Hassan Nasrallah: “Trump só cuida de interesses de Israel e dos EUA”

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14/5/2018, Beirute. Na comemoração do 2º aniversário da morte do comandante Said Mustafa Badredine, do Hezbollah [excerto] Vídeo legendado em ing., 9″ (transcrição e tradução de Sayed Hasan)

[…] Depois dessa introdução devotada ao nosso bem-amado comandante [o mártir Said Moustafa Badreddine], morto na Síria no dia 13/5/2016], falemos sobre questões com as quais, incidentalmente, ele esteve relacionado.

O primeiro ponto – Serei o mais breve possível [nos três pontos dos quais quero falar hoje, a saber: a retirada dos EUA do acordo nuclear iraniano; a confrontação entre Síria e Israel; e os eventos na Palestina ocupada].

O primeiro ponto é o que o governo dos EUA está fazendo atualmente em nossa região, sendo o tópico central o anúncio, por Trump, de que os EUA retiravam-se do acordo nuclear iraniano. Começo por esse ponto, porque todos os meus comentários nos levarão diretamente à Palestina, que constitui a parte essencial dessa minha fala.

Não analisarei nem discutirei o acordo nuclear em si, as causas da retirada Trump, nem suas implicações e consequências. Irei diretamente aos ensinamentos e lições que temos de extrair da decisão de Trump, porque é de onde se podem extrair benefícios, como povo libanês, como povo palestino em primeiro lugar, os povos da região e de todo o mundo. Temos de compreender, em nossa linha política e na vida em geral, como atua o governo dos EUA, que se vê, ele mesmo, como principal poder mundial, o que na verdade ele é). E na verdade, toca na cultura política geral deles, mais do que tenha a ver com esse específico desenvolvimento político.

Bem, hoje o governo dos EUA demonstra mais uma vez, com as provas que discutiremos a seguir, que é estado, um governo. Porque não se trata de mera decisão de Trump: é decisão do governo dos EUA, do establishment norte-americano governante.

Hoje, os EUA mais uma vez demonstram que a única coisa que interessa a eles, no mundo, é, primeiro, os seus próprios interesses; segundo, os interesses de Israel. Ponto final.

Equivale a dizer que, para sucessivos governos dos EUA, não há jamais qualquer consideração humanitária ou qualquer valor moral. Não há lugar para considerações humanitárias ou valores morais.

Hoje, palestinos manifestam-se pacificamente em Gaza e na Cisjordânia. Em Gaza, há dúzias de mártires só até agora, e mais de 1.000 feridos. Em semanas recentes, houve dúzias de mártires e milhares de feridos. E para o governo dos EUA, nada muda, nada disso tem qualquer importância e nada influencia o que eles fazem. E se alguém se atreve a exigir que o Conselho de Segurança condene as ações dos EUA, lá vem o veto, que já estava pronto.

Qualquer evocação de considerações humanitárias, valores morais ou direitos humanos é tida como conversa sem importância, não há lugar para essas coisas nos bastidores do processo norte-americano de tomada de decisões políticas.

Segundo, as resoluções internacionais, a lei internacional, as organizações internacionais e a comunidade internacional. No Líbano, sempre nos pedem que respeitemos ‘as resoluções internacionais’, que implementemos as ‘resoluções internacionais’ [que só falam de desarmar o Hezbollah]. Amanhã lá estarão, como sempre, as declarações e exortações dos ministérios para ‘implementar as resoluções internacionais’ e ‘respeitar as resoluções internacionais’.

Mas os EUA, principal potência mundial, não respeitam coisa alguma, não respeitam resoluções internacionais nem instituições internacionais, sequer as instituições internacionais das quais os próprios EUA participam, e resoluções que os EUA modelaram e aprovaram. Quando a lei ou a resolução deixa de encaixar-se perfeitamente nos interesses deles, eles abandonam, acordos, instituições, resoluções, tudo.

Terceiro, todos os acordos, convenções e cartas valem nada, nenhum tem valor, nem moral nem legal, e em sucessivos governos dos EUA. Eles assinam e cancelam acordos à vontade. Não respeitam qualquer acordo, qualquer compromisso, nada, nenhuma carta. E nem estou falando de acordos sobre o clima e acordos comerciais. Basta falar do que acaba de acontecer em nossa região. Significa que ninguém no mundo pode confiar na palavra dos EUA, nos compromissos que dizem que assumem, nos acordos e promessas que fazem.

Hoje estão conversando com o presidente da Coreia do Norte, levando-o pela trilha das flores, dizendo a ele que, se destruir suas armas atômicas, eles darão permissão a empresas dos EUA para ir e investir na Coreia do Norte. Se os norte-coreanos confiarem nos EUA e destruírem [o arsenal nuclear], como fez a Líbia, por exemplo, os EUA dizem às empresas que se mudem para lá, que devem organizar eleições, cumprir tais e tais critérios de direitos humanos, etc., etc. E a chantagem continuará (indefinidamente).

Oh, libaneses! Oh, palestinos! Oh, povos da região! Nós não podemos confiar nos EUA! Depois de todas essas experiências, seria ato de estupidez confiar neles! Uma tradição profética ensina que o crente não cai duas vezes na mesma armadilha. Oh, meu irmão, não é a segunda vez! É a centésima, a milésima vez que os norte-americanos apunhalam o mundo pelas costas. Não se pode confiar de modo algum nesse governo e naqueles líderes, de modo algum, nem nos acordos que façam, nem nas promessas. Agora, essa nova experiência aí, diante dos nossos olhos, é mais uma prova. Não falo de história antiga: acontece aí, ao vivo, diante de nossos olhos.

Assim também, a experiência mostra que o governo dos EUA sequer respeita os próprios aliados, sequer algum interesse dos próprios aliados: absolutamente não os consideram, não lhes dão qualquer importância. Os interesses econômicos, políticos e até de segurança dos europeus estavam investidos em manter o acordo nuclear com o Irã. Mas os EUA sequer consultaram os próprios aliados! E estamos falando de quem? De aliados europeus, não dos que colaboram com eles no 3º Mundo! Aliados europeus, estados poderosos, que têm poder de veto no Conselho de Segurança! Mas os EUA não os consultaram, nenhum deles, nem em substância, nem sobre os interesses deles, nem formalmente.

Por isso, de que modo, algum dia, os EUA levariam em consideração os interesses de estados e povos que os EUA veem como meros instrumentos, subordinados, inclusive estados sobre os quais Trump disse que, sem a presença dos norte-americanos, aqueles estados sequer sobreviveriam por uma semana? Os interesses dos países árabes e do golfo, e de alguns países do mundo muçulmanos, aparecem nos cálculos, nos planos, na mente dos governantes dos EUA quando tomam decisões? Não. Absolutamente nunca aparecem.

Essa é a lição fundamental que temos de aprender hoje, depois de Trump ter-se retirado do acordo nuclear iraniano. Nem vou falar dos impactos, das consequências, das causas, do que acontecerá na sequência, não são tópicos de minha fala hoje. Mas esse aspecto em nossa opinião é muito importante para todos em nossa região e no mundo, mas especialmente para os que, nessa nossa região, ainda conectam o seu próprio destino, ainda planejam o próprio futuro ou ainda tomam decisões estratégicas baseados nos EUA, ou contam com os EUA e nas promessas e compromissos deles em qualquer item, dos maiores aos menores.

Assim sendo, desde hoje, dia da Palestina, permitam-me oferecer uma conclusão sobre esse ponto:

– Quando Trump anunciou que reconhecia Al-Quds (Jerusalém) como capital de Israel, a Autoridade, ou, melhor dizendo, o lado palestino responsável por negociações, para não dizer o nome [Mahmoud Abbas], disse que não aceitariam novas negociações ou soluções para o conflito nos quais o mediador seja os EUA, porque os EUA não são mediadores neutros. Mas, então, com quem negociarão? Ele então disse: ‘Quero o P5 + 1 [cinco membros do Conselho de Segurança + Alemanha], exatamente como foi feito no acordo nuclear iraniano. Com esse processo, teremos garantias e será possível chegar a bom resultado’.

Aí está. Hoje temos de dizer àquela autoridade, depois que Trump tirou os EUA do acordo nuclear iraniano, firmado precisamente pelo P5 + 1, quando uma decisão unânime foi levada ao Conselho de Segurança da ONU, tudo o que foi feito por aquele grupo foi apagado. Está visto que também esse caminho não leva a lugar algum e nada garante.

Com P5 + 1 e tudo, Trump não consultou Europa, nem Rússia, nem China, nem o Conselho de Segurança nem a comunidade internacional, ele levantou-se e saiu [do acordo]. Se alguém na Palestina, seja quem for, ainda conta com alguma solução que envolva os EUA, seja como intermediário simples, seja como intermediário internacional, ou como participante de algum P5 + 1, está iludido, está desconectado da realidade, está confiando em miragens que não levarão a nada. O que acaba de acontecer prova a vocês todos, palestinos, que o caminho a seguir não é esse. Esse caminho leva a nada. […]

Traduzido por Vila Vudu

 

 

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