Guantánamo, eleições nos EUA, guerra na Síria e economias europeia e chinesa desafiam 2016

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O ano começa com expectativa sobre o fechamento da prisão de Guantánamo; andamento da economia chinesa e enfrentamento da austeridade na Europa também alimentam projeções

por Flavio Aguiar, para a RBA publicado 28/12/2015 

U.S. ARMY / CREATIVE COMMONS
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Guantánamo: Se não fechar a prisão, Obama deveria devolver o prêmio Nobel da Paz, que recebeu por antecipação

É muito difícil fazer previsões para 2016, mais do que em anos anteriores. Uma razão objetiva para tanto é que de repente ficou clara a interligação de várias séries de acontecimentos que costumam ter tratamento isolado nas mídias e em suas análises. Por exemplo: o que acontecerá na economia global? Ora, tudo vai depender da eleição norte-americana e do comportamento da China. Alguma previsão? Bem, comecemos por aí.

Estados Unidos

O ano começa com um gigantesco desafio para a gestão do presidente Barack Obama: cumprir a promessa de fechar a prisão de Guantánamo. Se não fechar, deveria ter a honestidade de devolver o prêmio Nobel da Paz que recebeu por antecipação, uma antecipação que, de resto, não se cumpriu de fato. Mas sempre se pode alegar que um presidente apenas não faz verão num monstro do tamanho da presença mundial dos EUA. Mas Guantánamo, a prisão, é um ponto nevrálgico nesta constelação, pelo que passou a significar: admissão da tortura, da prisão “preventiva” e arbitrária, da burla de normas judiciais consuetudinárias. Pedir a devolução de Guantánamo a Cuba já seria demais, assim como das Malvinas à Argentina…

Isso remete aos desafios vindouros. Se algum dos republicanos – qualquer um deles – for eleito, o resultado será catastrófico para o mundo e para a economia global. Todos eles prometem jogar no lixo o acordo sobre o programa nuclear com o Irã, a reaproximação com Cuba e o acordo climático da COP21, sem falar no Obamacare e outras iniciativas internas. O que faz lembrar o dito que a eleição do presidente dos Estados Unidos é importante demais para o mundo para ficar apenas nas mãos dos norte-americanos e submetido a seu bizarro sistema eleitoral, um dos mais complicados e antidemocráticos do mundo.

O que será um governo de Hillary Clinton (já que, embora tenha minhas simpatias pelo senador Bernie Sanders, de Vermont, não acredito que ele bata Clinton na convenção democrata)? Ainda não dá para se ter ideia, mas um bom indicador vai ser a escolha de seu vice.

China

A economia chinesa está desacelerando, o que complica ainda mais a combalida economia europeia e também a situação da América Latina, o que inclui o Brasil. Mas em compensação, sua moeda, o renminbi, recebeu aval do FMI para ser a quinta moeda elegível para a “cesta de reservas internacionais” a partir de 1º de agosto de 2016 (as outras moedas da “cesta” são o dólar norte-americano, a libra esterlina, o euro e o iene).

Mas os efeitos deste reconhecimento já se fazem sentir desde agora, com alguns países anunciando que já estão convertendo parte de suas reservas para a moeda chinesa. Ela já engloba quase 11% das transações internacionais, e o governo britânico anunciou que as transações entre os dois passes passarão a ser feitas diretamente através das respectivas moedas. Esta nova posição reforça iniciativa como a criação do banco alternativo de desenvolvimento pelos BRICS, e equilibra o esforço norte-americano para isolar a China com a criação das parcerias do Atlântico e do Pacífico.

Europa

A União Europeia enfrenta e vai continuar enfrentando seu maior desafio desde sua criação, graças à chamada “crise dos refugiados” e seus desdobramentos, que vêm alterando o perfil social, cultural, político (com desdobramentos econômicos) do continente. Cresce e continuará a crescer o novo cisalhamento na União, opondo, grosso modo, os países do antigo Leste e alguns do Ocidente, em torno da recepção aos refugiados. Apesar de seu sucesso na convenção da CDU, a chanceler Ângela Merkel enfrenta a maior contestação de sua liderança no plano interno em toda a sua carreira política.

Ao mesmo tempo as tensões ideológicas se renovam e ampliam. A Polônia vai decididamente mais para a direita, enquanto a Península Ibérica vai mais para a esquerda. Em Portugal, o novo governo anuncia no mínimo uma atenuação dos “planos de austeridade”, senão sua reversão, e a Espanha deve ir pelo mesmo caminho, caso se concretize a formação de uma coalizão de esquerda para dar base ao novo governo. A grande novidade desta situação é a formação destas coalizões de esquerda, incluindo socialistas, comunistas e novos partidos como o Bloco de Esquerda (Portugal) e o Podemos (Espanha), além de partidos menores, como o basco e o catalão. Isto poderia apontar para uma inflexão importante em nível continental.

Outras perguntas relevantes: haverá concatenação suficiente para uma política de mais segurança no Mediterrâneo? E em relação aos refugiados que vêm da Síria pelos Bálcãs? A Frente Nacional continuará a crescer na França e os socialistas a cair, apesar da relativa recuperação do governo de François Hollande depois dos atentados de 13 de novembro?

Síria e Oriente Médio

Algumas das questões europeias estão completamente imbricadas com a questão síria, do Estado Islâmico e do Oriente Médio. 2016 pode ser o ano em que haja uma reversão na guerra civil na Síria, se os esforços de concatenação internacional, que incluem – esta é uma grande novidade – o Irã e a Rússia, a partir dos encontros de Viena, conseguirem formular uma proposta de paz e implementá-la, sob a orientação da ONU.

No campo militar, a crise síria marcou o retorno de uma atuação russa para além das fronteiras da antiga União Soviética, o que configurou uma nova situação internacional. Os curdos se afirmaram como a maior força terrestre de enfrentamento do Estado Islâmico, enquanto a Turquia se debate entre a tendência histórica de reprimi-los e a pressão internacional para que mude esta política.

O Estado Islâmico se afirmou como a maior força do sectarismo que pretende açambarcar a interpretação do Islã, superando a Al-Qaeda e o Boko Haram africano. É provável que o E. I. tenda a manter esta proeminência com a continuidade de seus atentados internacionais no norte-africano, na Europa e no próprio Oriente Médio.

Enquanto isto, Israel, cujo isolamento internacional aumentou em 2015, tentará rompê-lo, favorecendo os republicanos nos EUA e recuperando a iniciativa em termos de Europa. Um bom termômetro do que irá acontecer neste plano será a decisão em torno da indicação do novo embaixador do país para o Brasil, Dani Dayan, ex-líder de assentamentos nos territórios ocupados não reconhecidos pela ONU e dezenas de países.

Clima

A COP21 abriu uma nova janela de esperança para uma atuação combinada internacional – inclusive com protagonismo do Brasil – sobre as mudanças climáticas em nível mundial. Ao mesmo tempo, 2016 promete ser um dos anos mais quentes da recente história humana. Dezenas de micropaíses do Oceano Pacífico, além de milhares de zonas costeiras no mundo inteiro estão ameaçadas. A COP foi o primeiro acordo vinculante assinado – sob a égide da ONU – neste campo, na história. Fica para este novo ano a consolidação desta tendência ou a renúncia a ela, coisa que pode acontecer, como já se disse, se os republicanos forem eleitos nos EUA.

América Latina e do Sul

As vitórias das direitas na Argentina e na Venezuela (eleição parlamentar) puseram a América Latina, em particular a do Sul, diante de uma nova situação política. A situação nestes países ainda é de equilíbrio, pois Maduro continua na presidência e Macri enfrenta um parlamento hostil. Assim mesmo vai se observar o mútuo desafio: até que ponto as conquistas sociais dos dois países serão mantidas, até que ponto a ascensão das direitas conseguirá revertê-las em nome de uma aproximação com “os mercados” e até que ponto, no caso da Argentina, irão as mudanças na política internacional. Como isso afetará o Mercosul? De todo modo, a situação continental vai depender do que acontecer no Brasil.

Brasil

Pois é, e o Brasil? O país passou a ser um “global player” relevante, como demonstrou, mais uma vez, a COP21, e como continua demonstrando o reconhecimento internacional das políticas de combate à pobreza e de diminuição do desmatamento como fator preponderante na diminuição das emissões de carbono. Apesar disso, as oposições brasileiras não conseguem reconhecer esta condição, ou não conseguem aturá-la. Também vai prosseguir a campanha sistemática de descrédito em nosso país na mídia internacional, impulsionada pela realização das Olimpíadas no Rio de Janeiro. Apesar de superadas, voltarão todas as enfadonhas argumentações de que o país não tem condições para organizar tais eventos, que isso se dá a custo da opressão de seu povo pobre, que o país de eternos favelados etc. etc. etc.

Caso a presidenta Dilma consiga vencer o impasse do impeachment – e parece que vai conseguir – haverá novas cenas vergonhosas patrocinadas pelos camarotes dos mais ricos, e potenciadas pela acolhida da velha mídia nacional e internacional.

No plano político strictu sensu interno, o país enfrenta um duplo desafio, que, de certo modo, são faces de uma mesma moeda. De um lado, o principal partido da esquerda, o PT, passa pelo desafio de superar a visão que se arraigou, de que ele é “um partido igual aos outros”. Certa ou errada, mais certa ou mais errada, conforme as interpretações, esta percepção se disseminou em grande parte do eleitorado, reduzindo a opção pelo partido, pelo menos de momento, a seu núcleo duro. Mas apesar de seus percalços, perdas e problemas, o partido continua razoavelmente uno, continua sendo o principal partido de esquerda do continente americano como um todo, referência para Podemos (Espanha), Bloco de Esquerda (Portugal), Syriza (Grécia), Linke (Alemanha) e até para o trabalhismo de Corbyn (Inglaterra) e a atuação de Bernie Sanders (EUA), e não o contrário, como muitos eurocêntricos entre nós gostam de afirmar. Mas inegavelmente o PT enfrenta o desafio de provar que não se tornou um partido igual aos outros, apesar de tudo.

Do outro lado da moeda, o PSDB se tornou um partido pior do que os outros. Na geleia geral do Congresso Nacional e da busca da hegemonia das forças conservadoras que cresceram no país, o PSDB perdeu qualquer ligação com o seu nome de social-democrata, fez uma transfusão direta de udenismo em suas veias, tornando-se o principal partido golpista no Brasil. O PSDB hoje não é mais referencia para ninguém no Brasil e no mundo, exceto para o antipetismo e antilulismo visceral da parcela mais reacionária do Brasil, repartida predominantemente entre burguesia e classes médias (poderia dizer “classes mídias”…).

O “programa” do PSDB se resume, hoje, a tomar de assalto e de imediato o Palácio do Planalto, movido por um amálgama confuso de motivações:

1. O espantalho megalomaníaco que anima um ex-presidente, em pânico diante da ideia de ter sido, na futura enciclopédia brasileira, uma mera transição entre o que ele mesmo proclamou ser a “era Vargas” e a temida “era Lula”;

2. Um candidato derrotado que, ao contrário até da Miss Colômbia, não consegue se conformar com a derrota depois de ter saboreado, embora ilusoriamente, o picolé da vitória;

3. Um senador que saiu do sarcófago para o Senado e quer porque quer retribuir o apoio que recebeu das forças mais retrógradas do financismo nacional e mundial manietando a ação do Estado brasileiro. No meio disto, bruxuleia a luzinha hoje fraca de um governador que poderia ser a opção em 2018, mas enterrou sua lanterna numa luta inglória contra a educação pública e os estudantes de São Paulo. Para completar este quadro melancólico, vê-se, no crepúsculo de 2015, o pulular de informações de que o partido está se desagregando, com suas lideranças saindo para o PMDB, o PV e o PMDB (partido que continua sem luz própria, a não ser que esta luz seja o fogo-fátuo chamado Cunha ou a lâmpada de 25 watts do vice-presidente), em busca de suas candidaturas próprias em 2018 – sinal de que, de fato, pelo menos de momento a tese do impeachment está sendo reprovada.

Tudo isso mostra que o Brasil não cabe mais no tipo de politiqueta em que ainda se debate, graças a um sistema eleitoral e político anacrônico em relação à sua estatura real, interna e externa.

Outros temas de relevância para 2016

A atuação do Papa Francisco I, o principal líder de esquerda num Estado europeu.

A política russa em relação à Turquia, a Ucrânia e o fornecimento de gás para a Europa.

A atuação da Arábia Saudita em relação à produção de petróleo, principal fator de rebaixamento do preço destacommodity, o que afeta diretamente a Venezuela, e também em relação ao Iêmen e o Irã.

A recuperação, na África, da região atingida pela epidemia do ebola.

A tensão no Mar da China – as relações entre China e Japão.

A dimensão que terá a disposição do governo japonês de “atuar militarmente fora de suas fronteiras”.

O relacionamento entre Índia e Paquistão.

O Banco dos BRICS.

A relação da Austrália com as deliberações da COP21.

O destino da Fifa, da Uefa, da Conmebol, da CBF etc.

O degelo no Ártico.

A pesca ilegal da merluza-negra na Antártida, que põe em perigo a espécie.

E muito mais…

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