Robert Fisk: Quem matou o Tenente-general Valery Asapov na Síria?

Share Button

6/10/2017, Robert Fisk, Counterpunch

Traduzido por Vila Vudu

A Força Aérea russa chegou à Síria há dois anos, completados essa semana, para salvar o Presidente Bashar al-Assad e seu exército. Conseguiram. O Exército Árabe Sírio impôs-se, embora ao custo (até aqui) de 56 mil soldados sírios mortos. “Não teremos aqui outro Afeganistão” – os russos diziam a quem encontrassem em Damasco. Mas claro que, imediatamente, puseram lá os seus especialistas para traçar as melhores rotas aéreas para seus Sukhois contra os alvos certos, seus especialistas em remoção de minas, para arrancar as florestas de bombas que o ISIS plantou, seus policiais militares para supervisionar a saída de combatentes islamistas para fora das grandes cidades ocidentais da Síria. E generais para dar aconselhamento – e, semana passada, para serem mortos – na Síria.

A morte do general-tenente Valery Asapov nos subúrbios de Deir Ezzor, quando trabalhava ao lado de comandantes sírios na recaptura da cidade – sitiada há três anos por forças do ISIS, com a população civis e pelo menos dez mil soldados sírios tendo de ser reabastecidos por helicóptero – recebeu mínima atenção na mídia ocidental.

O assalto curdo contra Raqqa, com meia dúzia de árabes para livrar a cara dos curdos daquelas pseudo “Forças Sírias Democráticas” e com a ajuda de ataques aéreos dos EUA, ocupou todas as manchetes da agenda ocidental sobre Oriente Médio. Mas o Ministério da Defesa da Rússia levou muitíssimo a sério a morte de seu oficial de mais alta patente na Síria – além de dois coronéis russos. – O Ministério russo fez muito bem.

O general Asapov comandava o 5º exército russo na cidade de Ussiriysk, não distante de Vladivostok, no extremo oriente da Rússia.

E como morreu ele? Segundo os russos, foi morto sob fogo intenso de forças do ISIS nos arredores de Deir Ezzor, excepcional sucesso no cálculo de alvo – se é verdade que o ISIS estaria trabalhando em trajetórias –, para grupo que desperdiça bombas às centenas, porque não consegue acertar o inimigo. Saberiam que o general visitava aquela específica posição militar? E se sabiam, quem ensinou o ISIS a atirar tão bem? Ou teria sido sucesso apenas casual, num exército islamista derrotado?

Todas essas perguntas foram feitas imediatamente no alto comando do exército sírio. E também pelos russos que, semana passada, acusaram militares dos EUA de manter colaboração direta com o “Estado Islâmico” no leste da Síria.

Vários websites, inclusive Global Research, adotaram a posição conspiracional de que a morte de Asapov teria sido serviço indireto de forças dos EUA – que estão, disseram aqueles websites, garantindo passe livre através de área controlada pelo ISIS para que as ditas Forças Democráticas Sírias cheguem a Raqqa. Nunca fui de acreditar em complôs, mas não faz muito tempo a força aérea dos EUA bombardeou e matou dúzias de soldados sírios em Deir Ezzor. Imediatamente depois, o ISIS apareceu como enxame e rachou a cidade ao meio. Estranho, não é? Os EUA, supostos tão desesperados naquele momento para destruir o ISIS em Mosul – não bombardearam aqueles novos alvos de gente do ISIS quando invadiram linhas sírias, logo depois de os EUA, “por erro”, terem matado os soldados sírios.

Encontro com frequência unidades militares russas na Síria – especialmente em torno de Aleppo, em Homs, em Palmyra e mais para o sul. No começo desse verão, os sírios me levaram para uma base de cooperação tática próxima do Rio Eufrates, onde encontrei um coronel da Força Aérea russa – de nome Yevgeni – e seu colega curdo, os quais, com oficiais sírios, tinha a missão de impedir quaisquer ataques “errados” entre os três lados. Dias antes, os russos haviam bombardeado acidentalmente uma unidade curda. Quero dizer: nunca se trata de russos, sírios e curdos que lutam em nome dos EUA, atirando lá a esmo, sem um saber o que fazem os outros.

Os russos não estão reencenando a guerra afegã. Uns poucos soldados russos foram mortos em emboscadas dos terroristas islamistas, perderam um piloto no início de seu envolvimento, quando seu avião foi derrubado por um jato turco – o crime de Erdogan já está apagado, claro –, e dois oficiais russos foram mortos em Palmyra quando a cidade foi retomada pelo ISIS depois de ter sido recapturada pelo governo sírio. Mas a polícia militar russa teve papel de destaque na retirada de terroristas islamistas de Homs, levando-os para a província de Idlib (território onde florescem todos os guerrilheiros do ISIS e da Frente al-Nusrah) ou para o santuário onde o exército turco tem sua própria linha de combate, dentro da Síria e no nordeste de Aleppo.

Mas a recaptura da cidade-encruzilhada de Qaryatain, sul de Homs, semana passada, teve, sim, um sabor afegão. Qualquer soldado russo que tenha lido a história de sua “intervenção limitada” de 1979 – que foi como Brezhnev descreveu a invasão – sabe muito bem como é fácil capturar uma cidade e logo voltar a perdê-la para o inimigo, no momento em que façam pressão sobre a cidade seguinte. E aqui temos de voltar a um homem de quem nunca gostei muito, mas cuja sabedoria sobre o Iraque nos anos 1920s – e, por extensão, sobre Iraque e Síria hoje – ainda é lida pelo pessoal militar de todos os lados no Oriente Médio.

Numa edição de 1929 da Encyclopaedia Britannica, TE Lawrence escreveu de forças turcas que combatiam contra a própria Revolta Árabe dele na guerra 1914-18. É como se estivesse escrevendo sobre o ISIS e seus ataques contra sírios e russos hoje.

Lawrence perguntou dos insurgentes, alguns dos qual ele liderara,

“… e se fossem uma influência, uma coisa invulnerável, intangível, sem frente e costas, flutuando como um gás? Exércitos são como plantas, imóveis como um todo, com raízes firmes, nutridos por longos ramos até o topo. [Os árabes] podem ser um vapor.” Lawrence até escreveu que

“a prensa de impressão é a maior arma no arsenal do moderno comandante guerrilheiro”.

Hoje – ainda, apesar de suas derrotas e das mentiras que conta – a internet é a maior arma no arsenal do ISIS.

Os russos leram tudo isso. Os sírios também leram. E também, presumivelmente, o ISIS leu. Não precisam de Lawrence para inspirá-los – eles têm o wahhabismo saudita para cumprir essa função –, embora seja verdade que um avião britânico lançou sobre Riad, na 1ª Guerra Mundial, um panfleto que avisava que os árabes turcos seriam “liquidados” se não apoiassem o “Califato Islâmico”, o qual, diziam os britânicos naquele tempo, representava os árabes em revolta contra o império Otomano.

É trivial dizer que a história repete-se no Oriente Médio – repete-se em todos os lugares, até na Alemanha e na Catalunha –, mas os tais “vapores” não se dissiparam. E não se dissiparão, mesmo que Assad alcance vitória completa e o exército do Iraque possa controlar suas províncias ocidentais. Quando acontecer, estaremos novamente lidando com o Curdistão, reescrevendo sua própria história de traição. O mais provável é que a Rússia evite essa específica guerra. Pelo menos por enquanto.

Share Button

Deixar um comentário