Gibran Khalil Gibran: “ O Americano Árabe do Líbano”

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Este texto foi traduzido para o espanhol e apresentado em Buenos Aires,em 9/2/1993. Por ocasião da inauguração do monumento a Gibran Khalil Gibran construído por Fearab América e a Fundacion Los Cedros durante a presidência do  saudoso Dr. Horácio Munir Haddad.

Por Claude Fahd Hajjar *

Nascido na localidade de Bsharre, Líbano, em 1883, viveu em seu corpo as marcas da história de seu povo, inserido dentro de um contexto econômico político que determinou o comportamento imigratório de libaneses, palestinos e sírios nos últimos anos do século XIX até os primeiros anos do século XX.

Com doze anos de idade, Gibran emigrou para os Estados Unidos da América em 1895, acompanhando a mãe e os irmãos. Tentativa corajosa de uma mulher que buscou na expansão da América a realização da potencia reprimida de seu povo.

Amargava o povo do Crescente fértil a consequência do então domínio do Império Otomano, e , potencialmente visado como polo de negociações dos interesses internacionais que destilavam as divergências internas das diferenças nacionais árabes, usadas como argumento para dar consistência a outros projetos que a Europa e América necessitavam orquestrar e executar.

A moderna história imigratória do povo árabe, seja ele libanês, palestino ou sírio coincide com o nascimento da trajetória de Gibran Khalil Gibran, enquanto imigrante e poeta.

Ao mergulhar na obra e contribuição artística de Gibran, estamos decifrando o inconsciente coletivo de um povo que clama pela liberdade, pela justiça e pela busca de realização de sua potencialidade recalcada e reprimida por séculos de usurpações que remontam ao século XII quando da decadência árabe na Europa e consolidada no século XV com a ascensão do Império Otomano, que estancou o pouco de sangue e vitalidade que ainda irrigavam as veias da região árabe da Síria de então, incluindo nelas os atuais Estados do Líbano, Palestina e outros.

Gibran foi o emergente psíquico, a voz poética, a sensibilidade artística, o livre pensador cujas raízes estavam fincadas no velho mundo, e cujas asas o conduziam ao futuro, à América.

Em suas veias corria o sangue de uma multiplicidade de culturas como a fenícia, aramaica, assíria, pérsica, grega, árabe e outras.

Ao imigrar e atravessar o Atlântico transportava em sua bagagem a tradição e a história do mundo antigo, deixando para trás suas divergências, suas mágoas e seus nóz mal resolvidos.

Na amplitude do espaço e riqueza americana, encontra o habitat ideal de expansão e de desenvolvimento de suas potencialidades, que lhe eram negados no velho continente.

Na América, descobre outra riqueza cultural, resultante do intercambio de raças e culturas que por milênios transitaram entre Ásia, África e Europa. A bagagem científica, tecnológica, política e administrativa do velho mundo fora uma valiosíssima aquisição que a América acabara de receber e que antes desconhecia.

Este período não reservou apenas farturas e riquezas; doenças, epidemias, revoltas e inúmeras dificuldades foram vividas, tanto pela população autóctone como pelos colonizadores e imigrantes. Da mesma forma que a mãe natureza atraí e irradia vida e plenitude, ela também expulsa e rejeita muitos de seus filhos.

O poeta e livre pensador Gibran Khalil Gibran, desenvolve sua obra na mesma medida do desenvolvimento e aperfeiçoamento do seu Eu. Seus biógrafos coincidem em posicionar os diferentes períodos que marcaram sua produção artística e literária.

No início de sua obra encontramos o Árabe Libanês Gibran que escreveu no seu idioma natal os seus dois primeiros períodos, o “Romântico” e o “Revolucionário”.

É o Americano Árabe, Gibran, já amadurecido, mais fecundo e universal que vai escrever em inglês, e assim internacionalizar a sua produção nos outros dois períodos denominados de o“ Filósofo Desiludido” e o “ Sábio Supremo”.

No “Filósofo Desiludido”, Gibran, produziu “ O Errante”, “ O Louco”, “ O Precursor”, “ Os Deuses da Terra” entre outros. Neste período Gibran em seu próprio ser, ver, sentir, pensar e fazer, decífra a essência humana. Ao atingir o âmago da essência do ser, ele delata e expõe a outra face do humano; Gibran se revela como sujeito, humaniza-se, escreve sua literatura com o amargor sentido pelo seu próprio corpo e com sua alma filosófica; inspirado em Nietzsche, o filósofo alemão e na imagem de Zaratustra, o “super homem” nietzschiano.

É durante este período universal do “ Filósofo desiludido”, que Gibran atinge o mais profundo do Ser; ao delinear a cartografia da alma humana e se aprimorar em sua essência nos revela a natureza sem artifícios e sem máscaras. Ele despoja o ser humano daquilo que cultura e civilização lhe inflingiu e resgata a sua potência, sua natureza primeira, viril e dionisíaca.

O resultado desta experiência foi o período áureo conhecido como “O Sábio Supremo” que nos legou “ Areia e Espuma”, “ O Jardim do Profeta”, “ Jesus, o filho do Homem” e “ O Profeta”, a obra mestra, traduzida para mais de dez idiomas, a mais vendida em todo o mundo, livro de cabeceira de milhões de pessoas.

Gibran, o americano árabe libanês de Bsharre, inundou as livrarias, as almas e o espírito de milhões de leitores, influenciou gerações com textos poéticos que são a base da psicanálise de Freud. Quem leu com atenção “os filhos”, “o Matrimônio”,, “ o trabalho”, e outros de seus textos de “O Profeta”, certamente terá captado o profundo teor psicanalítico de sua obra.

Gibran foi o feliz encontro entre Oriente e Ocidente, e foi o fruto maior da contribuição árabe ao mundo americano. Graças a sua experiência como imigrante, que tivemos a oportunidade de colher os saborosos frutos desta vivência. Vivência que o conduziu a unir este privilegiado nível de atualização a uma sabedoria milenar.

Esta maravilhosa química, é o resultado do intercambio de raças e culturas que a moderna história imigratória dos povos árabes do velho continente trouxe a este maravilhoso mundo da América.

*Claude Fahd Hajjar, Psicóloga, psicoterapeuta, pesquisadora de temas árabes e imigratórios, autora do livro: Imigração Árabe 100 anos de Reflexão, e atualmente ocupa o cargo de Vice Presidente de Fearab América- Federação das Entidades Americano Árabes

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