Segregação e ofensivas enraízam a colonização na Palestina ocupada

Share Button

Colonos israelenses escoltados por soldados foram à piscina na Cisjordânia, numa tarde de abril, expulsando os palestinos. Vilas como Susiya resistem à expulsão e exercícios militares deslocaram residentes do Vale do Jordão. No domingo (26), soldados invadiram a mesquita Al-Aqsa escoltando israelenses e na segunda (27), outro jovem foi morto pelas tropas. Eventos cada vez mais violentos têm definido a ocupação israelense e a segregação na Palestina.

Na Palestina, uma placa num posto de controle militar israelense alerta: "Esta estrada leva a vila palestina, a entrada é perigosa para cidadãos israelenses". 

Na Palestina, uma placa num posto de controle militar israelense alerta: “Esta estrada leva a vila palestina, a entrada é perigosa para cidadãos israelenses”.The Telegraph

Por Moara Crivelente*, para o Portal Vermelho

Em 2014, diversas medidas agravaram a situação na Palestina ocupada. A retomada oficial das demolições de casas e propriedades como “medida punitiva”, a expansão acelerada das colônias israelenses, a violência dos soldados e dos colonos, os postos de controle militar, a construção do muro, o deslocamento de residentes em diferentes vilarejos, as prisões arbitrárias e confrontos frequentemente fatais marcaram os meses anteriores e posteriores às brutais ofensivas contra a Palestina, anunciadas há um ano. Este artigo é o quarto de uma série que aborda este contexto.

Desde junho de 2014, quando três jovens colonos foram raptados e depois encontrados mortos na Cisjordânia, a violência, que já vinha em escalada, atingiu picos recordes, culminando em uma operação militar contra o território, denominada “Guardião Fraterno”, e em outra contra a Faixa de Gaza – a terceira em cinco anos, nunca é demais repetir – entre julho e agosto daquele ano, a “Margem Protetora”. No aniversário das ofensivas israelenses, que custaram cerca de 40 e de 2.200 vidas palestinas, respectivamente, é preciso notar que elas tiveram lugar num histórico alargado da ocupação e da violência estrutural que a sustenta.

Nesta segunda-feira (27), o jovem Muhammad Abu Latifa, de 18 anos, foi morto enquanto tentava escapar de soldados israelenses no campo de refugiados de Calândia, entre Ramala e Jerusalém. Ele foi o 18º palestino morto em 2015 e o quarto neste mês, de acordo com a agência de notícias Ma’an. No início de julho, outro adolescente de Calândia, Muhammad Hani al-Kasbah,de 17 anos, foi atingido pela munição letal usada por um comandante israelense depois de ter lançado pedras contra um veículo militar, e morreu. O episódio provocou protestos inclusive em meios israelenses, onde a arbitrária “pena de morte” por jogar pedras foi criticada por colunistas como Gideon Levy.

As cidades de Hebron e Jerusalém também são expoentes das investidas israelenses pela ocupação e a anexação. O vídeo a seguir, por exemplo, mostra a invasão da esplanada da mesquita Al-Aqsa, em Jerusalém, no domingo (26). Os soldados acompanhavam um grupo de judeus que pretendia rezar ali – considerado também a localização de um antigo Templo Judeu destruído – ainda que o recinto esteja guardado por soldados jordanianos, segundo acordo sobre um estatuto especial para a proteção de Al-Aqsa:

As regulações para a movimentação, inclusive de trabalhadores para Israel, numa jornada degradante; os ônibus e as estradas separadas para colonos ou palestinos e outros exemplos evidenciam um regime de segregação inclusive dentro de Israel, onde 20% da população é palestina: a “ilha de democracia” no Oriente Médio, como o país é caracterizado pela liderança sionista, tem leis específicas para a prisão de palestinos, dificulta a vida digna nas vilas árabes – com a limitação da infraestrutura básica e da reforma de residências – e as sessões no Parlamento frequentemente exibem o racismo, com um grau particular de virulência, sobretudo contra os cerca de 13 membros árabes.

Segregação e militarização

Em maio, a notícia do deslocamento de centenas de palestinos do Vale do Jordão foi explicada pela realização de “exercícios militares inéditos” do Exército israelense na região de Tubas, nordeste da Palestina. Os “exercícios”, de acordo com a agência de notícias Ma’an, mobilizou 50 tanques, veículos blindados, helicópteros e maquinaria pesada pela Área C da Cisjordânia – cerca de 74% do território palestino ocupado, sob controle completo de Israel, segundo os Acordos de Oslo de 1990; ao menos 66 famílias foram deslocadas. Os oficiais ordenaram que as pessoas deixassem suas casas por quatro dias, enquanto outras comunidades foram notificadas de que também poderiam ser evacuadas.

Comitê de Coordenação de Luta Popular (CCLP) lançou a campanha “Sal da Terra” de reconstrução da vila Ein Hijleh, no Vale do Jordão, em 2014, contra as ameaças de anexação israelense. Foto: P.F. e L.S.

Além da indignação pelas ordens de evacuação, típicas da ocupação, a organização Jordan Valley Solidarity notou que nenhuma compensação ou apoio foi dado às famílias. Mais de 300 hectares de plantações e árvores foram destruídos pelo incêndio provocado pelos exercícios militares na região, e 500 hectares também foram queimados devido aos pesados treinamentos com armas. Na vila de Bardala, os locais relataram à organização vários bombardeios aéreos: “danos extensivos à paisagem natural e às plantações eram inevitáveis”.

Para residentes, esta é mais uma tentativa de os fazer deixar a região agrícola, que possui recursos aquíferos, constantemente ameaçada pelo despojo e pela colonização promovida pelo governo israelense, inclusive através de incentivos a jovens casais. “Cercando o Vale do Jordão com postos de controle, bloqueios e obstáculos na estrada, confiscando mais terras para colônias e bases militares, Israel assegura a segregação como um fato,” afirma a Jordan Valley Solidarity.

Ainda na Área C, a Suprema Corte de Justiça permitiu à chamada “Administração Civil” – o nome do regime militar israelense na Palestina ocupada a partir dos Acordos de Oslo – demolir a vila de Khirbet Susiya. Os moradores resistem há anos contra os planos de despojo e ainda apelam à Justiça israelense. A audiência está marcada para 3 de agosto, mas o “Coordenador das Atividades do Governo nos Territórios” (Cogat, na sigla em inglês) já notificou os residentes de que metade da vila pode ser demolida antes da data. A decisão da “Administração Civil” pode vigorar a qualquer momento. O vídeo a serguir, sem legendas em português, mostra imagens da região, de importante valor arqueológico, onde os locais pastoreavam ovelhas, plantavam e viviam em cavernas.

“Esta forma de operação das autoridades israelenses as permite tomar porções adicionais de terra e expulsar comunidades da Área C. Relevando a ausência da anexação oficial, a questão é que anexação e despojo já são, aqui, fatos palpáveis,” explica a B’Tselem. Assim como fazem na Lei de Jerusalém, de 1981, “estendendo a jurisdição” israelense para toda a cidade – cuja porção oriental é internacionalmente reconhecida como palestina –, as autoridades israelenses apenas omitem o termo em uma lei ou prática que pressupõe exatamente a “anexação”, uma violação do direito internacional humanitário.

Colonização desenfreada, uma promessa eleitoral

O despojo acompanha a expansão de colônias na criação de “cantões” palestinos em regiões consideradas estratégicas para Israel, com planos de anexação dos territórios promovidos por alguns ministros, sobretudo do novo governo extremista. A B’Tselem estimava haver, no final de 2013, 125 colônias israelenses na Cisjordânia sancionadas pelo governo israelense – sem contar Jerusalém Leste ou os enclaves dentro de Hebron. Ao menos 12 grandes bairros israelenses foram construídos em áreas anexadas por Israel em Jerusalém Oriental, palestina, após 1967. No total das colônias vivem cerca de 550 mil pessoas.

Premiê e candidato à reeleição Benjamin Netanyahu discursa diante das construções na colônia de Har Homa,
em Jerusalém Oriental, palestina, em 16 de março de 2015, véspera da eleição. Foto: Olivier Fitoussi / Haaretz

De acordo com o diário Haaretz, o regime israelense sobre a Palestina ocupada autorizou, na semana passada, a construção de 886 unidades habitacionais nas colônias, e também deve regularizar outras 179 construídas ilegalmente há 20 anos, aprovar a construção de centenas de unidades próximas à colônia de Beit El, entre outras, nas colônias de Ma’aleh Adumim, Giv’at Ze’ev, Psagot e Beit Aryeh. Há também 100 “postos de assentamento” em toda a Cisjordânia, em situação “irregular” até mesmo para Israel, embora muitos tenham recebido assistência durante o estabelecimento.

Segundo o Departamento Central da Estatísticas, a taxa anual de crescimento da população nas colônias era ao menos 2,5 vezes maior do que em Israel em 2013: 4,4%. Nas colônias, algumas já consideradas cidades, os serviços e a infraestrutura é incomparável à possibilitada aos palestinos. É o caso de Gush Etzion, um grande bloco com mais de 20 colônias próximo a Jerusalém, um bastião da ideologia sionista racista-religiosa-colonizadora. Mais de 63 mil colonos vivem ali, criando soldados para o Exército de Israel, e 90% deles servem em unidades de combate – a média nacional é 30% – saídos de colégios militares-religiosos onde jovens estudam com as armas à mão.

Estudante de um colégio militar-religioso na colônia israelense de Gush Etzion mantém sua arma ao lado. Foto: The Telegraph

Nos 20 anos posteriores à assinatura dos Acordos de Oslo – em 1993 e 1995 – a ocupação expandiu-se aceleradamente e enraizou-se, mas a violência atingiu picos novamente após a suspensão de um novo período de negociações, que durou entre julho de 2013 e abril de 2014, com novos recordes na colonização. Além disso, desesperado diante da possibilidade de perder as eleições, em março deste ano, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deixou clara a sua intenção de favorecer a expansão das colônias e de evitar o estabelecimento do Estado da Palestina, uma declaração que depois tentou consertar, em vão.

Enquanto a extrema-direita explica a necessidade de construção de colônias com uma narrativa religiosa e securitária, os centristas contrários à política opinam que ela desvia recursos de Israel e coloca os israelenses em risco. Em declarações ao britânico The Telegraph, numa matéria sobre os 20 anos de Oslo, Tamar Zandberg, do partido Meretz, diz que as colônias “são a principal ameaça a um futuro seguro nessa região.” O governo Netanyahu gasta 30% do orçamento nacional na segurança, o que “não é viável para qualquer democracia,” opina Tamar. Mas o mundo se dá conta, com maior clareza, de que o regime israelense está distante da imagem que tenta vender ao mundo: a segregação e a violência que sustentam a colonização e as quase sete décadas de conflito se evidenciam, tanto em Israel quanto na Palestina ocupada.

*Cientista política, jornalista e membro do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), assessorando a presidência do Conselho Mundial da Paz  

Share Button

Deixar um comentário