Livro: “Sob os nossos olhos” Do 11 de Setembro a Donald Trump (8/25)

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A agonia da política estrangeira francesa

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, Sous nos yeux. Iniciamos a segunda parte sobre a política francesa com, neste episódio, a entrada em cena de Jacques Chirac e de Nicolas Sarkozy. Progressivamente as pequenas ofertas vão transformar a política estrangeira de Paris de serviço à França em arranjos pessoais entre amigos.

| Damasco (Síria)

 

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.

Ver o Indíce dos assuntos.

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A 14 de Fevereiro de 2003, reatando com a tradição gaullista de independência da França, Dominique de Villepin opõe-se no Conselho de Segurança à vontade norte-americana de destruir o Iraque.

As « Primaveras Árabes », vistas de Paris

A política externa da França, guiada no passado pela visão estratégica de Charles De Gaulle, cede progressivamente lugar à busca por alguns de dinheiro fácil. Após ter resistido ao imperialismo norte-americano, Jacques Chirac retira-se do combate e mistura os negócios de Estado e os seus interesses pessoais. Nicolas Sarkozy serve os interesses dos EUA negociando de passagem, ele mesmo, tudo o que pode ter interesse. François Hollande vai ainda mais longe, colocando a República ao serviço de alguns interesses privados que conformam o novo Partido da colonização. Emmanuel Macron manipula a França para promover as estratégias das grandes fortunas dos Democratas dos EUA. Sempre em busca de mais dinheiro, os dirigentes da França colocam o país sucessivamente ao serviço da Turquia, do Catar, da Arábia Saudita e depois do patronato transnacional.

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Para Jacques Chirac, Hafez al-Assad era o único dirigente capaz de unificar o mundo árabe. Ele comparava-o a Otto de Bismarck.

16— Jacques Chirac, «o Árabe»

Jacques Chirac tem Hafez el-Assad em grandíssima estima. Vê nele uma personalidade excepcional, com uma visão para o seu país e para a sua região.

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Segundo o Almirante Pierre Lacoste, antigo Director da DGSE, fora o Presidente Mitterrand quem ordenara o mega-atentado de Damasco em retorsão pelo assassinato do Embaixador Delamare. A operação foi reivindicada pelos Irmãos Muçulmanos que a realizaram sob o controle de François de Grossouvre.

A França havia-o combatido durante certas fases da guerra civil libanesa. Ela reprovava-lhe, publicamente, ser o responsável pelo assassinato do seu embaixador em Beirute, Louis Delamare (1981), o que foi de imediato seguido, em retaliação, pelo atentado terrorista ordenado pelo Presidente François Mitterrand contra a sede nacional do recrutamento militar, em Damasco, que provocou 175 mortos.

Após a derrota Síria face a Israel, em 1967, Hafez el-Assad tomara o Poder apoiando-se tanto nos partidários do Baath como em aventureiros, entre os quais o seu próprio irmão Rifaat. Este último tornou-se companheiro habitual no golfe de François Mitterrand e amigo de Abdallah, o futuro rei da Arábia Saudita. Em 1982, enquanto vivia entre a França e a Síria, montou um atentado na Rua Marbeuf, em Paris, contra a revista Al-Watan Al-Arabi que o tinha criticado. A sua amizade com o Presidente Mitterrand desviou a investigação policial. Em vez dele foi acusado do crime o seu País e a França expulsou dois diplomatas sírios, entre os quais o responsável dos Serviços Secretos, Michel Kassoua. No final, o assunto não ficou a pesar nas relações entre os dois Estados.

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O atentado da Rue Marbeuf, em Paris, foi ordenado por Rifaat al-Assad. Sob pressão do seu amigo, o Presidente Mitterrand, foi sucessivamente atribuído, de forma falsa, ao diplomata sírio Michel Kassoua (que foi expulso), depois ao revolucionário Carlos (que acabou condenado).

Jacques Chirac é o único chefe de Estado estrangeiro a ir assistir às exéquias de Hafez Al-Assad (2000). Enquanto um movimento de oposição varre o país, a França que havia apostado no Vice-Presidente Abdel Halim Khaddam para lhe suceder, reconhece a designação do seu filho Bashar Al-Assad pelo Partido Baath como próximo dirigente do país.

Fazendo de mentor, Jacques Chirac – que cognominam de «o Árabe», tal é o seu prestígio entre os chefes de Estado da região— tenta introduzir Bashar na alta-roda da cena política internacional. Mas, o jovem não pensa deixar-se manipular. Chirac negoceia com o novo Presidente de modo a que a Total possa explorar vários jazidas de petróleo sírias. Na altura do concurso oficial, a proposta da Total mostra-se escandalosamente desvantajosa. Ela é, no entanto, apoiada por altos funcionários sírios, incluindo o conselheiro económico do Presidente, Nibras el-Fadel, do qual não se demora a saber que faz jogo duplo por conta da Total e do patrão sírio-britânico da Petrofac, Ayman Asfari. Apercebendo-se desta jogada de corrupção, Assad sanciona a Total afastando-a do concurso, o que desencadeia a fúria de Chirac.

Jacques Chirac experimenta um revés semelhante no Líbano. Em nome da França, negoceia com o seu amigo pessoal, o Primeiro-Ministro Rafik Hariri, o direito de sondar as águas territoriais libanesas em busca de petróleo. A operação é coberta por dois responsáveis da Força de Paz síria, o Chefe dos Serviços de Inteligência Ghazi Kanaan e o Vice-Presidente Abdel Halim Khaddam. Chirac envia um navio da Marinha nacional para realizar a prospecção, mas o Presidente libanês, Émile Lahoud, é informado a propósito e convoca o Embaixador da França. Faz-lhe saber que os arranjos pessoais de Hariri não vinculam o seu país e que o navio de guerra francês deverá deixar a zona.

Reagindo a estas chamadas à ordem, Chirac evita dirigir a palavra aos presidentes sírio e libanês.

Jacques Chirac, que havia apoiado os Estados Unidos face aos atentados de 11-de-Setembro de 2001, inquieta-se por ter sido enganado após ler o meu livro L’Effroyable Imposture («A Terrível Impostura») [1]. Ele ordena à DGSE que verifique a tese. Depois de ter mobilizado várias centenas de funcionários e numerosas embaixadas, os Serviços respondem-lhe que não podem validar o livro, mas que todos os elementos que puderam ser verificados —salvo uma citação— são exactos. Chirac, que conhecia bem Saddam Hussein, encontra aí a justificação de que a França não deve apoiar o ataque anglo-saxónico no Próximo-Oriente. O Ministro dos Negócios Estrangeiros (Relações Externas-br) francês, Dominique de Villepin, enfrenta o Secretário de Estado Colin Powell. Viaja de urgência para Nova Iorque, esquecendo no gabinete o dossier que a DGSE lhe preparara. Pouco importa, o seu improvisado discurso, de 14 de Fevereiro de 2003, suscita aplausos sem precedentes dos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas e a ira de Washington. Ele abstém-se de criticar as enormes mentiras de Powell —do suposto apoio do Presidente Hussein à Alcaida até ao programa das armas de destruição maciça—, mas enfatiza que nada justifica esta guerra.

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Discípulo do filósofo Leo Strauss e historiador oficial do exército israelita, Edward Luttwak inspirou o Golpe de Estado invisível de 11 de Setembro de 2001 com o seu livro, «Manual do Golpe de Estado».

Em seguida, o Presidente George W. Bush limita a sua especial presença na Cimeira do G8, em Evian, a algumas breves horas. Enquanto uma campanha de «French Bashing» se desenvolve nos Estados Unidos, o Conselheiro do Pentágono que havia inspirado o golpe de Estado do 11-de-Setembro, Edward Luttwak, ameaça publicamente o Presidente Chirac no jornal televisivo da France2. Ele declara sem rodeios: _ «Chirac tem uma conta a pagar em Washington! Ele tem uma grande conta a pagar em Washington. E, em Washington, há evidentemente uma tomada de decisão para o fazer pagar a conta. Chirac, quis comer e ficar empanzinado [sic] no palco diplomático às custas dos Estados Unidos e, é claro, ele vai pagar por isso».

Em pânico, Jacques Chirac vira a casaca e enfileira atrás de todas as iniciativas dos E.U.A, indo ao ponto até de disponibilizar a sua Embaixatriz em Tbilisi, Salomé Zourabichvili, para Ministro dos Negócios Estrangeiros da Geórgia durante a «Revolução das Rosas» (Dezembro de 2003), ou, ainda, participando no rapto do Presidente do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, e fazendo-o sequestrar na República Centro-Africana (Março de 2004) [2].

Seguindo a mesma linha, Jacques Chirac e o seu amigo bilionário Rafic Hariri redigem a Resolução 1559 exigindo a retirada da Força de paz Síria do Líbano e o desarmamento de todas as milícias libanesas, entre as quais o Hezbolla e os grupos Palestinos. Ao contrário de outras milícias, colocadas ao serviço de um chefe feudal, ou subvencionadas por um Estado estrangeiro, o Hezbolla é uma rede de resistência ao colonialismo israelita, inspirada pela Revolução iraniana e, na altura, armada pela Síria. Esta resolução era impraticável, a não ser com o propósito de querer entregar o Líbano ao exército israelita. Além disso, o Presidente Chirac decide boicotar o seu homólogo libanês, Émile Lahoud, o qual nem sequer é convidado para a Cimeira da Francofonia.

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O bilionário saudo-libanês Rafiq Hariri financiou abundantemente todas as campanhas eleitorais de Jacques Chirac, desde a sua eleição para a Câmara Municipal (Perfeitura-br) de Paris.

A 14 de Fevereiro, Rafik Hariri —que já não era Primeiro-ministro— é assassinado, supostamente por meio de uma carga explosiva instalada numa camioneta [3].

Jacques Chirac precipita-se para Beirute, não para assistir às exéquias fúnebres, nem mesmo para se reunir com os governantes, mas, antes para passar um dia inteiro com os advogados do falecido a assinar documentos de negócios particulares. Depois, regressa a Paris enquanto a «Revolução dos Cedros» está ao rubro no Líbano sob a discreta batuta dos homens de Gene Sharp, os agitadores sérvios por conta de Washington.

Influenciável, Jacques Chirac partilha a convicção que Bashar Al-Assad e Émile Lahoud planearam, em conjunto, o assassinato do seu amigo e parceiro de negócios particulares, Rafik Hariri. Ele apoia, portanto, a Comissão das Nações Unidas encarregada de investigar este crime no lugar da Justiça libanesa. Seguem-se assim, durante anos a fio, acusações lançadas pela ONU, o ostracismo mundial de Bashar Al-Assad, e a prisão de quatro generais que eram os mais próximos do Presidente Émile Lahoud. Um «Tribunal» Internacional é criado, sob os auspícios do Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, sem qualquer aprovação do Parlamento libanês, para julgar os dois Presidentes «assassinos».

As obsessões de Jacques Chirac não alteram, no entanto, a cooperação franco-síria. Desde 2003 e até a suspensão das relações diplomáticas, em 2012, os Serviços de Inteligência sírios informam os seus homólogos em França sobre os jovens Franceses que querem partir para o Iraque ou que aí combatem o ocupante norte-americano. Se, na aventura, passam pela Síria são interpelados e discretamente repatriados para França por avião militar. Esta cooperação permite à França manter a ordem pública e prevenir inúmeros atentados no seu solo. Entre os jiadistas extraditados pela Síria, encontram-se Boubaker al-Hakim (assassino do líder tunisino Chokri Belaid) ou Sabri Essid (o meio-irmão de Mohamed Merah, que se tornará um dos carrascos do Daesh). No entanto, a França não apenas irá interromper esta relação durante a «Primavera Árabe», como irá libertar estes detidos devido à sua aliança com os Irmãos Muçulmanos.

A partir de 2 de Setembro de 2005, Jacques Chirac deixa de governar. Ele é acometido de um grave acidente cerebral e jamais estará em condições de desempenhar as suas funções mesmo que as conserve na aparência. Durante dois anos, o seu governo divide-se entre os gaullistas, em torno do Primeiro-ministro, Dominique de Villepin, e os atlantistas, à volta do Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy.

Por altura do ataque de Israel ao Líbano, no Verão de 2006, Villepin apoia o Hezbolla, do qual Chirac havia exigido o desarmamento. Uma vez terminado o seu mandato, Chirac ostenta a sua corrupção e instala-se num luxuoso apartamento, colocado à sua disposição pela família Hariri para a sua aposentação. Apoiado pela Sra Chirac, Sarkozy sucede-lhe.

17— Nicolas Sarkozy, « o Americano »

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Filho de um dos cinco fundadores da CIA, o Embaixador Frank G. Wisner criou o seu enteado Nicolas Sarkozy adolescente em Nova Iorque. Ele introduziu-o no seio da CIA que favoreceu a sua eleição para a presidência francesa.

Nicolas Sarkozy é eleito Presidente da República Francesa em Maio de 2007, não pelo seu programa, mas pela sua personalidade. Os Franceses vêem nele o homem capaz de relançar um país adormecido e bloqueado. Ignoram, por outro lado, que durante a adolescência Sarkozy tinha sido criado pela terceira mulher do seu pai, em Nova Iorque. Ora, Christine de Ganay havia recasado com o embaixador Frank Wisner Jr., filho do fundador dos serviços secretos da CIA/Otan, a rede Stay-behind Gládio. É graças a estes laços que Sarkozy foi, desde logo, apadrinhado por Washington para se tornar Presidente da República Francesa [4].

Ao contrário de Jacques Chirac, que se mostrara um gaullista corajoso, em 2003, antes de se transformar num oportunista de negócios, Nicolas Sarkozy é considerado por Washington como um agente. Ele é de imediato associado aos projectos norte-americanos.

Enquanto era ainda Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy enceta contactos com Abdullah Senussi, o chefe dos Serviços Secretos líbios do Interior e cunhado de Muammar Kaddafi. Ele havia sido alvo de uma condenação em França, à revelia, pelo seu papel no atentado do voo 772 UTA que causou a morte de 170 pessoas, em 1989, durante a guerra no Chade. A Líbia propõe-se financiar a campanha eleitoral de Sarkozy em troca de uma promessa de amnistia, ou de anulação do processo judicial. Um ministro delegado e homem de confiança de Sarkozy, Brice Hortefeux, negoceia o montante com o Coronel Kaddafi. No fim, segundo o alto funcionário líbio que supervisionou a transação, o empresário franco-libanês Ziad Takieddine carrega 57 milhões de euros para Paris.

No decurso da campanha eleitoral, a Líbia constata que a candidata socialista Ségolène Royal também poderia vencer. Senussi entra, então, em contacto com o antigo ministro socialista dos Negócios Estrangeiros, Roland Dumas, o qual —sempre segundo a mesma fonte— vem procurar 25 milhões de euros a Trípoli, aproximadamente metade da soma oferecida ao seu adversário.

A lei francesa interdita o financiamento de campanhas eleitorais por Estados estrangeiros. Além disso, o custo das campanhas não pode alcançar estas somas. Sarkozy e Royal não podem prometer fabricar uma nulidade judicial sem o desprezo pela Justiça e sua independência. No entanto, podem decretar uma amnistia, embora não a possam negociar em favor dos seus negócios pessoais. Roland Dumas sabe muito bem disso, tanto mais que foi presidente do Conselho Constitucional (1995-2000) encarregue de velar pelo bom desenrolar das eleições. A Justiça francesa irá investigar, a propósito das violações da lei por Sarkozy, mas não pelas de Royal [5].

Os negócios entre os Kaddafi e os Sarkozy prosseguem após a sua chegada ao Eliseu. A «primeira Dama» (sic) Cecília Sarkozy é encarregada de encontrar uma saída para o processo das cinco enfermeiras búlgaras e do médico palestino presos desde há oito anos. Em 1999, mais de 400 crianças foram contaminadas pelo retro-vírus da sida no hospital de Bengazi. Os islamistas acusam Muamar Kaddafi de negligenciar a cidade de Bengazi, e de ter conspirado para assassinar as suas crianças. O Procurador local prefere acusar o pessoal de saúde estrangeiro para desculpar o Guia. Fá-los submeter a tortura brutal afim de lhes extorquir confissões.

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Quando era Procurador, Robert Mueller acusou a Líbia de ser responsável pelo atentado de Lockerbie. Em seguida, a justiça escocesa estabeleceu que ele se baseava numa falsa prova introduzida no local da catástrofe por um agente da CIA.

No entanto, a Bulgária, que acaba de aderir à União Europeia, solicita à Comissão de Bruxelas que negoceie com Trípoli a libertação dos seus nacionais. A Líbia encontra-se face aos mesmos funcionários que a acusaram do atentado no vôo 103PanAm que explodiu por cima de Lockerbie (Escócia), matando 270 pessoas, em 1988. Muito embora Muammar Kaddafi sempre tenha negado estar implicado nele, a Líbia aceita indemnizar as famílias na ordem dos US $ 2,7 mil milhões de dólares de maneira a saldar o último contencioso que a opõe aos Ocidentais. Ciente de que deve dar a volta à efabulação dos islamitas, o Guia decide utilizar esta infecção nosocomial para recuperar aquilo que foi injustamente forçado a pagar por Lockerbie. Ele exige então que lhe devolvam esse dinheiro em troca da sua retirada de certos Estados africanos e da liberdade para as enfermeiras e para o médico. No fim, os Estados Unidos pagam a soma ao Catar que a encaminha para a Líbia, sob a supervisão da União Europeia. O Ministro da Justiça, o Irmão Muçulmano Moustafa Abdel Jalil, que tinha encoberto as torturas quando era presidente do Tribunal de Recurso de Trípoli, trava assim conhecimento com os emissários do Presidente Sarkozy. Sempre segundo o mesmo alto funcionário líbio, Cecília recebe uma gratificação proporcional da Líbia (2,7 milhões de dólares). Nicolas Sarkozy, que está em vias de se divorciar, dá-lha de presente. Assim, ela irá poder abrir, junto com o seu novo marido, uma empresa de Relações públicas no Catar. A Bulgária felicita-se pela libertação das suas expatriadas, mesmo que interrogando-se sobre o modo como o acordo foi concluído.

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Após ter desposado o futuro animador-vedeta da televisão Jacques Martin, depois o futuro Presidente da República Nicolas Sarkozy, Cecilia Ciganer recasou-se com o lobista e encenador dos Forum de Davos, Richard Attias.

Agora já frequentável, Muammar Kaddafi empreende uma digressão europeia, incluindo cinco dias em França. Ele causa polémica ao instalar a sua tenda nos jardins do Hotel Marigny, residência dos convidados de Estado. Ainda pior, declara à France24 que a Líbia é mais democrática que a França. Esta provocação não é tão descabida como a julgam os seus ouvintes, tal como se verá ao longo desta história: na realidade, a França não é uma democracia na medida em que nem o povo, nem os seus representantes são realmente auscultados em inúmeras decisões, nomeadamente em política externa e de defesa. Era, no entanto, uma República até ao final do mandato de Jacques Chirac, já que o Poder não tomava decisões senão em função da sua percepção do interesse geral. Vai-se ver que isso já não será a realidade desde há muito tempo. A Líbia, por sua vez, é uma democracia directa inspirada nas experiências dos Utópicos franceses do século XIX. No entanto, este sistema é também um logro. Com efeito, a sociedade Líbia é baseada na identidade tribal, de modo que as opiniões pessoais têm pouco valor. É, aliás, esta realidade social, que permite a Kaddafi exercer a função de chefe de Estado, quando a mesma é oficialmente inexistente. A grande diferença entre os dois países está noutro ponto : ao negociar com os Estados Unidos, a Líbia cessou toda a ingerência nos seus vizinhos, enquanto a França viola alegremente a carta das Nações Unidas, nomeadamente em África, e em breve no Levante. Acima de tudo, Kaddafi proclamou a emancipação de todos os homens e pôs fim à escravatura, enquanto a França – que a proíbe no seu território desde 1848 – não tem escrúpulos em aliar-se com Estados esclavagistas como a Arábia Saudita e o Catar.

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Tendo reatado com os Estados Unidos e tendo-se vergado a todas as exigências do Presidente Bush, o antigo revolucionário Muammar Kaddafi tornou-se respeitável.

O primeiro acto do Presidente Sarkozy em relação à Síria é organizar, em Março de 2008, a fuga da principal falsa testemunha do caso Hariri, Mohammed Zuhair as-Siddiq, ao qual ele fornece um falso passaporte checo [6]. É certo que, embora a acusação de assassinato lançada contra Émile Lahoud e Bashar Al-Assad se afunde, o mistério subsiste quanto ao organizador desta mascarada. Como se nada se passasse, Sarkozy dirige-se em viagem oficial a Damasco para relançar as relações entre os dois países e assegurar-se que a Síria não intervirá mais na vida política libanesa.

Em Maio, o Primeiro-ministro libanês —e agente dos Serviços secretos jordanos—, Fouad Siniora, abre um conflito com o Hezbolla. Ele tenta neutralizar a ponte aérea entre o Irão e a Resistência assim como o seu sistema de comunicação interno, de modo a que os Estados Unidos e a Arábia Saudita possam assumir o controle do país e atacar a Síria. Mas, o Hezbolla passa ao ataque. Em algumas horas, o sistema de segurança de Siniora desmorona-se e ele tem que bater em retirada.

Encetam-se negociações de paz em Doha. O Catar e a França impõem um novo presidente ao Líbano, que não tinha nenhum desde o fim do mandato de Émile Lahoud, seis meses antes. Paris escolhe o Chefe do Estado-Maior, o General Michel Sleiman, porque ele é fácil de manipular. Este último tinha, com efeito, apresentado documentos falsos, para ele e sua família, a fim de obter para todos a dupla nacionalidade francesa. O caso está pendente no Tribunal. A sua designação como Presidente do Líbano deixa uma espada de Dâmocles sobre a sua cabeça, estando o assunto em apreciação na Justiça. Inquieto quanto à que poderia ser a reação da Síria, o Catar oferece ao Presidente Assad, que nada havia pedido, um avião e viaturas oficiais.

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Michel Sleiman (ao alto à esquerda) presta juramento de defender a «independência» do Líbano sob o olhar benevolente do Emir do Catar (ao alto à direita), que preside à cerimónia, e do Ministro francês dos Negócios Estrangeiros, que a encenou.

O Emir catariano, Hamad ben Khalifa Al Thani, vem entronizar o «presidente» Sleiman no lugar e em vez do seu predecessor, Émile Lahoud, o qual nem sequer é convidado para a cerimónia. Durante esta, na Assembleia Nacional Libanesa, o Ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, toma assento, não nos lugares do público, mas nos do Governo libanês. Ele manifesta a sua irritação quando o antigo Presidente da Assembleia assinala que o artigo 49 da Constituição interdita a um chefe de Estado-Maior tornar-se Presidente menos de dois anos depois de deixar o exército. Mas não se perde tempo a modificar o texto constitucional e os Deputados elegem Michel Sleiman, em violação da Constituição.

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Em 2008, a França estimava que Bachar al-Assad, o chefe de Estado mais popular no mundo árabe, seria um amigo seguro para difundir a presença francesa no Mediterrâneo.

Em Julho de 2008, Nicolas Sarkozy lança a União pelo Mediterrâneo, uma ampla operação visando, ao mesmo tempo, competir com os seus parceiros europeus e em reinserir Israel no concerto das Nações da região. Ele convida, ao mesmo tempo, Bashar Al-Assad e o seu homólogo israelita, Shimon Peres, para assistir ao desfile do 14 de Julho nos Campos Elísios. O primeiro evita cuidadosamente o segundo. Mas na ocasião, o Líbano e a Síria estabelecem finalmente relações diplomáticas (jamais tinham tido desde a sua separação pelos Franceses em 1943 ). A União pelo Mediterrâneo (UPM) falha pelas mesmas razões que o Processo de Barcelona iniciado pela União Europeia em 1995: é impossível reunir todos os actores da região enquanto não se resolver o conflito israelita.

Sarkozy faz uma segunda viagem oficial à Síria, em Janeiro de 2009. Contactado pela Administração Obama, o Presidente francês abstêm-se de decidir seja o que for. Fica-se por uma viagem de reconhecimento.

(Continua…)

Tradução
Alva


[1] L’Effroyable Imposture, Thierry Meyssan, préface du général Leonid Ivashov, Demi-Lune (2002).

[2] « Coup d’État en Haïti », « Paris relâche le président haïtien », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 1er et 16 mars 2004.

[3] «Revelaciones sobre el asesinato de Rafik Hariri», por Thierry Meyssan, Оdnako (Rusia) , Red Voltaire , 29 de noviembre de 2010.

[4] “Operação Sarkozy: Como a CIA colocou um dos seus agentes na presidência da República Francesa”, Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 27 de Julho de 2008.

[5] Depoimento do autor perante o Juiz Tournaire, 24 mars 2018. Avec les compliments du Guide. Sarkozy-Kadhafi – l’histoire secrète, Fabrice Arfi et Karl Laske, Fayard (2017).

[6] «El presidente de Francia habría organizado la fuga de un testigo clave», Red Voltaire, 19 de abril de 2010.

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