Os palestinos vistos pelos “defensores de Israel”

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Por Luciana Garcia de Oliveira.

O atual costume de um certo jornalismo brasileiro, acomodado às facilidades e generalizações permitiu o desencadeamento do que hoje são conhecidos como os grandes porta-vozes dos particularismos étnicos e religiosos, assim, não é de modo algum surpreendente que seja proclamado unilateralmente: O totalitarismo esta no outro! Esses tais comunicadores são capazes de pronunciarem-se sem pesquisar fontes precisas e confiáveis, nem sequer são capazes de criticar as informações presentes, acessíveis ao grande público.

Quando as notícias relacionam-se ao Oriente Médio, o tratamento aplicado hoje às expressões “árabe-muçulmano” ou “palestino”, são particularmente reveladoras do poder de influência de visões pré concebidas, principalmente quando advindas por intermédio dos muitos grupos de pressão, então insuflados pela paixão suscitada pelo conflito palestino-israelense e, principalmente pelo medo do advento do terrorismo. Diante dessa situação, os pequenos jornalistas tendem a realizar “investigações” que visam comprovar uma odiosa parcialidade anti-israelense e um tipo de antissemitismo genético. As contribuições dessa natureza são crescentemente exportadas para a mídia ocidental (e brasileira) no intuito de agregar contribuições à campanha da vitimização israelense.

Nesse ínterim, cabe ressaltar que os atentados de 11 de setembro de 2001 aconteceram após um ano da explosão de uma verdadeira guerra entre israelenses e palestinos, denominada internacionalmente de “Intifada El-Aqsa” (ou Intifada das Mesquitas). E, na mesma direção da campanha contra o chamado “fundamentalismo islâmico”, insuflou-se uma exagerada defesa do governo israelense por parte de numerosos intelectuais judeus e não judeus sionistas da diáspora. Essas manifestações geralmente são divulgadas e publicadas de maneira extremamente simplista e intolerante (sob um viés maniqueísta do “eles contra nós”), inclinada à ideologia de direita de um estilo populista, muito facilmente reconhecível.

Os palestinos foram punidos por estarem na Palestina durante a época da colonização sionista e, continuam a serem punidos por estarem ausentes da Palestina. Muito embora tenha sido alastrada a idéia de que os palestinos devem serem envolvidos no processo de paz, de acordo com Edward Said, na sua obra A questão da Palestina, “se procurássemos um palestinos que esteja envolvido nele, não encontraríamos nem um” (p. 194). Essa situação prevalece porque para o governo israelense (e seus “defensores”) os palestinos são considerados terroristas, árabes ou anônimos, capazes apenas de atrapalhar o andamento de uma narrativa mítica. Por outra parte, Israel era então somente representada como uma nação em busca pela paz.

Antes da década de 1980 não era costume noticiar sobre os abusos diários da ocupação israelense, as notícias vinham a tona quando uma bomba explodia em algum mercado ou shoppings centers de Jerusalém. Uma das principais razões para que um povo não europeu não seja pródigo em obras, documentos e pautas jornalísticas, deve-se também a falta de um texto abalizado sobre a história da Palestina. A experiência palestina é uma parte amplamente ignorada pelos “vencedores”.

O povo palestino ocupavam uma terra chamada Palestina, cujo êxodo foi induzido sob a legítima justificativa de salvar os judeus europeus do nazismo. Diante dessa constatação é pertinente o seguinte questionamento: Por qual razão moral ou política espera-se que os palestinos abandonem suas reivindicações aos direitos humanos?

Foi somente à partir de 1980 que, parte dessas omissões e distorções começaram a ruir, em virtude de uma prática sistemática de retaliação agressiva promovida pelo exército israelense durante a Segunda Intifada (1987). Nessa altura, o governo israelense passou a adotar uma política de “contra-ataques” punitivos (terrorismo de Estado), com ações que incluíam devastação de campos de refugiados, hospitais, escolas, mesquitas nos territórios ocupados e no Líbano. Além de prisões sumárias, deportações, demolição de casas e torturas, comprovadamente divulgadas pelo site da Anistia Internacional.

O atual desprezo ao contraditório por parte dessa tendência jornalística, relaciona-se diretamente ao argumento de autoridade e generalismo, e esta presente em expressões como: “programa”; “mundo árabe”; “barbárie”; “intolerância”; “opressão as mulheres” e o “ódio aos judeus”. A última expressão no entanto é a máxima utilizada em muitos artigos jornalísticos e acadêmicos, tendem a esconder o fato de que para muitos árabes e palestinos a questão do Holocausto não é mais considerado tabu. São muito poucos, por sua vez, que conheceram a iniciativa promovida pelo Padre Shoufani (da igreja greco-ortodoxo de Nazaré) sobre a realização de uma peregrinação aos campos de concentração de Auschwitz, acompanhado de jovens muçulmanos e cristãos árabes de Israel, da Palestina e de outras localidades. Isso sem retomarmos os textos do professor palestino Edward Said e do poeta sírio Adonis aos quais possuem claras referências aos prejuízos do Holocausto nazista.

O termo antissemitismo muitas vezes é utilizado como uma acusação dirigida à um tipo específico de ação ou atitude, serve unilateralmente aos interesses de quaisquer “jornalistas” que temem as conseqüências de uma crítica aberta ao governo israelense e ao seu exército, em eventos acadêmicos e políticos, como é o caso do Fórum Social Mundial Palestina Livre, que vem ocorrendo tradicionalmente na cidade de Porto Alegre, desde o dia 28 de novembro até o dia 01 de dezembro.

O evento internacional, diferentemente do que tem sido muito propagado nos grandes meios de comunicações, conta com a importante presença da comunidade judaica, vinda de diversos países. Em uma das mesas, “A arte da resistência”, ocorrida ontem no espaço “casa da Palestina” localizado na Usina do Gasômetro foi registrado testemunho individual de uma participante que viveu durante alguns anos em um Kibtzin israelense e, o modo como obteve o conhecimento progressivo sobre tudo o que se passavam nos territórios ocupados.

O Fórum Social Mundial Palestina Livre (FSMPL), ao contrário do que vem sendo amplamente relatado na imprensa, é aberto, democrático. Isso implica que quaisquer participação de modo individual, ou através de organizações, é absolutamente permitida, inclusive para apresentarem possíveis contrapontos às idéias propagadas nas mesas de debates. O projeto inicial do Fórum, qual seja, comprometimento com a paz, justiça e autodeterminação do povo palestino, invariavelmente determinará para uma maior estabilidade de Israel e de sua população e, numa maior tranqüilidade de suas fronteiras.

Por outro lado, na contra mão do que vem de fato acontecendo no evento, antes mesmo da abertura das atividades, foi relatado no blog do colunista Reinaldo Azevedo, no momento em que manifestou com muita repugnância o fato de que mesmo possuindo uma provável origem judaica, o governador do Rio Grande do Sul, a possibilidade de serem promovidos “atos hostis a Israel”. E, ainda acrescentou, nesse sentido que a forma mais perversa de antissemitismo advém de indivíduos de origem judaica que, como Tarso Genro, “esta financiando um ato abertamente hostil a Israel, cuja pauta acolhe, ainda que de modo oblíquo, práticas terroristas e acena com o fim daquele Estado. Tudo isso em Porto Alegre, cidade perigosamente próxima da Tríplice Fronteira, comprovadamente infiltrada pelo terrorismo islâmico”. Nada mais alarmista.

Para os moderados e humanistas, as criticas as ações israelenses não significam a negação do direito à existência do Estado judaico, como é habitualmente distorcido. De forma não se deve identificar essas críticas como sendo atos antissemitas, conforme foi relatado no texto de Azevedo. Acusações e inversões dessa natureza, visam tão somente o controle do discurso dentro da esfera pública, semeando a preocupação de uma caracterização tão inconveniente, a qual nenhum indivíduo progressista deseja ser identificado.

O movimento sionista povoou um Estado da Ásia com uma grande quantidade de imigrantes vindos da Europa. Isso implicou inevitavelmente no despovoamento do território original. Para Said, “é com esse fato que a busca pela paz no Oriente Médio deve começar, e com a qual ainda nem sequer se começou a lidar” (p. 206).

O Fórum Social Mundial Palestina Livre é um evento criado para ouvir aqueles que foram esquecidos e ocultados pela história. O que os “defensores de Israel” tem a temer?

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