Irã inspira medo irracional ao ocidente: desastre à vista

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US President Donald Trump is pictured in Washington on 27 March (AFP)11/4/2019, Said Mohammad Marandi,[1] Middle East Eye (atualizado 22/4/2019, 9h)

Enquanto regimes ocidentais vão construindo uma nova crise humanitária na Venezuela, as mídia-empresas privadas e estatais que os seguem e respectivos think-tanks corruptos encarnam o que o Lorenzo, em Mercador de Veneza, Shakespeare, descreve como “vestes (transitórias) enlameadas, da decadência”* e, correspondentemente, frustram quaisquer tentativas para dar voz aos subalternos mais recentemente vitimados.

Vozes cada vez mais corrosivas, de Paris a Washington, revelam exasperação e indicam que seja necessário intimidar e justificar o despejo dos inquilinos do 5º Estado (chamada “blogosfera”), cada vez mais difíceis de controlar.

Assim como o capitalismo avançado conseguiu transformar os primeiros quatro “Estados” numa utopia pós-moderna já praticamente homogênea para os habitantes bem postos de Wall Street e Torres de Marfim – sob um dilúvio de narrativas conspiracionais de ameaças existenciais –, elites intelectuais afiliadas dos regimes ocidentais promovem vigorosamente um monopólio ‘benigno’ na “blogosfera”, essa parte lucrativa da propriedade privada.

Visão etnocêntrica de mundo

Como na Palestina, escavação e construção só podem começar com um expurgo de raças, religiões e classes sociais “inferiores”, além de outras influências “malignas”. Afinal, como o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu faz lembrar aos seus aliados europeus e norte-americanos, não há lugar para os fracos, destinados ao massacre; e os fortes sobrevivem.

Baseada nesse diagnóstico clínico eurocêntrico e nessa visão etnocêntrica de mundo, a linguagem é reformada e policiada de tal modo que agora “apartheid” significa “racismo”. Quando se diz que médicos, jornalistas e crianças palestinas foram mortos ou mutilados em “confrontos”, significa que soldados do regime israelense atiraram deliberadamente contra civis desarmados.

Ao ritmo em que continuam a declinar o poder e a fortuna dos EUA e de seus aliados, sua resposta aos eventos parece cada vez mais frenética e brutal

Nesse admirável mundo novo, a semântica e a linguística de Humpty Dumpty[2] são chave para os entendimentos conceituais “civilizados”. Al-Qaeda é constituída de “combatentes da liberdade” e de “rebeldes” na Síria, mas de “terroristas” nos EUA, França e no Reino Unido.

O presidente Donald Trump dos EUA é condenado pela violência contra hispânicos e latinos, mas elogiadíssimo pelos atos tangíveis e repetidos, de matar de fome cidadãos venezuelanos. A fome em massa e o genocídio que EUA e sauditas impõe ao Iêmen é perfeitamente aceitável para especialistas ocidentais, mas persistem as mais acaloradas discussões sobre o assassinato de Jamal Khashoggi.

Agora que detratores de iranianos, palestinos, venezuelanos, russos e até de ocidentais – dentre outros – estão sendo expurgados da esfera pública e até das plataformas das mídias sociais, controlar e manipular o discurso social pode talvez parecer menos importante nos corredores do poder.

Contudo, ao ritmo em que continuam a declinar o poder e a fortuna dos EUA e de seus aliados, sua resposta aos eventos parece cada vez mais frenética e brutal. Vê-se que estão engajados numa superdistensão de ambição imperial.

Imperialismo à moda antiga

A ascensão da extrema direita conectada ao nacionalismo extremista [ing. alt-right (direita alternativa)] e do fascismo, da brutalidade assustadora do regime elitista na França de Macron, da incompetência da ordem política britânica, do sequestro de Julian Assange e do crescimento do autoritarismo politicamente correto – além da frequência sempre crescente de guerras, golpes e intervenções por todo o planeta – são, todos esses, sinais de uma ansiedade crescente na “metrópole”.

Atrocidades massivas em incontáveis guerras ilegais, um recurso ao imperialismo mais cru, à moda antiga, na Venezuela, e repressão, descontentamento social e censura crescentes em casa têm deixado à vista, ao mesmo tempo, a natureza subjacente das narrativas ocidentais dominantes orientadas para um público global amplo, diverso e quase sempre subjugado, rendido.

Trolls e bots pagos pelo ocidente, além de fantoches falantes em idiomas estrangeiros e intelectuais porta-vozes comprador ativos pela mídia, já não estão conseguindo manter vivo e promover, com sucesso substancial, o mito do “mundo livre e civilizado”. Excetuando-se os informantes nativos da classe comprador com bases no ocidente, poucos hoje vêm com qualquer pavor as manifestações ocidentais. A menos que, claro, se trate de “choque e pavor”.

Para muitos, o ocidente não é, nas palavras de Wordsworth, “Utopia, campos subterrâneos/Ou alguma ilha ocultada sabe Deus onde”,[3] mas o local para onde são forçados a ir, quando os bárbaros atacam e saqueiam o seu mundo. Na verdade, as preocupações de elites e classes médias europeias e dos EUA sobre migração e refugiados seriam muito mais bem abordadas se tivesse fim a longa tradição, das mesmas elites e classes médias norte-americanas e europeias, de guerra, estrangulamento e destruição.

Isso tem de acabar. Ou muitos se descobrirão colhendo o que semearam. Se persistirem no curso atual, Europa e EUA em pouco tempo terão disparado ondas gigantescas e sem fim de migração humana. As implicações sociopolíticas para Europa e EUA serão de assustar.

Infligir sofrimento a seres humanos

Mesmo tudo isso considerado, a hostilidade irracional do ocidente contra o Irã é sem igual. Há mais de quatro décadas, Europa e EUA usaram armas químicas, fome e extremismo violento para castigar os iranianos e aliados por alcançarem e conservarem a própria independência.

A indecência dos norte-americanos, em especial, é sem limites, com líderes dos EUA e afiliados a se jactarem abertamente quanto mais sofrimento infligem a mais seres humanos, com sanções… ao mesmo tempo em que paradoxalmente e atrevidamente censuram, por má administração da economia, as presas que os próprios EUA dilaceram. Esses regimes atacantes não veem que, em parte, as suas próprias políticas amorais reforçam a resistência entre tantos iranianos.

Associado a uma natural convergência cultural, religiosa e política, é em parte esse amoralismo, essa ausência de qualquer moralidade, além da arrogância etnocêntrica, que empurrou Turquia e Iraque, dentre outros estados, para perto do Irã.

A tentativa pelos EUA de impor sua vontade a membros recém eleitos do Parlamento do Iraque, mediante ameaças e coerção – e Trump naquela visita secreta ilegal, sem ter sido convidado humilhante para o Iraque, e mesmo que tenha fracassado e nada tenha conseguido do primeiro-ministro do Iraque– mostram desrespeito acintoso ao povo do Iraque.

O apoio dos EUA a afiliados do PKK, ao assassinato de Jamal Khashoggi e à tentativa fracassada de golpe de estado de 2016, além das repetidas ameaças porque militares turcos decidiram fazer negócios com a Rússia, e a declarada guerra econômica contra Istanbul, também informam à opinião pública turca de que lado estão os reais interesses da Turquia.

É tempo de se reequilibrar

O fracasso na tentativa de instalar o mais completo colapso econômico no Irã, a destruição de instituições do estado na Síria, a submissão no Iêmen, e a incapacidade para intimidar Iraque e Turquia, são mais e mais sinais de que as coisas não estão saindo como planejava o Flautista da Flauta que hipnotizaria quem a ouvisse, para manter a dominação ocidental.

Mesmo assim, é decisivamente importante que os líderes ocidentais se reequilibrem e reconheçam que quem tenha telhado de vidro não pode viver de jogar pedras em telhado alheio. Os adversários do Irã têm muito mais a perder que o Irã, e há número mais do que suficiente de super motivados generais Qassem Soleimanis no Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica, para garantir que os EUA tudo percam [“Vocês podem, se quiserem, começar a guerra; mas o fim da guerra, nós decidiremos”].

Basta examinar o mapa [Estreito de Ormuz] com a mente aberta, e considerar as capacidades formidáveis do Irã e de seus aliados, para entender que, se o governo Trump calcular mal os próprios passos, a casa pode desabar sobre sua cabeça. Disso, os iranianos entendem.*******

[1] Said Mohammad Marandi é Professor de Literatura Inglesa e Orientalismo na Universidade de Teerã.

* Orig. “this muddy vesture of decay”. É fala de Lourenço, em O Mercador de Veneza, ato 5, cena 1, trecho aqui traduzido, sem qualquer ambição literária, só para ajudar a ler [NTs].

[2] Humpty Dumpty é o ‘ovo falante’ de Alice no País das Maravilhas. Mais sobre sua semântica e sua linguística interessantíssimas, em LEITE, Sebastião Uchoa. “O que a tartaruga disse a Lewis Carroll”. In: CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Tradução de Sebastião Uchoa Leite. 9. ed. São Paulo: Summus. pp. 7-31.

[3] Orig. Utopia, subterranean fields/Or some secreted island Heaven knows where” (Prelude). Versos aqui traduzido, sem qualquer ambição literária, só para ajudar a ler [NTs].

Traduzido por Vila Mandinga

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