Pepe Escobar: Dilema na União Europeia: o que fazer da China

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EU dilemma: how to deal with China20/3/2019, Pepe Escobar, Asia Times

Diante da ascensão irresistível da China em todos os quadrantes do tabuleiro, e sob obsessiva pressão dos EUA, os líderes não exatamente muito democráticos da União Europeia (UE) estão enrolados em contorcionismos os mais difíceis para se posicionarem entre uma rocha geopolítica/geoeconômica e uma pedreira.

Os 28 membros da UE têm reunião decisiva semana que vem em Bruxelas, na qual podem adotar um plano de dez itens que detalha, em tese, os termos de um relacionamento econômico equilibrado, doravante, com a China.

Acontecerá durante visita do presidente chinês Xi Jinping à Itália, depois a França – antes da muito importante reunião anual de cúpula China-UE, em Bruxelas, dia 9 de abril, que terá como co-presidente o premiê chinês Li Keqiang.

Esse é o contexto crucial no qual a Comissão Europeia (CE) recomendou o que se apresenta como 10 “ações” concretas aos chefes de Estado da UE, para que as debatam no Conselho Europeu (CoE), dias 21-22 de março.

O relatório UE-China – A Strategic Outlook pode ser lido aqui, na íntegra.

A CE mostra como, em 2017 – números mais recentes disponíveis – a UE era “maior parceira da China, com 13% do que a China importa, e 16% do que a China exporta.” Ao mesmo tempo, a CE destaca que a China é “concorrente econômico” e “rival sistêmico, promovendo modelos alternativos de governança.”

Mesmo assim, a “contribuição” da CE para o debate do CoE semana que vem está longe de ser confrontacional. É um documento equilibrado, almofadado na terminologia eurocrática, que tenta modelar uma “decisão” comum para os 28 estados-membros.

Problema previsível real

Vindo da CE/UE, a norma é apoio ao “multilateralismo efetivo, com a ONU no núcleo” – e com a China plenamente integrada.

Pequim é elogiada pelo apoio assegurado ao acordo nuclear iraniano; o papel na desnuclearização da Coreia do Norte; o futuro papel no processo de paz no Afeganistão e no enfrentamento da crise dos Rohingya em Myanmar. O problema real, previsivelmente, são as demandas marítimas da China no Mar do Sul da China.

Virtualmente ninguém, exceto os eurocratas de Bruxelas, sabem que existe uma “Estratégia da UE sobre Conectar Europa e Ásia.” É um daqueles comunicados conjuntos que ninguém lê, distribuído ano passado, “para capacitar a União a buscar sinergias entre a UE e terceiros países, incluindo China, em transporte, energia e conectividade digital, considerados os padrões e as leis internacionais.”

Curiosamente, no relatório da CE não há menção alguma às Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) – que é o plano máster da sinergia da China para toda a Eurásia. Pode-se definir como Globalização 3.0.

Por outro lado, Made in China 2025 aparece devidamente referida – e não demonizada à moda governo Trump.

Do ponto de vista da UE, permanece o problema chave da “ausência de acesso recíproco ao mercado.” A UE quer maior acesso a empresas europeias, menos subsídios chineses a empresas chinesas, e fim da transferência de tecnologia de empresas europeias para suas parceiras de joint venture estatais na China.

Tudo isso deve ser parte de um acordo sobre regras de investimento a ser assinado em 2020.

A Ação 9 no relatório da CE é bastante reveladora: “Para salvaguardar contra graves implicações de segurança para infraestrutura digital crítica, é necessária uma abordagem comum da UE para as redes 5G.” Para lidar com isso, a CE lançará – e o que mais seria? – outra “recomendação”.

Parece que está à caminho um pesado revés para os eurocratas: ninguém pode dissociar a ICE, de Made in China, de tecnologia 5G e da empresa Huawei: tudo está no mesmo pacote. Problema é que a UE está sob forte pressão de Washington para banir a empresa Huawei e esquecer para sempre o interesse em se integrar à ICE, mesmo que já quase 20 estados-membros da UE estejam integrados ou interessados em se integrar à ICE, e uma maioria também tenha interesse na tecnologia 5G chinesa.

Diplomatas de Bruxelas confirmaram para Asia Times que o relatório da CE foi redigido basicamente por Berlim e Paris. E, sim, tiveram de encarar furiosa pressão de Washington.

O documento leva embutido um sutil elemento de “ameaça chinesa” – talvez não tão explícito como nos documentos do Pentágono. Trata-se aqui do modo como a aliança franco-alemã crê que consiga influenciar “recalcitrantes” como as nações do grupo 16+1 de nações da Europa Central e Oriental, que estão em negociações com a China, como também a Itália, já prestes a se conectar à ICE.

Problema é que esse é assunto já decidido – como detalhei no caso da Itália (aqui, em ing.).

‘Ameaça existencial’

Pequim está completando, passo a passo, algo que é absolutamente insuportável no Departamento de Estado em Washington: está levando sua influência não só para dentro da UE, mas também para dentro do espaço OTAN.

O Estado Profundo dos EUA pode ter embrulhado ICE, Made in China 2025 e 5G da Huawei num só pacote – como itens de uma mesma “ameaça existencial”. Mas não é verdade para muitas latitudes na UE, até as indústrias alemãs e o governo da Lega/5 Estrelas em Roma.

Bruxelas sabe muito bem que Washington castigará qualquer “aliado” que se aproxime muito de Pequim. Nunca será demais lembrar que a lista das “ameaças” econômicas aos EUA mostra, nessa ordem, China, Rússia e Alemanha. E a Itália está agora apanhada sob fogo cruzado – porque está dedicada a construir boas relações econômicas com ambas, China e Rússia.

Roma já enviou mensagem clara a Bruxelas: à parte qualquer “decisão” comum da UE para enfrentar a China, o que mais pesa é o interesse nacional econômico da Itália, tipo conectar os portos de Veneza, Trieste e Gênova à Nova Rota da Seda. Atlanticistas alarmados só fazem ‘alertar’ que os italianos não podem atravessar a linha vermelha: têm de pedir permissão para agir com independência. Nunca acontecerá – e não importa o que a CE decida “recomendar”.

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

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