Recordações da Síria… ou de como os milagres humanos regressam sempre

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Há dias, em debate durante a conferência anual do ICOM Europa, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, Guilherme d”Oliveira Martins, coordenador do grupo que preparou a chamada Convenção de Faro, o mais recente instrumento jurídico do Conselho da Europa para questões patrimoniais, invocava o caso de Palmira para afirmar que falta ainda fazer muito para que os crimes contra o patrimônio comum da humanidade sejam de facto prevenidos e, onde ocorram, sejam exemplarmente punidos. Perguntado sobre o que fazer em concreto, reconhecia a incapacidade de resposta, que era também a de todos os presentes

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Venda de tesouros arqueológicos do Iraque

Ainda assim, o ICOM tem feito o que uma ONG do seu âmbito pode fazer. Dois exemplos apenas: produziu até agora dezena e meia de “Listas Vermelhas” do patrimônio em perigo (do Afeganistão ao Camboja, da Colômbia à China, do Mali ao Egito… duas já sobre o Iraque e uma sobre a Síria), as quais permitiram já salvar milhares de peças, nomeadamente provenientes das redes de comércio ilegal de antiguidades, algumas com origem no Daesh; e através do seu Comité Internacional do Escudo Azul tem prestado a assistência possível aos países afetados, inclusive em cenários de guerra, como sucede atualmente em Palmira.

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Síria- Crack de Chevalier (Fortaleza dos Cavaleiros)

As situações síria e iraquiana, somadas aos antecedentes dos budas afegãos, são porventura exemplos extremos e cruéis de desamparo. Na Síria, em especial, os últimos anos foram dramáticos: estima-se em dois mil milhões de dólares o valor obtido com o tráfico de antiguidades dali provenientes, constituindo a segunda (a seguir ao petróleo) ou até a primeira fonte de financiamento do Daesh; cinco dos seis monumentos do patrimônio mundial daquele país foram severamente afetados, mesmo destruídos (o sexto, a cidade antiga de Damasco, também sofreu graves danos).

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Cidade antiga de Damasco

 

Toca-nos imensamente este caso, porque pudemos visitar muitos dos locais que agora enchem noticiários. Fizemo-lo no âmbito das atividades do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia e dessa viagem irá em janeiro próximo ser lançado um livro (Síria, do Mediterrâneo ao Eufrates). Nele damos o nosso testemunho, debaixo da evocação de Claude Lévi-Strauss, quando assinala que “o que espanta o homem no espetáculo dos outros homens são os pontos pelos quais se parecem consigo”. Recordamos por isso a imponente cidadela fortificada e o buliçoso bazar de Aleppo, ambos agora tristes e esventrados na sua essência. Revivemos o oásis de Palmira, com o seu vale do Silêncio, onde hoje se chora, em ruidoso pranto. Rememoramos as cidades de diferentes épocas que salpicam o vale do Eufrates, desde Sergiopolis, Zenobia ou Dura Europos até Mari. Evocamos a longa duração mediterrânica em Ugarit ou até no Krak dos Cavaleiros, onde nem cruzados nem Saladino lograram produzir os desmandos que presentemente nos entram olhos dentro. Lembramos o carácter telúrico de Bosra, fantasmática como se diria não voltar a poder ser… E tudo isto cria em nós uma proximidade feita de gente humilde e generosa, que nos convida para casa e nos ensina como as nossas “grandes verdades” – a democracia, a liberdade… -, por mais verdadeiras que sejam, não chegam para dissimular os nossos egoísmos para com os outros, ou para connosco mesmos, a começar pelas nossas crianças, que minguam a olhos vistos quando, no dizer de um pobre, porém sábio, com quem nos cruzámos em Aleppo, elas são a maior alegria da vida.

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Maalula- Siria

A Síria que nos foi dado ver nessa altura era uma espécie de milagre. Um milagre laico. Um milagre onde os deuses inventados por gerações sucessivas de homens se entreolhavam tolerantemente. Quando “vemos, ouvimos e lemos”, “não podendo ignorar” que os locais pacíficos e conviviais do passado, onde em Maaloula e tantas outras aldeias um só olhar podia alcançar crescentes e cruzes, ou até mesmo estrelas sinagogais, deram lugar a uma espécie de inferno. E tudo nos impele a dizer que o dito milagre morreu, no que nos sentimos sumamente envergonhados e profundamente revoltados. Mas terá morrido mesmo? Pergunta-se a UNESCO, e recomenda-nos que nos perguntemos também, porque nos interessamos por pedras antigas quando tantas vidas se perdem. E a resposta é que os milagres humanos ressurgem, sempre e sempre. “Um dia o conflito acabará, um dia haverá pessoas que regressam a suas casas, a vida sossegada será refeita… e nessa altura o patrimônio ancestral será a memória identitária que dará sentido à vida.” Ámen.

* Presidente da Aliança Europeia do Conselho Internacional dos Museus (ICOM Europa)

Fonte: Diário de Notícias – Lisboa


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