Guerra na Síria: A estrada de Raqqa

Share Button

A US fighter, who is fighting alongside with Syria Democratic Forces (SDF), carries his national flag as he stands with SDF fighters in northern province of Raqqa, Syria May 27, 2016

A estrada de Raqqa, capital do falso ‘califato’ ISIS/ISIL/Daech, continuará a ser um enigma dentro de uma charada, pelo menos até as próximas eleições presidenciais nos EUA. Examinemos por quê.

O combo frágil e mal enjambrado conhecido como Forças Sírias Democráticas, FSD [ing. Syrian Democratic Forces (SDF)], liderado pelo YPG curdo com sua brigada de mulheres, a YPJ, tentam avançar contra o Daech no norte e agora também contra o oeste de Raqqa.

O alvo principal é Tabqa, oeste de Raqqa. Tabqa é crucial, porque liga Raqqa a posições do Daech perto de Aleppo – onde está em gestação uma batalha Mãe de Todas as Batalhas. Conquistar Tabqa não será pouca coisa, porque implica as forças FSD cruzarem o Rio Eufrates, o qual, não por acaso, é a linha vermelha imposta pelo Sultão Erdogan da Turquia.

Incorporada no avanço das FSD há uma massiva operação de Relações Públicas, RP, desenvolvida por Washington, que envolve uma controvérsia hilária sobre coturnos norte-americanos no solo. O presidente Obama sempre repetiu sem parar que não haveria coturnos norte-americanos em solo na Síria. O Departamento de Estado papagueia o que diz a Casa Branca. Mas, sim, já há coturnos – de fato, 250 pares –, em solo na Síria, mesmo que andem lá disfarçados sob o uniforme do YPG.

O Pentágono mantém que lá estão em função exclusiva de “aconselhamento e assistência” – sob o formato de “liderar pela retaguarda”, marca registrada de Obama. Os coturnos são de Forças Especiais especializadas em GnC (Guerra não Convencional; ing. UW, unconventional warfare). Mas o teatro de guerra – estabelecido pelo Daech – é bastante convencional. O Daech é montado como pequeno exército, com armamento pesado e considerável artilharia, contra o qual a guerra não convencional não faz qualquer sentido.

O governo pato-manco de Obama – cuja “política” para a Síria pouco difere do mantra “Assad tem de sair” – tenta passar à opinião pública a impressão de que estaria combatendo ativamente contra o Daech. É pura ficção. Sem “coalisão” que tenha poder de fogo considerável, (além de algum bombardeio esparso contra alvos do Daech ao sul de Ain Issa) e sem tropas em número significativo, nenhuma “liderança pela retaguarda” levará os EUA a qualquer tipo de vitória em Raqqa.

O campo de batalha eleitoral

É significativo que a ofensiva contra Raqqa só tenha recebido sinal verde depois que o comandante do CENTCOM, general Joseph Votel viajou a Kobani, na Síria, e a Ankara. Mas o CENTCOM deu luz verde para apenas uma operação parcial – e vetou o plano do YPG, de atacar Jarablus, cidade chave na fronteira, uma das últimas portas giratórias de entrada e saída na/da Turquia. Isso, porque o Pentágono recusa-se a desconsiderar linha vermelha demarcada por aliado da OTAN.

Não se trata sequer de tomar Raqqa; as FSD não têm nem pessoal nem recursos para tanto. Como já disse o comandante Abu Fayyad, trata-se principalmente de libertar a região ao norte de Raqqa.

Mas os curdos sírios simplesmente não se conformarão com não avançar sobre Jarablus; a prioridade estratégica deles já é, há meses, tentar abrir um corredor entre os dois cantões curdos em Kobani e Afrin. Embora comandantes insistam que Washington não interferirá no caso de isso vir a acontecer – o que já é, por si, altamente discutível – eles também dizem que o governo pato manco de Obama quer muito uma “vitória” em Raqqa (bem como em Mosul, no Iraque) antes das eleições presidenciais de novembro.

Então, eis do que se trata: um “presente” do governo Obama, cuja política externa está tão gravemente exposta a críticas, a Hillary Clinton, assumindo-se que ela sobreviva ao escândalo do servidor subterrâneo de e-mails.

Quanto aos curdos sírios, ainda que conquistem Raqqa com ajuda “liderada por trás” – outro ponto altamente discutível, porque o Daech resistirá até a morte e mobilizará todo seu poder de fogo –, não teriam meios para limpar a área e ocupá-la. Raqqa é cidade árabe sunita. As FSD dificilmente conseguirão transferir recursos suficientes para Raqqa sem comprometer a defesa de Rojava.

Mais uma vez, “A caminho, para Raqqa” está sendo vendido nos EUA essencialmente como operação de RP, do tipo “estamos lutando para vencer”. Perversamente, a operação de RP também carrega incorporado nela o elemento de uma possível armadilha para Damasco. O Exército Árabe Sírio, EAS, está fortemente focado em proteger Palmyra – além de várias linhas de suprimento, campos de petróleo e gás, pequenas bases aéreas regionais a serem usadas por helicópteros russos, e tentando fechar vários bolsões remanescentes de rebeldes “moderados” que se renderam e/ou jihadis. É muito trabalho. De modo algum o EAS se superdistenderá, para avançar sobre Raqqa.

Resumo disso tudo é que, para Damasco – tanto como para Moscou – Raqqa, por hora não é assunto possível. Muito mais preocupante é o cenário em Aleppo, onde os mercenários do Sultão Erdogan, armados e pagos, preparam-se para a Mãe de Todas as Batalhas.

O plano de jogo

Assumindo um cenário – improvável – de os curdos sírios conseguirem de algum modo conquistar Raqqa, não é difícil antever o que virá na sequência, seja qual for o presidente eleito nos EUA. Washington fará de Raqqa sua própria satrapia e investirá – outra vez – em Dividir para Governar, criando um estado vassalo árabes sunitas/curdos dentro da Síria, ao longo do rio Eufrates.

Assim, os tais coturnos em solo para “aconselhamento e assistência” são de fato a vanguarda de um plano complexo de jogo – mediante o qual Washington, se for bem-sucedida, conseguirá acabar com aquela ficção sempre reforçada pela gangue dos petrodólares – o Crescente Xiita –, além de enfraquecer por tempo ilimitado à frente, uma Síria já fragmentada.

Mas uma Turquia “aliada da OTAN” gerará problema terrível para o plano de jogo dos EUA. Nunca, de modo algum, enquanto reinar o sultão Erdogan, Ankara abolirá as linhas vermelhas demarcadas contra os curdos sírios. Muito mais, o contrário: o sultão Erdogan está subindo a aposta. Erdogan aposta hoje ferozmente na Frente al-Nusra – já subornada por operadores turcos para apartar-se da al-Qaeda – para gerar ainda mais tumulto no front de Aleppo, na Síria.

E que ninguém, em momento algum – nunca – esqueça o gás. Afinal, a guerra síria é guerra por energia. As reservas de gás sírio estão localizadas, na maior parte, entre Raqqa e Deir Ez-Zoor. Não é difícil antever mais de um tubarão norte-americano operador do Big Oil já salivando à simples possibilidade de aquelas reservas virem algum dia a ser controladas pelos EUA, mediante ‘procuradores’.

O que nos leva à questão chave: como Moscou decifrará o enigma de Raqqa? Eis aí outro enigma dentro de uma charada.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.
Share Button

Deixar um comentário