Presidente da Síria, Bachar al-Assad -As verdadeiras razões da guerra na Síria

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24/6/2018, Entrevista à rede NTV, Rússia (Parte 1 de 1/3)
Vídeo Transcrição(texto aqui retraduzido), tradução e legendas (fr.) de Sayed Hasan, blog, e vídeo orig., legendado em francês.

Entrevistador:  Senhor presidente, podemos agora recapitular os eventos, porque o Daech está quase derrotado, a capital Damasco está já quase totalmente em segurança e sob controle das forças governamentais e, até esse momento o senhor ainda tem operações militares no sul e no leste. O senhor pode dizer agora, como presidente, o que aconteceu para que ninguém tenha sabido identificar os primeiros sintomas dessa guerra, dessa invasão de seu país, porque o senhor chama de invasão. O que houve?

Presidente Assad: É preciso distinguir os sintomas internos e os sintomas externos. Quanto aos sintomas internos, a Síria tem problemas, como todas as sociedades em nossa região, somos parte dessa região e discutimos sempre esses problemas. Talvez não tenhamos feito o necessário para resolver o problema que talvez pudéssemos ter resolvido antes da guerra, talvez não; é questão subjetiva, cada sírio tem seu ponto de vista. Mas o fator externo é muito importante na génese dessa guerra. Cada país nessa região vive a própria guerra, todas similares, por mais que tenhamos sociedades semelhantes e haja problemas mais graves noutros locais, como, por exemplo, nos países do Golfo, onde não há liberdade nem para as mulheres nem para o povo, para ninguém.

Digo isso porque, se a ausência de liberdade fosse a causa dessa guerra, para começar por aí, e porque era o slogan mais repetido no início, por que, pergunto, a guerra não começou naqueles países? Assim se vê que o que aconteceu não foi movido por causas internas, porque os mesmos problemas existem há décadas, alguns deles, há séculos. É onde se tem de considerar o fator externo. Isso talvez explique por que não identificamos imediatamente o que estava para acontecer: porque a guerra feita contra nós não foi obra de sírios. Foi obra de outros países ocidentais, principalmente EUA, França e Reino Unido. Outros estados satélites, como Turquia, Arábia Saudita e Qatar planejaram e mandaram dinheiro, sim, desde o início, depois que o primeiro projeto deles fracassou, quero dizer, depois que não conseguiram gerar um levante local, suposto espontâneo. Porque foi aí que começaram a mandar dinheiro e começou o problema. Isso, sim, compreendemos bem depressa, mas talvez, naquele momento, já fosse impossível controlar tudo.

Entrevistador:  Não entendo… por que não viram antes… Por exemplo, quando eu mesmo cheguei a Ghouta oriental, já há meses, vi que há túneis escavados por todos os lados, construídos por engenheiros, por escavadeiras, máquinas enormes, escavadeiras… Como tudo aquilo pode ter sido feito sem que o governo sírio soubesse? O senhor tem alguma explicação hoje, de como foi possível que os invasores construíssem ali aquelas verdadeiras cidades subterrâneas?

Presidente Assad : Aconteceu que eles usaram equipamento que já estava lá, que foi roubado do governo, das empresas, e, além disso, receberam reforços da Jordânia, através do deserto, diretamente para Al-Ghouta, onde o deserto não á habitado e ninguém controla coisa alguma, e não tínhamos satélites. Além disso, eles começaram a escavar por baixo das vilas. Pode-se dizer que, à sua maneira, foi guerra de alta tecnologia.

Entrevistador:  Quando estive em Ghouta oriental, encontrei muitas pessoas que podiam testemunhar e provar na própria pele que al-Nusra utilizava armas químicas contra áreas residenciais da cidade. Encontrei os mais diferentes tipos de proteções químicas nas casas e nas peças onde operavam os quartéis-generais da Frente Nusra, etc. Mas o ocidente insiste que o senhor teria envenenado o seu próprio povo com armas químicas. Por que ninguém ouve o povo sírio e por que o ocidente insiste nisso?

Presidente Assad : Porque a fábula do governo que atacaria o próprio povo com armas químicas é parte indispensável da narrativa deles contra o governo sírio. Mas é narrativa que serve bem, agora que os soldados, os ‘agentes locais’, os terroristas deles já foram derrotados em várias áreas da Síria. O ocidente precisa repetir essa fábula, para ter um pretexto para intervir diretamente, militarmente, e atacar o Exército Árabe Sírio. Já aconteceu exatamente assim várias vezes, e a história é sempre a mesma, da qual precisam, sobretudo agora que os ‘agentes locais’, os mercenários, os terroristas e os soldados daqueles países ocidentais estão sendo derrotados. A verdade é o contrário dessa fábula, até no plano lógico – porque a realidade conhecida é que não temos armas químicas, foram destruídas.

Entrevistador:  Não têm mesmo?

Presidente Assad : Não, não temos. Desde 2013, e o mundo sabe disso. Mas o fato de termos ou não as armas químicas não é importante, nesse caso. Porque mesmo se tivéssemos as tais armas e quiséssemos usá-las, as usaríamos antes, quando estávamos sendo derrotados, não agora, quando já praticamente vencemos a guerra. Fato é que, cada batalha que vencemos, cada palmo de terreno que recuperamos, começa a história dos ataques químicos e começam as acusações. Não passam de pretexto para tentar manter e ‘justificar’ a presença dos terroristas em território sírio.

Entrevistador:  Haverá algum meio de impedir essas provocações? Porque o ministério da Defesa da Rússia diz que está sendo preparado mais um desses ataques químicos de provocação, dessa vez em Deir Ezzor. E essa notícia é recente. É impossível impedir que aconteça? Pôr fim a essas provocações?

Presidente Assad : É quase impossível, porque não é desenvolvimento da realidade em campo; é resultado da imaginação deles, dos veículos de mídia. É algo que é construído dentro dos jornais e televisões deles. Ninguém que esteja na plateia consegue alterar qualquer desenvolvimento de uma peça de teatro. É o que temos aqui. Toda a narrativa das armas químicas foi criada no palco, não no mundo real, e rapidamente foi distribuída pelo planeta, pela internet e pelos veículos das grandes redes de noticiário, como se fossem fatos do mundo real. Não há absolutamente meio para impedir essas provocações. Os norte-americanos só mentem, mentem sem descanso. Na sequência, atacam a Síria. Quando não se respeita a lei internacional, quando as instituições da ONU perderam a eficácia, já não faz sentido falar de impedir provocações, porque hoje vivemos em plena selva, sem lei. E não só aqui. Em vários pontos do mundo.

Entrevistador:  O seu governo está vencendo a guerra, já retomou o controle em quase todo o país, mas são tantos os atores na Síria, tantos partidos, cada um com interesses próprios. Os EUA negociam com a Turquia a respeito de Manbij, Israel negocia em todos os cantos, iranianos negociam, os curdos têm interesses específicos. Como resolver tudo isso? Como manter unida a Síria? Porque hoje parece que a Síria está esfacelada. Como pôr fim a isso? Porque o senhor disse que seu lema é “Uma Síria unida, por uma nação unida”.

Presidente Assad : Se o senhor quer dizer que a Síria estaria esfacelada, vale, digamos, para a geografia, não para a sociedade; a sociedade mantém-se unificada, quero dizer, a sociedade síria não está dividida. E, se a sociedade está unificada, o povo também está. Quanto à geografia, estamos sob ocupação. Algumas partes da geografia síria ainda estão ocupadas por terroristas mantidos pelo ocidente, principalmente EUA e seus aliados. Assim sendo, se queremos falar do futuro da Síria, não consideramos que sejam parte da equação. Se queremos falar do processo político, será processo político exclusivamente sírio. Não consideramos nenhum interesse de país algum relacionado a uma questão absolutamente interna, dos sírios. Se o senhor fala da guerra, a guerra na Síria é guerra internacional – e isso desde o início, a guerra na Síria começou internacional.

De fato, não se tratava apenas do governo sírio; o governo sírio é independente, temos boas relações com Rússia, com China e outros países. Mas os EUA planejavam redesenhar politicamente o mapa do mundo, talvez também militarmente. E a Síria era um dos principais campos de batalha para conseguir redesenhar o mapa, pelo menos, sem dúvida, para conseguir redesenhar o mapa do Oriente Médio.

Por isso, quando o senhor fala desses interesses, trata-se de um combate entre potências: o objetivo do poder principal, os EUA, e seus aliados, que apoiam terroristas, é ser hegemônico na relação com a outra potência, a Rússia, e seus aliados, cujo objetivo é combater o terrorismo e os terroristas e restaurar o primado do Direito internacional.

Entrevistador: Mas por que a Síria foi escolhida como terreno para essa disputa?

Presidente Assad : Por várias razões diferentes. A Síria está incluída no grupo de países considerados independentes, soberanos: Síria, Irã, Coreia do Norte e, agora, a Rússia, todos esses são países soberanos. O ocidente não aceita nenhuma posição independente. Os EUA não aceitam nenhuma posição de independência da Europa. Por isso, na Rússia, há um problema diretamente com os EUA, porque os russos querem ser nação soberana, os EUA não aceitam. Mesmo sendo a Rússia uma grande potência. Aos olhos dos EUA, ninguém pode ser independente. Além disso, somos país pequeno, como poderíamos continuar livres para dizer sim ou não. Era preciso nos obrigar a só dizer sim, sempre, aos EUA. Essa é uma primeira razão.

Em segundo lugar, há a geopolítica da Síria, o papel histórico da sociedade síria. Embora seja divisão quase invisível, existe, sim, uma linha de fratura social entre diferentes seitas e etnias. E quando se controla essa região, controla-se todo o resto do Oriente Médio.

A guerra contra a Síria começou no tempo dos faraós, o primeiro tratado político que o mundo conheceu foi firmado 12 séculos antes de Cristo, entre os faraós e os hititas. Vindos do norte e do sul, combateram na Síria e firmaram o primeiro tratado que o mundo conheceu.

A geopolítica da Síria é muito importante, e controlar a Síria sempre foi objetivo das grandes potências, desde aqueles tempos antigos, até nossos dias. Na verdade, pouco importa que a Síria seja grande ou pequena, ou maior ou menor, nosso país tem importância estratégica decisiva. [Continua]

Traduzido por Vila Vudu

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