Said Hassan Nasrallah: “Trump caminha para o Armageddon. Israel será mais facilmente destruída que o ISIS”

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Sami Kleib

3/1/2018, Sua Eminência Said Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah.

Entrevista ao prof. Sami Kleib, rede Al-Mayadeen, Beirute (excerto) (transc. trad. ing. Said Hasan)

VÍDEOS https://www.youtube.com/watch?v=AR7mXwM0R0c e https://www.youtube.com/watch?v=kyNfTUK3XTM [1]

Transcrição:

[…] Prof. Sami Kleib [Entrevistador]: Ao final da primeira parte de nossa entrevista, concluímos quanto a dois pontos. No primeiro, o senhor disse que os eventos no Irã não terão consequências e estão superados; no segundo, evocamos o perigo maior, a saber, que Trump e Israel estão empurrando a região na direção de uma grande guerra. E o senhor disse que o Eixo da Resistência está em preparação e tem de estar preparado. E eu perguntei se Sua Eminência está realmente preocupado e se acredita que essa guerra venha a acontecer. Porque depreendo de seus comentários que a guerra é possibilidade [real], que eles a criarão, e que o senhor tem certeza de que o Eixo da Resistência sairá vencedor.

Hassan Nasrallah: Veja, quanto à possibilidade de guerra, sim, é real. Quanto ao grau de probabilidade em momento algum discutimos isso. Porque com aquela mentalidade, aquele governo… E, digam eles o que disserem, não é só Trump, mas o vice-presidente, todo aquele governo, a visão deles… Você viu o modo como abordaram a questão de Al-Quds [Jerusalém]. Para nós é uma questão de religião. Essas coisas têm relação com [o que estamos discutindo aqui]. Se você vê as declarações dos norte-americanos, e mesmo dos israelenses, você vê que querem um Armageddon. Ele prepara um Armageddon [real] e caminha sem vacilar diretamente na direção dele. Conhecemos a mentalidade deles.

Entrevistador: São apoiados por sionistas cristãos.

Hassan Nasrallah: Seja como for, temos de nos manter concentrados nessa possibilidade, porque, depois que eles destruíram o processo de negociação, que eles chamam de processo de paz, que escolhas continuam a existir? Para onde querem empurrar a região, se não diretamente para a guerra? Por isso digo que a possibilidade é real. Mas só digo isso, porque, para dizer mais, ainda não temos provas, e as pessoas ficariam angustiadas. Essa é a verdade.
Mas não seria justo qualquer de nós dizer às pessoas que fiquem tranquilas. Porque temos pela frente Trump e Netanyahu e, com esses alucinados, não podemos dizer que as coisas vão muito bem, que a região não poderia estar melhor, que não há motivos para temor, que a paz está garantida. E como poderíamos dizer tal coisa, se absolutamente tudo faz pensar na direção oposta, na direção de mais guerra? Não há nem o mínimo sinal que sugira alguma paz. Assim sendo, temos de falar de uma perene possibilidade de mais guerra. Nesse caso, basta a possibilidade, do ponto de vista da racionalidade e da responsabilidade, para que nós tenhamos o dever de entrar em ação. Quero dizer: temos de preparar, organizar, reforçar nossa frente, nosso Eixo, nossos homens, nossa situação e nossas capacidades, porque  [a guerra] pode acontecer [de um dia para o outro]. Se não acontecer, não teremos perdido nada. Estaremos mais fortes. E se acontecer, estaremos preparados para encarar o que vier.

Entrevistador: Significa, Sua Eminência, que todos estão preparados com Irã, Síria, Líbano e Palestina? É esse hoje o seu Eixo [da Resistência]?

Hassan Nasrallah: Basicamente, sim. Claro que também consideramos incluir no Eixo da Resistência, porque não tem de ser necessariamente um eixo exclusivamente militar, todas as personalidades, os movimentos, os partidos e as forças nos mundo árabe e muçulmano que apoiem essa nossa via. Para nós, todos esses são parte do Eixo da Resistência. Mas as principais forças militares no front são as que acabamos de mencionar. Mas permita-me acrescentar o elemento iemenita. O Iêmen que está hoje sendo agredido e atacado. Quando anunciei que, na próxima guerra, não serão dezenas, mas centenas de milhares de combatentes que se unirão a nós, se o senhor lembra, logo depois, poucos dias depois, Said Abdul-Malik al-Houthi, em discurso ao vivo, anunciou que forças jihadistas do Iêmen estavam prontas para se unir a nós na guerra (contra Israel). E ainda lhe digo mais. Por contatos continuados entre nós, de um modo ou de outro, recebi uma carta logo depois daquele meu discurso. Antes de Said Abdel-Malik al-Houthi ter anunciado essa posição pela TV, ele já me escrevera que estavam prontos, em caso de guerra, para enviar dezenas de milhares de combatentes, se precisarmos, mesmo que prossiga a guerra saudita-norte-americana contra eles. O Iêmen hoje, o que se conhece como o exército iemenita e as forças populares que estão em combate lá, estão plenamente do nosso lado, no Eixo da Resistência e na Frente da Resistência. Aliás, essa é uma das razões pelas quais o Iêmen está sendo atacado.

Entrevistador: É verdade. Significa, Sua Eminência, que ninguém poderá dizer depois, como tantas vezes acontece, que o senhor teria exagerado sobre como o Hezbollah pode sair vencedor [da guerra que Israel quer fazer contra a região]. Porque são estados poderosos, a OTAN, o risco de guerra mundial, e mesmo assim o senhor disse que entrará até além da Galileia [Palestina Ocupada], já na próxima guerra, se acontecer. É assim mesmo? Pode-se esperar racionalmente que os combatentes do Hezbollah invadam a Galileia e avancem além dela?

Hassan Nasrallah: Se uma grande guerra acontecer… Agora, a questão da Galileia é distinta, é questão da qual já falei, e nós já mencionamos no passado e sempre anunciamos que a instrução básica dos combatentes da Resistência é “Estejam preparados para o dia em que os líderes da Resistência lhes digam que avancem para a Galileia ou libertem a Galileia.” Quanto a avançar além da Galileia, isso está relacionado à ideia geral da qual estamos falando aqui. Se acontecer uma grande guerra na região, tudo pode acontecer.

Entrevistador: Por que, Sua Eminência, o senhor tem tanta certeza da vitória? Por que essa certeza? Vem de Deus, do Invisível? Ou há dados reais em campo?

Hassan Nasrallah: Quanto a Deus, ao Invisível e a questão da confiança em Deus Todo Poderoso, e a promessa que Ele nos fez, claro que tem, obviamente, lugar fundamental. Mas Deus Todo Poderoso, mesmo quando assegurou [aos fieis] que teríamos Sua ajuda e Seu apoio, Deus nos põe diante de condições muito materiais: “Preparem contra (os inimigos) todas as forças que possam” (Corão 8:60). E Deus disse “Se você ajuda [a causa de Alá], Ele o apoiará” (Corão, 47:7). A segunda parte, sobre nossos esforços em campo, é fundamental. Nossa leitura do inimigo israelense ao longo de todas as experiências e todas as guerras é diferente. Esse inimigo não tem força em si. E é possível derrotá-lo. Esse é o primeiro ponto. Esse é debate antigo. Nós acabamos com esse debate. Ninguém pode questionar as conquistas da Resistência no Líbano e na Palestina. Uma das maiores realizações da Resistência nos níveis militar, moral, cultural, psicológico e político, é que pusemos fim ao mito de que haveria algum invencível exército israelense. Nós mostramos que aquele exército pode ser derrotado. E digo ainda mais. Os que são capazes de impor uma derrota ao ISIS e às forças takfiri na Síria e no Iraque, muito mais capazes ainda são de derrotar o exército israelense.

Entrevistador: É mais difícil derrotar o ISIS, que o exército israelense?

Hassan Nasrallah: Claro, não há dúvida sobre isso. O exército israelense só tem um ponto forte: a aviação. Mas só uma força aérea não vence batalhas. Por poderosa que seja, força aérea não vence batalhas.

Entrevistador: E graças a uma possível capacidade antiaérea do Hezbollah, aquela força aérea perderá força?

Hassan Nasrallah: A luta contra forças takfiri é infinitamente mais difícil que a luta contra Israel. Veja, há enorme diferente entre o combatente takfiri e o soldado e oficial israelense. Não estou exagerando a força dos takfiris, nada disso. Mas tenho de ser honesto. Quando você toma parte numa batalha na qual tem de enfrentar centenas de suicidas-bomba… Não são mártires, não os considero mártires. Centenas de suicidas-bombas em veículos carregados com duas toneladas de explosivos, e atacam sua brigada, seu batalhão, suas posições. Estão prontos a morrer, não têm limites. E as razões e causas que os arrastam (doutrinação, drogas…) nada mudam. O Hezbollah e outras forças combatemos nesse front extremamente perigoso na Síria durante sete anos, pouco mais de mais de três anos no Iraque, e derrotamos o ISIS, e digo que teria sido possível derrotá-los muito mais depressa, se os norte-americanos não estivessem garantindo apoio e proteção aos terroristas do ISIS. Isso tem de ser dito e divulgado. O exército israelense, professor Sami, treina seus soldados só para avançar, como os vimos fazer em 2006. Também na última batalha em Gaza em Shuja’iya (2014), vimos como as tropas israelenses lutavam: para avançar, soldados e oficiais têm de ser precedidos por blindados, depois por ambulâncias de guerra, exatamente isso, ambulâncias, e, por cima, têm de vir os helicópteros e força aérea. Sem tudo isso, não conseguem dar um passo adiante. Esse é um soldado derrotado antes da luta, acovardado, sem vontade de lutar, apesar de todo o equipamento e capacidade que lhe são oferecidos. Já vimos acontecer bem assim no Líbano, em Gaza. Essa é a realidade presente na Palestina ocupada. Hoje enfrentamos um exército israelense que sofreu várias derrotas, e desde 2006 só fazem se autoequipar, treinar, manobras e mais manobras…

Entrevistador: Mas o Hezbollah também.

Hassan Nasrallah: Não negamos isso. Mas eles não resolveram o problema deles. Porque o problema deles não está nos tanques, aviões e armas. O problema deles é o material humano, o soldado. O termo fundamental da equação introduzido pela Resistência, e no qual o Eixo da Resistência tem vantagem hoje, nessa batalha, é o fator humano. Sou dos que sentam e dizem com clareza que 1 + 1 + 1 = 3, porque, como uso indiscutíveis dados em campo, posso afirmar que o resultado da conta é 3. Hoje, por exemplo, uma das forças mais importantes que temos – e é preciso que as pessoas saibam disso –, uma das nossas maiores forças na grande batalha em preparação contra os sionistas é que hoje temos centenas de milhares de combatentes prontos a lutar, sem limites.

Entrevistador: Derrubando aviões?

Hassan Nasrallah: Você insiste em perguntar sobre a capacidade para derrubar aviões.

Entrevistador: Mas essa é a equação…

Hassan Nasrallah: [Há centenas de milhares] de aspirantes ao martírio [prontos a combater Israel]. Veja, no passado – quando nos reuníamos com vários movimentos da Resistência, falamos do passado – um jovem iemenita se unia a tal grupo palestino, como também um tunisiano, argelino, egípcio. Hoje já não falamos de um ou outro jovem vindo daqui ou dali. Estamos falando de forças reais, de formações militares e jihadistas que lutaram em vários campos, que participaram nas batalhas mais difíceis. Não temos medo. Somos hoje conjunto de combatentes altamente experientes, que creem em Deus e nas próprias capacidades. Esses são os que lutam no Eixo da Resistência.

Entrevistador: Muito bom. Tudo que o senhor diz é muito promissor. Mas se pode argumentar, Sua Eminência, que o senhor afirma que derrotará Israel, invadirá e atravessará fronteiras. Mas Israel bombardeia o Hezbollah na Síria, e vocês fazem absolutamente nada, não retaliaram. A razão é essa que o senhor expôs?

Hassan Nasrallah: No interesse da preparação para a Grande [vindoura] Guerra.

Entrevistador: O senhor quer dizer o quê?

Hassan Nasrallah: Primeiro, no ponto em que estão as coisas, temos todo o interesse em não nos deixar arrastar numa escalada em local determinado, a menos que não tenhamos escolha. Na Síria, Israel ataca alguns alvos. Às vezes são bem-sucedidos, às vezes falham, não acertam sempre. Não falarei de detalhes. Mas não foram bem-sucedidos nem conseguiram impedir – Israel sabe disso, e não revelo aqui qualquer segredo – a capacidade, os meios e a preparação para crescer, da Resistência no Líbano. É situação que temos de suportar até segundo aviso. Não estou dizendo que toleraremos [os ataques] para sempre indefinidamente. [Esperaremos com paciência] até segundo aviso, pensando no interesse estratégico objetivo geral [a derrota do ISIS e a preparação para a grande guerra contra Israel]. Isso precisamente é o que chamei de “regras de engajamento” [ing. rules of engagement].[2]

Entrevistador: Muito bom. O senhor avisou que não entraria em detalhes, mas permita-me uma pergunta. Os ataques israelenses a posições, depósitos e fábricas de armas do Hezbollah ou mísseis não impediram que as armas chegassem ao Hezbollah. É o que o senhor quer dizer?

Hassan Nasrallah: Não impediram e não impedirão. E eles sabem muito bem. E não estou dizendo nenhuma novidade, nem qualquer segredo, embora seja a primeira vez que digo à imprensa. Mas os próprios israelenses sabem disso.

Entrevistador: Há ainda um último tema [que desejo mencionar], se Sua Eminência me permitir, antes de passarmos para o assunto da Síria. Refiro-me ao front do sul da Síria. Muito se tem falado sobre isso, os israelenses estão muito preocupados, a saber, porque o Hezbollah e o Irã, evidentemente com ajuda e apoio do Exército Árabe Sírio que também combate há sete anos, preparam-se para resistir junto à fronteira, do Golan e por toda a extensão da fronteira sul. É verdade? Há um novo front de Resistência contra Israel, na fronteira sírio-palestina?

Hassan Nasrallah: Mais uma vez, é assunto sobre o qual o melhor é não falar…

Entrevistador: Temos uma entrevista ‘muda’ (sem novidades), Sua Eminência.

Hassan Nasrallah: Infelizmente, porque o senhor insiste em questões muito sensíveis. O inimigo sabe que tem motivos para estar preocupado. Porque, afinal de contas, o que aconteceu no sul da Síria é um grande experimento e é agora uma possibilidade para a juventude síria e para o exército nacional sírio. O exército é exército nacional, e os jovens. Porque na Síria, como o senhor sabe, não é só o exército que luta. Os grupos que a mídia síria chama de “forças aliadas” são formações populares sírias, constituídas de jovens das cidades, das aldeias e regiões, cada um na sua área, em Aleppo, a juventude de Aleppo, os jovens de Deraa em Deraa, os de Hama em Hama, os de Homs em Homs, etc., os de Suweida em Suweida, etc., esses jovens combateram nas próprias províncias. E são jovens que acumularam vasta e valiosa experiência, especialmente sobre a fronteira sul. Porque no front sul a luta às vezes assumia a forma de guerra clássica, às vezes, de guerra de guerrilhas, dos dois lados. Concretamente, criou-se assim uma estrutura humana, no plano do pensar, da experiência, da prontidão, as forças podem ser mobilizadas em 24 horas. Não é necessária qualquer formação permanente. Mas a nossa presença no sul da Síria, e por razões que têm a ver com a natureza do combate em curso na Síria, em qualquer lugar que estejamos, haverá razão de sobra para que Israel se preocupe, porque há oposição visceral entre nós e os israelenses. Por isso os israelenses sempre se preocupam com qualquer coisa que possa haver no sul da Síria, e trabalham , forçam, tentam extrair a maior vantagem possível da pressão dos EUA, tentam conversar com a Rússia, tentaram com ameaças, tentaram assustar, intimidar, gritaram que não haveria nem Resistência nem resistentes no sul da Síria. Até agora nada conseguiram. Entrevistador: Quer dizer que a Resistência está presente, pelo que concluo de suas palavras, há células prontas para qualquer guerra próxima contra Israel.

Hassan Nasrallah: A Resistência está presente no sul da Síria, o que é perfeitamente normal na posição defensiva, e a Síria tem todo o direito de ter a Resistência presente ali para defendê-la se for atacada e também tem o direito, a qualquer momento, de decidir recorrer à Resistência popular para libertar o Golan ainda ocupado por Israel. Se o senhor lembra bem, nos últimos anos antes desses eventos na Síria, o presidente Bashar al-Assad referiu-se claramente e explicitamente à Resistência, e disse que, sim, poderia tomar a decisão de recorrer à Resistência. É decisão lógica e natural, e é decisão que inspira muito medo a Israel. Israel tem muito medo disso. Entrevistador: A Resistência Popular à qual o presidente Bashar al-Assad referiu-se era síria.

Hassan Nasrallah: Sim. Entrevistador: Mas agora, pelo que compreendi de suas palavras, há Resistência popular síria e não síria no front sul.

Hassan Nasrallah: Precisamente. […] – FIM DO EXCERTO *****

[1] Se esses vídeos forem censurados por Youtube, podem ser encontrados também, legendados em inglês, em https://www.dailymotion.com/video/x6d9z5r e https://www.dailymotion.com/video/x6d9zph [Nota de Said Hassan].

[2] Rules of engagement [lit. regras do engajamento]: ordens que soldados em guerra recebem sobre o que podem e o que não podem fazer [de Cambridge Dictionary] (NTs).

Traduzido por Vila Vudu

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