Pepe Escobar: Desígnios imperiais para o Irã

Share Button

24/7/2015, Pepe Escobar SputnikNews

Tradução Vila Vudu

Afinal, qual o verdadeiro plano do governo Obama para o Irã? O que querem do Irã? Que tipo de cálculo estratégico teria levado ao que, até o momento, parece mudança geopolítica tática?

Muito provavelmente, o presidente Obama concluiu que o Muro de Desconfiança, de 36 anos, contra o Irã estava condenado a fracassar. Os verdadeiros Masters of the Universe em Washington – os que comandam o estado profundo – sempre souberam que a histeria sobre “armas nucleares” é falsa. Foi parte de uma decisão estratégica para manter a República Islâmica isolada do ocidente pelo tempo mais longo possível e, afinal, forçar mudança de regime.
A “política” fracassou – e miseravelmente. Então o plano B de Obama foi um acordo nuclear.
E depois de firmar o acordo, por que não seduzir Teerã para alguma espécie de esforço colaborativo no policiamento do Oriente Médio – talvez contendo ou, melhor ainda, derrotando espalhafatosamente, o ISIS/ISIL/Daesh?

Seria como construir um claro eco histórico até os anos do Xá – ex-“leão-de-chácara do Golfo”, e que, quando foi derrubado do trono pela Revolução Islâmica, lançou todo o Excepcionalostão em surtos de desespero que já se arrastam há décadas.

Mais que isso, o governo Obama e algumas facções dentro do Departamento de Estado parecem crer que lideranças em silos de facções em Teerã – e Qom – possam ser manipuladas para servir a interesses estratégicos dos EUA.

Mesmo antes do acordo de Lausanne, e na trilha que levaria a Viena, essa possibilidade foi discutida, pragmaticamente, entre o secretário de Estado John Kerry, o ministro de Relações Exteriores do Irã Javad Zarif e o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov. Em termos diplomáticos foram “discussões sobre questões regionais”.


No grande quadro, e evidentemente sem darem qualquer atenção aos gigantescos problemas técnicos, os verdadeiros Masters of the Universe aos quais o governo Obama fez sombra também mantiveram uma equação simples: o gás iraniano acabaria por substituir o gás russo fornecido à União Europeia. E a Rússia tem de sofrer – e sofrerá.
Esqueçam que a Gazprom é um mastodonte comercial em dois fronts, Europa e Ásia. E esqueçam que a Gazprom está coordenando movimentações cruciais de energia, com Teerã.

Mas as guerras de energia nunca param. A perene expansão da OTAN caminha passo a passo com Washington sabotar – com sucesso – o Ramo Sul [ing. South Stream]; agora Washington fará seja o que for para sabotar o Ramo Turco [ing. Turk Stream] e impedir que a Grécia, devastada pelo arrocho [não é ‘austeridade’; é arrocho (NTs)], consiga conectar-se ao gasoduto. Por mais surpreendente que possa parecer, o Irã volta a merecer as boas graças de Washington, como única futura estrela possível do Oleogasodutostão.

Ouçam o líder

Javad Zarif, ministro de Relações Exteriores do Irã, teve de fazer horas-extra, para ‘vender’ o acordo com o P5+1 em Viena ao público interno. O ministro Zarif nunca se cansa de dizer que, tão logo novas empresas estrangeiras comecem a operar no Irã, servirão como barreira contra a reimplantação de sanções – que são a mais recente ideia fixa e Santo Graal em busca do qual se empenham os neoconservadores e neoliberais-conservadores nos EUA. Os planejadores iranianos estão trabalhando no traçado das vias para reconstruir os setores núcleo da economia do país. Projetos de petróleo e gás natural iranianos – muitos dos quais com impulso das grandes de energia de outros países – podem valer $185 bilhões em 2020.

Dia 20 de julho, o Conselho de Segurança da ONU endossou por unanimidade (15-0) o acordo de Viena – e o fim de sete resoluções da ONU impostas ao Irã desde 2006. O evento provocou uivos de desespero no Congresso dos EUA, aquele ninho de lambe-botas a serviço de interesses privados. Alguém precisa explicar àquela gente que se trata de acordo internacional.

Assim também a União Europeia aprovou o acordo no dia 21 de julho – com importantes estados-membros da UE, comichando de vontade de restaurar relações comerciais, já em caravana, pé na estrada que leva à Pérsia.

Há um período de carência de 90 dias antes de as sanções poderem ser levantadas, depois da votação no Conselho de Segurança. Realisticamente, a maior parte das sanções da ONU e da UE, além das sanções contra terceiros impostas pelos EUA, só estarão levantadas no início de 2016.

O resumo da história é que mais depressa do que se espera – façam e digam o que quiserem as campanhas de neoconservadores nos EUA e dos lobbies israelense e saudita – toda a arquitetura das sanções, especialmente financeiras e bancárias, está a poucos passos de ser desmontada. Em breve, o Irã estará aberto para negócios, para toda a Eurásia.

Dia 18 de julho, mesmo antes do voto unânime na ONU, o Supremo Líder Aiatolá Khamenei voltou à cena em grande estilo, para deixar bem claro a direção geopolítica na qual o Irã caminhará, com o fim das sanções. Disse e repetiu que o acordo nuclear nada muda na política de Teerã contra o “arrogante” governo dos EUA. John Kerry lastimou muito; como se não soubesse, depois daquelas longas conversas com Zarif.

Pois é. As cenouras de Washington nada conseguirão – onde o porrete também nada conseguiu. O que o Irã pós-sanções busca é o que está sendo cozinhado no Novo Grande Jogo na Eurásia: a integração entrelaçada que se obterá com as Novas Rotas da Seda promovidas pelos chineses e pela União Econômica Eurasiana (UEE) promovida pela Rússia; o financiamento para infraestrutura que virá do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NBD) e do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) promovido pela China; próxima admissão como membro da Organização de Cooperação de Xangai (OCX); a ofensiva por toda a Eurásia, para deixar de lado o dólar norte-americano; e, claro, a normalização dos negócios e do comércio com a Europa.

Os três amigos (eurasianos)

Pentágono

 

A nova estratégia militar do Pentágono deixou bem claro que a questão número 1 para os Masters of the Universe – e não interessa quem esteja na Casa Branca – é um esforço organizado para isolar estrategicamente ambas, Rússia e China, e destruir a parceria estratégica que as une. Por irrealista que seja essa política, pode até levar a guerra muito quente; o Pentágono deixa sobre a mesa essa opção.

Resultado de imagem para Foto Os Masters of the Universe

Os Masters of the Universe, que mandam na política muito mais que os lambe-botas no governo Obama e já pensam no pós-2016, estão ativamente engajados numa estratégia de três pinças. O establishment de inteligência na Rússia, na China e no Irã – as Três c – sabem perfeitamente o que se passa.

A Ucrânia, estado fracassado, é só pretexto para a perpétua expansão da OTAN. Ameaçando área imensa, do ‘ventre macio’ da Rússia, ao sul, até o oeste do Irã, o ISIS/ISIL/Daesh está sendo instrumentalizado (“Dividir para governar”), para efetivamente pôr fim ao acordo Sykes-Picot e pavimentar o caminho para mais uma intervenção do Pentágono, na Síria, no Iraque, ou no “Siriaque”.

E no Pacífico Asiático, o “pivô para a Ásia”, dado que é a quimera da hora, continua acionado, centrado em intrometer-se em assuntos da China no Mar do Sul da China.


Da Síria à Ucrânia, e até o Mar do Sul da China, a tendência é de o Excepcionalostão trabalhar para criar conflito e confrontos entre as Três Grandes Potências Eurasianas. É choque frontal de dois modelos – que já descrevi como Integração da Eurásia contra o Império do Caos.
Os Masters of the Universe parecem crer que o “pivô para a Ásia” não funcionará se o Irã não participar, como estado vassalo, do que o império estabeleceu como seu desígnio imperial para o sudoeste da Ásia. OK. Então, prestem atenção ao que diz Khamenei [sermões em tradução (NTs)]: não acontecerá.

A estrada adiante, para o Irã, é um mix de integração da Eurásia, puxada pela parceria China-Rússia, e relações comerciais amplas, extensivas, mutuamente benéficas, com a Europa. É claro eco no lema inicial da Revolução Islâmica: “Nem oriente nem ocidente“.

O império não conseguirá comprar – ou subornar – um novo estado vassalo. Assim sendo, deve-se esperar uma reativação inevitável, sórdida, do Muro da Desconfiança, antes até, talvez, de ter desaparecido a arquitetura das sanções.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

 

Share Button

Deixar um comentário