Rouhani: tempo passado e consenso

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Por M K Bhadrakumar, Asia Times Online

Há confusão à vista, depois de uma semana de insistente propaganda segundo a qual o presidente eleito do Irã, Hassan Rouhani, seria “reformista”. Rouhani, “reformista”?! E por qual outro motivo Mohamed Khatami, ex-presidente reformista do Irã, apoiaria sua candidatura? Seria portanto protegido de Khatami?

Tudo isso é forçar o argumento. Rouhani tem o título honorário de Hojatoleslam, que significa “autoridade em Islã”. É homem do establishment político e religioso iraniano, e há décadas é membro dos dois mais altos corpos diretivos, intimamente associados ao crème de la crème do regime – a Assembleia dos Especialistas e o Conselho de Discernimento. E também presidiu o Conselho Supremo de Segurança Nacional, de 1989 a 2005.

A carreira política de Rouhani começou no período pré-revolucionário. Foi seguidor ardente e apaixonado do Imã Khomeini – de fato, leva o crédito de ter sido o primeiro a chamar Ruhollah Khomeini de “Imã”, o primeiro Supremo Líder do Irã.

O ardor revolucionário de Rouhani como jovem clérigo chamou rapidamente a atenção de Khomeini. Foi membro do Parlamento (Majlis) iraniano desde o início em 1980 até 2000. Foi vice-presidente do Parlamento, na presidência de Akbar Hashemi Rafsanjani no mesmo mandato. Quando Rafsanjani tornou-se presidente em 1989, levou Rouhani para o Conselho de Segurança. Rafsanjani também introduziu Rouhani no Conselho de Discernimento em 1991, em momento em que o presidente estava no auge de seu poder político.

Ao mesmo tempo, em 1992, Rafsanjani pôs Rouhani na presidência do Centro para Pesquisa Estratégica, um think tank que tem papel seminal na construção das políticas de segurança e de relações exteriores e nos serviços do Conselho de Discernimento.

Rouhani foi eleito para a Assembleia dos Especialistas em 2000 – com Rafsanjani, que já deixara a presidência. (Rafsanjani tornou-se vice-presidente da Assembleia dos Especialistas e, de 2007 a 2011, ocupou a presidência).

Aliás, Rouhani ainda é membro da Assembleia dos Especialistas e do Conselho de Discernimento, além do Conselho de Segurança.

Assim, o que emerge é que o povo iraniano elegeu, em eleições justas e limpas, com comparecimento às urnas de mais de 70% dos eleitores, e no primeiro turno, com maioria absoluta de 50,7%, um candidato que interessa ao establishment religioso, com impecável currículo de revolucionário, que goza de total confiança do Supremo Líder e que, pode-se dizer, controla as várias facções dentro do governo.

Rouhani só se tornou um grande “conciliador-curador” depois da presidência de Mahmud Ahmadinejad, de contestação e disputa contra o establishment religioso. Rafsanjani promoveu sua carreira, mas Rouhani manteve a confiança do Supremo Líder Ali Khamenei mesmo depois que começaram a aparecer divergências entre os dois velhos combatentes, e, evidentemente, há vastas afinidades intelectuais e políticas também com Khatami.

Rouhani é, sem dúvida, político muito bem dotado, que se adapta bem às circunstâncias mutáveis da revolução islâmica. Esse traço permitiu-lhe manter-se na posição chave de conselheiro de segurança em dois governos, de Rafsanjani e de Khatami, sem perder, durante décadas, a posição de membro do Conselho de Discernimento e da Assembleia de Especialistas.

Do ponto de vista do regime, Rouhani fez a ponte entre as presidências de Rafsanjani e de Khatami. Obviamente, era figura ‘grande’ demais para trabalhar sob ordens de Ahmadinejad; e optou por converter-se, naquele momento, em conselheiro de Khamenei e seu representante no Conselho de Segurança.

Eleito para unir o país

O que explica a fácil eleição de Rouhani? Primeiro, é mandato no qual se integram todas as faces da sociedade iraniana – urbana e rural, classe média e intelectuais, clérigos, o bazaar… Foi eleito, porque encarna a solidariedade nacional, num momento em que o país enfrenta terríveis ameaças externas e internas, e qualquer desunião, fragmentação ou polarização só faria aumentar os perigos.

Para os eleitores iranianos, o papel principal do presidente sempre foi administrar a economia. Também a eleição de Ahmadinejad foi baseada em sua promessa de “trazer os ganhos do petróleo para a mesa do jantar”. O povo manifestou a própria angústia ante as dificuldades econômicas – principalmente a inflação alta e o desemprego; a frustração com os erros na administração da economia e com o crescente isolamento do Irã na Região.

É importante notar que cerca de dois terços dos eleitores manifestaram preferir ou Rouhani ou o prefeito de Teerã, Mohammed Baquer Qalibaf. É significativo, porque os dois eram considerados os candidatos menos ‘ideológicos’ e mais ‘gerencialmente eficientes’.

As sanções impostas pelo ocidente feriram muito profundamente a economia do Irã. Embora  os eleitores atribuam as sanções à hostilidade das potências ocidentais contra a República Islâmica (que já tem 30 anos de história) e saibam que nenhum presidente conseguirá remover as sanções, eles também se dão conta de que uma política exterior ativa e criativa pode tornar as sanções menos efetivas – e até completamente não efetivas –, como viram acontecer nas presidências de Rafsanjani e Khatami.

Dito de outro modo, a eleição de Rouhani deve ser interpretada como autorização para buscar interação construtiva com países vizinhos e com toda a comunidade internacional, consideradas as necessidades da economia iraniana.

Nesse sentido, chama a atenção que a eleição de Rouhani tenha sido acolhida com simpatia e bem recebida instantaneamente em todo o Golfo Persa. O presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Khalifa bin Zayed al-Nahyan foi rápido na saudação que enviou a Rouhani, em que manifesta o máximo interesse “em construir relações baseadas na cooperação” com o Irã.

Os EUA deram jeito de saudar a vitória de Rouhani, e a Casa Branca expressou “respeito pela manifestação do povo iraniano”, que demonstra que os iranianos “estão determinados a agir para modelar o próprio futuro”. O governo Obama declarou-se disposto a “engajar diretamente o governo iraniano”. É passo atrás, em relação às beligerantes declarações anteriores de altos funcionários, segundo as quais o resultado da eleição presidencial no Irã nada alteraria.

Washington foi colhida de surpresa pela votação expressiva e convincente que Rouhani obteve, que o poupou de um segundo turno desgastante e que o posiciona como interlocutor efetivo.

Salto de fé

Mas, de fato, a eleição de Rouhani faz alguma diferença para a política externa do Irã? Por um lado, há quem veja Rouhani como reformador ‘de fundo’, essencialmente reformador; e há Israel, do outro lado, que insiste em que nada mudou no Irã, e os EUA devem impor ao país sanções ainda mais duras.

A verdade está no meio do caminho entre esses dois extremos. Durante a campanha, Rouhani não se cansou de repetir, bem claramente, que promoveria políticas domésticas e externas nuançadas, pragmáticas e criativas. Embora clérigo, Rouhani não subscreve as linhas mais duras da política social. Em termos amplos, suas declarações ecoavam as mesmas linhas que já seguiu e implementou durante a presidência de Rafsanjani (e de Khatami).

Na presidência de Khatami, foi o encarregado do dossiê nuclear, assistido por Seyed Hossein Mousavian – que hoje vive e trabalha nos EUA. Evidentemente, o governo Obama conhece bastante bem o pensamento de Rouhani. Mousavian tem defendido uma fórmula segundo a qual os iranianos preservariam o direito de enriquecer urânio, sob estritas garantias à Agência Internacional de Energia Atômica que satisfariam os EUA; em troca, Teerã seria “recompensada” com um aliviamento das sanções e com maior integração com a comunidade internacional.

Apesar de ser figura do establishment, Rouhani é reconhecido pela comunidade internacional pela visão nuançada e conciliatória que se viu quanto foi o principal negociador da equipe nuclear iraniana, na presidência de Khatami. Mas, naquele momento, o próprio Khatami era reconhecido pelo mesmo tipo de abordagem. Grande ironia é que George W Bush tenha escolhido denunciar aquele mesmo Irã de Khatami, como parte do “eixo do mal”.

A grande pergunta, portanto, é até que ponto o governo Obama estará preparado para quebrar a crosta já ossificada, carregada de preconceitos, que encobre qualquer pensamento sobre o Irã entre influentes grupos das elites políticas nos EUA; e como o próprio Obama operará, caso decida erguer a cabeça e ignorar ou desafiar o lobby israelense, tomando nova posição, racional, em relação ao Irã de Rouhani.

Em resumo, o governo Obama tem pela frente um enorme desafio, se optar por não dar um salto de fé e se persistir no curso atual. Afinal, qualquer melhora nas relações com o Irã demandará tempo e terá de ser processo lento e gradual, porque o clima tenso não cederá facilmente.

Feitas as contas, nada mais distante da verdade que apresentar Rouhani como ‘reformista’ disposto a combater contra moinhos de vento, e que opor-se-ia ao establishment iraniano. Talvez não tenha a retórica combativa de Ahmadinejad nem a disposição bombástica para se posicionar nos palcos globais, nem usará o tom provocativo e controverso de seu predecessor nas questões regionais e internacionais.

Mas Rouhani não se desviará da rota traçada. Não pode ser diferente. É experiente demais, conhece o establishment e sabe que, nas eleições de 1997, Khatami foi eleito por arrasadora votação de 70% dos eleitores, mas as políticas iranianas permaneceram exatamente na mesma trilha, durante todo seu governo.

Ventos de mudança

Isso posto, os pensamentos e ações de todos os principais atores protagonistas aqui – não só Rafsanjani, Khatami e Rouhani, mas também outros candidatos como Ali Akbar Velayati ou Mohammed Aref – sinalizaram que há aguda consciência entre as elites políticas no Irã de que é preciso mudar, em termos das carências e necessidades do país e, também, para manterem-se afinados com o espírito do tempo.

As sanções foram o principal tópico na campanha eleitoral. O foco está mais circunscrito, hoje, na necessidade de o Irã ser mais pragmático nas relações com o mundo e na urgência de modernizar-se no plano doméstico.

As multidões que acorreram às ruas de Teerã para celebrar a vitória de Rouhani mostram também que, no plano popular, há altas expectativas de mudança. Rouhani e o coletivo da liderança política iraniana com certeza sabem disso.

As primeiras palavras de Rouhani depois da vitória eleitoral mostram o que opera em sua mente, como construtor de pontes: “Essa é vitória da sabedoria, vitória da moderação, vitória do crescimento e da consciência, e vitória do compromisso sobre o extremismo e o destempero. (…) Aperto calorosamente a mão de todos os moderados, reformistas e principistas [leia-se “conservadores”]. “

Pode-se dizer também  que Khamenei pôs-se ao lado da nação, até aqui, ao garantir aos candidatos plena exposição pública pela mídia e por todos os meios, de modo jamais visto, para que todos apresentassem suas plataformas e programas políticos. Assim, o livre jogo das paixões pôde acontecer antes das eleições, não depois, como em 2009.

A questão hoje, portanto, está reduzida a introduzir mudanças no próprio sistema islâmico iraniano. Pode-se dizer que a política iraniana está olhando para trás, para andar avante. Ahmadinejad deixa o legado do que se pode definir como presidência que mais dividiu, que uniu; e os eleitores definiram um posicionamento segundo o qual o país não poderá avançar se não houver passado consensual, do qual todos partilhem.

E assim aconteceu, paradoxalmente, que uma “terceira geração” de eleitores iranianos elegeu, para liderá-los, um discípulo-favorito do Imã Khomeini. É o mesmo que dizer que essa eleição enterrou a divisão entre reformistas e conservadores, na política iraniana. O cisma tornou-se irrelevante.

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