Reconstrução da Síria: um caminho para a paz hoje

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Por Bruno Rizzi Razente

Os desafios são, certamente, imensos. Não se trata apenas da destruição física, mas da fuga de capital humano e falta de capacidade técnica após o êxodo de um quarto da população do país

59º Edição da Feira Internacional de Damasco

Se o leitor viesse a Damasco semana passada, teria dificuldade em encontrar um hotel. Não devido a falta de estrutura ou por qualquer destruição resultante da guerra – o centro da capital síria permanece relativamente pouco afetado pelo conflito –, mas porque a cidade estava lotada de visitantes. Empresários de mais de 30 países estavam em Damasco para participar da 59ª edição da Feira Internacional de Damasco. Organizada anualmente desde 1954, o tradicional evento multissetorial foi interrompido em 2012, e é retomado este ano, como uma vitrine para que o governo sírio exiba o processo de volta da normalidade no país, e para os empresários buscarem oportunidades no bilionário mercado da reconstrução que se anuncia.

Em algumas cidades da Síria, a reconstrução, de fato, já começou. Os antigos mercados de Homs, datados do século 13, estão sendo lentamente reabilitados, como parte de um projeto patrocinado pelas Nações Unidas para trazer vida de volta a essa parte da cidade. A cidade antiga de Alepo, retomada recentemente pelo governo sírio após cinco anos de batalhas, já tem planos detalhados para ser restaurada, pedra por pedra, da maneira como era antes (se ousamos falar que isso é possível). Bairros inteiros da periferia de Damasco, antigos assentamentos informais e redutos da oposição, estão sendo reestruturados para a construção de novas unidades habitacionais, gerando questionamentos sobre as alterações na geografia física e humana da cidade. Outros projetos de reabilitação da infraestrutura hídrica e retomada da produção agrícola estão em andamento.

Todos esses esforços têm sido possíveis devido à gradual estabilização da parte ocidental da Síria, que abriga a maior parte da população do país. A guerra, entretanto, não acabou; o caleidoscópio de alianças continua em movimento; grupos armados e tropas oficiais ainda trocam tiros no oeste da Síria, enquanto o Estado Islâmico é combatido, ao leste, por três diferentes forças (milícias curdas e árabes; “coalizão internacional” e exército sírio e aliados). Civis continuam sofrendo no fogo-cruzado. Seria, então, prematuro considerar o país pronto para a reconstrução pós-conflito?

A União Europeia acredita que sim. O bloco divulgou sua estratégia para a Síria em abril deste ano, onde se lê que “[A UE] só estará disposta a contribuir para a reconstrução da Síria quando estiver efetivamente em curso uma transição política genuína, abrangente e inclusiva”. Sua posição é ecoada pelos EUA, pela Turquia e pelos países do golfo árabe, antagonistas do governo sírio no conflito. Em contraste, instituições como o Banco Mundial e a ESCWA (Comissão Econômica das Nações Unidas para o Oeste da Ásia) emitiram publicações em que encorajam o início da reconstrução desde já, como uma das medidas que poderão contribuir para a paz no país, ao promover o desenvolvimento econômico e o alívio do sofrimento da população afetada pela guerra. Para além da instabilidade do país, que teria o potencial de malograr qualquer esforço de reconstrução, a questão de fundo é que a admissão pública de que a Síria está pronta para este momento poderia representar o reconhecimento tácito de que o conflito terminou – com o presidente Bashar al-Assad ainda à frente do governo.

O dinheiro, contudo, não espera pela política. Cientes do princípio de que maiores riscos implicam maiores retornos, empresários de diversos países já estão se posicionando para angariar contratos nos mais variados setores da economia síria. Mesmo que parte da infraestrutura tenha sobrevivido e possa ser aproveitada, casas, hospitais, escolas e estradas deverão ser reconstruídos, e a infraestrutura elétrica, hidráulica e o parque industrial sírio foram seriamente debilitados, com carências que somam mais de US$200 bilhões, segundo estimativas do Banco Mundial. Nesse contexto, o governo sírio age sem esperar por um pacote condicionado de ajuda internacional, nos moldes de um Plano Marshall. Autoridades sírias manifestaram-se reiteradamente no sentido de que os países que apoiaram o governo durante os tempos difíceis deverão ser priorizados no momento da reconstrução. Espera-se um papel predominante de investimentos iranianos, russos e chineses, especialmente nos setores de energia e infraestrutura. Além do investimento estrangeiro, o retorno do capital sírio realocado no exterior após o recrudescimento das sanções financeiras americanas e europeias também terá um papel crucial no financiamento dos esforços da reconstrução.

Há abertura para empresas brasileiras que se interessem em tomar parte desses esforços. A percepção do Brasil como país amigo, baseada nos laços históricos e familiares que aproximam os dois países, fundamenta a disposição do empresariado sírio em buscar parceiros brasileiros. A pauta exportadora brasileira, tradicionalmente composta de produtos básicos (sobretudo café e açúcar), pode ser incrementada com a venda de máquinas, equipamentos,  medicamentos, e serviços de engenharia, todos necessários no mercado sírio após a saída de empresas ocidentais. O setor agropecuário sírio, responsável em 2011 por 22% das exportações sírias (concentradas em algodão e trigo), foi gravemente debilitado, e é um dos que se mostram mais promissores para atuação de empresas brasileiras focadas em tecnologia de produção agrícola.

Os desafios são, certamente, imensos. Não se trata apenas da destruição física, mas da fuga de capital humano e falta de capacidade técnica após o êxodo de um quarto da população do país. Não é incomum encontrar jovens com graduação universitária e profissionais experientes entre os refugiados sírios no Brasil e no mundo. Sua ausência é especialmente sentida neste momento em que o país prepara-se para se reerguer. O avanço lento das negociações de paz e a esperada manutenção das sanções financeiras por um longo período representam outros fatores dissuasórios contra o investidor internacional interessado na Síria. Há ainda diversos elementos urbanísticos e administrativos a serem considerados na reconstrução das cidades – o equilíbrio sectário e social no reassentamento das populações; a compensação devida pelos terrenos desapropriados; a regularização fundiária; a restauração de monumentos e edifícios históricos, entre outros.

As recompensas, contudo, são igualmente grandes, e urgentemente necessárias. Os sírios têm deixado seu país não apenas em consequência dos perigos da guerra, mas também da falta de oportunidades econômicas. Ainda que os efeitos do conflito sejam sentidos por gerações, e que a estabilização definitiva da Síria dependa de uma evolução política positiva, o início da reconstrução pode contribuir para a paz hoje, gerando empregos e trazendo alguma perspectiva de futuro para aqueles que permaneceram no país ou tencionam regressar. O povo sírio possui, afinal, uma resiliência impressionante, e são comprometidos com sua terra. Muitos recusaram-se a deixar seus lares, mesmo sob risco de vida; outros tantos retornam agora, com suas casas sob escombros, para recomeçarem em meio a destruição. Não se abateram facilmente.

O clima de otimismo de Damasco semana passada foi interrompido com a queda de um foguete na entrada principal da Feira Internacional, que fez vítimas e feridos. Poucas horas depois da explosão, não havia sinal dos destroços. A feira abriu normalmente, com recorde de público.

Bruno Rizzi Razente é diplomata. Trabalha na representação brasileira na Síria desde 2014. Este texto reflete unicamente suas opiniões pessoais sobre o assunto.

 

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