O que dá forças ao Irã, para se levantar contra os EUA-superpotência?

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17/7/2019, Elijah J.Magnier, Blog

Durante a guerra Irã-Iraque nos anos 1980s, a República Islâmica do Irã criou o slogan “Karbala, Karbala estamos chegando” ( كربلا كربلا ما دارييم مياييم) para “defender a força do Islã”. Na Síria, o grito de guerra “Zeinab não será raptada outra vez” ajudou a mobilizar aliados xiitas e a reunir milhares de combatentes para lutar contra os takfiri sunitas da al-Qaeda e do ‘Estado Islâmico’ (ISIS). Hoje, apesar da batalha existencial entre Irã e os EUA, a “República Islâmica” já não usa slogans religiosos. A causa nacional é, hoje, o fator que arregimenta os iranianos para a luta. Até iranianos que não apoiam o regime atual defendem o próprio país contra a posição agressiva dos EUA. Os mais pragmáticos iranianos sentiram-se desapontados com a revogação ilegal, pelos EUA do Acordo Nuclear (JCPOA). Impuseram-se sanções severas ao povo iraniano, porque Trump desmontou o acordo para atender instruções de Netanyahu e para irritar seu predecessor Obama. Ante as sanções, a República Islâmica recusa-se a se curvar ao que digam os EUA. Diferente de outros países do Oriente Médio, que gozosamente se submetem à chantagem e ao bullying, o Irã diz “NÃO” à superpotência. Por quê? Como se explica que o Irã faça o que Arábia Saudita e outras potências regionais, embora possam fazer, não fazem e não farão?

O Irã fabrica seus próprios tanques, mísseis, submarinos e é membro do clube global de países criadores e desenvolvedores de ciência nuclear.

O Irã conta com aliados poderosos no Líbano, Síria, Iraque, Palestina, Afeganistão e Iêmen; e pode contar com eles no caso de qualquer guerra vir a ser imposta a Teerã, inclusive se for imposta pelos EUA.

O Irã elegeu democraticamente membros do Parlamento e um presidente com mandato de quatro anos, com direito a mais quatro anos, se vencer nas urnas, diferente de estados árabes que têm presidentes vitalícios ou herdam o trono. Cristãos e judeus são minorias reconhecidas no Irã; os judeus elegeram um deputado ao parlamento, Siamak Moreh, e sentem-se “seguros e respeitados”. São cerca de 15 mil judeus, entre 85 milhões de iranianos, e há mais de 25 sinagogas.

O Irã enfrenta sanções dos EUA há mais de 40 anos sem se curvar às demandas dos EUA. O país confrontou os EUA em muitas arenas em todo o Oriente Médio; recentemente os iranianos derrubaram um drone – clara mensagem de que estão dispostos a enfrentar a guerra e suas consequências, se alguma guerra for imposta ao país. O Irã está pronto a pagar o preço de defender terra, mar e ar territoriais iranianos; não cederá frente a qualquer tipo de violação de sua soberania, nem se o violador for uma grande potência como os EUA. O Irã já sinalizou claramente para EUA, Israel, o principal aliado dos EUA, e para todos os países do Oriente Médio: os iranianos retaliarão duramente contra qualquer tipo de agressão.

O Irã não está exposto aos riscos de ataques para ‘mudar o regime’, porque o sistema eleitoral realmente pertence ao povo. Se for atacado internamente, o Irã tem meios para retaliar onde quer que haja aliados seus, contra os inimigos regionais do Irã, onde estejam.

A situação do Irã não é rara nem surpreendente. É normal e esperável que, onde haja instituições democráticas, elas funcionem como são criadas e mantidas para funcionar. É normal que um país tenha aliados prontos a ajudar e garantir apoio, quando necessário. Também é normal e esperado que qualquer país use a força, se necessário, para defender a própria soberania e para proteger as próprias fronteiras. Os cidadãos apoiam o próprio governo e as próprias forças armadas, quando elas defendem o país contra agressores, e quando os governantes tomam decisões duras e corajosas.

Não há vozes no Irã clamando pela derrubada do atual regime, apesar da “pressão máxima” que os EUA impõem ao país. O presidente do Irã respondeu com “paciência máxima” ao longo de 14 meses, antes de dar o primeiro passo legal para se afastar parcialmente do acordo nuclear. Rouhani então passou para uma “estratégica confrontacional” e acabou por adotar uma “estratégia de resposta equivalente” àquele ataque.

Dessa vez, o Corpo de Guardas Revolucionários Iranianos [ing. Iranian Revolutionary Guard Corps (IRGC)] não precisa de slogans religiosos, porque dessa vez os iranianos estão unidos, sem divisões de etnia, organizados em torno de seus governantes e contra os EUA. Trump conseguiu unir contra si pragmáticos e radicais iranianos sob uma só bandeira.

A Europa correu a fazer papel de mediadora numa tentativa frustrada de aliviar tensões entre EUA e Irã. Líderes europeus têm fraca capacidade de alavancagem contra o presidente Trump, porque estão longe de organizados ou unidos, mesmo que tenham assinado o Acordo Nuclear e devam, claro, respeitar a própria assinatura. Alemanha, França e Reino Unido apareceram com o projeto de um novo sistema de pagamento, INSTEX [ing. “Instrument in Support of Trade Exchanges”], apesar de ainda não ser efetivo. O instrumento INSTEX mostra o desejo entre líderes europeus de satisfazer o Irã, para conseguir que suspenda a produção de armas nucleares. É considerável esforço europeus.

O Irã não abandonará seus aliados, porque estão na linha de frente da segurança nacional e defender seus valores e a própria existência do Irã. Sem os aliados do Irã, nenhuma política que confronte a hegemonia dos EUA seria possível. As duras sanções contra o Irã feriram também seus aliados, mas não deterioraram nem afetaram as respectivas capacidades militares.

O Irã não desistirá dos próprios mísseis, porque são seu potencial e seu único mecanismo defensivo. O Irã está pronto para a guerra; não abandonará o desenvolvimento e a produção de mísseis. Muitos desses mísseis já foram entregues a aliados na Palestina, no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen.

O Irã não se submeterá à chantagem pela qual Trump extorque centenas de bilhões de dólares de países do Oriente Médio, ao forçá-los a comprar dos EUA armas e peças de reposição. Países do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Emirados e o Qatar, pagam gordos resgates, para limitar o dano do bullying que sofrem de Trump.

Se todos esses países do Oriente Médio se posicionassem contra “agressões e provocações contra a vizinhança”, como fez o Irã, e investissem uma fração do que pagam a no desenvolvimento e prosperidade da região, os EUA não teriam como saquear a Arábia Saudita, o Qatar e os Emirados.

E por fim, mas não menos importante, o Irã rejeita o plano que Trump está tentando impor aos palestinos: que os palestinos vendam o próprio território por um punhado de dólares. Muitos países do Oriente Médio adotaram o plano infantil Jared Kushner – amador, cujo poder advém de ser genro do presidente dos EUA – e que acreditou que pudesse conseguir o que muitos presidentes e diplomatas jamais conseguiram em décadas. O Irã, com Iraque, Líbano e Kuwait rejeitaram o “Acordo do Século”.

Trump admite que só compreende a “língua dos números e do dinheiro”. A resposta do Irã à estratégia de chantagem dos EUA incorpora a percepção de que esse mundo só respeita e compreende os que mostram força e recusam-se a se submeter à coerção, e a consciência do mundo só é acordada pelos que decidem resistir.

Traduzido por Vila  Mandinga

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