Golan: Novo campo de batalha no Oriente Médio

Share Button

16/5/2017, Sharmine Narwani,* The American Conservative

Mapa:Colinas do Golan/Golã


Colinas do Golan/Golã:

Internacionalmente reconhecidas como território sírio, as colinas de Golã estão sob ocupação de Israel desde 1967, quando a área foi capturada durante a Guerra dos Seis Dias. Após o cessar-fogo entre Israel e Síria, a chamada Linha Roxa passou a funcionar como limite entre os dois países. Sempre foram Colinas Sírias [NTs, com informações de Wikipedia].

A troca de mísseis, semana passada, nos limites da fronteira entre Síria e Israel é qualquer coisa, menos ‘normal’ e traz com ela o maior risco de guerra em todo o Oriente Médio, em sete anos.

Essa troca de fogo estabeleceu novas Regras de Engajamento no Levante, e, da noite para o dia, fez das Colinas de Golan ocupadas por Israel um “teatro de operações” no conflito na Síria.

A versão nos veículos da mídia-empresa dominante começou com Israel que estaria ‘retaliando’ contra mísseis iranianos, e o exército de Israel estaria destruindo capacidades militares do Irã dentro da Síria. Mas é informação questionável. A fonte quase exclusiva dessa informação é a mídia de Israel, que não deixa passar nenhuma chance de bater no tambor de guerra, da ‘ameaça iraniana’.

Antes das escaramuças do dia 10 de maio – pouco antes de o governo Trump se retirar do importante histórico acordo nuclear iraniano de 2015 – funcionários de Israel começaram a falam de ataque iraniano iminente, que viria de dentro da Síria. Então, poucas horas depois do bombardeio, um porta-voz do exército de Israel anunciou que a “Força Quds” do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica teria disparado 20 mísseis contra as colinas ocupadas de Golan. Na sequência, o ministro da Defesa de Israel Avigdor Lieberman gritou que “atingimos praticamente toda a infraestrutura iraniana na Síria.”

O porta-voz do exército de Israel general-brigadeiro Ronen Manila narrou as ações de Israel como “uma das maiores operações da Força Aérea de Israel na última década.” Mas, depois que a poeira assentou, outra versão, completamente diferente, começou a tomar forma.

Se se examina a cronologia do atual conflito, vê-se que Israel iniciou o incidente, ao atacar alvos militares sírios em Kisweh (subúrbio de Damasco) e na cidade Baath (Quneitra) durante os dois dias anteriores. A Rússia havia avisado Síria e Irã sobre o ataque iminente dos israelenses, motivo pelo qual parece que nem sistemas de armas nem pessoal militar iraniano foram atingidos. Os militares sírios (não os Guardas da Revolução Islâmica) retaliaram com 55 foguetes contra postos militares de Israel e instalações na parte ocupada do Golan.

A mídia árabe local identificou esses alvos como centros chave da vigilância israelense. Com esses centros danificados, Israel ficou “cega e surda” ao longo daquela linha vital de demarcação. O tão celebrado sistema de defesa “Escudo de Ferro” [ing. Iron Dome] não conseguiu interceptar a maior parte daqueles foguetes, enquanto os militares sírios interceptaram mais da metade dos mísseis de Israel, segundo fontes militares russas.

O que se sabe com certeza: o ataque e o contra-ataque militares constituiu a maior troca de fogo entre Síria e Israel nas colinas ocupadas do Golan desde 1973 – o que converte o Golan em teatro de operações pela primeira vez, em mais de 40 anos. É também a primeira vez durante a Guerra na Síria, que militares sírios atacam instalações militares de Israel, em movimento de resposta; até agora os sírios limitaram-se a revidar contra os próprios mísseis e os aviões israelenses que os estivessem disparando. Por fim, é a primeira vez que Israel tem de enfrentar o fato de que qualquer batalha que os israelenses iniciem pode rapidamente virar guerra no quintal dos próprios israelenses.

Claramente, nem um nem outro dos dois eventos acima era resultado ou resposta que Israel esperava.

E como chegamos a esse ponto? Os israelenses vinham tentando ganhar uma “buffer zone” [aprox. “zona de transição”] ao longo da fronteira com a Síria, mas estavam enfrentando graves revides, desde que o Exército Árabe Sírio e as forças suas aliadas expulsaram os militantes infiltrados em vários subúrbios de Damasco, no início desse ano.

Israel apoiou materialmente muitos daqueles grupos de militantes, ao longo das próprias fronteiras com a Síria e durante anos, inclusive com apoio médico e outras modalidades de apoio a grupos extremistas (por exemplo, a combatentes da Frente al-Nusra), e apoio moral e político ao ISIS, que ainda mantém pequena presença na fronteira de Israel com Síria. A Frente al-Nusra e o ISIS, foram as mais bem-sucedidas forças “da oposição” que combateram contra o Exército Árabe Sírio na crise síria, e eram portanto valiosos quadros a serviço de Israel – sobretudo porque nem um grupo nem o outro jamais deu qualquer sinal de interesse de combater contra os israelenses. O ISIS, pelo menos uma vez, até pediu desculpas a Israel por um rápido confronto com forças do exército de Israel no final de 2016.

O que Israel mais deseja é uma Síria dividida e enfraquecida, porque isso implicaria um dos principais estados árabes fora de jogo, além de também enfraquecer o Irã, aliado vital da Síria. Mas agora o sul da Síria fervilha outra vez de soldados sírios e tropas aliadas da Síria, que se movimentam com vistas ao sul, para áreas que Israel considera profundidade estratégica sua.

Em dezembro, Beit Jinn – último enclave ainda significativo de militantes no sudoeste de Damasco – foi tomado pelo Exército Árabe Sírio, consta que com ajuda do Hezbollah e dos Guardas da Revolução Islâmica. Beit Jinn está localizada numa passagem entre montanhas que liga Síria, Líbano e Israel – próxima da linha de demarcação do Golan – e a perda desse bastião deixou os israelenses em estado de completa confusão.

Esse movimento pôs o Hezbollah, os iranianos, e os sírios num dos pontos mais estratégicos da fronteira do Golan, desenvolvimento que Israel tentava freneticamente reverter desde que a “zona de desescalada” EUA-Rússia-Jordânia foi estabelecida no sul da Síria, ano passado.

Dia 9 de abril, Israel lançou série sem precedentes de ataques contra alvos iranianos na base militar T4 em Homs, matando vários soldados dos Guardas da Revolução Islâmica, inclusive um comandante. Esse foi apenas um dos 100 ataques separados que Israel diz ter feito desde que pela primeira vez atacou alvos sírios em 2013. Mas o ataque à base T4 mudou tudo. Para o “Eixo da Resistência” – cujos membros-núcleo são Irã, Síria e Hezbollah – foi o momento para gerar alguma “consequência” pôr freio na escalada israelense.

Quatro dias depois, o secretário-geral do Hezbollah Said Hassan Nasrallah ocupou as câmeras de TV para deixar as coisas perfeitamente claras para os israelenses: “Quero dizer aos israelenses que (…) Vocês têm de saber que cometeram um erro histórico. Não foi simples tolice. Cometeram ato de alta estupidez, e por essa agressão entraram em confronto direto com o Irã, com a República Islâmica do Irã. (…) É incidente crucial, que muda o status da região: o que havia antes disso, não é igual ao que vem depois disso.”

Irã, Síria e Hezbollah raramente responderam diretamente a alguma ação israelense, porque, segundo recentes declarações públicas do vice-líder do Hezbollah no Líbano, eles sempre se recusaram a deixar que Israel “controle as regras do conflito.” É ponto de equilíbrio difícil de alcançar e de manter, e Israel parece ter-se sentido cada vez mais segura, fortalecida pela resposta, até aqui contida e ponderada de seus três adversários.

Mas dessa vez a ânsia de Israel para alcançar regras mais favoráveis de engajamento mediante repetidos ataques com mísseis, que estavam de fato aumentando de um ataque para outro, parece ter saído pela culatra. Como escreveu Elijah Magnier, veterano jornalista correspondente no Oriente Médio, que tem base em Bruxelas e atualmente está na Síria: “Daqui em diante, qualquer ataque israelense levará a batalha para o Golan. Não é desdobramento que os israelenses tivessem previsto. Acreditaram, erradamente, que Assad estaria ocupado em Yarmouk, al-Badiya, etc. – que no máximo reagiria como sempre reagira antes”.

Em fala na 2ª-feira, Nasrallah confirmou exatamente isso: “A mensagem está dada ao inimigo israelense. Dizia que está acabada a era em que vocês atacavam a Síria e não havia resposta.” O líder do Hezbollah disse que sua aliança mandou recado a Israel, por outros mensageiros, de que “se Israel atravessar nossas linhas vermelhas na Síria, mais foguetes serão lançados, e atingirão a profundidade estratégica do território de Israel.”

Os israelenses contavam com que o governo sírio, o Irã e o Hezbollah ficariam afundados em outras batalhas contra grupos militantes em outros pontos – e que seriam contidos pelos russos, que decidiram e não fazem segredo disso, manterem-se longe de combates com o Hezbollah e o Irã. Israel nunca esperou que essa aliança redirecionasse o confronto contra alvos militares de Israel em terra, dentro do território ocupado das colinas do Golan. As Colinas do Golan são legalmente território sírio. O consenso internacional de que “o Golan é sírio” está consagrado em incontáveis Resoluções da ONU, inclusive uma bem recente, aprovada em dezembro, que criou fonte real de vulnerabilidade política para Israel, que não pode reivindicar legalmente sua própria fronteira nordeste.

Essa vulnerabilidade foi aprofundada desde 2011, quando a população originalmente drusa do Golan ocupado viu horrorizada os seus parentes sírios, do outro lado da fronteira, serem ocupados, abusados, muitos até assassinados por islamistas militantes. Muitos drusos creem que aqueles militantes são mantidos por Israel. O “eixo” está procurando contrabalançar a ira local apoiando forças da resistência anti-Israel no Golan. Dito de forma simples, o Golan está maduro para se erguer, de dentro para fora e de fora para dentro, e os ataques de Israel contra a Síria, semana passada, só conseguiram fazer de Israel o alvo afinal acessível.

É possível que os russos não gostem dessa virada dos acontecimentos – prefeririam manter o foco na desescalada e na resolução do conflito na Síria. Mas, se Moscou foi tolerante com pequenos ataques israelenses contra alvos militares sírios e de aliados da Síria, verdade é que a Rússia tem meios para conter e limitar o tamanho e a frequência desses ataques. Israel está em xeque-mate, pelo fato de que a Rússia pode entregar aos sírios sistemas plenamente carregados S-300 e S-400 de defesa aérea, fator que, sim, mudaria todas as coordenadas da guerra na região.

Pelo outro lado, se é pouco provável que qualquer dos três adversários de Israel (Síria, Irã ou Hezbollah) venha a escolher entrar em guerra imediatamente contra Israel, também já está bem claro que todos retaliarão, se forem provocados.

Nos últimos sete anos, o Oriente Médio jamais esteve tão perto de uma guerra quanto está hoje. Por isso há urgente necessidade de que os cabeças mais frias prevaleçam, mesmo que – como no caso de Síria, Irã e Hezbollah – tenham de retaliar para desescalar o conflito e estabelecer contenção sustentável.

Traduzido por Vila Vudu


* Sharmine Narwani é comentarista e analista da geopolítica do Oriente Médio. Vive em Beirute.

Share Button

Deixar um comentário