Rússia joga o Jogo Longo, sem espaço para estratégias golpistas e o gozo instantâneo de alguns 1

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Resultado de imagem para putin e seus generais24/8/2018, Andrei Martyanov,* Unz Review


Imagem: Selo postal,
Pyotr Stolypin

Vivemos no mundo dos modelos, todos os tipos de modelos. Alguns são simples, outros – muito complexos. A principal serventia de tais modelos é prever como as coisas que os modelos descrevem comportar-se-ão caso a caso. Alguns daqueles modelos funcionam brilhantemente; outros fracassam miseravelmente. Os piores modelos em termos de confiabilidade são os que tenham a ver com geopolítica. Há acessível, para que todos vejam, uma lista de fracassados modelos geopolíticos criados pelo ocidente em geral e pelos EUA em particular, que não acertaram em nada do que previram. Em termos de “prever” eventos relacionados à Rússia, aquelas previsões não foram só erradas: foram muito gravemente perigosas.

Não há demonstração mais convincente de completo fracasso no processo de prever seja o que for, que a evolução do poder militar e econômico da Rússia.

Ainda em 2016, ‘declarações’ de que a Rússia não passaria de, nas palavras de John McCain, um posto de gasolina disfarçado de país continuavam a jorrar de todos os tipos de “especialistas”, os quais, inobstante um gigantesco conjunto de fatos que mostravam o oposto, não se cansavam de repetir que só as forças nucleares russas ainda manteriam a Rússia como alguma espécie de fator secundário nas relações internacionais. Até há alguns especialistas russos que partilham desse ponto de vista. Seus modelos e previsões, como logo se viu, estavam errados. Faltava a eles o mais importante dos “preditores”, ou fatores de predição.

Avance a fita até dia 1º de março desse ano, para o discurso de Putin à Assembleia Federal da Rússia — discurso cujo eco ainda se faz ouvir, quase meio ano depois, e hoje ainda alto e forte. Na verdade, o volume até está aumentando. Foi o dia em que a maioria dos modelos de relações internacionais e equilíbrio de poder, todas aquelas matrizes, equações diferenciais, quantidades gigantes de informações tornaram-se completamente irrelevantes. Porque o que define o status geopolítico da nação é o poder militar e a capacidade plena para fazer guerra nuclear e – a mais importante – guerra convencional –, e sair vencedor. O que define o status geopolítico de uma nação é isso, não algum ‘ranking‘ financeiro ou suposto militar abstrato de ‘dados’.

Qualquer analista militar sério já sabia em 2014 que nem os EUA, nem a OTAN como um todo, têm meios para derrotar a Rússia em guerra convencional próxima das fronteiras russas.

Dia 1º de março tornou-se claro que a Rússia pode atingir quaisquer alvos, inclusive dentro dos EUA, com armas convencionais. E que os EUA nada podem fazer para impedir. Hoje a Rússia também pode afundar qualquer navio da OTAN, ou combinação de forças navais, sem armas nucleares, e é longa a lista do que é possível fazer. Enquanto os leigos até concediam que “algum dia” seria a vez de a Rússia ter voz (na verdade o processo está em andamento há dez anos), a Rússia andava. E não alcançou só o pleno direito de falar na constituição da nova ordem mundial: a Rússia tornou-se globalmente um dos principais eixos condutores dessa nova ordem de coisas. Poder militar de ponta traduz-se muito bem em ganhos geopolíticos. Poder militar real, avaliado em contexto estratégico, operacional e tecnológico adequado foi e é aquele “preditor” que faltara. Em outras palavras – só economias que tenham dimensões de superpotência, dimensões mundiais, conseguem produzir armamento que seja o estado da arte ou, dito em termos gerais, conseguem acumular poder militar. Hoje, a Rússia encaixa-se perfeitamente nessa definição. Cito meu livro:

O poder militar na história fundamente marcada por conflitos, sempre foi, é e continuará a ser importante como um dos principais, se não o principal pilar sobre o qual repousa o poder nacional. No mundo moderno ainda é verdade que construir e acumular poder militar de primeira qualidade é uma das funções de um estado-nação de primeira qualidade, que tenha meios para ter aquele poder militar. Por definição, uma grande potência militar é uma continuação de um estado-nação altamente desenvolvido e economicamente forte [trecho aqui traduzido (NTs)].

Avance a fita novamente, até hoje, o atual estágio da existência da Rússia, embora ainda não identificável nessa avalanche de modelos e metodologias para prognóstico.

A principal agência de estatísticas da Rússia, GosKomStat, informa que a indústria, especificamente de manufatura e processamento, cresceu em sete meses de 2018 impressionantes 4,1%; o consumo de energia – dos principais indicadores de real crescimento econômico – cresceu 1,9%. São números impressionantes, para país que vive sob sanções non-stop desde 2014, mas, na realidade, desde muito antes. É preciso perguntar: como é possível esse crescimento, apesar de alguns inegáveis problemas econômicos estruturais?

A resposta está na grande estratégia da Rússia, que foi formulada há mais de 100 anos por um homem que desempenhou um dos papeis cruciais para fazer avançar os processos revolucionários na Rússia, a saber o ex-primeiro ministro da Rússia, sob o Czar Nicolau II, Pyotr Stolypin. Seu projeto estratégico foi simples de compreender: “Dê à Rússia 20 anos de paz e tranquilidade internas e externas, e o país mudará completamente.” Vladimir Putin e equipe seguiram à risca esse projeto.

Obviamente, muitos, no mundo ocidental, tentaram imediatamente atribuir a Putin – que várias vezes citou Stolypin – todos os traços de um “liberal conservador”, sem, como sempre, prestarem atenção à diferença gigantesca entre a Rússia de Stolypin e a Rússia de Putin. Stolypin queria reformar o campesinato russo e suas práticas seculares mediante as mudanças que propunha; e, mudando o campesinato russo e aquelas práticas, queria reformar a própria Rússia. Tentou fazer isso pela via mais brutal. Acabou assassinado.

Agora, a tarefa de cabe a Putin é pôr fim à experiência econômica “neoliberal” na Rússia e, diferente de Stolypin há 100 anos, tem agora o apoio quase unânime do povo russo para fazê-lo.
Ainda pode contar com a herança gigantesca no campo da indústria, da tecnologia e da ciência em geral, que recebeu da União Soviética. E está fazendo o que faz pela via da evolução, não pela via da revolução.

Esse Putin ‘coletivo’ (“Putin coletivo”, para mim, significa o governante e o pessoal que o apoia nos altos escalões do poder político) está tentando alcançar precisamente o mesmo objetivo de Stolypin: 20 ou até mais anos “de paz e tranquilidade internas e externas”.

Mas Putin sabe que (i) só pela força é possível assegurar as condições necessárias à mudança desse porte; e que (ii) nas condições históricas, geopolíticas e culturais da Rússia contemporânea é preciso um tipo completamente novo de força. O novo tipo de força necessária exige, por sua vez, a completa rejeição do dogma da economia neoliberal. E isso é o que está em andamento.

Como o economista e influente jornalista russo Alexander Rogers diz em seu mais recente artigo,[1] o processo de pôr abaixo o dogma da economia neoliberal está em andamento desde que aconteceu a segunda onda (desde 2014) de renacionalização de patrimônio estratégico dos russos. E Rogers acerta na mosca.

Mas para devolver o Estado Russo à posição na qual a ampla maioria dos russos quer vê-lo, no comando do Tesouro e da real riqueza nacional da Rússia — seus recursos nacionais e indústrias estratégicas – é preciso formar novas elites profissionais. E estão sendo preparadas, sim, nesse momento em que digito.

Mas, afinal, por que uma introdução tão longa?

A resposta é realmente muito simples: essa introdução visa a explicar aos muitos apoiadores ocidentais (reais e fake) da Rússia (omitirei aqui os apoiadores russos) A RAZÃO PELA QUAL a Rússia não age de modo ensandecido cada vez que o ocidente comete algum ato absolutamente estúpido contra ela.

A Rússia está jogando jogo muito longo cujo principal objetivo é assegurar que o país tenha aqueles 20 anos ou mais de desenvolvimento em paz, que foram ideados por Stolypin e agora são projeto de Putin.

Para chegar àquelas condições necessárias, a Rússia, como nosso próprio Anon do Tennessee observou em fórmula sucinta num thread das nossas discussões, “negociará até com o demônio em pessoa”. É o que a Rússia está fazendo, enquanto continua a exibir seu crescente potencial militar e econômico. A Rússia está jogando para ganhar tempo, para conseguir qualquer tempo a mais de paz relativa, porque hoje, na Rússia, tempo de paz significa crescimento.

Que a abordagem russa está correta já está hoje satisfatoriamente provado, pela grande quantidade de sinais de desenvolvimento positivo crescente em muitas esferas, dentre as quais a economia real, não algum mercado financeiro virtual, é a mais importante. Hoje, quando se revisam os projetos industriais que a Rússia está implantando domesticamente e fora do país, é impossível não se impressionar com a escala massiva dos projetos nacionais, sejam os projetos para desenvolver o Ártico, as indústrias aeroespacial, radio-eletrônica, de estaleiros ou a infraestrutura de transportes. A Rússia está construindo sua própria internet independente, no gigante Projeto Esfera (Sfera Project), o qual, só ele, é projeto de exploração espacial massiva. Paralelamente, está em curso a desdolarização, cada vez mais rápida.

É onde surge a pergunta irresistível: a Rússia de agosto de 2018 seria possível, se a Rússia de março de 2014 tivesse seguido os conselhos temerários daqueles “apoiadores”, “patriotas” e “especialistas” (muitos dos quais não são absolutamente especialistas, nem são patriotas) os quais, desde que a Crimeia voltou para casa, jamais passaram um dia – dizem eles que com boas intenções –, sem acusar a Rússia de ser fraca, covarde, tímida, frouxa, por não ‘responder à altura’?

Pois cá estamos, em agosto de 2018, e a Rússia não só não colapsou, como, isso sim, todos os dias desmente algum novo prognóstico calamitoso. E ainda há prognósticos os mais terríveis, vindos todos os dias, de todos os lados.

É hoje óbvio que, se a Rússia se tivesse envolvido na Ucrânia em 2014, se tivesse havido invasão, nada do que hoje se contabiliza como resultados positivos teria acontecido. E o país teria perdido tempo, não importa o quanto alguns dos ditos “patriotas” (e “especialistas” ignorantes) se sentissem recompensados por um momento. Tempo é hoje o mais importante ativo estratégico com que a Rússia conta, e que os russos usaram com tão impressionante talento e acerto ao longo dos últimos cinco anos para preparar o país para a avançada cujos primeiros passos todos observam hoje, uns com alegria, outros com a fúria mais desesperada. A lista das realizações da Rússia ao longo dos últimos cinco anos é, de fato, à falta de melhor palavra, espantosa.

A mais importante dessas realizações é a independência crescente da Rússia em relação ao ocidente, em alguns dos campos científicos e tecnológicos mais cruciais; e, claro, a transformação militar-tecnológica do país, que mudou globalmente o equilíbrio de poder. E aqui está o ponto principal para os que ainda pensem que a Rússia deva declarar guerra total contra o combinado ocidental que continua a insultá-la, atacá-la e acusá-la dos crimes mais desprezíveis: eles desejam desesperadamente que a Rússia responda emocionalmente e, esperam eles, irracionalmente.

Nações realmente poderosas e confiantes não agem de forma impulsiva, irrefletida, buscando só algum gozo imediato.

E a Rússia não agirá irrefletidamente, precisamente porque o país está já militarmente, e cada vez mais também economicamente, seguro.

Nesse cenário, qual é o lado fraco? Com certeza não é a Rússia. Com certeza também é o ocidente que se autodestrói, que assiste hoje, visível para todos, ao colapso de seus mais caros projetos geopolíticos. O fato de que o ocidente ou, pelo menos, muita gente ainda influente no ocidente, já está compreendendo essa dinâmica começa afinal a chegar até à mídia-empresa dominante, mesmo nos EUA. Dia 3 de julho, o senador Republicano do Alabama, presidente de uma muitíssimo poderosa Comissão de Apropriações, do Senado, Richard Shelby resumiu com absoluta clareza a nova realidade geopolítica de 2018, na entrevista que deu a jornalistas, de improviso, nas escadarias do prédio do Ministério de Relações Exteriores, em Moscou:

“EUA precisam ver a Rússia como superpotência.”

Aí é onde aqueles “especialistas” proverbiais começarão a reagir com a veemência com que o demônio reage à aspersão com água benta. Será isso, ou, quem sabe, talvez dediquem algum tempo a aprender mais e melhor sobre a Rússia. Sinceramente, não conto com isso.

Seja como for, para os que queiram realmente aprender – os que queiram mesmo avaliar o poder econômico real e o real peso geopolítico de uma nação –, sempre bastará examinar o que os seus militares podem fazer, mas no mundo real, não nos desenhos animados. Nos últimos 100 anos não houve fator mais confiável para prever o desenvolvimento. Sempre foi assim, sempre será. E por isso os cães sempre ladram, mas a caravana segue adiante.

* Autor de MARTYANOV, Andrei. Losing Military Supremacy: The Myopia of American Strategic Planning [Perdendo a Supremacia Militar: a Miopia do Planejamento Estratégico nos EUA], resenha de The Saker, em 5/7/2018, in Unz Review e The Vineyard of the Saker, traduzido no Blog do Alok [NT].

[1] “Rússia: Estado retomará tudo que lhe roubaram”, 15/8/2018, Alexander Rogers, JP Gazeta Russa, ru., [em tradução], ing. The State Will Get Everything Back [NTs].

Traduzido por Vila Vudu

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Um comentário sobre “Rússia joga o Jogo Longo, sem espaço para estratégias golpistas e o gozo instantâneo de alguns

  1. Responder mauro henrique set 1,2018 17:31

    ótimo artigo. Parabéns

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