Irã revoluciona a Arte de Negociar

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16/9/2017, Pepe Escobar, Asia Times

Imagem: O Irã é um elo chave de conectividade nas rotas seja da Ásia Central seja do Cáucaso. Foto: iStockphoto/Getty

Com o presidente Hasan Rouhani preparando-se para falar à Assembleia Geral da ONU em New York e o governo Trump e aliados em lobby incansável para desqualificar o acordo nuclear do Irã, Teerã só faz assinar acordos e mais acordos de negócios com asiáticos e europeus.

Para o governo chinês, Irã – e Paquistão – são tão importantes em termos geopolíticos que os dois são tratados como nações de interesse do ministério do Interior no leste da Ásia (não no Oriente Médio, no caso do Irã), ao lado de Japão e Indonésia.

E precisamente como o Paquistão via o Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), o Irã é nodo essencial das Novas Rotas da Seda, também conhecidas como Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE).

Para Teerã, Pequim é grande ator na finança/comércio internacional. No Fórum Cinturão e Estrada em Pequim em maio, o ministro de Assuntos Econômicos e Finanças do Irã, Ali Tayyebnia, discutiu demoradamente negócios e tratados com o ministro das Finanças da China, Xiao Jie. Empresas chinesas de construção e equipamento para infraestrutura de energia – bem como de aço e químicos – estão presentes por todo o território do Irã.

Entra em cena o acordo que acaba de ser assinado entre o CITIC da China e um consórcio de bancos iranianos, no valor de $10 bilhões em empréstimos.

Entra também um impulso de modernização de ferrovias relacionado à ICE, com Pequim provendo $1,5 bilhão para eletrificar a linha-tronco Teerã-Mashhad, e outro $1,8 bilhão para uma ferrovia de alta velocidade conectando Teerã, Qom e Isfahan.

Essas melhorias compõem dois vetores da ICE: para aumentar o comércio/conectividade da China não só com o Irã – até o porto de Bandar Abbas próximo ao Estreito de Ormuz –, mas também com a Turquia. Idealmente trens de carga devem estão rodando non-stop entre Xinjiang e Istanbul, já em 2020.

Não será realização de pequeno porte. O Irã é o elo de conectividade chave nas rotas que cruzam a Ásia Central e o Cáucaso. Uma das rotas chaves propostas parte de Xinjiang para o Quirguistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Irã e o sudeste da Turquia. A China South Corporation (CSR) – maior fabricante mundial de locomotivas – calcula que toda a linha conectada para trens de alta velocidade custará, pronta, em torno de $150 bilhões.

Todos a bordo do trem dos investimentos

Áustria, Dinamarca e Itália, assim como o Japão, estão perto de firmar coisa como $30 bilhões em negócios com o Irã. Europeus estão entusiasmadamente de volta ao mercado iraniano. Mercedes-Benz assinou contrato com a Iran Khodro, para distribuir seus caminhões.

Ha Yung-ku, presidente da Federação Coreana de Bancos (ing. KFB), e Kourosh Parvizian, presidente da Associação de Bancos Privados do Irã (ing. IAPB), assinaram acordo bancário que – crucialmente importante – expande o comércio nas respectivas moedas, deixando de lado o dólar norte-americano.

E há também movimento em outro corredor de transporte, essencial para Ásia Central – e especialmente o Afeganistão, na intersecção da Ásia Central com o Sul da Ásia, o porto de Chabahar.

Chabahar é a peça central da Rota da Seda do Sul da Índia – com um componente marítimo via o Oceano Índico ligado a um ramo por terra que vai até o Afeganistão. Há discussão feroz sobre exatamente quanto a estatal India Ports Global Limited (IPGL) investiu no desenvolvimento de Chabahar – o porto e as ferrovias e rodovias a ele associadas. É algo entre $500 milhões (versão indiana) e apenas $85 milhões, segundo uma empresa iraniana, Aria Banader, que afirma que investiu $403 milhões.

Funcionários indianos já prometeram a contrapartes afegãos que trigo transportado de Chabahar deve estar suprindo o Afeganistão em questão de semanas.

Complementando esse frenesi de conectividade, é preciso abrir espaço para item que realmente revolucionará o jogo: um canal navegável entre o mar Cáspio e o Golfo Persa.

Há duas rotas potenciais para o que é conhecido como “Iran rud” (“Rio do Irã”), que se estende por algo entre 765km e 1,400km, e custará entre $6 bilhões e $10 bilhões, segundo estimativas iranianas de quatro anos passados.

Mesmo considerando a diferença de altura no nível do mar, tecnicamente o canal pode ser construído. O problema, à parte o custo é que pode demorar até 10 anos para ser concluído. Irã, China e Rússia (por causa do acesso de navios russos ao Oceano Índico sem passar pelo Bósforo e Dardanelos), não por acaso os três principais eixos da integração da Eurásia, estão interessados.

É um projeto clássico que pode ganhar impulso – talvez sob o guarda-chuva do Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura (BAII) – conforme a interpolação da ICE com a União Econômica Eurasiana (UEE) ganhe impulso ao longo do International North-South Transport Corridor [Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul], INSTC, do qual são membros Irã, Índia e Rússia. Mais uma vez: tudo isso tem a ver com a integração da Eurásia.

E quanto ao nosso “embargo econômico global”?

Comparem agora todo esse movimento de comércio/investimento/conectividade, e a CIA, outra vez obcecada com – e o que poderia ser?! –mudança de regime em Teerã.

Ou com um documento atualmente em circulação no Capitólio e na Casa Branca, que diz que o presidente Trump deve dizer ao Congresso, mês que vem, não só que o acordo nuclear do Irã já não é questão que interesse à segurança nacional dos EUA, mas também atacar Teerã com um “embargo global econômico de fato”.

Depois de reunir-se com o presidente Putin em Sochi na 4ª-feira passada, o ministro de Relações Exteriores do Irã Javad Zarif foi diretamente ao ponto: o acordo nuclear (multilateral) não é negociável.

De modo algum a dupla “RC” no grupo RICS – a parceria estratégica Rússia-China – bem como os europeus envolvidos nas negociações em Viena (Reino Unido, França e Alemanha) descartará o Plano Amplo de Ação Conjunta (ing. Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA).

Quaisquer possíveis novas sanções unilaterais dos EUA simplesmente não serão obedecidas por todos os demais membros da equipe de negociação P5+1. Europeus e asiáticos continuarão a investir no Irã. China, Índia, Japão e Coreia do Sul continuarão a comprar petróleo e gás do Irã – pagando por eles em suas respectivas moedas, ou por contratos de swap.

Mas aí começa a Volta dos Mortos Vivos neoconservadores, lançando a ideia de que os EUA “talvez precisem avançar sozinhos para um conflito convencional.” Boa sorte, nisso e no “embargo econômico global”.

Traduzido por Vila Vudu

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