Inferno não conhece fúria como a de um Sultão Teflon 2

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Telephone statement by Turkish President Recep Tayyip Erdogan, shown on the news on TV at an Istanbul home.

17/7/2016, Pepe Escobar, SputnikNews

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

 

WASHINGTON PIRA!(Atualizado) – E essa agora?! Adivinhem! Putin e O Sultão “provavelmente” se reunirão mês que vem, disse o porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov. Putin, sim, telefonou a Erdogan depois do golpe gorado. Disse que contava com que os turistas russos seriam protegidos. Erdogan disse, sim-claro. Putin também contou a Erdogan que a Rússia considera inaceitáveis os atos anti-Constituição e a violência, e espera que a ordem e a estabilidade sejam restauradas na Turquia.

Ah, e, claro, a Organização de Cooperação de Xangai está aí, de portas abertas. Una-se a ela e colha os benefícios de nossa expertise em matéria de construir usinas nucleares. E salte logo para bordo do trem de alta velocidade das Novas Rotas da Seda/União Econômica Eurasiana.

Pepe Escobar
, 17/7/2016, 2h PM (hora do Brasil), Facebook
https://www.facebook.com/pepe.escobar.77377
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Tudo leva a crer que Deus usa Face Time. Foi por uma sequência icônica de imagens rodadas num iPhone, de local ignorado e exibida ao vivo pela CNN turca por uma âncora totalmente desentendida, que Erdogan conseguiu convocar sua legião de seguidores às ruas, disparar o Poder Popular e derrotar a facção militar que havia tomado a TV estatal e declarara que assumira o poder.

Deus pois trabalha por misteriosas vias celulares móveis. A convocação de Erdogan mobilizou até os Jovens Turcos que haviam protestado furiosamente contra ele no Parque Gezi; que levaram muito gás lacrimogênio pela cara e foram espancados com jatos dos canhões de água pela polícia dele; que acham detestável o partido AKP governante; mas que apoiariam Erdogan contra um “golpe militar fascista”. Para nem dizer que virtualmente todas as mesquitas em toda a Turquia repetiram a convocação de Erdogan.

A versão oficial de Ankara é que o golpe foi perpetrado por uma pequena facção de militares comandada à distância pelo clérigo e exilado na Pennsylvania Fethullah Gulen – agente, ele, pessoalmente, da CIA. A autoria permanece por comprovar, mas certo, mesmo, só que o golpe foi remix turca de Os Três Patetas; os verdadeiros patetas parecem ser os já detidos comandante do 2º Exército general Adem Huduti; comandante do 3º Exército Erdal Ozturk; e ex-comandante da Força Aérea Akin Ozturk.

Como ex-agentes hiper-excitados da CIA ensinavam freneticamente pelas redes norte-americanas – e se há quem entenda de mudança de regime é aquele pessoal! – que a regra número 1 em golpes é mirar e isolar a cabeça da serpente. Mas a esperta cabeça da serpente turca, daquela vez, estava em local incerto e não sabido. Para nem dizer que nenhum alto general capaz de soar suficientemente patriota e convincente foi à TV estatal para explicar os motivos do golpe.

(Erdogan) love is in the air

Os golpistas miraram, sim, nos serviços de inteligência – cujas principais posições estão no aeroporto de Istanbul, no palácio presidencial em Ankara e perto dos ministérios. Usaram helicópteros Cobra – com pilotos treinados nos EUA – contra aqueles alvos. Miraram também o alto comando do exército – que nos últimos oito anos tem sido nomeado por Erdogan e não goza da confiança do oficialato de médio escalão.

Enquanto ocupavam as pontes do Bósforo em Istanbul, pareciam estar em contato com a polícia militar – que se estende por toda a Turquia e mantém ligações firmes dentro da própria corporação. Mas no fim viu-se que não tinham nem o número – nem a preparação – necessária. Todos os ministérios chaves pareciam comunicar-se entre eles enquanto o golpe ia-se desenrolando, bem como os serviços de inteligência. E no que tenha a ver com a polícia turca, são agora uma espécie de guarda pretoriana do [partido] AKP.

Enquanto isso, o Gulfstream 4, voo TK8456, de Erdogan decolava do aeroporto de Bodrum, à 1h43, e sobrevoou o nordeste da Turquia, com o transponder ligado, absolutamente sem ser perturbado. Foi de seu avião presidencial, enquanto ainda estava em terra, que Erdogan falou pelo Face Time; depois, do ar, administrou o contragolpe. O avião jamais saiu do espaço aéreo da Turquia – sempre visível aos radares civis e militares. Os jatos F-16 dos golpistas poderiam facilmente tê-lo rastreado e incinerado. Em vez disso, mandaram helicópteros militares bombardearem a residência presidencial em Bodrum horas depois de Erdogan ter deixado o local.

A cabeça da serpente com certeza sabia, 100% de certeza, que entrar naquele avião e permanecer no espaço aéreo turco era tão seguro quanto mastigar um(a) baklava. Ainda mais espantoso, o Gulfstream pousou em absoluta segurança em Istanbul nas primeiras horas da manhã do sábado – apesar da ideia dominante segundo a qual o aeroporto estaria ocupado pelos “rebeldes”.

Em Ankara, os “rebeldes” usaram uma divisão mecanizada e dois comandos. Em torno de Istanbul havia um exército completo; o 3º comando é realmente integrado às forças de resposta rápida da OTAN. Esse 3º comando forneceu os [blindados] Leopards posicionados nos pontos-chaves em Istanbul – os quais, por falar deles, não abriram fogo.

E ainda os dois exércitos chaves posicionados nas fronteiras com Síria e Irã mantiveram-se em modo “esperar para ver”. Então, às 2h da madrugada, o comando também chave do 7º exército, baseado em Diyarbakir – encarregado de combater contra os guerrilheiros do PKK – declarou-se leal a Erdogan. Foi o momento exato, crucial, quando o primeiro-ministro Binali Yildırım anunciou que estava implantada uma zona aérea de exclusão sobre Ankara.

Significou que Erdogan comandava os céus. E que a brincadeira acabara. Misteriosos são os movimentos da história: a zona aérea de exclusão com que Erdogan tanto sonhou, por tanto tempo, sobre Aleppo ou sobre a fronteira sírio-turca, acabou materializada sobre sua própria capital.

“Prenda os suspeitos de sempre”/Round up the usual suspects

A posição dos EUA foi extremamente ambígua desde o início. Com o golpe já em andamento, a embaixada dos EUA na Turquia chamou-o de “levante turco”. O secretário de Estado John Kerry, em Moscou para discutir a Síria, também segurou suas fichas. A OTAN manteve-se majestaticamente muda. Só quando já não havia dúvidas de que o golpe fracassara, o presidente Obama e os “aliados da OTAN” proclamaram oficialmente seu “apoio ao governo democraticamente eleito”.
O Sultão voltou ao jogo com fúria. Entrou imediatamente ao vivo, na CNN turca, e exigiu que Washington lhe entregasse Gulen, mesmo sem qualquer prova de que seja responsável pelo golpe. E a exigência trazia uma ameaça embutida: “Se querem continuar a ter livre acesso à base aérea Incirlik, têm de me entregar Gulen”. Difícil não lembrar de história recente, quando o regime Cheney, em 2001, exigiu que os Talibã lhe entregassem Osama bin Laden, sem qualquer prova de que tivesse sido responsável pelos ataques do 11/9.


Assim sendo, todas as probabilidades apontam para a possibilidade de que os serviços de inteligência de Erdogan soubessem que havia um golpe em construção; e o esperto sultão deixou acontecer, sabendo que fracassaria, porque os golpistas tinham apoio muito limitado. Pode-se dizer até que sabia – com antecedência – que até o Partido Popular Democrático, pró-curdos, cujos membros Erdogan está tentando expulsar do Parlamento, apoiariam o governo em nome da democracia.

Dois fatos extras acrescentam ainda mais credibilidade a essa hipótese. No início da semana, Erdogan assinou lei garantindo imunidade a soldados que tomassem parte em operações de segurança doméstica – como nas ações anti-PKK; é ação que visa a melhorar as relações entre o governo do AKP e o exército. E a corte superior de justiça da Turquia, HSYK, expulsou da magistratura nada menos que 2.745 juízes, na sequência de uma sessão extraordinária pós-golpe. Só pode significar que a lista já estava preparada com antecedência.
A principal consequência geopolítica, imediata, do golpe é que Erdogan parece agora ter miraculosamente reconquistado sua “profundidade estratégica” – como diria o ex-primeiro-ministro, Davutoglu, já afastado. Não só externamente – depois do colapso miserável de suas duas ‘políticas’, para o Oriente Médio e para os curdos – mas também internamente. Para todas as finalidades práticas, Erdogan agora controla o Executivo, o Legislativo e o Judiciário – e não vai carregar prisioneiros no expurgo dos militares. Ladies and gentlemen, o Sultão está in da house [lit. ‘o Sultão está em casa’].


Significa que o projeto neo-otomano está ainda em andamento – mas agora sob massiva reorientação tática. O “inimigo” real agora são os curdos sírios – não Rússia e Israel (nem ISIS/ISIL/Daech; mas esses, para começar, nunca foram). Erdogan vai à caça do YPG, que para ele é mera extensão do PKK. A ordem do dia para ele é impedir por todos os meios que se crie uma entidade estatal autônoma no nordeste da Síria – um “Curdistão” montado como uma segunda Israel com o apoio dos EUA. Para isso, ele carece de alguma espécie de entente cordiale com Damasco – tipo insistir que a Síria tem de preservar sua integridade territorial. E significa também, é claro, renovado diálogo com a Rússia.

Assim sendo… o que a CIA andou fazendo?

Desnecessário dizer que Ankara e Washington estão agora em comprovada rota de colisão. Se há um Império do Caos escondido no golpe – a arma do crime ainda não foi encontrada –, com certeza vem do eixo neocons/CIA, não do governo pato manco de Obama. No momento, a alavancagem de Erdogan resume-se ao acesso à base aérea Incirlik. Mas sua paranoia está inflando: para ele, Washington é duplamente suspeita, porque protegem Gulen e apoiam o YPG.

O Inferno tampouco não conhece fúria como a de um Sultão subestimado. Apesar de todas as suas recentes loucuras geopolíticas, o balê de Erdogan de reconectar-se simultaneamente com Israel e Rússia é eminentemente pragmático. Sabe que precisa da Rússia para o [gasoduto] Ramo Turco e para construir usinas nucleares; e precisa do gás de Israel para consolidar o papel da Turquia como nodo chave de passagem da energia entre oriente e ocidente.

Quando se ouve, crucialmente importante, que o Irã apoiou a “valente defesa da democracia” dos turcos, como tuitou o ministro Zarif de Relações Exteriores, é claro como Erdogan, em apenas umas poucas semanas, reconfigurou toda a pintura regional. E isso sugere integração da Eurásia, e a Turquia profundamente conectada às Novas Rotas da Seda – não à OTAN. Não surpreende que o governo em Washington, na Av.Beltway – para quem, sobretudo, Erdogan é o proverbial “aliado erratico e não confiável” – esteja completamente histérico. Aquele sonho de coroneis turcos sob comando direto da CIA acabou – pelo menos, no futuro que se pode antever.

Assim sendo, e quanto à Europa? Yildirim já disse que a Turquia pode reintroduzir a pena de morte – a ser aplicada aos golpistas. Significa bye bye UE. E bye bye a aprovação, pelo Parlamento Europeu, de viagem sem visto para turcos em viagem pela Europa. Erdogan afinal, já obteve o que queria da chanceler Merkel; aqueles 6 bilhões de euros para conter a crise de refugiados que, essencialmente, foi disparada por ele. Merkel apostou a fazenda da família em Erdogan. Agora, está falando sozinha – e o Sultão fala diretamente com Deus pelo Face Time.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

http://sputniknews.com/columnists/20160717/1043158581/erdogan-turkey-coup.html

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2 thoughts on “Inferno não conhece fúria como a de um Sultão Teflon

  1. Responder Diego jul 20,2016 1:12

    Parabéns pela ótima análise, Pepe Escobar!

  2. Responder Diego jul 20,2016 1:59

    Fazia tempo que eu não lia uma análise desta qualidade vinda do Pepe Escobar.

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