Mito ‘sunita’ de Washington e guerras internas na Síria e no Iraque (1/2)[1]

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Syria-Nusra-Aerial-Shot

16/8/2016, Cyrus Mahboubian (pseudônimo), Blog War On The Rocks*

Traduzido por Vila Vudu

Ver também:
Mito ‘sunita’ de Washington e o Oriente Médio desfeito (2/2)

23/8/2016, Cyrus Mahboubian, Blog War on the Rocks [em tradução]
http://warontherocks.com/2016/08/washingtons-sunni-myth-and-the-middle-east-undone/
No Iraque, os principais líderes xiitas das Forças de Mobilização Popular, FMPs [ing. Forças de Mobilização Popular (PMF)] reuniram-se recentemente. Entre eles estava um destacado comandante sunita das FMPs, que depois me contou sua história. Quando os homens reuniram-se para as orações, um líder xiita percebeu que aquele companheiro sunita permaneceu sentado. O líder xiita perguntou “Por que não se junta a nós?”

O comandante sunita respondeu “Não rezo.”

“O que quer dizer isso?” perguntou o xiita.

“Se eu rezasse”, respondeu o sunita, “estaria no  ‘Estado Islâmico’**  lutando contra você.”

Se você lê veículos da mídia ocidental, inclusive esse War on the Rocks, pode-se supor que quase todos os problemas do Oriente Médio resumir-se-iam à violência contra os sunitas, especialmente na Síria e no Iraque.

Todo o debate no ocidente sobre as guerras em andamento no Oriente Médio é contaminado pelo pressuposto errado de que haveria identidades sectárias.

As elites em Washington imaginam que haja um senso de identidade sunita mais amplo, que não existe além dos limites da Arábia Saudita e dos territórios controlados por grupos jihadistas.

Esse pressuposto errado gera o efeito vicioso de estimular políticas que jogam gasolina aos fogaréus que consomem a Síria e partes do Iraque. Ao lado dessa narrativa corre outra, que apresenta as Forças de Mobilização Popular do Iraque como milícias sanguinárias engajadas em repetidos abusos contra árabes sunitas iraquianos. Absolutamente nada disso é o que parece ser.

Assim também, essas mesmas vozes descrevem o governo sírio como “regime alawita” que oprimiria sunitas. A verdade é que os sunitas estão fortemente representados em todos os níveis de liderança do governo Assad. O território que o governo Assad controla hoje, como também o território que controlou em todos os momentos anteriores da guerra, é majoritariamente sunita. Os sunitas são maioria também nas Forças Armadas Sírias. Os alawitas são minoria nas forças de segurança, mas morrem em maior proporção que outros. Se isso fosse “regime alawita”, não é curioso que inclua e favoreça tantos não alawitas?

Os sunitas não têm só poder político na Síria; têm também poder social, mais oportunidades e mais amplitude de escolhas na vida que nos demais estados da região governados por chefes de Estado sunitas.

No centro daquela interpretação superficial e descuidada do que realmente se passa no Oriente Médio está a aceitação e divulgação repetitiva de uma identidade sunita, que é propagada pelas vozes mais extremistas no mundo sunita: Arábia Saudita, al-Qaeda e o  ‘Estado Islâmico’  no Iraque e Levante (ing. ISIL).

Alguns analistas norte-americanos aceitaram os gritos estridentes desses que se autoapresentam como representantes do mundo árabe sunita, como o ministro de Relações Exteriores saudita Adel Jubeir. Aceitaram a narrativa da vitimização sectária, como articulada por insurgentes sírios e seus porta-vozes – como se aquelas vozes representassem a maioria do povo sírio ou, que fosse, dos sunitas sírios. Aceitaram os pedidos de ajuda e apoio que chegavam dos mais furiosos sunitas iraquianos rejecionistas, como se ceder às demandas deles os fosse empurrar para lutar contra o ISIL ou para reconciliar-se com o Iraque. “Rejecionistas”, aqui, designa, sejam baathistas ou islamistas que não aceitam a nova ordem e lutam para derrubá-la.

EUA continuam a ouvir os sunitas errados

Baseado nos meus anos de viver e trabalhar no Oriente Médio, posso garantir que essas vozes não representam quem dizem representar. O único fator que realmente atraiu árabes na direção dos sauditas, quando atrai, é o dinheiro que os sauditas têm a oferecer. Os porta-vozes sírios ‘rebeldes’ são apenas uma fração dos sunitas sírios. Os autodesignados líderes iraquianos sunitas não controlam nem homens nem território. Os EUA continuam a ouvir os sunitas errados. Quando o presidente Obama ou o general David Petraeus ou outros repetem os mitos da agressão aos sunitas, só fazem propagar, reforçar e legitimar uma perigosa narrativa sectária que, na verdade, deveria estar sendo desmentida.

A ideologia alternativa do autoproclamado ‘Estado Islâmico’, seja no Oriente Médio, nas favelas europeias ou na antiga União Soviética, não visa a promover alguma identidade sunita – objetivo do governo Bush, com o mantra dos “aliados sunitas moderados.” Visa, isso sim a criar uma contraideologia desfavorável a cidadãos e estados seculares – o modelo que o ocidente ajudou a destruir no Egito depois da morte de Gamal Abdel Nasser e está, hoje, destruindo na Síria.

Em dois artigos, mostrarei por que a noção ocidental de sectarismo distorce muito gravemente a realidade na região, resultando em políticas que perpetuam – em vez de superar e resolver – as guerras civis interconectadas que são a desgraça do Oriente Médio.

Nessa primeira parte, uso fatos em campo reunidos ao longo dos anos que trabalhei na região, para explicar como a noção que Washington cultiva e dissemina do que sejam Síria e Iraque absolutamente não dá conta do que realmente se passa lá.

Na segunda parte [em tradução], ofereço uma contranarrativa de resposta à narrativa ocidental do “sectarismo na região” e proponho uma mudança dramática no modo como o ocidente em geral, e os EUA em particular, devem abordar o Oriente Médio. Claro que o que aqui se lerá é controverso. Alguns não levarão a sério, em primeiro lugar porque escrevo sob pseudônimo. Peço apenas que procurem abordar os fatos e as análises com mente aberta e avaliar criticamente se a abordagem política ocidental hoje dominante sobre o Oriente Médio realmente atenderia aos interesses chaves dos EUA. De minha parte, entendo que não. E por isso a abordagem ocidental forçou a região a descer aos infernos.

Sectarismo sírio: interpretação equivocada

Ouve-se sempre uma cacofonia de vozes sempre a reclamar que o governo dos EUA não garantiria apoio suficiente a insurgentes sunitas sectários que os EUA apoiam na Síria. Nesse ponto do conflito, essas vozes já admitem abertamente que os tais sunitas árabes “moderados” cooperam com a al-Qaeda, mas mesmo assim insistem em que merecem ainda o apoio de Washington. Às vezes, parece até que argumentam que os EUA têm de ajudar a al-Qaeda a vencer na Síria, para que aqueles homens não fujam para nos atacar no ocidente. Aqui nesse blog War on the Rocks, Faysal Itani insiste na ideia de que Rússia e EUA deveriam cooperar para degradar a Frente al-Nusra, grupo de jihadistas salafistas que, até bem recentemente, operava como afiliado da al-Qaeda.

Esses advogados muito frequentemente ignoram que os insurgentes sunitas recebem vastíssimo apoio, e que a elite política e militar síria é majoritariamente sunita. Sim, claro, estou falando do regime Assad. Esses que lamentam que os EUA ajude pouco os insurgentes sírios passam sem ver pela evidência de que aquela é uma das insurgências mais fortemente apoiadas de toda a história. Desconsideram também o importante serviço que os insurgentes prestaram à oposição síria, ao forçarem o exército sírio a combater praticamente sempre fora de território sírio. Grande parte do país está mergulhado no caos, ou em mãos de jihadistas que cooperam com grupos apoiados pelos EUA. De fato, a ajuda externa aos insurgentes sírios foi tão bem-sucedida, que forçou os militares russos a intervir diretamente para impedir o colapso total da Síria.

No início do mês, jihadistas salafistas liderados por um clérigo saudita usaram suicidas-bomba e combatentes estrangeiros para tentar entrar na parte de Aleppo controlada pelo governo. E foram saudados como rebeldes heroicos na mídia-empresa ocidental e aplaudidos pela liderança oficialmente apoiada pelo ocidente da oposição síria.  Se conseguirem, mais de 1,5 milhão de residentes na área controlada pelo governo sírio em Aleppo estarão sob risco gravíssimo.

As mesmas vozes ocidentais que criticam a Casa Branca por não apoiar mais empenhadamente os rebeldes sírios são sempre muito rápidas em argumentar que mais apoio, antes, a insurgentes “moderados” teria impedido o crescimento dos jihadistas e apressado a derrubada do governo sírio.

São vozes erradas, antes e agora, porque subestimam a extensão já então considerável do sectarismo e do salafismo entre a população rural síria sunita e as classes urbanas sírias pobres. Esses segmentos da sociedade sempre foram a base da insurgência. O movimento nesses grupos sempre foi dominado por islamistas sunitas sectários, que afinal conseguiram expressar livremente o próprio sectarismo depois de terem expulsado o Estado de suas áreas. Resultado lógico desse desenvolvimento é o extremismo. Não se pode culpar os métodos do governo sírio, por duros que tenham sido ou sejam, pela sectarização. Quem defenda mais apoio, antes, aos chamados “moderados” esquece o que sempre acontece quando o Estado entra em colapso e as milícias emergem. As pessoas abraçam identidades mais basais e as milícias extremistas passam facilmente a dominar.

Principalmente, críticos ocidentais que clamam por apoio sempre maior de Washington à oposição síria armada sempre subestimaram o empenho dos aliados da Síria. E esquecem que a Síria acontecia num contexto no qual as diferenças sectárias tinham e têm, necessariamente, de ser superadas. Sauditas e qataris contavam com derrubar o governo sírio e converter a Síria em regime “sunita”; e viram os sírios como ferramenta para alcançar esses seus objetivos. Não viram que o Irã tinha de impedir e continua empenhado em impedir que acontecesse tal coisa. Esses estados do Golfo foram cruciais para incendiar a insurgência, mas, por isso mesmo, a rebelião passou a depender crucialmente de atores externos.

Todo esse apoio externo que os insurgentes sírios receberam tornaram aqueles grupos menos coesos e menos vitalmente envolvidos com a própria sociedade em que viviam. Insurgentes reais e efetivos têm de ser organicamente conectados com as respectivas comunidades e empenhar-se muito firmemente em garantir o bem-estar das populações civis. Acontece assim frequentemente, porque os grupos dependem das comunidades, que lhes garantem recursos, abrigo e outras formas de apoio. Se um grupo é financiado por agentes externos ao país, pode operar independente de qualquer consideração com a população civil e impor um reinado do terror a uma comunidade, ou ignorar a evidência de que suas ações levam à destruição da comunidade.

Do meu ponto de vista, como alguém que vive e trabalha na região, os analistas norte-americanos parecem ainda mais sectários que muita gente no Oriente Médio, ao promoverem e legitimarem a cisão sunita-xiita. Movimentos baseados em sectarismos e esse sectarismo pró-sunitas dos norte-americanos são vistos por árabes modernizantes e progressistas, sejam xiitas sejam sunitas, como perigosos e gravemente distorcidos. Quem deseje um exército sunita, já tem o ISIL, milícia sunita par excellence. E a vasta maioria das vítimas do ISIL também são sunitas.

Ouve-se frequentemente que só uma força árabe sunita conseguirá derrotar o ‘Estado Islâmico’. É o mesmo que argumentar que o ISIL não poderia ser derrotado enquanto Assad for presidente, porque é como um ímã de atrair jihadistas, porque os EUA precisam de aliados sunitas, e porque os sunitas sentem-se como se estivessem perdendo tudo desde 2003 e continuassem oprimidos. São noções viciosas, que repousam sobre falsos pressupostos sobre ‘identidades’ na região; e são noções que criam grave perigo para Síria, Iraque e o Oriente Médio como um todo.

Essa visão pervertida dos norte-americanos sobre sectarismo no Oriente Médio foi recentemente exposta em linhas claríssimas, típicas, pelo ex-embaixador Robert Ford na [revista] The New Yorker. Referindo-se ao chamado “telegrama da dissidência” escrito por funcionários linha-dura do Departamento de Estado, disse Ford:
“A mensagem da dissidência deixa claro que o foco no ‘Estado Islâmico’ não conquistará corações e mentes de árabes sunitas sírios em número suficiente para garantir solução sustentável, de longo prazo, ao desafio do ‘Estado Islâmico’ na Síria. A comunidade árabe síria sunita vê o governo Assad como problema maior que o ‘Estado Islâmico’.”
Nada mais distante da verdade.

Na Síria, existe uma força militar de maioria sunita. Representa a única instituição nacional remanescente num estado que não faz nenhuma distinção sectária, diferente do que seus inimigos parecem supor. Sim, estou falando do Exército Árabe Sírio, das forças armadas sírias. A maioria dos funcionários públicos na Síria, funcionários do Estado e soldados são sunitas mesmo hoje. A maioria da ainda poderosa classe capitalista urbana síria é sunita. Como quem interage com gente dos dois lados da guerra síria, praticamente desde o primeiro dia, aprendi que até alguns dos mais altos funcionários e mais próximos assessores e chefes da segurança do presidente Assad são sunitas: Ali Mamluk, por exemplo, chefe da segurança nacional que supervisiona as demais agências de segurança; o coronel Khaled Muhamad, sunita de Daraa, é encarregado da segurança de Damasco, na chefia do temido “Departmento 40” da Segurança Nacional da Síria; Deeb Zeitun, que preside a segurança do Estado sírio, e Muhamad Rahmun, que dirige a segurança política, são ambos sunitas; e também são sunitas o diretor da inteligência exterior, o ministro da Defesa, altos oficiais da inteligência da Força Aérea, o ministro do Interior, o presidente do Partido Baath governante, a maioria dos líderes Baathistas e o presidente do Parlamento. Todos sunitas. O comandante das Forças de Defesa Nacional, FDN [ing. National Defense Forces, NDF] em Daraa é sunita de origem palestina. Os comandantes das FDN em Quneitra, Raqqa e Aleppo são, eles também, sunitas. Um dos principais combatentes anti-ISIL dentro do governo, que recebe apoio de todos os ramos da segurança estatal síria é Muhana al Fayad. Governa a grande tribo dos Busaraya, entre as áreas de Derezzor e Hassake e também é membro do Parlamento. Até alguns pilotos que lançam bombas sobre comunidades controladas pelos insurgentes são sunitas. Muitos dos dirigentes de vários braços da inteligência militar também são sunitas.

Para compreender a sobrevivência do governo sírio

Entre os sunitas em postos de governo muitos são oriundos de áreas controladas pelo ISIL, como Derezzor e Raqqa, ou de áreas controladas por insurgentes, como o leste de Hama, Daraa e a área rural de Aleppo. Esse fator é chave para que se compreenda a sobrevivência do governo sírio.

O diretor de segurança na província nordestina de Hassake, que faz ‘fronteira’ com áreas controladas pelo ISIL é, ele próprio, sunita da cidade de Muhassan em Derezzor. Sua cidade natal está ocupada pelo ISIL, e ele tem parentes que desertaram das forças sírias de segurança para se unirem a variados grupos insurgentes. Muhamad Rahmun, acima referido, chefe da segurança política do Estado sírio, é de Khan Sheikhun em Idlib, e tem parentes que lutam, por exemplo, alistados à Frente al-Nusra. Efeito também dessas relações complexas, o governo sírio jamais rompe os elos que o conectam a áreas ocupadas hoje por insurgentes e pelo ISIL e inclusive, em alguns desses locais, ainda mantém servidores públicos pagos. Com isso, se mantém aberta uma porta pela qual as pessoas podem se reintegrar ao Estado. O regime continua a lutar palmo a palmo para defender o controle que mantém sobre Aleppo e Derezzor – duas importantes cidades de maioria sunita –, e luta para prover serviços de Estado àquelas comunidades.

E todos os líderes das delegações representantes do governo sírio que foram a Genebra negociar o processo político são, todos, sunitas; além de praticamente todos os membros das respectivas equipes técnicas.

Quando Robert Ford diz que árabes sunitas na Síria estão mais preocupados com Assad do que com o ‘Estado Islâmico’, comete erro grosseiro e perigoso. A maior parte da “comunidade árabe síria sunita” de que fala Ford permanece em áreas controladas pelo governo de Assad e absolutamente não se sublevou.

Damasco é cidade árabe majoritariamente sunita. SE vissem o governo Assad como problema maior que o ‘Estado Islâmico’, Damasco já teria caído em mãos dos insurgentes ou, no mínimo, viveria tragédia equivalente à de Bagdá, com frequentes explosões de carros-bomba. Em Bagdá há proporcionalmente muito menos sunitas que em Damasco, mas os jihadistas ainda conseguem encontrar ali paraísos seguros e organizar número muito maior de ataques que os insurgentes sírios em Damasco.

Claro que Damasco, não é imune a esses ataques. As duas cidades sírias mais atingidas por foguetes e morteiros dos insurgentes são Damasco e Aleppo – ambas cidades predominantemente sunitas. Muitos das muitas centenas de civis mortos em ataques indiscriminados dos insurgentes em áreas controladas pelo governo Assad são sunitas – motivo pelo qual os sunitas de áreas a oeste de Aleppo controladas pelo governo festejaram os avanços recentes que forças sírias obtiveram contra os insurgentes na parte leste de Aleppo. Até as milícias pró-governo sírio em Aleppo são sunitas, como Liwa Quds e as milícias de bases clânicas que permanecem fiéis ao estado sírio. Claro que a vasta maioria das vítimas de ataques por forças do governo também são sunitas, e aqueles ataques empurraram alguns para o extremismo. Mas a guerra na Síria é, em praticamente todos os cantos do país, guerra de sunitas contra sunitas.

Claro que nem todos os sunitas em Damasco amam Assad (embora número muito maior do que o ‘ocidente’ supõe, sim, o amem), mas quando falo com eles é sempre muito claro que todos se opõem à oposição golpista e priorizam a estabilidade. Outros igualam árabes sunitas e radicais e propõem que os EUA radicalizem suas políticas até derrotá-los.

Essa obsessão com apoiar “árabes sunitas” levou os EUA a apoiar milícias desorganizadas e corruptas, que são sunitas e árabes, mas não são al-Nusra, al-Qaeda ou ISIL. O setor dominante dos insurgentes sírios (o chamado Exército Sírio Livre [ing. Free Syrian Army, FSA]) não está em áreas das quais atacar o ISIL nem recebem os incentivos corretos para fazê-lo. Nos últimos poucos anos, grupos do Exército Sírio Livre têm-se tornado cada vez mais acentuadamente paroquianos. Lutam por questões locais, defendem as respectivas vilas e vizinhanças, acertam-se com quem os aceitem, e não têm qualquer motivação para fazer mais que isso. Os muitos acordos que o regime obteve com cidades controladas por insurgentes em torno de Damasco, no sul da Síria e em outras áreas, evidenciam a exaustão desses grupos e o desejo deles de chegar logo a um acordo no nível local. O Exército Sírio Livre não tem a mobilidade necessária para combater em locais remotos como exige a guerra contra o ISIL. Quando a chamada oposição moderada enfrenta os jihadistas é sempre derrotada, ou tem de fugir.

Há também insurgentes islamistas como Ahrar al-Sham, Faylaq al-Sham ou Nuredin al-Zenki (atualmente famoso por seu mais recente vídeo de degolamento). Combatem contra o ISIL só quando são atacados e mesmo nesses casos muitos militantes relutam a combater contra outros muçulmanos sunitas como eles.

É irônico que as FMPs, onde há milhares de sunitas e que são parte do estado iraquiano, sejam chamadas de “milícias xiitas” e os insurgentes sírios, que são integralmente sunitas e combatem explicitamente em nome de sunitas sejam descritos como “rebeldes”.

Os insurgentes islamistas têm objetivos ideológicos e políticos inconsistentes com interesses dos EUA (ou, por falar nisso, também inconsistentes com os de muitos sírios), mas que, realmente, aproximam-se muito dos objetivos do ISIL. Ahrar al Sham é incapaz de lutar se não tiver a Frente al-Nusra ao lado, ou, no mínimo, se não receber aprovação da Frente al-Nusra.

Embora a Frente al-Nusra tenha recentemente se dissociado da al-Qaeda, a separação foi abençoada pela al-Qaeda – o que não equivale a boa recomendação. Aconteceu apenas que a Al-Qaeda compreendeu que uma Frente al-Nusra independente, ou que, no mínimo, parecesse independente, sempre será melhor para a Jihad e permitiria que o ataque da Al-Qaeda contra Aleppo fosse apresentada à opinião pública, por jornalistas ocidentais, como feito de “rebeldes”.

Dos milhares de grupos insurgentes ativos na Síria, alguns não têm ideologia alguma e são guerrilheiros acidentais. Mas essa ideologia jihadista salafista dominante foi importada de fora da Síria: rejeita a liberdade, o progresso e a modernidade.

A linguagem desses grupos quando falam com o ocidente é sedutora – ou, no mínimo, a linguagem dos seus apologistas “ativistas” soa de modo sedutor. Mas o discurso deles em árabe é absolutamente idêntico ao da al-Qaeda ou do ISIL. Só diferem quanto a quem deve assumir o poder e se seria legítimo estabelecer hoje um Califato. Qualquer pessoa que fale um mínimo básico de idioma árabe ouve claramente as vozes deles que, em uníssono, clamam pelo extermínio de seitas rivais como o principal objetivo da guerra que fazem. Ninguém ali está lutando por alguma democracia, alguma liberdade ou algum direito humano.

Na Síria, sunitas moderados combatem contra a al-Qaeda e o ISIL. Um deles é Khaled Abaza, comandante sunita de uma unidade paramilitar no sul, que combate há anos contra a Frente al-Nusra e outros grupos extremistas. Observei pessoalmente ex-insurgentes que, hoje, lutam empenhadamente ao lado das forças do Estado sírio e contra a Frente al-Nusra e o ISIL, como os combatentes de Aqnaf beit al Maqdis (grupo que tinha base no campo Yarmuk).

Iraque e o mito das milícias xiitas sanguinárias

A narrativa ocidental sobre a natureza do conflito em curso no Iraque também se limita a alinhavar versões que pouco têm a ver com o que realmente se passa em campo, principalmente no que diga respeito ao papel da identidade sectária e perseguições de todos os lados. O ponto em que se vê isso mais evidente é nas Forças de Mobilização Popular (FMPs), grupo guarda-chuva de milícias institucionalizadas mobilizadas para combater contra o ISIL.

Durante a agora concluída batalha por Falluja, emergiu um novo gênero de artigos que alertavam histericamente para o papel das FMPs no Iraque. Aqueles artigos descreviam as FMPs – erradamente – como milícias sectárias ou milícias xiitas devotadas a perseguir sunitas. De fato, essas unidades são parte do Estado iraquiano, coordenadas com as Forças de Segurança do Iraque, e respondem ao primeiro-ministro iraquiano. Porque foram criadas em larga medida como resposta a ameaça repentina e próxima, a organização das FMPs foi processo gradual, que culminou na decisão, em 2016, de converter as FMPs numa estrutura militar formal.

Com umas poucas exceções, unidades das FMPs não se envolveram em abuso contra populações sunitas durante a guerra contra o ISIL. Apesar de a maioria das unidades das FMPs serem xiitas, interlocutores com quem falei em reuniões com oficiais e membros das FMPs, do governo iraquiano, disseram-me que há 30 mil sunitas que recebem salários das FMPs. Entre eles, há líderes como Yazan al Jiburi, que libertou Tikrit em cooperação com unidades apoiadas pelo Irã; e Wanas Hussein, cuja tribo resistiu bravamente contra o ISIL e cuja irmã Omaya Jabara é a primeira mulher morta como combatente, na guerra contra o ISIL.

Algumas dessas unidades sunitas são forças tribais conjuntas, e há pelos menos 7 mil combatentes diretos na cadeia de comando das FMPs. Também há centenas de sunitas em unidades de maioria xiita e uns poucos milhares de sunitas que lutam nessas unidades, embora sem registro oficial e sem receber salários. Essas unidades não cometem número maior de violações nem violações mais graves, em combate, do que as forças da coalizão comandada pelos norte-americanos. Alguns grupos, como o Saraya Salam (antes chamado “Exército Mahdi”) são de fato as menos sectárias e mais disciplinadas unidades militares e paramilitares que combatem hoje no Iraque.

Muitos analistas ocidentais parecem supor que, só porque uma força de segurança tem maioria de xiitas, essa maioria, de algum modo não conseguirá resistir à compulsão para matar e perseguir sunitas. Alguns no ocidente chegaram até a questionar se o governo do Iraque deveria ter libertado Falluja, cidade a menos de uma hora de distância de Bagdá, das mãos do ISIL (assim como ainda há quem entenda que o governo sírio não deveria retomar a parte de Aleppo ocupada por jihadistas).

Essas vozes parecem mais preocupadas com o modo como o governo iraquiano tratará Falluja, do que com o ISIL, como se o grupo jihadista fosse ‘necessariamente’ tratar bem os residentes nessas áreas, por contra de uma ‘mesma’ identidade xiita partilhada. Bastaria olhar na direção de Samara ou Tikrit, cidades que já foram libertadas da ocupação pelo ISIL, para ver que os sunitas não está sendo abusados ou maltratados depois de libertados do ISIL.

Bagdá é mais um exemplo – cidade de maioria xiita com densos enclaves sunitas, como Aadhamiya, Amriya e muitos outros. Essa área sunita costumava servir como fortalezas de insurgentes. Atualmente, forças de segurança de maioria xiita protegem a região e arredores, hoje cheios de sunitas retirantes da província Anbar. Vivem em segurança e protegidos. Há cafés, restaurantes, casas de chá e lojas, sempre cheios, dia e noite. Em Bagdá, o maior perigo é o ISIL. Se vigilantes xiitas nas forças de segurança quisessem atingir aqueles sunitas desarmados e vulneráveis, atingiriam – mas nada acontece. O conselho provincial de Anbar tem base no distrito Mansur de Bagdá e é protegido por forças de segurança de maioria xiita.

As FMPs são força de maioria xiita que combate para libertar áreas de maioria sunita que ainda estão sob ocupação do ISIL, em nome de sunitas. Claro que aconteceram abusos. Casas e mesquitas foram destruídas e houve execuções ilegais. Mas essas violações praticamente desaparecem, se comparadas aos eventos da guerra do Iraque, durante a ocupação pelos EUA. O Iraque parece já ter realmente transcendido o paradigma da oposição sunita x xiitas, de um modo que parecerá contraintuitivo a analistas baseados em Washington. Hoje, a ameaça está na violência intra-xiitas, na violência intra-sunitas, na violência intra-curdos, e na violência entre árabes e curdos.

Os sadristas, um dos grupos políticos de xiitas no Iraque, sabe que seus adversários, na política iraquiana não vêm dos sunitas, mas de seus rivais xiitas em Dawa, Badr e no Conselho Supremo. Os sadristas admitem que o Iraque não pode ser governado sem os sunitas. Por isso Sadr abriu-se para os sauditas. Se os rivais regionais do Irã fossem espertos, não tentariam contrabalançar o peso do Irã no Iraque com um punhado de sunitas rejeicionistas poucos demais, em número, para representar ameaça real. Em vez disso, deveriam apoiar o grande bloco xiita que se opõe a excessiva influência do Irã, no Iraque.

Quando sadristas invadiram a Zona Verde e o Parlamento iraquiano em abril de 2016, roubaram dos sunitas linha-dura algo com que eles sonharam durante uma década: marchar sobre a Zona Verde, e saquear o governo sunita. O Iraque não pode continuar simploriamente dividido entre um governo xiita e uma oposição sunita. De fato, há xiitas e sunitas no governo, como também na oposição. Apoiadores sadristas cantavam slogans nacionalistas, inclusive gritos de “Fora Irã” e contra Qassem Suleimani. Os sadristas provaram que o Iraque xiita pode ser de patriotas iraquianos, não simples ferramentas do Irã. E no Iraque hoje, o político mais popular entre os sunitas é Ayad Alawi, que é xiita!

A batalha para retomar Falluja terminou em vitória. O elemento chave foi a participação de milhares de combatentes das FMPs, como observei e como minha pesquisa com os comandantes em campo confirma. Inicialmente, as FMPs tiveram a tarefa de retomar a região rural em torno de Falluja, enquanto o exército e a polícia atacavam as forças de ocupação na cidade. Quando aquelas forças fracassaram, o contingente das FMPs  entrou na cidade e a retomou. Esses homens, quase todos eles xiitas das forças Badr, entraram no combate vestidos em uniformes da polícia. Mas ao final dos combates, com o inimigo já derrotado, diziam abertamente que ali estavam como membros das FMPs.

Seja como for, é inegável que abusos típicos de campanhas contrainsurgências aconteceram em Falluja: pesquisadores da situação dos direitos humanos que fizeram trabalhos em campo em Anbar confirmaram pessoalmente que havia entre 600 e 900 baixas nas várias operações em Anbar e que cerca de 600 homens, que fugiram da área de Falluja foram espancados e torturados. As [forças] FMPs carecem de código penal, no caso de acusados de crimes as punições têm de ser aplicadas como determine a lei, com investigações transparentes que demonstrem as responsabilidades. Se as FMPs querem converter-se em instituição iraquiana permanente, como parece provável, aí está conversão que os EUA e outros membros da coalizão anti-ISIL poderiam apoiar de modo que amplia a transparência do uso da força e garanta que abusos contra direitos humanos sejam coibidos. EUA e seus aliados europeus podem propor condições para apoiar o governo iraquiano, de modo a forçar melhores atitudes entre as milícias.

Grande parte da destruição no Iraque é resultado não de batalhas, mas de ações de vingança, seja pelas [forças] FMPs seja pelas tribos sunitas. Destruição deliberada de moradias para punir coletivamente uma comunidade é crime de guerra, e a comunidade internacional está oferecendo estabilização e dinheiro para reconstruir o Iraque. Os doadores podem, por exemplo, impor condições aos empréstimos, recusando-se a pagar pela reconstrução de prédios cuja destruição configure crime de guerra cometido pelas FMPs ou por forças de segurança iraquianas.

Alguns iraquianos talvez desconfiem das boas intenções dos norte-americanos. Fato é que as forças de segurança emergiram durante a ocupação pelos EUA no Iraque, quando prisioneiros inocentes foram abusados, aplicaram-se as soluções mais brutais e aconteciam prisões e detenções em massa. Nesse momento, nasceu a narrativa da vitimização dos sunitas.

Fato é que, por mais que tenha havido abusos, acusações de que os sunitas estariam sendo perseguidos em massa no Iraque só contribuíram para encobrir uma verdade muito mais nuançada. Alguns sunitas são perseguidos, inclusive homens nativos de determinadas áreas, numa política de ‘culpa por associação’ (ações nas quais o governo sírio também se engajou algumas vezes). Pode ter acontecido de um homem nascido em Falluja, Jurf Assakhr, ou alguma outra cidade, que seja identificado com alguma história de dar abrigo a membros da al-Qaeda e do ‘Estado Islâmico’ ser perseguido – mas não todos os sunitas, nem por ser sunita. Hoje, por exemplo, os sunitas de Bagdá absolutamente não estão sob ataque. Já não estamos em 2006, quando corpos de sunitas apareciam em covas coletivas praticamente todos os dias. Nem depois de ataques com grande número de mortos contra civis xiitas, como aconteceu dia 3 de julho, quando morreram cerca de 200 ou outro ataque no mês de maio passado, não houve ataques de retaliação contra sunitas.

Importante é observar que a perseguição de sunitas no Iraque, que existe, e é inadmissível, não é indiscriminada. Baseado em minhas entrevistas e pesquisas, homens que fugiram de áreas que haviam sido controladas pelo ISIL e buscaram refúgio em áreas do governo, incluídas as áreas de maioria xiitas, não são automaticamente suspeitos de manter relações com o grupo jihadista e são deixados em paz, para reorganizar a própria vida. Mas outros, que permaneceram com os jihadistas ou fugiram mais recentemente são às vezes perseguidos sob o pressuposto injusto de que ‘devem ser’ simpatizantes de terroristas.

Do ponto de vista dos serviços de segurança, são homens que escolheram permanecer em Falluja durante os dois últimos anos, diferentes dos nascidos ali que fugiram do ISIL logo nos primeiros momentos e buscaram segurança em Bagdá. Serviços de segurança tem o direito de suspeitar de alguns combatentes do ISIL infiltraram-se entre as multidões de civis em fuga.

Configurando avanço significativo sobre o que os iraquianos chamam de “período de sectarismo”, que terminou em 2008, as violações hoje envolvem muito menos mortes e, mais, destruição de casas e vilas, ante a suspeita ou a descoberta de que os moradores tenham apoiado o ISIL.

As FMPs são imperfeitas, como imperfeitas são todas as forças de segurança no Oriente Médio. Mas, se se considera o papel que teve Falluja como paraíso seguro para aqueles xiitas degoladores e em apoio aos insurgentes, o que realmente surpreende é a contenção manifestada pelas FMPs. Observadores externos podem permitir-se discutir se o governo iraquiano deveria ter dado prioridade à libertação de Falluja, mas Bagdá não tem tal luxo. Falluja está a 50 km da capital, não longo da cidade sagrada de Karbala. E junto à estrada para Amã, que é rota de comércio crucialmente importante.

Embora as FMPs contem com a assistência de conselheiros iranianos, as unidades são comandadas por iraquianos e permanecem sob a autoridade do primeiro-ministro do Iraque. De início, as FMPs permitiram que o Serviço de Contraterrorismo do Iraque, a polícia e o exército tentassem tomar a cidade (e fracassaram). Mas as FMPs recebem ordens do primeiro-ministro do Iraque, contradizendo os que pretendem que as unidades representariam simples força extralegal controlada pelo Irã.

A mídia-empresa ocidental (e alguns canais árabes de TV por satélite) insuflaram os medos sunitas e converteram Falluja num grito de guerra, mas as próprias [forças] FMPs não são causa daquele grito de guerra.

Por fim, as FMPs são força de varredura e apoio, não força de resistência. Libertam territórios controlados pelo ISIL ou apoiam as Forças de Segurança Iraquianas (elas, na maioria, constituídas de xiitas) quando são encarregadas da libertação. Depois então as FMPs partem, deixando que forças locais (sunitas) defendam o local e que o governo (temos de esperar que o faça) comece a construir.

O exército e as forças de segurança do Iraque também são constituídos majoritariamente de xiitas, exatamente como as [forças] FMPs. No Iraque, não há alternativa às FMPs, como ficou demonstrado no papel chave que desempenharam na libertação de Falluja. Desde que as FMPs tomaram Tikrit, muitos dos moradores já voltaram e a vida voltou ao normal. Porque as FMPs não foram autorizadas a participar na libertação de Ramadi, a cidade teve de ser destruída, por não haver força de solo disposta a retomá-la.

Nada disso deve sugerir que as FMPs sejam a força ideal. É solução de emergência e resposta a uma ameaça existencial, e salvou o Iraque do colapso total. Em vez de descartar as FMPs, os EUA deveriam engajá-las. Em vez de impedir que as FMPs participem de operações para libertar cidades ocupadas pelo ISIL, os EUA deveriam estar incorporando aquelas forças no planejamento conjunto que faz com as forças convencionais de segurança do Iraque. Com isso, ajudariam a integração cada vez maior das FMPs, no Estado iraquiano.

Para onde vai a narrativa ocidental do sectarismo?

Como já comentei, a narrativa ocidental desses conflitos e em particular o papel da identidade sectária simplesmente não correspondem ao que se vê pelos fatos em campo. E esse descompasso tem levado a escolhas políticas erradas, a cada nova situação.

Nada disso visa a fazer relevar os abusos cometidos pelos estados. Mas há questões mais amplas, que Washington terá de enfrentar.

No segundo artigo dessa série, discutirei como chegamos ao ponto em que estamos; a crise da identidade sunita que está no centro desses eventos; e a absoluta necessidade de alterar as políticas ocidentais, especialmente a política dos EUA, para dar conta das realidade no Oriente Médio e focar-se em construir e reforçar forças e instituições nacionais não sectárias [Continua].

[1] Artigo sugerido por Moon of Alabama, 23/8/2016, em “New York Times (NYT): mentiras sobre o Irã e ‘notas’ sobre ‘conflito’ com a Rússia… sem fontes!”, traduzido no Blog do Alok [NTs].

* Cyrus Mahboubian é pseudônimo de um consultor de segurança na comunidade da assistência humanitária no Levante e no Iraque.

ATENÇÃO: O original falava de uma proposta do general David Petraeus como plano para armar a al-Qaeda contra o ISIL. Há erro aí. O general Petraeus propôs tentar separar membros menos ideologicamente dedicados da Frente al-Nusra (até recentemente afiliada síria da al-Qaeda, afastando-os de grupos jihadistas, mais ou menos como os militares norte-americanos fizeram contra grupos jihadistas no Iraque. O erro aqui já está corrigido (NdE).


** Esse coletivo de tradutores adotou a regra de sempre grafar a expressão Estado Islâmico entre aspas simples. Visamos assim a ‘anotar’ que o chamado “Estado Islâmico” não é nem “estado” nem “islâmico” [NTs].

Fonte:http://warontherocks.com/2016/08/washingtons-sunni-myth-and-the-civil-wars-in-Síria-and-Iraque/

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