Hassan Nasrallah: “EUA fazem de tudo para ajudar o Daesh”

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Discurso do Secretário-geral do Hezbollah, Sayed Hassan Nasrallah, depois da vitória de Abou Kamal e um dia depois de, outra vez, a Liga Árabe ter declarado o Hezbollah “organização terrorista”, 20/11/2017, vídeo transcrito, traduzido e legendado ao inglês e traduzido ao francês por Sayed Hassan [excerto aqui retraduzido]

[…] Agora, quando os dirigentes do Iraque anunciarão sua vitória final sobre o Daech e com os dirigentes sírios já se preparando para fazer o mesmo, é hora de sentar e discutir. Teremos de distribuir convites, organizar conferências e estudos…

Claro, também haverá festas para celebrar a vitória, porque será grande vitória, vitória contra aquela organização que representava o maior perigo (para todos) e que sujou mais que qualquer outro inimigo a religião de Maomé [que a paz e todas as bênçãos estejam sobre ele e sua família], em 1.400 anos. Será a vitória dos valores humanos e morais contra a bestialidade, a crueldade e a violência mais atrozes. E vitória que terá enormes repercussões no plano cultural, religioso, humanitário, militar, de segurança, no plano político, para a própria imagem (do Islã e dos muçulmanos) e em todos os níveis.

Nesse momento, será preciso reiterar os objetivos pelos quais [lutaram] o povo iraquiano, o povo sírio, o povo libanês, todas as elites e todos os dirigentes e todos os povos da região. Todos devemos refletir, ponderar, examinar e reexaminar a questão da identidade dos criadores, mantenedores, defensores e promotores do Daech, que lhes deram autorização para cometer tantos massacres e ações de terrorismo. E, de outro lado, também sobre quem são os que se ergueram contra o Daech, que lhe deram combate, que sofreram baixas, que ofereceram seus mártires nessa luta e derrotaram o Daech e todos que estavam à sombra deles.

Essa é discussão a ser feita em profundidade e com empenho, para que os muçulmanos fiéis não se deixem apanhar duas vezes na mesma armadilha.

Reexaminemos a vitória de Abou Kamal [último bastião territorial do Daech na Síria], retomado pelas forças da Síria, do Irã, do Hezbollah e da Rússia. O que fizeram os norte-americanos? Aí está outro tema que cuja discussão muito contribuirá para as discussões que terão de acontecer daqui por diante.

Na batalha de Abou Kamal, os norte-americanos fizeram tudo ao alcance deles para ajudar o Daech, menos uma: só faltou atirarem diretamente contra as forças aliadas que abriram caminho para libertar Abou Kamal. Isso não fizeram, é verdade: não atiraram a queima-roupa contra nós. Forças aéreas dos EUA não atacaram as forças sírias e aliadas que libertaram Abou Kamal, do Daech.

Dou-lhes alguns exemplos do que fizeram.

Para começar, garantiram cobertura aérea aos terroristas do Daech em toda a área a leste do rio Eufrates, entre o rio e a fronteira do Iraque. Naquela região, o Daech se deslocava livre e abertamente, com homens, tanques, armas pesadas, seus mísseis, suas linhas de frente, tudo protegido pelos norte-americanos. As forças aéreas jamais fizeram qualquer movimento contra eles, embora fingissem que comandariam uma aliança internacional criada para combater o Daech. E também impediam que aviões russos e sírios se aproximassem daquela região. E ameaçaram, no caso de russos ou sírios atacarem a leste do Eufrates, que atacariam a oeste do Eufrates, quer dizer, atacariam as forças aliadas que combatiam contra o Daech. Esse o primeiro ponto: os norte-americanos deram cobertura e completa proteção aérea ao Daech a leste do Eufrates e, claro, às linhas de frente do Daech quando nós avançamos sobre elas e o Daech iniciou a retirada.

Em segundo lugar, os norte-americanos enviaram seus drones, que sobrevoaram nossas forças aliadas que libertaram Abou Kamal, para reunir informações muito sensíveis que em seguida entregaram – e não faço acusações gratuitas, entregaram, sim, informações precisas – ao Daech, que conseguiu atacar alguns alvos localizados pelos drones norte-americanos.

Em terceiro lugar, fizeram guerra eletrônica muito intensa, que queimou os aparelhos eletrônicos que nossas forças usavam. Os norte-americanos, não o Daech, fizeram isso.

(Em quarto lugar), quando afinal o Daech a foi derrotado em Abou Kamal, fizeram de tudo para ajudar o Daech na retirada, para protegê-los e salvá-los. É sempre a mesma história, e nem vale a pena repetir. Tudo que podiam fazer para facilitar e proteger a retirada do Daech, dos dirigentes e das suas forças, de Abou Kamal, os norte-americanos fizeram. E os terroristas também foram acolhidos e receberam instruções nas regiões controladas pelos curdos, as chamadas ‘forças democráticas sírias’.

Entre parênteses, devemos todos nos preparar – é possibilidade real e hipótese legítima – para, em futuro mais ou menos próximo, o surgimento de grupos residuais do Daech, que se reconstituirão e se converterão em novas ‘forças sírias democráticas’, dirigidas, sustentadas e como hoje realmente orientadas pelas forças norte-americanas na Síria.

Um último ponto. Durante a batalha e depois dela, helicópteros norte-americanos pousavam em regiões do Daech e dali evacuavam dirigentes, pessoas (que tiravam das fileiras do Daech), para salvá-las. Será interessante perguntar o que faziam aqueles helicópteros, que papel tinham, que ordens receberam dos EUA que protegiam o Daech. E isso aconteceu em vários pontos, várias vezes, especialmente em Deir Ezzor e no Iraque.

Aí está o que fizeram os norte-americanos. A real preocupação deles era que o Daech não desistisse, que resistisse em Abou Kamal até o fim, sempre interessados em fazer do ataque das forças sírias e aliadas contra Abou Kamal, completo fracasso. Aí está uma prova a mais da extensão da intromissão dos EUA, do apoio e proteção que dão ao Daech e que queriam continuar a dar pelo maior tempo possível. Não esqueçam que os norte-americanos declararam que para eliminar o Daech seriam necessários 30 anos, segundo alguns, 25, para outros; e dez para os mais otimistas.

O que aconteceu foi que o Eixo da Resistência na região conseguiu infligir derrota quase definitiva ao Daech em apenas uns poucos anos. Essa é humilhação grande demais para os dirigentes dos EUA e para a política dos EUA. E essa ingerência nefasta permanece ativa até hoje. É importante que todas essas mentiras e farsas que os norte-americanos inventam e urdem sejam reveladas publicamente a todos os nossos povos.

Há alguns dias, um amigo e aliado dos EUA – e não foi governante iraniano –, o presidente da Turquia Erdogan, acusou abertamente os EUA de continuar a manter financeiramente o Daech. Digo-lhe que não é só a ajuda financeira. Mas, sim, fiquemos só com o que disse o presidente turco. É o presidente de estado grande e forte, e aí está, dizendo publicamente, em fala pública – não são declarações gravadas clandestinamente –, que os EUA continuam, ainda hoje, a manter financeiramente o Daech, porque os EUA continuam decididos a utilizar o Daech. O perigo agora é que o Daech seja reconstruído pelos norte-americanos, sob outro nome, outros slogans e novas formas, para executar o mesmo serviço que fez o Daech. […]

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