Pepe Escobar:Operação “Tomahawk-eiem” O Califa

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24/9/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye

Operation Tomahawk The Caliph

Tradução:Vila Vudu

Barack Obama e seu Discurso de Guerra (10/9/2014)

“Há apenas duas horas, forças aliadas começaram um ataque contra alvos militares no Iraque e Kuwait”

— Pres. George H. W. Bush, 16/1/1991

“Hoje, mais cedo, ordenei que as forças armadas dos EUA atacassem alvos militares e de segurança no Iraque”

— Pres. Bill Clinton, 16/12/1998
“Meus concidadãos. Nesse momento, forças dos EUA e da coalizão estão nos estágios iniciais de operações militares para desarmar o Iraque, libertar seu povo e defender o mundo de grave perigo”
— Pres. George W. Bush, 19/3/2003
“Meus concidadãos. Essa noite, quero falar-lhes sobre o que os EUA farão, com nossos amigos e aliados, para degradar e, na sequência, destruir, o grupo terrorista conhecido como ISIL”
— Pres. Barack Obama, 10/9/201

 11/9/2014, Philip Gourevich, The New Yorker, em:

O que Obama não disse” [1] 

Mísseis Tomahawk foram disparados contra áreas
urbanas (Raqqa, Síria e Mosul, Iraque)

Os mísseis Tomahawks estão outra vez zunindo – impulsionados por novilíngua. 42 Tomahawks disparados de um destróier da VIª Frota estacionado no Mare Nostrum, mais F-22s do inferno e mísseis Hellfire cuspidos por drones, e eis aí uma perfeita operação mini-Choque e Pavor em honra ao Califa Ibrahim, também conhecido como Abu Bakr al-Baghdadi, autodeclarado líder do Estado Islâmico.

 

 
Com munição convencional de 950kg o Tomahawk NÃO é recomendado seu uso em áreas urbanas, mas ninguém não se preocupa com as vidas de civis, mas…
Os EUA só querem “mudança de regime” na Síria!

É tudo tãããão cirúrgico. Todos os alvos – de “supostos” depósitos de armas às grandes mansões em Raqqah (quartel-general dos asseclas do Califa) e pontos variados de controle – foram devidamente neutralizados, além de “dúzias de”, talvez 120, jihadistas.

E graças àqueles “mais de 40” (na conta de Samantha Power) ou “mais de 50” (na de John Kerry) aliados internacionais na coalizão dos desejantes [ou “coalizão dos dispostos”, como prefere Antonio Luiz M. C. Costa, de Carta Capital (NTs)] [2]. Os EUA nunca estão sós, embora, nesse caso, viajem escoltados, de facto, só pelas ditaduras & petrodólares do Golfo de sempre e pelo reino do Reizinho de Playstation, a Jordânia, todos loucos para se meterem em “atividades cinéticas”.

Novilíngua asséptica à parte, ninguém viu ou ouviu falar de Força Aérea do Conselho de Cooperação do Golfo mobilizada para bombardear a Síria. Afinal, todos os fantoches ali estão trêmulos de pavor de ter de dizer às respectivas populações que seus “governantes” estão – mais uma vez! – bombardeando outra nação árabe amiga. Quanto a Damasco, disse discretamente que havia sido “notificada” pelo Pentágono de que o território sírio seria bombardeado. Ninguém sabe o quê, exatamente, o Pentágono está contando a Damasco.

O Pentágono diz que seria apenas o começo de “campanha sustentada” – palavra-código para Longa Guerra e que, seja como for, é um dos nomes pelos quais atende a GGaT [Guerra Global ao Terror, ing. Global War on Terror (GWOT)]. E, sim: para todas as finalidades práticas, é coalizão de um-só. Chamêmo-la “Operação Tomahawk-eiem o Califa”.

Sou Corassão

Amarrem seus F-22s. Não, não vai dar. O tomahawk-eamento mal começara, quando um míssil Patriot israelense fabricado nos EUA derrubou um Su-24 sírio que, disseram os israelenses, teria “violado” espaço aéreo israelense nas colinas de Golan. Que tal essa, em termos de recado para exibir perfeita coordenação de movimentos com o Pentágono?

Corassão – era região da antiga Pérsia

Significa que não se trata só de bombardear o Califa. É só um preâmbulo disfarçado, antes de se porem a bombardear Bashar al-Assad e suas forças. E trata-se também de bombardear – oito ataques a oeste de Aleppo – um fantasma: uma célula al-Qaeda do misterioso grupo Corassão.

Não é surpresa que os fãs globais da escola Marvel Comics de geopolítica não estejam entendendo nada. Dois vilões ao mesmo tempo? Sim. E o segundo bandidão é ainda mais bandidão-do-mal que O Califa.

Ben Rhodes

Aquela espantosa inacreditável mediocridade, Ben Rhodes, vice-conselheiro de Obama para segurança nacional, definiu o Corassão como “um grupo de extremistas que compreende um número de indivíduos que estamos rastreando há muito tempo”.

A novilíngua do governo Obama reza, em uníssono, que o Corassão inclui ex-quadros da al-Qaeda, não só de todo o Oriente Médio – incluindo al-Qaeda no Iraque e a Frente al-Nusra – mas também do Paquistão e, ainda, uma extensão linha ultra-duríssima dos Talibã no Paquistão.

Que confusão! Al-Qaeda no Iraque é o embrião do ISIL, que se converteu em Estado Islâmico (EI). Frente al-Nusra é franquiada da al-Qaeda na Síria, aprovada pelo Diretor-presidente Executivo, Ayman al-Zawahiri. Todos aí se desprezam mutuamente, mas o Corassão tem o mérito de unificar e manter coesos os bandidos do Califa e os bandidos da al-Qaeda, num só grupo. Como se não bastasse, a Frente al-Nusra é, aos olhos de Washington, grupo de jihadistas “moderados”; praticamente, são “os nossos filhos-da-puta”. Difícil entender quem é quem? Não há problema: na dúvida, bombardeie todo mundo.

Assim se vê que O Califa, coitado, é notícia velha. Os bandidos fantasmagóricos do Corassão é que são notícia quentíssima –, tão do mal, eles, que o Pentágono está convencido de que têm planos para “um já iminente” novo 11/9.

O fantasma dentro da máquina GGaT

O Corassão é o perfeito fantasma ativo dentro da máquina GGaT; o alvo de uma guerra dentro de uma guerra. Porque a verdade é que Obama declarou duas guerras – enviou duas diferentes notificações ao Congresso, nos termos da Resolução sobre os Poderes de Guerra, cobrindo duas guerras: o Califa e o Corassão.

E quanta coisa esconde-se num nome? Ora… uma demonização extra mal disfarçada contra o Irã? E por que não? O Corassão histórico, a antiga Parthia, estendia-se do Irã, por ali, na direção do Afeganistão.

 

Muhsin al-Fadhli, líder do Corassão

O Corassão é governado teoricamente pelo Coringa, digo, desculpem, pelo gângster em meio período, o honcho da al-Qaeda, Muhsin al-Fadhli, nascido no Kuwait em 1981, também “alto assessor-facilitador e financiador” de Abu Musab al-Zarqawi no Iraque – no impagável perfil traçado pelo Departamento de Estado. Embora Ayman al-Zawahiri, sempre muito atento ao próprio perfil de Relações Públicas & marketing, não tenha reclamado os méritos, o Pentágono está convencido de que ele enviou al-Fadhli para a parte síria do Califato para atrair jihadistas ocidentais com passaportes da União Europeia, que conseguem furar a segurança de aeroportos e plantar bombas em jatos comerciais.

O Departamento do Tesouro está convencido de que al-Fadhli comanda até uma célula da al-Qaeda no Irã – demonizar o Irã é vício duro de matar – “facilitando” a viagem de jihadistas para o Afeganistão ou o Iraque.

E que dramático contraste com O Califa, viciado em sociedade-do-espetáculo! O Corassão é o breu mais profundo, escuridão total. Ninguém sabe quantos são; há quanto tempo existem; o que realmente querem.

Por contraste, há cerca de 190 mil seres humanos vivos deixados para trás na Raqqa bombardeada até o osso. Ninguém está falando de dano colateral – embora a pilha de cadáveres já esteja aumentando; a ágil operação de Relações Públicas & marketing do Califa não tardará a exibi-la em spots de divulgação, pelo YouTube. Quanto aos bandidos do Califa, com certeza usarão táticas maoístas, e dissolver-se-ão no mar, feito peixe. Em breve o Pentágono estará bombardeando vastas áreas de deserto para nada – se já não estiver fazendo exatamente isso, nesse momento.

Já não existe nenhum “Exército Sírio Livre” – mito criado pelos qataris. Não sobrou nenhum jihadista “moderado” na Síria. Todos estão já empregados e lutando pelo Califa ou por al-Zawahiri. Pois ainda assim o governo Obama consegue um “OK” do Senado dos EUA para armar “rebeldes moderados”.

 

 

Samantha Power

A embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power − Rainha Primeira e Única da Piração Total de Cocô-na-Telha − pelo menos acertou uma. O “treinamento” deles “capacitará aqueles milicianos para a mesma luta na qual já estão desde o início desse conflito contra o regime de Assad”. Quer dizer… Está aí, tudo dito: essa “campanha sustentada” é a portinha do cachorro para voltar para “Assad tem de sair” remixed.

Gente realmente capaz de derrotar os bandidos do Califa não tomahawk-eia ninguém. Estão na luta há muito tempo. São os soldados do Exército Árabe Sírio e mais de 35 mil deles já morreram em ação contra ISIS/ISIL/EI e/ou Al-Qaeda; são os combatentes do Hezbollah; são os operadores/conselheiros dos Guardas Revolucionários Iranianos; são os guerrilheiros curdos. Claro que não acontecerá assim.

O assunto arrasa-quarteirão esse ano é o Império do Caos bombardeando o Califa e o fantasma pirado dentro da máquina da GGaT. Dois ingressos pelo preço de um. Porque protegemos você até contra o mais “não sabido não sabido” dos males.

Notas dos tradutores

[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

[2] “Condenados à repetição”, Antônio Luiz M.C. Costa, Carta Capital, ano 20, n. 818, 24/9/2014, p. 50.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

 

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