Palestra Fearab: Porque eles querem destruir a Síria?

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originalPalestra proferida pelo Exmo. Sr. Embaixador Dr. Ghassan Nseir, Chefe da Missão da Embaixada da República Árabe da Síria, na Semana da Cultura Árabe promovida pela Federação das Entidades Árabes – Fearab.

Por Ghassan Nseir *

Primeiramente, gostaria de dar as boas vindas a todos vocês e agradecer a Fearab – Federação das Entidades Árabes – seu Presidente e seus membros pela organização deste evento.

Vou falar sobre o meu país, a Síria e quero agradecer, desde já, pelo seu interesse e o seu amor pelo conhecimento. É verdade que a Síria está muito longe do Brasil em termos de distância, mas perto e geminada com o país por duas razões básicas.

O número de descendentes de origem síria no Brasil ultrapassa treze milhões de pessoas, que chegaram, desde o início do século passado a este país, contribuíram e continuam contribuindo para o seu desenvolvimento econômico, social e científico.

Por outro lado, os meios de comunicação aproximaram as distâncias, ampliaram o conhecimento e criaram movimentos de solidariedade entre as nações e os povos. Os países em desenvolvimento passaram a querer sair do domínio e exploração dos países colonialistas e imperialistas, que saquearam suas riquezas, enriqueceram e desenvolveram-se, mas impediram os outros de se desenvolverem e de terem uma vida decente.

Após esta introdução, passarei para a questão síria.

A República Árabe da Síria, país situado no coração da região do Oriente Médio, tem fronteiras ao norte com a Turquia, ao leste com o Iraque, ao oeste com mar mediterrâneo e o Líbano e ao sul com a Jordânia, a Palestina e os territórios ocupados por Israel, em 1967. Sua capital é Damasco.

A Síria, que antes incluía a Palestina, o Iraque, a Jordânia e o Líbano, passou por diferentes e variadas civilizações, consideradas a base da civilização do Oriente Médio e da Europa. O arqueólogo francês André Perrot disse: “Todo ser humano civilizado tem duas nações, sua terra natal e sua outra pátria, a Síria”. Porque daquela terra surgiu o conhecimento: As primeiras letras do alfabeto, a primeira nota musical, as primeiras ferramentas agrícolas, as primeiras leis civis e assim por diante. Além de tudo isso, e o mais importante, a partir dela surgiu a religião cristã, que se espalhou pelo mundo, levando consigo os valores sírios, disseminados pelo apóstolo Paulo, o mensageiro que se converteu ao cristianismo em Damasco, segundo o Novo Testamento, e levou a todas as nações os ensinamentos destes princípios.

Na Síria também surgiu o islamismo. O islamismo tolerante, centrista e aberto ao próximo. Eu não quero me prolongar na história que alguns tentaram adulterar para atender a fins próprios, mas durante o período da colonização Otomana, ao longo de quatro séculos, o país assistiu a um período obscurantista, quando houve um retrocesso em tudo, quando apareceram as lutas sectárias alimentadas pelos otomanos naquela época e que culminaram com os massacres dos armênios, dos siríacos, dos assírios e de outras denominações cristãs. E até agora, Erdogan e seu partido continuam a fazer uso deste comportamento, seguindo o lema: “Dividir para conquistar”.

Nosso sistema de governo é presidencial, onde os poderes legislativo, executivo e judiciário são independentes. Na Síria, vivemos em uma sociedade secular. O cidadão sírio, tanto o cristão quanto o muçulmano ou o judeu, tem os mesmos direitos e deveres. Basicamente, não existe na carteira de identidade nenhuma menção à religião do cidadão. As mesquitas estão ao lado de igrejas, cada uma desempenhando o seu papel e o nosso princípio é: “A religião é de Deus e a pátria é para todos”. A educação na Síria, em todas as etapas, é gratuita, desde a creche até a universidade e com o subsídio do Estado.

Existem instituições de saúde espalhadas por todo o país, oferecendo serviços de saúde gratuitos aos cidadãos.

Os alimentos básicos e a energia elétrica são subsidiados pelo Estado e comercializados, às vezes, por menos da metade do preço se comparados aos preços praticados pelos países vizinhos.

Temos os partidos nacionais que atuam na vida civil e no Parlamento.

A mulher ocupa um lugar importante em todas as instituições do Estado, tem os mesmos direitos que os homens e trabalha em todas as áreas. Temos uma Vice-Presidente da República, temos mulheres nos ministérios e no Parlamento e em todos os empregos públicos e privados.

Por que eles querem destruir a Síria?

Esta é a questão básica, central e fundamental.

Porque ela resiste à ocupação israelense. Porque eles querem remover tudo o que obstrui o cumprimento dos planos sionistas, que visam a ocupação de terras e o deslocamento da população. Este é o maior crime do mundo contemporâneo: O deslocamento de pessoas que carregam em seu próprio nome o nome de terra, a Palestina, e sua substituição por outro povo, que baseia seu direito sobre a terra numa referência metafísica de que é a “terra prometida por Deus” e desta forma colocam Deus como o dono de uma imobiliária, que dá a terra a quem Ele quer e dela priva quem Ele quer.

Por causa das posições da Síria e de sua resistência à ocupação, os países quiseram sua destruição e o controle de sua soberania, então vieram com a chamada “Primavera Árabe”. Alguns sírios saíram em manifestações para exigir melhores condições de vida e reformas políticas, mas essas manifestações acabaram sendo usadas ​​como meio para atacar as forças de segurança, instalações e instituições públicas e privadas. Escolas e hospitais foram queimados, invadiram os palácios de Justiça e queimaram tudo. Abriram fogo contra as forças de segurança, vitimando muitos de seus membros, especialmente na cidade de Deraa, onde tudo começou.

Apareceram as armas nas mãos da chamada “oposição armada” e as agências de notícias, os canais de televisão árabes e meios de comunicação estrangeiros deram início a uma ofensiva tendenciosa, falsificando os fatos e falando sobre cenários irreais, utilizando para isso métodos modernos de falsificação de imagens e palavras. O dever das forças de segurança era o de defender os cidadãos, o patrimônio e a soberania do Estado contra os grupos de terroristas que vieram da Turquia, do Líbano, da Jordânia, da Arábia Saudita, do Qatar e dos países europeus como a Alemanha, a Chechênia, a França, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos da América e de mais de 82 outras nacionalidades. Então qual é a relação deles com a democracia na Síria? Note-se que todos eles são takfiristas ligados à organização terrorista Al Qaeda. E são apoiados pela Arábia Saudita e pelo Qatar, com dinheiro e armas. Estes países esvaziaram suas prisões e mandaram os criminosos para a Síria. A Turquia facilitou seu treinamento e a sua entrada para a Síria e deu a eles todo o suporte logístico e militar, assim como o fizeram os Estados Unidos e a França.

O Ocidente não somente fez vista grossa como incentivou essas práticas que não estão em conformidade com a Carta das Nações Unidas. E passou a comprar o petróleo das mãos dos terroristas armados, que tomaram o controle dos poços de petróleo na Síria, e em troca passou a vender-lhes as armas. Todavia a Síria, que teve o apoio de países como a Rússia, a China, o Irã e os BRICS, cooperou plenamente com as resoluções das Nações Unidas para o combate ao terrorismo, aceitou desmantelar o seu arsenal de armas químicas e participou da Conferência de Genebra, onde convidou todos os países a se unirem numa só fileira para combater o terrorismo takfirista, que ameaça não somente a Síria, mas todos os outros países. Mas os Estados Unidos e seus seguidores insistem em continuar fornecendo armas aos terroristas e impôs um bloqueio econômico contra o povo sírio, impedindo a entrada de alimentos e medicamentos para as pessoas que alegavam querer ajudar. A hipocrisia internacional ficou clara e a política de dois pesos e duas medidas foi adotada. O que eles querem é tirar da Síria o seu poder de decisão independente.

Após três anos de luta dos terroristas para destruir a Síria e seu povo, a Síria, através de seus líderes, seu governo, seu povo e seu exército está lutando contra o terrorismo e disse ao mundo que “o terrorismo o alcançará, então parem com o apoio ao terrorismo e sequem suas fontes”. No entanto, eles nunca deram ouvidos e acreditaram que tomariam o controle da Síria e de sua decisão soberana. E quando eles não puderam mais encobrir o terrorismo, que alcançou seus países e seus cidadãos, se convenceram da necessidade de combatê-lo e o Conselho de Segurança anunciou a resolução No. 2170 sobre o combate ao terrorismo. Daí criaram uma coalizão formada por países que apoiam o terrorismo, incluindo a Turquia, o Qatar e a Arábia Saudita e excluíram os países que combatem o terrorismo. Que hipocrisia é essa? Que moral é essa?

Além disso, eles dizem querer combater o terrorismo armando a oposição moderada! Prestem atenção nesta contradição! Vejam como eles menosprezam a inteligência humana! Tem como existir uma oposição moderada armada? A oposição está no pensamento e no trabalho, no debate e no diálogo, e não em carregar armas contra o Estado, que manifestou a sua disponibilidade para o diálogo com todos os seus cidadãos patriotas honrados sírios, que rejeitaram a intervenção estrangeira. O povo sírio rejeita qualquer forma de interferência em seus assuntos internos, em sua escolha sobre a forma de governo e por quem será governado. Os sírios são os donos da decisão. Isto está em conformidade com a Carta das Nações Unidas, que proíbe a interferência nos países para mudar o seu sistema de governo. E foi isso que fez com que países como a Rússia, China e Irã e os países do BRICS se posicionassem contra todas as tentativas de violação da Carta das Nações Unidas, para que não prevalecesse a vontade dos países imperialistas e colonialistas sobre as resoluções da Organização das Nações Unidas, que lhes permitiria interferir nos assuntos dos países, ora pela democracia, como ocorreu no Iraque e na Líbia, ora sob a forma de intervenção humanitária. Estes são os métodos, as manobras e os caminhos tortuosos que eles utilizam para impor sua hegemonia sobre os países. Mas e o que aconteceu após a intervenção americana no Iraque? O que aconteceu após a intervenção na Líbia? O que aconteceu no Afeganistão? Cada vez que estas potências brutais intervêm nos países, espalham a desordem, a morte e a destruição.

Será que a Arábia Saudita é um exemplo de democracia? Eles não permitem que os cristãos façam suas orações nem dentro de suas próprias casas.

E o Qatar é um exemplo de democracia?

E a Turquia é um exemplo de democracia?

Agora Israel está dando apoio aos grupos terroristas armados, na fronteira, nas Colinas do Golã. O Qatar contribuiu para o sequestro dos membros das forças de paz da ONU, a UNDOF. E agora as forças da ONU, que tinham como missão separar as tropas nas Colinas do Golã, retiraram-se, deixando o caminho livre para que os elementos terroristas entrem na Síria, com o apoio de Israel.

Em suma, eles querem a destruição da Síria. A Síria realizou eleições presidenciais, em meio à crise, e seus cidadãos vieram de todas as partes do país para votar. O Presidente Bashar al-Assad venceu as eleições à presidência entre três candidatos. Os países europeus e os Estados Unidos tentaram impedir a realização destas eleições, fecharam as embaixadas e proibiram os imigrantes sírios de votar. Esta é a democracia deles. Eles sabiam em quem os sírios iriam votar e por isso mesmo os impediram. Mas os cidadãos sírios tomaram seus voos e vieram dar o seu voto, vindos da França, da América, da Europa e dos países árabes. Não nos surpreendemos quando a Arábia Saudita proibiu a realização das eleições na embaixada da Síria, porque ela não sabe o que é a democracia, mas sim quando os países que alegam querer a democracia fecharam as embaixadas e proibiram os nossos cidadãos de expressarem sua opinião, e foi isso que ocorreu nos países europeus.

Será que os terroristas takfiristas, apoiados pelo ocidente “democrático”, que destruíram igrejas e mesquitas, crucificaram cidadãos, cortaram suas cabeças, comeram corações humanos e proibiram todas as manifestações civilizadas, especialmente no que diz respeito às mulheres, e trouxeram a expressão “casamento jihadista”, e outros comportamentos takfiristas selvagens que não tem qualquer relação com a religião muçulmana ou qualquer outra religião, conhecem a democracia? Eles sequestraram os dois bispos, que seguem desaparecidos, entraram nas cidades para destruir seu patrimônio religioso e sua civilização, como em Maaloula, onde seus moradores ainda falam a língua de Jesus Cristo. Eles também mataram os sheikhs muçulmanos que não concordam com suas opiniões e métodos.

Em resumo, estamos, na Síria, defendendo a nossa soberania, a dignidade do povo sírio e o seu direito de escolher o seu sistema político e suas alianças. Defendemos, ainda, a consolidação da Carta das Nações Unidas, sobre a não interferência nos assuntos internos dos países. Nos comprometemos, ainda, a lutar contra o terrorismo, principalmente o terrorismo takfirista Wahabista. Assim como nos posicionamos ao lado do povo palestino para recuperar o seu direito legítimo de construir seu Estado independente, tendo a sagrada Jerusalém como a sua capital, e queremos recuperar as nossas terras, que Israel tomou da Síria em 1967.

Nós não fomos lutar contra estes países então porque eles direcionam todas as suas forças para lutar contra a Síria? Basta a estes países a dominação colonialista dos povos e de suas capacidades. Chega de políticas de dois pesos e duas medidas. E chega de hipocrisia, de discursos retóricos sobre a democracia e sobre os direitos humanos.

A Síria deseja que todos os países e organizações, que acompanham os acontecimentos com interesse, se posicionem de forma imparcial e objetiva sobre a evolução dos fatos na Síria, que apoiem a solução pacífica baseada no diálogo e nas reformas propostas pela liderança síria, que condenem o terrorismo praticado pelos grupos armados e as campanhas de incitação disseminadas pela propaganda mentirosa. O fim destas práticas representa o caminho para dar um basta ao derramamento de sangue e para levar a Síria a uma margem de segurança e paz.

 *Embaixador Dr. Ghassan Nseir, Chefe da Missão da Embaixada da República Árabe da Síria em Brasília

Tradução: Jihan Arar

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