Putin alerta EUA contra movimentos temerários

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19/12/2018, MK Bhadrakumar, Indian Punchline

A fala do presidente russo na reunião expandida da cúpula do Ministério da Defesa em Moscou, dia 18/12, foi uma análise ampla do equilíbrio estratégico global. O discurso deve ser visto no contexto da queda-livre em que estão as relações EUA-Rússia, do aumento da infraestrutura da OTAN nas fronteira ocidentais da Rússia e, especialmente, das declarações de Trump sobre os EUA retirarem-se do Tratado das Forças Nucleares Intermediárias (ing. Intermediate-Range Nuclear Forces (INF) Treaty) de 1987.

Em termos genéricos, a mensagem de Putin abre-se em três direções:


– A modernização das forças armadas russas foi muito bem-sucedida e a prontidão para combate dos militares russos alcança hoje o ponto mais alto de todos os tempos;

– A Rússia desenvolveu novas armas hipersônicas de imenso poder de destruição, que estão entrando em produção em série para que acompanhem forças nucleares estratégicas, e armas para as quais os EUA simplesmente não têm qualquer resposta;

– A Rússia está determinada a garantir que quaisquer tentativas dos EUA para modificar a seu favor o equilíbrio estratégico sejam efetivamente respondidas.

Putin revelou que a distribuição de armamento moderno na “tríade nuclear” (forças aéreas, navais e de solo) já alcança o impressionante nível de 82%. Deixou fortemente sugerido que, consideradas as coisas com realismo, os EUA estão no ring como o boxeador que tem de lutar contra alguém de uma categoria superior de peso: “Essas armas (estado-da-arte absolutamente únicas, como o sistema Avangard de mísseis, o míssil Sarmat, o míssil balístico hipersônico ar-ar Kinzhal, as armas Peresvet de combate a laser, etc.) multiplicarão o potencial de nosso Exército e Marinha, e garantem absolutamente a segurança da Rússia, com plena confiabilidade, por muitas décadas por vir. Essas armas consolidam o equilíbrio de forças e, assim, a estabilidade internacional. Espero que nossos sistemas deem muito o que pensar a gente acostumada se servir-se de retórica militarista e de agressão.”

O discurso de Putin visou diretamente os planos dos EUA para se retirarem do Tratado INF. E alertou: “É passo que terá as consequências mais negativas e enfraquecerá consideravelmente a segurança regional e global. De fato, no longo prazo, pode levar à degradação e até ao colapso de toda a arquitetura de controle e de não proliferação de armas de destruição em massa (…) No evento de que os EUA venham a quebrar o Tratado – já disse publicamente e creio que é importante repetir diretamente para os senhores e senhoras aqui presentes –, seremos forçados a tomar medidas adicionais para reforçar nossa segurança.”

Putin disse claramente, como alerta explícito, que os mísseis Kinzhal hipersônicos que a Rússia acaba de desenvolver (que voam a velocidades superiores a Mach 10, com alcance médio de 2.000 quilômetros) e que estão atualmente instalados em jatos Mig-31, podem ser modificados “e postos em solo, caso seja necessário.”

Em termos geopolíticos, Putin deixou claro que Moscou não piscará e que o poder militar da Rússia é insuperável. Bem obviamente, o duro alerta dos russos aparece no momento em que os EUA empurram os aliados europeus a impor mais sanções contra a Rússia, e ante a ameaça dos norte-americanos de ampliarem sua presença militar no Mar Negro, depois do incidente no Estreito de Kerch, mês passado. As tensões também estão aumentando em torno da Ucrânia, país que historicamente é o Primeiro Círculo da defesa nacional russa. Já se sabe que a Rússia já enviou jatos de combate Sukhoi Su-27 e SU-30 para a base aérea de Belbek, na Crimeia.

Na 2ª-feira, o ministro Sergey Lavrov das Relações Exteriores disse, presumivelmente a partir de informações de inteligência às quais Moscou tem acesso, que a Ucrânia pode vir a encenar movimentos militares de provocação nas fronteira da Crimeia até o final desse mês, e que as Forças Armadas ucranianas já têm cerca de 12 mil soldados e grande quantidade de equipamento na linha de contato com a região do Donbass resistente.

Lavrov revelou que instrutores dos EUA, Grã-Bretanha e outros países estão ajudando a armar a Ucrânia, e que há um drone dos EUA permanentemente sobre a região. (Xinhua) Dado que com certeza quase absoluta são zero as chances de o candidato dos EUA Petro Poroshenko vir a ser reeleito nas eleições de março próximo, nada mais útil aos EUA que qualquer tipo de casus belli, que ajudaria a empurrar a Ucrânia para dentro da OTAN e da União Europeia. Putin tocou apenas rapidamente na questão da Ucrânia, dizendo que o conflito na região sudeste “continuou sem trégua”.

Significativamente, em sua fala na 4ª-feira, Putin fez uma referência importante à China: elogiou as manobras Vostok-2018. Disse que os exercícios militares contribuíram para “substancial avanço” no nível do treinamento operacional e de combate das forças armadas russas, e para mostrar capacidade para “mover prontamente forças e equipamento” por mais de 7 mil quilômetros “e reforçar rapidamente unidades em grandes áreas estratégicas onde for necessário.” Putin então acrescentou que é “importante” observar que unidades chinesas “também operaram sob o mesmo plano geral, em formação única com nossos soldados.” Faltou pouco para que falasse do que analistas ocidentais chamam de “aliança militar funcional” entre Rússia e China.

O orçamento da defesa da Rússia, de 46 bilhões, é pequeno ante os $725 bilhões do Pentágono. Mas fato é que, em vez de se deixar arrastar para uma corrida armamentista debilitadora, que pesaria sobre todos os recursos do país, a Rússia se manterá focada em desenvolver capacidade estratégica para infligir perdas e destruição tão colossal ao ocidente, inclusive aos EUA, que acabará com impedir que o ocidente em geral, incluídos os EUA, disparem aventuras militaristas contra a Rússia. Assim, Putin deu prioridade a “reforçar ainda mais o potencial de combate das forças nucleares estratégicas.” Destacou a importância de fazer uma rápida transição para armas com capacidades para superar os sistemas de mísseis de defesa dos EUA e, em particular para produzir e fornecer os sistemas Avangard de alcance global às forças armadas.

O comandante da Força de Mísseis Estratégicos da Rússia coronel-general Sergei Karakayev disse em entrevista ao jornal Krasnaya Zvezda, na 2ª-feiram que os primeiros sistemas de mísseis Avangard hipersônicos entrarão em prontidão para combate em 2019 na divisão de mísseis Dombarovsky, com base na Região Orenburg, no sul dos Urais. Segundo matéria da Agência TASS, o Avangard é sistema de míssil balístico estratégico com veículo transportador capaz de voar a velocidades hipersônicas nas camadas densas da atmosfera, manobrando a própria rota de voo, e em altitude, de modo a escapar de qualquer defesa antimíssil.

Traduzido por Vila Mandinga

“O golpe no Brasil inscreve-se no quadro das disputas geopolíticas globais”
(22/12/2018, Rui Costa Pimenta, “Análise Política da Semana”, Youtube)

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