Pepe Escobar: OTAN mata africanos no Club Med

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23/4/2015, [*] Pepe EscobarSputnik

 
Restos do naufrágio que matou mais de
300 migrantes africanos no Mediterrâneo

Todos recordam a coalizão OTAN/AFRICOM [Organização do Tratado do Atlântico Norte / Comando dos EUA na África] de vontades, “comandada” pelo rei Sarkô I da França, com o presidente Barack Obama dos EUA “liderando da retaguarda”, e o mote “Viemos, vimos, ele morreu” cunhado por uma ex-Secretária de Estado, hoje candidata à presidência dos EUA, com US$ 2,5 bilhões para gastar na campanha.

Pois bem, essa fabulosa coleção de imperialistas humanitários ainda está solta, agora matando – por procuração – nas águas do Mediterrâneo, também conhecido como “Club Med”, também conhecido como Mare Nostrum, depois de os mesmos imperialistas humanitários terem destruído um estado viável – a Líbia, república árabe secular – sob o falso pretexto de que estariam impedindo “um genocídio”.

Perguntado sobre o assunto hoje, uma vez que anda pontificando pontifica sobre o genocídio dos armênios, esse patético arremedo de Secretário-Geral da ONU, Ban-Ki Moon [1] talvez dissesse que o potencial massacre na Líbia não poderia – e a palavra decisiva aqui é “poderia” – de modo algum ser descrito nem como “crime atroz” [a definição genérica, pela ONU de três crimes: genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra(NTs)]

Os seis meses de ininterrupto bombardeio humanitário contra a Líbia, concebido para impedir que se consumasse um “crime atroz” absolutamente hipotético e improvável, terminou por “libertar” dessa vida para o outro mundo pelo menos 10 vezes mais pessoas que todas as escaramuças prévias entre tropas do coronel Gaddafi e “rebeldes” armados, a maioria dos quais milícias islamistas linha-duríssima, que hoje também já estão bem “libertadas” para disseminar o inferno dos jihadistas, da Líbia, no leste, até a Síria, no norte.

Os praticantes do imperialismo humanitário criaram, como lhes interessava, uma terra arrasada “libertada” – o que eles chamam de “vitória” – atravessada por milícias armadas; instalaram ali o mais absoluto caos, que alcança grande parte do Magreb e da África Ocidental, e desencadearam massiva crise humanitária.

Encalhados no MENA (Middle East-North of Africa)

O imperialismo humanitário que se vê aplicado à área que o Pentágono adora definir como MENA (Middle East-Northern Africa) [Oriente Médio-Norte da África] – da Líbia ao Iraque, Síria e agora também Iêmen, além das subguerras por procuração no Mali, Somália e Sudão – levou, segundo a Anistia Internacional, “ao maior desastre com refugiados desde a IIª Guerra Mundial”. A Anistia estima que, até 2014, não menos de 57 milhões de pessoas foram convertidas em refugiados.

 
Barco com migrantes de porto africano

Uma subtrama crucialmente importante é que, segundo a Organização Internacional sobre Migração [orig. International Organization on Migration (IOM)], o número de refugiados que morrem na tentativa de penetrar na Fortaleza Europa aumentou mais de 500% entre 2011 e 2014.

É que o imperialismo humanitarista, como o aplica o Pentágono/ OTAN/ AFRICOM, entregou as águas do Club Med ao reais vencedores: uma vasta rede de traficantes de seres humanos que inclui contrabandistas, policiais corruptos e até muitos “tera-ristas”. [2]

Em toda a Europa, só a Itália – para mérito dela – está indignada e disposta a receber pelo menos uma fração, de fato bem poucos, do massacrado povo africano dos botes. Afinal, o privilegiado porto de partida deles é a “libertada” Líbia, e o privilegiado porto de chegada é a Sicília italiana. França, Alemanha, a Grã-Bretanha e a Suécia vêm depois da Itália, com propostas ainda mais modestas.

Essa afásica parede de silêncio da UE/OTAN deve-se ao fato de que a Europa está convertida em saco de gatos de partidos políticos anti-imigrantes. Afinal os pressupostos imigrados são bodes expiatórios perfeitos. Como “nacionalistas” assustadiços os definem, eles achatam os salários; vivem dos serviços públicos; quase todos eles são criminosos; reproduzem-se como coelhos; destroem a “identidade nacional”; e, claro, há tantos “tera-ristas” entre eles, todos interessados em submeter a Europa ao chador e à lei da Xaria.

Dificilmente essa União Europeia assustada, devastada pela “austeridade”, subjugada pelo autoritarismo militarista da OTAN conseguirá mobilizar suficiente desejo e força para construir uma política comum, que dê resposta à tragédia do Club Med putrefato, afogado numa tsunami de cadáveres africanos. Grande parte da União Europeia, de fato, já suspendeu a Operação Mare Nostrum – e optou por policiar/controlar as águas da Fortaleza Europa, em vez de agir por princípios humanitários.

Chame a cavalaria de drones

Proposta modesta implica bombardear os barcos dos contrabandistas [de migrantes] ainda nos portos de origem, antes que se encham de sua trágica carga humana; sob a proteção da ONU, estabelecer ao longo do litoral “libertado” da Líbia estações de socorro humanitário para triar os elegíveis para receber asilo político na União Europeia; facilitar para esses a viagem por ar ou mar para as nações dispostas a recebê-los; ou – servindo-se da metodologia dos EUA – dronar o “inimigo” até reduzi-lo a farelo, os contrabandistas e seus financiadores. Afinal de contas, os drones norte-americanos são especialistas no assunto, operando sobre a tal para sempre infame “lista de matar” sob as ordens de Obama, e sem que a lei internacional tome conhecimento.

 
Drones usados na Líbia em 2011

Isso, contudo, jamais acontecerá. Como Nick Turse demonstra em livro recente que abre novos caminhos, a Líbia foi apenas a primeira guerra do AFRICOM (depois transferida para a OTAN, como examinei); o Pentágono tem planos muito mais sórdidos no seu crescente pivoteamento para a África.

Enquanto isso, aquelas gangues fabulosamente ricas em petróleo e gás no Golfo Pérsico – os mesmos que estão comprando todos os signos ostensivos de luxo entre Paris e Londres – estão ocupadas “criando” o cerne na maior crise de refugiados desde a IIª Guerra Mundial: na Síria, teatro privilegiado da próxima guerra daquelas mesmas gangues, contra o Irã.

E a hacienda de petróleo da Casa de Saud, com o Império do Caos “liderando pela retaguarda”, mas fornecendo as bombas, os jatos bombardeiros, a inteligência e a escalada (graças a nove naves de guerra dos EUA já despachadas para águas do Iêmen) – também está muito ocupada dando andamento à sua bombástica “Tempestade Decisiva” contra a mais pobre das nações árabes do planeta, preparando a cena para outro capítulo da crise de refugiados sempre em crescimento.

A OTAN permanece ocupadíssima treinando os bandidos de Kiev. Demonizar a Rússia rende muito mais “Relações Públicas” que lidar com os africanos.

No Afeganistão, os Talibã já anunciaram que a nova ofensiva da primavera começa nessa 6ª-feira (24/4/2015); a OTAN, cujo traseiro coletivo já foi chutado a valer por um punhado de Talibã armados com Kalashnikovs falsificadas, não estará, sequer, “liderando pela retaguarda”.

No fundo do Mare Nostrum, metido nos uniformes de putrefata gala, jaz o cadáver da União Europeia/OTAN civilizada.

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Notas dos tradutores:

 

[1] Sobre o jovem príncipe da Jordânia, que presidiu uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, Ban-Ki Moon, a sumidade, declarou: O príncipe ainda nem completou 21 anos e já é um líder do século XXI”. IMPRESSIONANTE!

 

[2] Tentativa de traduzir “terarists”, que é transliteração do modo como Bush pronuncia a palavra “terroristas”. Todas as correções e sugestões são bem-vindas.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

How NATO Kills Africans in the Club Med

Traduzido por Vila Vudu

 

 

 

 

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