Países têm história. EUA têm folha corrida

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8/10/2016, Scott (Relatório de Situação), The Vineyard of the Saker

Traduzido por Vila Vudu

Um dia depois de ter experimentado comida norte-americana pela primeira vez, acordei coberto de urticária, o que jamais me acontecera. Supondo que tivesse sido infectado por alguma horrível doença tropical durante o voo, procurei um médico, que me disse que eu tivera uma reação alérgica a algum alimento, e me deu umas pílulas.

A ideia de que se tenha de tomar remédios para suprimir a ação do sistema imune, só para conseguir comer comida envenenada, pareceu-me bizarra. E foram inúteis as tentativas para conversar com as pessoas sobre isso, porque todos achavam estranho que eu achasse a coisa bizarra. Para eles seria “natural” ter de tomar pílulas só para conseguir comer uma fatia de pão com manteiga e uma bala de chocolate.

A maioria dos norte-americanos têm alergias a alimentos, me diziam. Mas não se trata de alergia a alimentos, lembro-me de ter tentado argumentar. Trata-se de uma reação contra substâncias venenosas que há na comida que vocês comem. Acabou, que ouvi que não sabia do que estava falando, porque, como logo me informaram, a comida norte-americana é a melhor, a mais limpa e a saudável do mundo!

Foi a primeira vez na vida, que encontrava Matrix cara a cara, ou nevoeiro de ideias e crenças falsas que os ocidentais, especialmente os norte-americanos, supõem que seja o mundo real. Nesse caso, aquelas pessoas consideravam completamente normal comer substâncias tóxicas como se fossem nutritivas e em seguida ingerir outras drogas que impediriam que a pele delas rebentasse em bolhas e se soltasse da carne, por efeito dessa toxicidade.

Essa história volta-me à cabeça, cada vez que vejo declarações sobre os militares norte-americanos serem os melhores do mundo.

Essas últimas duas semanas nos deram excitante oportunidade para testemunhar o processo pelo qual as elites norte-americanas política e militar, estão, literalmente, devorando uma, a outra, e não por bem. Mas uma coisa é ler sobre os eventos no Blog do Saker, e outra, completamente diferente, é ouvir as mesmas palavras saídas da boca do próprio bicho.

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O bicho, nesse caso, é Rosa Brooks, ex-conselheira sênior da subsecretária da Defesa Michele Flournoy, uma das Três Harpias que estão a um passo de assumir o comando dos próximos Jogos Vorazes: “Hillary Clinton de presidenta; Michele Flournoy de chefe do Pentágono e – as palavras mais apavorantes do idioma inglês – secretária de Estado Victoria Nuland.”

Rosa Brooks acaba de parir um livro sobre o lugar dos militares dos EUA no país e no mundo. O livro é How Everything Became War and the Military Became Everything: Tales From the Pentagon [lit. Como tudo virou guerra e os militares viraram tudo: contos do Pentágono]. Está sendo promovido por ninhos de falcões belicistas neoliberais, como Lawfare Institute e Brookings.

O livro trata, bem… trata de tudo, tipo “questões de segurança, pirataria, detenção militar, surdez estratégica sobre África, operações de estabilidade, drones, operações clandestinas, ciber [qualquer coisa], armas não letais, a militarização da política externa e muito mais.”

Contudo, para nós o mais relevante é que em seu livro Rosa Brooks apresenta um esboço da “estrutura da construção de decisões de segurança nacional, como se desenvolve no dia a dia, e os muitos gabinetes de governo e de funcionários – muito além de simplesmente o Departamento de Defesa e um punhado de agências de inteligência envolvidas na construção daquelas decisões.”

Assim se confirmam minhas suspeitas de que os militares dos EUA dão serviço a uma multidão de instituições e pessoas privadas e que, na essência, constituem a maior formação mercenária, sem qualquer tipo de comando unificado. Nos EUA, as relações entre as forças armadas e as autoridades civis são viciadas por desconfianças e desentendimentos nos mais altos níveis de governo.
Conto apenas um caso: “um relatório sobre uma parte civil no Conselho de Segurança Nacional, por exemplo, que simplesmente telefonou, um dia, pedindo – mandando – o Pentágono tirar uma plataforma de vigilância por drones de onde estivesse servindo ao Comando Central, para pô-la a monitorar eventos políticos no Quirguistão merece ser lido na íntegra (pp. 307-311). A pessoa no CSN evidentemente pensou que telefonar para mandar mudar um drone de vigilância e todo o apoio que anda junto seria equivalente a pedir um Big Mac; além disso, pareceu não compreender que nem ele nem Rosa tinham autoridade para ordenar que o Comando Central fizesse tal coisa.

A experiência dela ilustra que há funcionários civis que devem (que precisam) trabalhar melhor – que não podem simplesmente não ter nem ideia de como os militares funcionam e, além disso, ter rala compreensão de o que “relações civis-militares” devem realmente significar. E isso só dentro da comunidade da segurança nacional do braço executivo; as falhas de compreensão e de confiança são frequentemente maiores se se examina todo o governo.”
Depois de comprovar além de qualquer dúvida razoável que os militares dos EUA trabalham para muitos senhores, sendo comandados pelas multidões de “centros de comando” independentes, Rosa Brooks diz que os norte-americanos veem os militares “como a única instituição pública que funciona razoavelmente bem, das que temos atualmente [e,] resultado disso, os norte-americanos tratam seus militares, cada dia mais, como ferramenta que tudo conserta, que dá jeito em tudo que esteja quebrado.”

O livro na verdade põe fim à discussão sobre a extensão do poder executivo do presidente. A verdade parece ser que o presidente dos EUA absolutamente não decide coisa alguma, nem tem qualquer poder executivo, no que tenha a ver com os militares dos EUA, exatamente o contrário do que manda a Constituição dos EUA. Pronto. As Forças Armadas dos EUA são formação armada inconstitucional.

Outra das lições de Rose Brooks que interessa a todos, em todo o mundo, é que a sociedade norte-americana e os militares norte-americanos já entraram em estado de guerra perpétua.

Aqui, a premissa básica de “How Everything Became War’s é que, historicamente, a condição humana tem sido, tipicamente, um estado binário, quer dizer, ou é guerra ou é paz. Essa circunstância, ela esclarece, é hoje fundamentalmente diferente, por causa da ascensão de fortes não estados beligerantes e terroristas com altas competências tecnológicas.

A autora argumenta – o que não é implausível – que, dado que vivemos hoje num mundo que não é bem paz, nem é bem guerra, a lei existente é inadequada, porque baseada no velho binarismo não realista. Argumenta que as nações hoje buscam implementar mecanicamente, ou o regime legal dos tempos de paz, ou a convenção da guerra, apesar de nem um nem outro desses paradigmas aplicar-se à realidade contemporânea.

Por causa disso, Rosa Brooks, ex-conselheira sênior da subsecretária da Defesa Michele Flournoy, uma das Três Harpias que estão a um passo de assumir o comando dos próximos Jogos Vorazes, prega que é preciso criar um novo conjunto híbrido de leis (nem de paz, nem de guerra, ou, melhor dizendo, um pouco de cada) para a realidade contemporânea, ou, como diz ela, “leis que possam lidar com essa indefinição.”

E a culpa de tudo isso, claro, diz Brooks, é da Rússia.*****

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