essa ideia, seria que qualquer um seria melhor que Assad. Nesse ponto, precisamente, estava a diferença que persistia entre o comando do estado-maior dos EUA e a política de Obama.

Os comandantes do comando do estado-maior dos EUA sentiam que qualquer ataque direto à política de Obama teria ‘chance zero de sucesso’. Então, no outono de 2013 decidiram tomar medidas contra os extremistas, sem passar pelos canais políticos, simplesmente passando a oferecer inteligência dos EUA diretamente aos militares de outros países, sabendo perfeitamente que aquela informação chegaria ao Exército Árabe Sírio e seria usada contra o inimigo comum – Frente Jabhat al-Nusra e Estado Islâmico.
Hersh novamente, sobre a compra e venda de armas:
No final do verão de 2013, a avaliação da Agência de Inteligência da Defesa (DIA) circulara amplamente, mas, apesar de muitos na comunidade de inteligência dos EUA saberem que a oposição síria era dominada por terroristas, as armas patrocinadas pela CIA continuaram a chegar e continuavam a ser problema para o exército do estado sírio.

O estoque de armas acumulado por Gaddafi criara um bazar internacional de armas, mas os preços eram altos. ‘Não havia como deter os embarques de armas que haviam sido autorizados pelo presidente Obama’ – disse o conselheiro do Estado-maior (JCS). – A solução foi apelar ao caderninho de telefones. Um representante do Comando do Estado-maior fez contato com a CIA, levando uma sugestão à Agência: havia armas muito mais baratas nos arsenais turcos, que podiam chegar aos rebeldes sírios em dias, e sem transporte por mar.’

Mas a CIA não foi a única a beneficiar-se. ‘Trabalhamos com turcos nos quais confiávamos e que não eram leais a Erdoğan’ – disse o conselheiro do Estado-maior dos EUA e fonte [de Hersh] –, e conseguimos que eles mandassem para os jihadistas na Síria todas as armas obsoletas do seu arsenal, incluindo carabinas M1 que nunca mais haviam sido usadas desde a Guerra da Coreia e grandes quantidades de armas soviéticas. Foi mensagem que Assad podia compreender: ‘Temos meios para reduzir efeitos da política do presidente’.”
Em resumo, segundo Hersh o Comando do Estado-maior das Forças Conjuntas dos EUA estaria obrando contra a política do próprio Comandante-em-Chefe. Pode ser considerado ato de traição, mas a história dos EUA é repleta de exemplos em que chefes militares empurraram em direção muito diferente da ordenada pelos comandantes civis.

Trueman versus Douglas MacArthur é um exemplo, dentre vários. Pensem no fechamento da prisão de Guantanamo, que os comandantes militares impedem ativamente já há sete anos, apesar da promessa, do pedido e das ordens de Obama para acabar com aquilo.

Max Fisher, crítico de Hersh não conhecido por produzir jornalismo amparado em fatos, diz que a matéria de Hersh deve ser falsa, porque Dempsey não só não se opunha a armar os ‘insurgentes’ como, também, requereu publicamente que as armas fossem mandadas:
Hersh alega que o cérebro de toda essa conspiração teria sido o Comandante de todo o Estado-maior das Forças Conjuntas dos EUA, Martin Dempsey, o qual, para Hersh, estaria horrorizado com o plano de Obama para armar rebeldes sírios e teria tentado ajudar Assad.

É muito difícil acreditar nesse argumento: enquanto estava no comando, Dempsey várias vezes e muito publicamente discordou de Obama sobre a Síria, porque Dempsey queria mandar mais armas aos rebeldes sírios. Relatos daquela época mostram várias discussões sobre o apoio da Casa Branca, com Dempsey argumentando que os EUA deviam armar mais robustamente os rebeldes sírios, e Obama argumentando na direção oposta.

Mesmo assim, Hersh diz, sem qualquer prova, que Dempsey opor-se-ia de tal modo a armar rebeldes sírios, que teria ido ao extremo de cometer visível ato de traição para impedir que aqueles planos prosseguissem.

Hersh não faz qualquer tentativa para reconciliar essa contradição aparentemente fatal em sua história, e de fato nem se pode ter certeza de que Hersh sabe que Dempsey é conhecido por apoiar, não por opor-se, aos esforços para armar rebeldes sírios.
É claro que Hersh sabe perfeitamente o que Dempsey dizia e pensava no início de 2013. A única pessoa que não sabe é esse crítico de Hersh.

No início de 2013, soube-se oficialmente que, na opinião de Dempsey,  o Pentágono devia entregar armas a rebeldes cuidadosamente selecionados:
Em depoimento à Comissão de Serviços Armados do Senado, o secretário de Defesa Leon E. Panetta reconheceu que o comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas dos EUA general Martin E. Dempsey apoiara um plano, no ano anterior, para armar rebeldes sírios cuidadosamente selecionados.

“O Pentágono” – prosseguiu o Sr. McCain –, “apoiou a recomendação da Sra. Clinton e do Sr. Petraeus,  de que fornecêssemos armas à resistência na Síria? Vocês apoiaram isso?”
“Apoiamos” – disse o Sr. Panetta.
“Apoiaram isso” – disse o Sr. McCain.
“Apoiamos” – o general Dempsey acrescentou.
O plano do Pentágono foi morto pela Casa Branca, a favor do prosseguimento da operação da CIA. O trecho acima não contradiz, mas confirma, de fato, o que diz Hersh no artigo citado. Permitam-me explicar o contexto.

No início de 2013, Dempsey sabia perfeitamente que a CIA estava abastecendo – diretamente ou indiretamente – todos que, na Síria, pedissem armas e munição. Aquelas armas estavam indo diretamente para os jihadistas extremistas que, simplesmente, eram os grupos mais bem financiados e podiam pagar. Porque o programa da CIA era secreto, Dempsey evidentemente não podia dizer coisa alguma em público e, claro, não diria coisa alguma em audiência pública no Congresso. Mas Dempsey queria dar armas aos “rebeldes cuidadosamente selecionados” para assim substituir o programa da CIA, instalando em lugar dele um programa do Pentágono, sob comando do próprio Dempsey.

Assim conseguiria direcionar o fluxo de armas e impedir que terroristas islamistas continuassem a receber armas. Dempsey apoiou o programa do Pentágono pensando em controlar o modo como os ‘rebeldes moderados’ seriam armados, assim planejava aprimorar um programa que já estava em andamento, sob comando da CIA, mas que criava problemas de longo prazo.

Quando a derrubada hostil do programa da CIA para armar terroristas falhou, Dempsey e o alto comando do JCS tentaram sabotá-lo, entregando velhas armas turcas à CIA.

Só muito mais tarde é que o Pentágono foi autorizado a implantar seu próprio programa de treinamento para armar seus próprios ‘rebeldes’ sírios. Mas o programa do Pentágono andava paralelo ao programa da CIA e, portanto, era inútil para o objetivo que Dempsey tivera originalmente em vista. E não substituiu o perigoso programa da CIA.

O Pentágono então sabotou seu próprio programa, treinando apenas uns poucos rebeldes e mandando-os para uma área infestada de jihadistas terroristas onde eles imediatamente entregaram as armas à Frente al-Nusra. Assim Dempsey ‘comprovou’ o ponto central de sua crítica ao programa da CIA: armas que fossem para a Síria terminavam em mãos de inimigos de longo prazo dos EUA.

Pelo que pude ver, as fontes de Hersh são poucas e frágeis. A fonte principal e única fonte direta para a histórida dos feitos do Comando do Estado-maior das Forças Conjuntas dos EUA é “um ex-conselheiro dos comandantes do Estado-maior dos EUA”.

O coronel Pat Lang, fonte cujo nome Hersh revela para outros pontos do artigo, acredita que a fonte principal é real e que toda a história é verdadeira. Lang, que ainda presta serviços de consultoria aos militares, com certeza tem conexões ‘internas’ que lhe permitem montar quadro bem claro dessa questão.

Tudo bem, que alguém critique Hersh. Muito frequentemente seu trabalho jornalístico serve-se de fonte anônimas. Mas ao longo de sua carreira, Hersh acertou mais vezes do os que se aplicaram a criticá-lo. Aqui a crítica ao trabalho de Hersh depende de uma visão pequena e curta sobre o que Dempsey disse numa audiência pública, sem qualquer análise do contexto em que Dempsey falou.

Dempsey queria substituir o programa da CIA então ainda secreto que a Agência de Inteligência da Defesa e outros setores militares entendiam que estava em trilha muito perigosa.

O Pentágono de Dempsey, temendo que a CIA estivesse repetindo erros passados, estava combatendo secretamente contra a CIA do neoconservador Petraeus e, adiante, contra o grande amigo da Arábia Saudita, John Brennan.

Desgraçadamente, a Casa Branca apoiou a CIA e, assim, mais ou menos deliberadamente, aliou-se com o Estado Islâmico e com outras várias organizações de jihadistas terroristas (pdf) na Síria. *****

 

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