Pepe Escobar – ” China: Rotas da seda e mares abertos”

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30/5/2015, [*] Pepe EscobarRT – Rússia Today

China: Silk roads and open seas”  

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 
Uma Estrada, Um Cinturão
Nova Rota da Seda – Projeto Completo

(clique na legenda para aumentar)

A divulgação, por Pequim, no início dessa semana, do mais recente documento das Forças Armadas da República Popular da China, [1] no qual os chineses apresentam uma nova doutrina segundo a qual passam, da defesa de águas territoriais, para a proteção de “mares abertos” (ing. open seas[2] , fez arrepiar carne e ossos dos excepcionalistas.

 

Quase simultaneamente, em Guangzhou, o Fórum Stockholm China anual, patrocinado pelo Fundo Marshall Alemão e o Instituto Xangai para Estudos Internacionais, dedicava-se a examinar em profundidade o vasto programa de integração da Eurásia conhecido na China como “Uma Estrada, um Cinturão”.

 

O que também é conhecido como projeto Nova Rota da Seda – conservando todas as conotações românticas de um remix de anos dourados – não trata só de novas rodovias, ferrovias para trens de alta velocidade, oleogasodutos e fibras óticas, mas também de uma rede naval do Leste da Ásia diretamente até o Oriente Médio e a Europa.

 

Assim a expansão chinesa nos “mares abertos” – do Mar do Sul da China ao Pacífico Ocidental e ao Oceano Índico – teve de ser firmemente atada à proteção da Rota Marítima da Seda.

 

OK, vamos viajar

 

Enquanto a enlouquecedoramente complexa rede “Uma Estrada, Um Cinturão” vai tomando forma, nem uma semana se passa sem a China assinar mais algum contrato para construir fábricas e gasodutos/ oleodutos/ usinas de energia/ cabos de fibras óticas, para acelerar a integração da Eurásia – do Paquistão aos ‘-stões’ da Ásia Central, e incluindo tudo, de rodovia/ ferrovia que ligue a China Ocidental ao Mar da Arábia a entrepostos navais na rota para o Chifre da África.

 

A lógica dos negócios por trás dessa catarata de negócios de infraestrutura é sólida: tudo isso visa a absorver o enorme excesso de capacidade industrial da China. Esse processo mistura-se é claro com a complexa estratégia de Pequim para a energia, cujo mantra principal é o famoso “escapemos de Malaca”; para obter o máximo possível de vias pelas quais petróleo e gás possam navegar sem atravessar águas patrulhadas pelos EUA.

 

Com Pequim “rumo ao Oeste” – consequência natural de política oficial lançada em 1999, mas naquele momento orientada só até Xinjiang – o país abriu-se cada vez mais para o mundo.Basta ver a quantidade de países de Leste e Oeste que se associaram ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) liderado pelos chineses.

 
Destróiers com mísseis patrulham o Mar da China

Íntima cooperação entre os BRICS China e Índia será absolutamente chave para o sucesso da integração da Eurásia. Já está acontecendo mediante o Banco dos BRICS – Novo Banco de Desenvolvimento – que terá base em Xangai e será presidido por um banqueiro indiano. Não por acaso, a Índia também é membro fundador do BAII.

 

O primeiro presidente do BAII será Jin Liqun, ex-Vice Ministro das Finanças e ex-Vice Presidente do Banco Asiático de Desenvolvimento, liderado por Japão e EUA. As reclamações dos suspeitos de sempre, de que o BAII seria clube secreto dos chineses, são perfeita sandice;o Conselho que toma as decisões inclui vários países desenvolvidos e em desenvolvimento.

 

https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/196306832&color=00cc11

 

Por toda a Eurásia, o BAII se converterá, sem dúvida, em lugar a procurar. Não surpreende que os japoneses, sentindo-se excluídos, tenham sido obrigados a subir a barra: anunciaram que Tóquio vai aplicar siderais US$ 110 bilhões para financiar projetos de infraestrutura em toda a Ásia, até 2020. Pelas cidades da Ásia – de fato, pelas megacidades – só se fala agora das “guerras pela infraestrutura”.

 

O sonho de conquistar o Oeste

 

É fascinante recordar a história que intitulei Para o Ocidente, Jovem Han, história da China que expandia seu alcance comercial/ de trocas e que, na verdade, começou em 1999. O primeiro estágio de uma onda de fábricas que se transferiram da província de Guangdong, para as províncias do interior. Depois de poucos anos, na área do Triângulo de Guangdong – que é hoje muito mais rica que muitas nações industrializadas – os empresários embarcaram em frenética aceleração tecnológica. Na megalópoles de Shenzhen, de fato as autoridades forçaram empresas não altamente tecnológicas a mudar-se para longe da área central da cidade.

 

Em termos de portos de contêineres, dos dez maiores portos globais, nada menos que sete estão localizados na China. É indicação clara da muito evidente predominância da China no comércio marítimo.

 

Em termos de gestão, o plano 125 – o 12º plano chinês de cinco anos – expira em 2015.

 

Poucos no ocidente sabem, mas foi alcançada uma ampla maioria dos objetivos definidos para as sete áreas de tecnologia nas quais a China queria alcançar a liderança; em alguns casos, os objetivos demarcados foram superados. Esse salto tecnológico explica por que a China pode hoje construir redes de infraestrutura cuja construção antes era considerada quase impossível.

 
Entroncamento da estação de Trem-Bala em Pequim

O próximo plano quinquenal deve ser ainda mais ambicioso. Focará, dentre outros itens, o impulso de Pequim para construir uma onda de várias enormes novas cidades, subproduto da reestruturação que a China está promovendo, do seu modelo econômico.

 

The China Dream, novo livro do professor e general Liu Mingfu – alto analista militar – mostra o Grande Quadro, ao ritmo em que vai ganhando impulso a expansão da infraestrutura chinesa pela Eurásia. Confronto com os EUA é inevitável.

 

Os problemas que o Pentágono vive de inventar em torno do Mar do Sul da China são só a ponta do iceberg (letal). Como se sabe, Washington inclui o Mar do Sul da China na relação dos lagos norte-americanos.

 

Liu, como outros dos principais analistas chineses, gostam de supor que Washington, algum dia, encontrará algum modus vivendi com a superpotência emergente – e que acabará por ceder a soberania, mais ou menos como o Império Britânico fez aos EUA, no início do século XX.

 

Nunca acontecerá. No futuro que se pode antever hoje, segundo o “pivoteamento para a Ásia” do próprio governo Obama, anunciado no Pentágono em 2011, será contenção linha-dura.Poderia talvez funcionar, se e somente se a Índia, que é país BRICS, alinhar-se totalmente aos EUA. E isso é muito improvável.

 

Enquanto isso, Washington continuará a ser afogada por análises paranoicas (Agressão chinesa é um presente para os EUA)perpetrada, no caso em tela, por um ex-conselheiro estratégico do alto comando de EUA/OTAN no Afeganistão.

 

E tem também a tal esfera

 

O ponto crucial, já absorvido pela ampla maioria do Sul Global, é que a estratégia de “Um Cinturão, Uma Estrada” da China é negócio exclusivamente de comércio/ trocas/ business de tipo “ganha-ganha”. Nada que se assemelhe, nem de longe, ao Império de Bases, à “guerra ao terô” inventada para nunca acabar, “listas de matar” e assaltos para impor “democracia” a bomba, em nações recalcitrantes (quase todas, repúblicas árabes seculares).

 
Construção do Centro de Negócios de Pequim

O projeto Um Cinturão, Uma Estrada, imensamente ambicioso, associado à Marinha chinesa projetando agora seus interesses nacionais também para os “mares abertos”, encaixa-se perfeitamente no Sonho Chinês do presidente Xi Jinping, em termos de plano-máster de negócios. O melhor modo de construir uma sociedade “moderadamente próspera” [3] é construindo internamente infraestrutura moderna, e abrindo-se, externamente, para o mundo.

 

Mais uma vez, a China estará exportando seu excedente gigantesco de capacidade industrial, continuará a diversificar suas fontes de energia e ampliará sua influência comercial da Ásia Central até a Europa, via Irã, Turquia e Grécia.

 

A China tem os fundos para resolver o problema mais absolutamente intratável da Índia – a reconstrução da infraestrutura do país, que está arruinada. Num cenário ótimo, temos esses dois países BRICS fazendo negócio após negócio (para construção de infraestrutura), aliados à Rússia, também país BRICS; e ao Irã depois de “reabilitado pelo ocidente”. Isso significa ter tudo gravitando em torno da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda e envolvendo nada menos que 1/3 da população do planeta. Isso sim é “esfera de influência”!

 

Tem havido muita conversa em Washington decretando que ninguém pode ter “esfera de influência” – exceto os EUA, é claro. Mas fato é que o impulso econômico, financeiro, diplomático e geopolítico de Pequim para unir a Eurásia tem o máximo que se pode imaginar em matéria de chances de vir a obter uma sua esfera de influência global. Contra esse impulso, a velha tática ocidental de “Divide e Impera” talvez, afinal, não funcione.

 

https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/158914876&color=00cc11

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Notas dos tradutores

 

[1] 26/5/2015, redecastorphoto em: Estratégia Militar da China,. Gabinete de Informação do Conselho de Estado da República Popular da China – Pequim (traduzido) (ing. China Daily).

 

[2] Mares abertos: Que têm ligação direta com águas oceânicas; p. ex., o Mar das Antilhas e o Mar da China .

 

[3] “A meta estratégica nacional da China é completar a construção de uma sociedade moderadamente próspera em todos os sentidos, em 2021, quando o Partido Comunista da China completa o primeiro centenário; e a construção de um país socialista moderno, que seja próspero, forte, democrático, culturalmente avançado e harmonioso em 2019, quando a República Popular da China (RPC) completa seu primeiro centenário” (26/5/2015, redecastorphoto em: Estratégia Militar da China, Gabinete de Informação do Conselho de Estado da República Popular da China, maio 2015, (ing. China Daily).

 

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

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