Remodelar o Oriente Médio: Por que as intervenções do Ocidente têm de acabar ( parte 1 e 2) 1

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15 e 16/02/2019, Elijah J Magnier (Blog)
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“A governança do Hezbollah é horizontal, e ali ninguém é indispensável. Sou Cristão Canadense, e essa linha, para mim, traduziu-se nos termos de Apocalipse 3:21: “E disse o Senhor: “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono”.
(Epígrafe acrescentada pelos tradutores)
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Sayyed Abbas al-Mussawi, Secretário-geral do Hezbollah assassinado por Israel.

Cada intervenção estrangeira levou o Oriente Médio a se auto-reconfigurar contra as potências intervencionistas. Foi duramente contra-atacada, criando o efeito oposto ao que o desejavam as potências intervencionistas. Se se considera a história recente (os últimos 40 anos, desde que a Organização para Libertação da Palestina, OLP, foi expulsa do Líbano), a lista é cataclísmica. Tem-se a constituição do Hezbollah, do Hamas, da al-Qaeda, do ‘Estado Islâmico’ (ISIS), o fim do regime dos Talibã, Saddam Hussein, Moammar Ghadaffi, a tentativa de derrubar o presidente Bashar al-Assad da Síria, a tentativa de dividir o Iraque e a guerra contra o Iêmen. A lista dá prova da quantidade inacreditável de recursos mobilizados por EUA, Israel, Europa e respectivos aliados no Oriente Médio, sempre tentando “mudar o regime”; e do fracasso retumbante do ‘plano’ para criar um “novo Oriente Médio”.

De fato, o que fizeram foi criar gerações de poderosos atores não estatais (ou atores quase estatais). Reforçaram a influência do Irã no Oriente Médio, trouxeram a Rússia de volta para a arena internacional depois da calmaria da Perestroika. Mas trouxeram descomunal destruição, tendo acabado com a infraestrutura básica de muitos países, devolvendo ao passado mais miserável essa parte do mundo, criando mais migrantes, mais miséria, falta de serviços, trauma – e fúria contra o Ocidente. Países do Oriente Médio pagaram quantia gigantesca de dinheiro, principalmente por exigência e com a concordância dos EUA, o que debilitou povos e governos no Oriente Médio, com um único resultado claro: uma região mais pobre, mais instável e mais furiosamente hostil ao Ocidente.

A invasão de Israel ao Líbano em 1982 (bem-sucedida no objetivo de remover a OLP, um estado dentro de outro) ajudou o parto de um exército irregular organizado, de nome Hezbollah, o “Partido de Deus”. O Líbano vivia sob controle dos cristãos maronitas, por um lado, e dos palestinos, por outro. A OLP e outros grupos palestinos menores atacaram Israel esporadicamente a partir do sul do Líbano, com foguetes cegos de fabricação soviética (Katyusha) ou mesmo com um timer conectado a foguetes cegos de pequeno calibre abandonados numa cova num campo de oliveiras ou de laranjeiras no sul do Líbano, dirigidos e disparados na direção de Israel.

As avaliações sempre erradas, por Tel Aviv, indicavam que conseguiriam criar um “Protetorado cordial, obediente, impotente (o Líbano)” na fronteira norte. Israel planejava pesar a mão sobre a liderança libanesa, para que assinasse um tratado de paz com Israel, com o qual o Líbano estaria submetido à vontade e aos planos expansionistas de Israel. A OLP era comandada por Yasser Arafat, homem de objetivos pragmáticos, que gozava de um buquê de contatos por todo o Oriente Médio e pelo planeta. Porque era financiado por vários países árabes, os líderes daqueles países tinham influência sobre suas decisões, e a organização era tão corrupta que, de fato, nunca representou real ameaça contra Israel.

Arafat estava pronto a assinar um tratado de paz com Israel (o que realmente fez anos depois) e era líder secular, muito distante de qualquer crença ideológica profunda.

Imagem: Túmulo de Imad Mughniyeh e de Mustafa Badreddine em Beirute, Líbano.

A OLP foi expulsa do Líbano, o que abriu uma ampla estrada para que o Hezbollah florescesse e ganhasse força. Ao longo dos anos, o Hezbollah aprendeu a lidar com a política interna e conquistou os “corações e mentes” da população, porque nunca foi corpo estranho, desligado da comunidade libanesa xiita, mas parte inseparável dela.

Em 1992, mais uma vez interpretando erradamente a organização, Israel assassinou Sayyed Abbas al-Moussawi e membros de sua família, o líder do Hezbollah que operava como uma espécie de ‘guru’ teológico, figura complexa e modesta de pai e comandante militar. Tel Aviv supôs que teria conseguido paralisar o Hezbollah, convencida de que a liderança do movimento fosse de tipo piramidal. Mas viu Sayyed Abbas ser substituído pelo inteligente e carismático, estrategista talentoso, estudioso da psicologia da guerra e pensador inovador, Sayyed Hassan Nasrallah. E Nasrallah levou o grupo a dimensões que jamais tivera antes, convertendo-o em organização muito poderosa.

Sob o comando de Sayyed Nasrallah, o Hezbollah cresceu para tornar-se mais forte que o Exército Libanês e todas as forças nacionais de segurança somadas. Hoje, a organização tem mísseis de precisão movidos a combustível sólido e mísseis antitanques guiados a laser, mísseis de precisão antinavios, mísseis antimísseis e vários milhares de soldados de Forças de Elite disciplinados, organizados e muito bem treinados. O Hezbollah mantém infraestrutura social, um hospital, escolas, um banco, organização de apoio a órfãos, viúvas e demais familiares de seus mártires, geradores que fornecem eletricidade para o sul do Líbano, subúrbios de Beirute e vários municípios que o Partido de Deus administra.

Em 2005, depois do assassinato do deputado e ex-primeiro ministro Rafiq Hariri, os EUA supuseram que estariam retomando o controle sobre o Líbano e conseguiu forçar uma retirada síria, do Líbano, o que pôs fim à chamada hegemonia militar e política da Síria. Porém, com os sírios fora de lá, o Líbano tornou-se canhão descontrolado, sem comandante capaz de pensar duas vezes antes de fazer Israel voar pelos ares ou deixando que um grupo como o Hezbollah assumisse a tarefa.

Mais que isso, sem o peso dos sírios no governo libanês, o Hezbollah rapidamente chegou ao Parlamento e hoje tem mais de 18 ministros no atual governo, todos eles apoiando os objetivos estratégicos do Hezbollah, de usar força militar contra Israel no caso de guerra; e de manter o próprio armamento avançado como “fator de equilíbrio”, que ativamente impede Israel de levianamente escolher a via da guerra.

A guerra de 2006 “para destruir o Hezbollah” criou uma linha de suprimento militar sem precedentes da Síria para o Hezbollah, operante durante toda a guerra. Em poucas horas o Hezbollah aprendeu a usar os “Kornets” antitanques russos guiados a laser e letais, e conseguiu impedir que Israel alcançasse seus objetivos. O Hezbollah saiu desse confronto ainda mais forte, e reabasteceu o próprio arsenal com as armas adequadas à lição que aprendera da guerra dos israelenses contra o Líbano em 2006.

Depois, dia 12/2/2008, Israel assassinou Haj Imad Mughnniyah, codinome Haj Radwan, que ocupava a vice-presidência do Conselho da Jihad. Naquele momento Haj Imad Mughnniyah comandava o “exército”, a inovação militar, o serviço de inteligência exterior, o apoio à resistência iraquiana e palestina e vários outros dossiês – tudo sob o comando de um só homem. O assassinato de Haj Imad Mughnniyah foi golpe gigante, que atingiu duramente o Hezbollah. Mas rapidamente Sayyed Nasrallah distribuiu as funções de Imad entre meia dúzia de comandantes que a organização já cuidara de formar. Esses novos comandantes cuidaram de aumentar a força e as capacidades de desempenho do Hezbollah, como logo se viu no Líbano, na Síria e no Iraque. A governança do Hezbollah é horizontal: ali ninguém é indispensável.

Imagem: As roupas que Imad Mughniyeh usava na noite em que foi assassinado na Síria, por Israel.

Apesar das objeções de muitos países, o Hezbollah impôs um “presidente da República” cristão, o general Michel Aoun. Defendeu o primeiro-ministro sunita Saad Hariri, no período em que permaneceu em Riad sequestrado pelo príncipe coroado Mohammad Bin Salman e insistiu em que Hariri fosse nomeado no atual governo. Aceitou um número inferior de ministros no novo governo (apesar de o regime vigente de quotas lhe permitir nomear maior número de ministros). Forçou a entrada de um ministro sunita no governo, representante das minorias sunitas, e aceitou que esse ministro indicasse o ministro da Saúde (além de outros).

O Hezbollah não esconde o fato de que seu orçamento de assistência à saúde da população é altíssimo. É efeito não só do envolvimento na guerra da Síria e do alto número de baixas e feridos do próprio grupo (na verdade, esse gasto não passa de pequena porcentagem do gasto total). O gasto do Hezbollah com assistência à saúde deve-se principalmente às dezenas de milhares de famílias que recebem atenção integral à saúde, beneficiárias da assistência integral às famílias dos militantes.

Os altos custos atingem de modo geral todos os cidadãos libaneses, sem exceção, porque o preço de medicamentos importados é ridiculamente alto, o que se deve principalmente a um sistema de monopólio e à corrupção: os mesmos medicamentos fabricados na Turquia, Síria ou Irã, custam uma fração do preço de mercado no Líbano.

Imagem: Endereço (foto tirada pelo autor, no sul do Líbano).

Todas essas interferências ao longo dos anos nos assuntos do Líbano já não deixam dúvidas: foram fortemente prejudiciais para os intervencionistas, e muito beneficiaram o Hezbollah, seus aliados no Irã e todo o “Eixo da Resistência”.

Muito melhor teria sido para o Ocidente, se tivesse deixado que os países do Oriente Médio evoluíssem conforme o próprio ritmo, cada país determinando as características do próprio sistema de governo, sem intervenções.

EUA e aliados jamais terão sucesso em suas intervenções no Líbano ou em qualquer outro país no Oriente Médio, se não conseguirem apoio local e enquanto não conseguirem a adesão dos cidadãos. Mas nenhum apoio local será jamais estável, enquanto os EUA trabalharem exclusivamente para desgraçar o Oriente Médio, não para fazê-lo mais próspero e mais feliz. Porque isso, sim, as populações locais veem com clareza.

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Remodelar o Oriente Médio
:
Por que as intervenções do Ocidente têm de acabar (2ª parte)
16/02/2019, Elijah J Magnier (Blog)

O projeto dos EUA para criar um “estado-selva” na Síria criou um poderoso movimento de Resistência

A intervenção estrangeira empurrou muitos em todo o Oriente Médio para a miséria, e ao mesmo tempo os tornou ainda mais determinados a enfrentar o projeto de dominação global no qual os EUA tanto investem. O número de países do Oriente Médio e atores não estatais que se opõem à coalizão norte-americana é relativamente pequeno e frágil, se comparado aos adversários, mas mesmo assim a Resistência conseguiu fazer estremecer a superpotência mais rica e mais forte, e seus aliados no Oriente Médio senhores do petróleo, que em anos recentes tanto investiram na guerra e tanto a instigaram. Essa Resistência cresceu e amadureceu e atraiu o apoio global, mesmo na contramão de guerra jamais vista de propaganda pelos veículos das mídia-empresas de massa. O soft power da coalizão norte-americana foi minado domesticamente e em todo o mundo, a partir da flagrante mentira que é intrínseca ao projeto de garantir sobrevivência às gangues de jihadistas takfiri para que aterrorizassem, estuprassem e assassinassem cristãos, sunitas, seculares e outras populações civis, ao mesmo tempo em que fingem que combatem numa inexistente guerra global ao terrorismo dito islamista.

Os pequenos países que a coalizão dos EUA ataca são importantes teoricamente e estrategicamente porque, todos, são vizinhos de Israel. Mesmo assim, apesar da escassez de recursos e do número relativamente pequeno de aliados, se comparados ao campo inimigo, todos esses pequenos países rejeitaram qualquer ‘reconciliação’ nos termos que Israel ofereceu.

A própria Israel cada vez mais revela laços e medidas de reconciliação com os países árabes ricos em petróleo: vemos o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu passeando por Varsóvia, conversando e apertando mãos de líderes árabes. Claro que não é a primeira vez que se encontram: em anos recentes houve relações cada vez mais abertas e mais amistosas entre Israel e vários líderes árabes.

Esses países do Oriente Médio há muito tempo apoiam a agressão de Israel contra o Líbano e os libaneses. E na última década, esse apoio expandiu-se e já inclui uma conspiração contra palestinos, a Síria e o Iraque.

Os EUA exercem pressão monstro sobre a Síria desde 2003, a partir da invasão do Iraque. Durante a visita do secretário de Estado Colin Powell a Damasco, em março de 2003, o americano ofereceu ao presidente Bashar al-Assad garantias de que permaneceria no poder, se se submetesse. Colin pediu a cabeça do Hamas e do Hezbollah, em troca das quais ofereceu a Assad ‘o direito’ de se incorporar ao “novo Oriente Médio”.

Nada conseguiu. Quanto à tentativa de Powell de intimidar o presidente da Síria, a Arábia Saudita e o Qatar, principais aliados árabes dos EUA e países responsáveis pelos desembolsos em dinheiro para ajudar o establishment norte-americano a alcançar suas metas (e as metas de Israel), prometeram injetar na Síria montanhas de ouro e riquezas.

Nem assim Assad interessou-se por ceder à influência e às pressões de EUA-sauditas. A influência continuava privilégio dos EUA; Arábia Saudita e Qatar apenas seguiam, arrastando os sacos de dinheiro. Tornou-se essencial fazer guerra contra o estado sírio, dado que daí os EUA e aliados contavam extrair lucros imensos.

Em uns poucos parágrafos, eis a que se resumiram os sete anos de guerra dos EUA contra a in Síria:

– A causa palestina foi empurrada para a periferia, dado o crescimento exponencial do ‘Estado Islâmico’ (ISIS), nada além de um grupo terrorista concebido para atormentar o Oriente Médio e acelerar a destruição da infraestrutura regional, matando milhares e drenando para longe dali toda a riqueza local. O mesmo grupo foi responsável por ataques terroristas em todo o planeta, do Oriente Médio até a Europa. Mas o ISIS jamais atacou Israel, apesar de manter bases junto às fronteiras israelenses, sob a denominação de “Jayesh Khaled Bin al-Waleed.” Nem a al-Qaeda jamais atacou Israel, apesar de também ter vivido por anos junto às fronteiras de Israel, servindo-se do apoio que lhe garantia a inteligência israelense – e, até, dos hospitais, médicos e enfermeiros da entidade sionista!

Todos os passos seguintes são detalhes de um mesmo plano para destruir a Síria:

– dividir o Estado em zonas de influência, um grande naco para a Turquia (Aleppo, Afrin, Idlib);

– os curdos afinal decidirem tornar realidade o sonho de tomar terras árabes e assírias no nordeste, para criar uma terra de Rojava conectada com o Curdistão Iraquiano;

– Israel tomar para si, permanentemente, as colinas do Golan hoje ocupado, criar ali uma zona ‘neutra’ e arrebanhando mais território em Quneitra;

– criar na Síria um estado falhado no qual jihadistas e grupos mercenários se matariam incansavelmente uns os outros na disputa pelo poder;

– reunir todos os jihadistas num só destino, o favorito e para eles o mais santificado (Bilad al-Sham – “O Levante”), e criar ali “Emirados Islâmicos”.

O ‘projeto’ também envolveu, estrategicamente:

– cortar o fluxo de armas do Irã, por Damasco, para o Hezbollah no Líbano;

– enfraquecer o “Eixo da Resistência” Irã-Síria-Iraque-Líbano, arrancando daí a Síria;

– preparar-se para outra guerra contra o Líbano, tão logo a Síria tivesse sido varrida do mapa;

– roubar todos os recursos sírios em terra (petróleo e gás) e no Mediterrâneo;

– construir um gasoduto do Qatar para a Europa, para ferir de morte a economia russa; e, por fim

– varrer a Rússia, de vez, para bem longe do Levante, ela e sua base naval no litoral.

Em momento algum, ao longo de oito anos de guerra, alguém ouviu falar de algum líder de oposição que aspirasse a governar a Síria em substituição a Bashar al-Assad. Porque o plano sempre foi estabelecer uma zona de anarquia, sem governo. O plano consistia em fazer da Síria a selva do Oriente Médio.

Sempre foi plano maior que Assad e muito maior que os sírios. Países do Oriente Médio – Arábia Saudita e Qatar – queimaram centenas de bilhões de dólares em incontáveis planos para matar sírios, destruir a Síria e alcançar todos os objetivos acima listados. O que foi feito é crime contra uma população pacífica, sob o olhar cúmplice criminoso de todo o mundo dito moderno e “democrático”.

Ouviram-se incontáveis pretextos que ‘explicariam’ a guerra contra a Síria. Claro que não se tratou só de ‘mudança de regime’. O projeto sempre foi criar um estado-selva. Think-tanks, jornalistas, acadêmicos, embaixadores, toda a coorte uniu-se na mesma orgia, colaborando para o massacre de sírios.

Rios de lágrimas de crocodilo correram sobre a “catástrofe humanitária” na Síria [e correm, hoje, também, sobre a inexistente “catástrofe humanitária” na Venezuela!]. Mas, enquanto isso, ninguém jamais viu que o Iêmen, o país mais pobre de todo o Oriente Médio estava e ainda está sendo massacrado, a população está sendo dizimada… e a mesma mídia-empresa dominante ensina a não olhar e, se alguém olhar, ensina a não ver a natureza do conflito no Iêmen.

Alguém que desse sinais de compreender o jogo ou parte dele, que fosse, era declarado “Assadista” – palavra cunhada para ser usada como insulto. E a mais selvagem ironia? O adjetivo “Assadista” foi distribuído gratuitamente pela classe tagarela dos EUA – gente que, evidentemente, jamais contou nem reconheceu os milhões de seres humanos assassinados pelo establishment político dos EUA ao longo dos séculos.

Assim sendo, o que essa intervenção global realmente conseguiu?

A Rússia está de volta ao Levante, depois de longa hibernação. Seu papel essencial é levantar-se contra a hegemonia mundial dos EUA sem provocar, sem sequer tentar provocar, qualquer guerra com Washington. Moscou expôs suas novas armas, abrindo os mercados para a própria indústria militar, e mostrou seus talentos e capacidades militares, sem se deixar prender em nenhuma das muitas armadilhas semeadas no Levante. A Rússia criou o acordo de Astana, para escapar aos esforços da ONU para controlar e manipular as negociações, e isolou a guerra por regiões e compartimentos, para lidar com cada parte separadamente. Putin expôs sua talentosa cabeça militar, e deu conta, com sucesso, da ‘guerra mãe de todas as guerras’ na Síria. Enveredou com muito talento pelo território dos EUA e seus objetivos hegemonistas, e criou alianças estratégicas fortes e duradouras com a Turquia (membro da OTAN) e o Irã.

O Irã encontrou terra fértil na Síria para consolidar o “Eixo da Resistência”, quando habitantes do país (cristãos, sunitas, drusos, grupos seculares e outras minorias) aperceberam-se de que estava em jogo a sobrevivência das respectivas famílias e do próprio país deles. Deu jeito de recompor o arsenal sírio, e foi bem-sucedido na empreitada de abastecer o Hezbollah com os armamentos mais sofisticados indispensáveis para uma guerra de guerrilhas clássica – para impedir que Israel ataque o Líbano. O presidente Assad é muito grato pela lealdade desses parceiros, que abraçaram a causa da Síria, mesmo quando o mundo conspirava para destruir o país.

O Irã adotou nova ideologia: nem islâmica nem cristã, mas uma nova ideologia que emergiu dos últimos sete anos de guerra. É a “Ideologia da Resistência” – ideologia que vai além da religião. Essa nova ideologia se autoimpôs, também no Irã dos clérigos e no Hezbollah, que abandonaram qualquer objetivo de exportar a República Islâmica: em vez disso, esses estados apoiam qualquer população disposta a se levantar contra a hegemonia destrutiva dos EUA que aspira a se espalhar pelo planeta.

Para o Irã, já não se trata de disseminar o xiismo ou de converter povos seculares, sunitas ou cristãos. O objetivo para todos é identificar com precisão o inimigo real e levantar-se em Resistência contra ele.

Isso, afinal, é o que a intervenção do Ocidente no Oriente Médio está criando. Sem dúvida empobreceu a região: mas, ao mesmo tempo, fez surgiu, coeso, um poderoso front. Esse novo front parece hoje mais forte e mais efetivo que as forças conjuradas pelas centenas de bilhões que a coalizão inimiga consumiu no serviço de semear destruição, para assim tentar ainda impor o fracassado jugo imperial norte-americano.

Traduzido por Vila Mandinga


Remodelar o Oriente Médio:
Por que as intervenções do Ocidente têm de acabar (1ª parte) (Pág. 1-5)
15/02/2019 by Elijah J Magnier (Blog)
Por que as intervenções do Ocidente têm de acabar (2ª parte) (Pág. 5-9)
16/02/2019, Elijah J Magnier (Blog)

 

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Um comentário sobre “Remodelar o Oriente Médio: Por que as intervenções do Ocidente têm de acabar ( parte 1 e 2)

  1. Responder mauro henrique mar 8,2019 20:15

    Espetacular. Showwww. Parabéns.

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