Quem tem medo do encontro Trump-Putin?

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27/6/2018, Stephen Cohen, The Nation

Stephen F. Cohen, professor emérito de Política e Estudos Russos na NYU e em Princeton, e John Batchelor continuam suas conversas semanais sobre a nova Guerra Fria EUA-Rússia. As emissões anteriores do programa, que já está no quinto ano, podem ser ouvidas (ing.) em TheNation.com.12.fev.1945 - Primeiro-ministro britânico Winston Churchill, com o presidente americano Franklin D. Roosevelt e o líder soviético Josef Stalin em encontro em Yalta

Discutindo a aparente decisão de realizar uma reunião a ser preparada entre Trump e Putin em julho, Cohen lembra que já houve dúzias dessas reuniões de líderes norte-americanos e soviéticos/russos, desde a reunião entre FDR e Stálin, que inaugurou a modalidade, em 1943, durante a 2ª Guerra Mundial.

Aquele foi encontro de aliados, e incluiu Winston Churchill. Depois da guerra, todos os demais encontros desse tipo aconteceram entre as duas “superpotências” rivais da Guerra Fria ou entre presidentes supostos pós-Guerra Fria. Todos os presidentes norte-americanos depois de FDR participaram de pelo menos uma reunião com o contraparte soviético ou russo, e alguns presidentes participaram de várias reuniões, incluindo Eisenhower com Khrushchev, Reagan e George H.W. Bush com Gorbachev, e Clinton com Yeltsin.

Por mais que “reuniões de cúpula”, com agendas enormes e todos os rituais políticos e midiáticos sejam diferentes de encontros ocasionais “à margem” de outros eventos, as reuniões de cúpula serviram a vários objetivos: dar firmeza a alguma parceria para segurança nacional mútua entre os presidentes, de modo geral com vistas a melhorar as relações, ou o que ficou conhecido como détente; para melhorar a imagem dos dois líderes no plano nacional interno e no cenário mundial; enviar uma mensagem às respectivas elites e burocracias nacionais de que obstruir, para nem falar de sabotar, a política de détente do líder não seria tolerado; e, mediante acordos anunciados e cobertura midiática positiva ampliar o apoio interno, da elite e da população em geral, à détente.

Ao longo das décadas, as agendas das grandes reuniões variaram muito, algumas modeladas por questões regionais ou outras em andamento, mas pelo menos um item foi constante, desde Eisenhower e Khrushchev nos anos 1950s, a Obama e Medvedev, então presidente da Rússia em 2009: administrar e reduzir os perigos existenciais inerentes na “corrida armamentista das superpotências nucleares”

As cúpulas ao longo do tempo obtiveram diferentes resultados. Algumas resultaram em pouca coisa, para melhor ou para pior. A terceira reunião Eisenhower-Khrushchev em Paris, em 1960 foi abortada pelo ataque soviético que derrubou um avião U-2 espião dos EUA (enviado, há quem diga, por inimigos no “estado profundo” da política de détente de Eisenhower). Várias cúpulas foram grandes eventos históricos, pelo menos uma vez ou outra.

O “espírito de Camp David” de Eisenhower-Khrushchev  nos anos 1950s diminuiu a Guerra Fria que isolava os dois lados e que prevalecia desde a morte de Stálin em 1953, abrindo novas possibilidades para “coexistência pacífica”. Nixon e Brezhnev estabeleceram a moderna tradição de détente, nos anos 1970s, incluindo o papel expandido das cúpulas nesse processo.

As múltiplas ‘cúpulas’ entre Reagan-Bush-Gorbachev pretendem que teriam posto fim à Guerra Fria. Várias dessas grandes reuniões cenografadas fizeram, no longo prazo, mais mal que bem, especialmente os muito noticiados encontros Clinton-Yeltsin, que não passavam de cobertura cenográfica para a abordagem de tipo ‘o vencedor leva tudo’, de Clinton, contra uma Rússia pós-soviética enfraquecida; e os encontros de Obama com Medvedev — a reunião do “reset” – mal concebida e mal conduzida pela Casa Branca.

Em seus 18 anos como líder da Rússia, Putin já passou por dois grandes encontros de cúpula com presidentes norte-americanos, os dois já praticamente apagados da história ou relembrados com mal-estar: um com Clinton em Moscou em 2000 e outro com George W. Bush em Washington e no rancho de Bush no Texas em 2001.

À época, Clinton e Bush falaram elogiosamente sobre Putin, mas, claro, agora já não falam. (Há aí um sério debate a ser feito, para identificar o que mudou tanto, quem mudou e por quê.)

Se a reunião de cúpula acontecer em julho, será a primeira reunião desse tipo de Trump com Putin, embora os dois tenham tido uma longa “conversa a dois” na reunião do G-20 na Alemanha, há um ano.

Uma cúpula Trump-Putin se assemelhará às muitas anteriores em vários aspectos, mas terá dois aspectos absolutamente sem precedentes. Primeiro, que jamais antes as relações EUA-Rússia estiveram tão periclitantes, como Cohen já disse e discutiu. Segundo, que nunca antes um presidente dos EUA aproximou-se de uma cúpula com soviéticos ou pós-soviéticos, tendo oposição tão empenhadamente difamatória e tão pouco apoio em casa e, pode-se dizer, tendo a própria capacidade como comandante-em-chefe tão acintosamente desafiada.

Dois anos de acusações jamais provadas do ‘Russiagate’, de que Trump seria “fantoche de Putin”, presidente “não confiável” e até “traiçoeiro” são circunstâncias que não têm precedentes em 75 anos dessas reuniões crucialmente importantes.

Como já se ouve hoje em comentários sobre uma possível reunião, qualquer acordo que Trump-Putin produzam e que aprofunde a segurança dos EUA e do planeta, o tipo de acordo pelo qual presidentes anteriores dos EUA foram elogiados, será denunciado muito provavelmente, pela maioria do establishment dos representantes da mídia-empresa política oficial bipartidária, na melhor das hipóteses, de não passar de “uma grande ilusão” e, na pior, de ser mais um ato traiçoeiro do presidente que não passa de “idiota útil” a serviço da Rússia, mais uma “recompensa” a Putin por seus crimes, com Trump garantindo “carta branca a Putin” para atormentar “nossos mais próximos aliados na Europa”.

Se o louvável encontro entre Trump e o líder Kim da Coreia do Norte foi ‘noticiado’ como cooperação com o inimigo, qualquer cooperação de segurança com Putin será construído, pela mídia-empresa, como evento sinistro.

Cohen conclui com dois pontos mais amplos:

§  Como o próprio Cohen já dissera, o ‘Russiagate’ – que tem o efeito de paralisar o presidente e compromete o cumprimento do dever presidencial de enfrentar as graves ameaças internacionais que se acumulam sobre o país –, o próprio ‘Russiagate’, está convertido em ameaça número 1 à segurança nacional dos EUA, realidade sobre a qual o Partido Democrata, embora não seja o único culpado, carrega imensa responsabilidade.

Em outras circunstâncias, todos teríamos de ter esperanças razoáveis de que um encontro Trump-Putin seria um primeiro passo para reduzir os perigos inerentes nas novas armas nucleares, na proximidade máxima entre forças dos EUA e da Rússia e respectivos representantes locais na Síria, na sempre fumegante guerra civil e guerras por procuração na Ucrânia, na provocação crescente que são os exercícios militares da OTAN junto às fronteiras da Rússia, e na já quase total vaporização da diplomacia Washington-Moscou, com a expulsão de diplomatas em grande escala, dos dois lados. (Quanto às sanções politicamente carregadas, Trump faz melhor se deixar a decisão à União Europeia, que deve votar, também em julho, se implantará as sanções que EUA impuseram a Moscou.)

Tradicionalmente, as reuniões de cúpula reduziram crises desse tipo. Mas a crise infindável chamada ‘Russiagate’ – de acusações incansáveis, jamais provadas, contra o presidente – torna sem precedentes essa próxima “reunião das lideranças de mais alto nível”, também nesse aspecto.

§ Nem o próprio Putin é imune. Apesar de não haver nem fato nem lógica que prove que o presidente da Rússia “atacou a democracia norte-americana” na eleição presidencial de 2016, uma reunião de cúpula fracassada ou desmoralizada abalará a própria posição política de Putin na Rússia.

Grupos ‘linha-dura’ (…) continuam a crer que Putin jamais abandonou suas “ilusões” (que ele não escondeu) sobre negociar com a sempre traiçoeira Washington e, ainda pior, que Trump, que carrega estampada na testa a mácula do ‘Russiagate’, nunca conseguirá fazer valer qualquer compromisso que assuma na reunião com Putin. Entrementes, os números de Putin em casa, embora ainda muito altos, estão sendo erodidos pela decisão de adiar repetidas vezes o aumento (já muito necessário) das aposentadorias por idade – a partir de 55 anos para mulheres e 60 para homens –, direito garantido aos russos há décadas. Por mais racional e inafastável que essa decisão seja, já começam protestos populares na Rússia.

Dada a situação perigosa, de instabilidade sem precedentes, hoje, nas relações EUA-Rússia, é absolutamente necessário que Trump-Putin se encontrem. Mas os esforços persistirão, publicamente e nas sombras, para impedir que o encontro aconteça. Se ‘Russiagate’ ou algum outro ‘escândalo’ real ou inventado acontecer e conseguir impedir que a reunião aconteça, ou desgaste qualquer possível resultado positivo do encontro, Trump talvez não volte a tentar. Nem Putin. Nesse caso, o que acontecerá?

Traduzido por Vila Vudu

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