Genebra 2 – perspectivas, cenários e resultados

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Por Carlos Tebecherani Haddad*.

Começou dia 22 último a Conferência de Genebra-2, sobre a crise na Síria. Não há problema político real algum que os países do Ocidente queiram resolver, e a permanência do presidente sírio Bashar Al Assad no governo é fato certo, não sendo pauta de discussões.

A pauta aberta é retórica, “jogo para a torcida”. Os países ocidentais querem resolver sobre a passagem do gasoduto do Qatar para a Turquia pelo território sírio, ao qual a Síria se opõe. Esse é o real problema sírio. O país teria que abdicar da soberania de uma área de 16 mil km2, 60% maior que o Líbano, entregando à Shell Oil um terreno de 800 km de comprimento por 20 km de largura. Como essa perda é impensável, foi estabelecido o conflito, com a mídia ligada aos interesses ocidentais divulgando as falácias propaladas.

Além da pauta reservada, há assuntos subjacentes à guerra, sobre a reconstrução do país. Sobre a guerra, o Ocidente não quer o seu fim agora, evitando que os terroristas voltem aos seus países, porque muito perigoso, pelo risco de realizarem atentados em suas regiões, desejando que eles morram em luta.

Os Estados Unidos levaram a oposição síria a participar de Genebra-2 sob o mote da aplicação as decisões de Genebra-1, que transfeririam o poder da presidência síria a um governo de transição e que, nele, Bashar Al Assad não teria assento, mas a  Rússia garantiu que a agenda não tocará tais questões.

Quer dizer, as duas partes vão à Genebra com dois focos opostos. A Síria, que descrê da utilidade da conferência, participando somente para satisfazer os russos, está em vantagem militar, e atuará com mais tranquilidade do que uma oposição em situação delicada, minada e sem lideranças.

O Ocidente espera que, com um suposto endurecimento do discurso, leve a Síria a conceder-lhe fatias do bolo de US$ 100 bilhões da reconstrução do país. A agenda síria propõe, sobretudo, o cessar fogo geral, a rejeição à transferência de poderes do Presidente da República, a entrada de ajuda humanitária, um acordo sobre troca de prisioneiros, exceto os ligados à Al Qaeda e organizações terroristas afins e a negativa à fixação de um prazo para obter um acordo.

O conflito sírio

Os dados sobre o conflito sírio são falsos, os seus atributos são idênticos aos de uma guerra de dominação, não de uma guerra civil. Não há povo lutando contra povo, ou contra o exército nacional. É uma guerra estrangeira contra a Síria. Pela quantidade de países envolvidos, cerca de 50 do lado do Ocidente, assemelha-se a uma III Guerra Mundial, e fica claro que a mídia ocidental mostra situações estranhas à verdade do conflito sírio.

Há, desde 2011, ingresso de 125 mil mercenários armados, treinados pela OTAN em bases turcas e pagos pela Arábia Saudita e Qatar, objetivando mudar o governo legítimo da Síria por um fantoche que garanta a implementação de um sistema logístico de gasodutos. Na hipótese da queda síria, Rússia e Irã seriam afetados pela perda de mercado para o seu gás e pelo fechamento da única base militar russa mantida fora do seu território, a base naval de Tartous, minando a sua influência no Oriente Médio.

Os Estados Unidos, que não têm amigos, mas interesses, atores em 48 das 52 guerras ocorridas no mundo nos últimos 120 anos, não têm capacidade de manter uma guerra que seja. A sua economia está arruinada, não há orçamento para isso e atolaram nesse “imbroglio” para garantir que o gasoduto seja construído, não por causa mais nobre.

Bashar Al Assad, um ditador ?

Parte da mídia chama Al Assad de ‘ditador’ por ignorância ou má-fé. Mas os meios da mídia nada ignoram no “métier” e sabem ser a Síria uma república parlamentarista, e o Presidente da República é chefe da Nação, não chefe do governo, função essa do Primeiro Ministro.  Portanto, o Presidente não pode ser um ditador.

Ele foi eleito para mandato de 7 anos, obteve 90% dos votos, sem qualquer contestação à lisura e legitimidade da escolha, e Obama já sabe, pela CIA, que se Assad for candidato no próximo pleito, ele será eleito com 85% dos votos. Os problemas da Síria pertencem aos sírios, os dos Estados Unidos aos norte-americanos, os do Brasil aos brasileiros etc, mas a desinformação faz com que as pessoas acreditem em contos da carochinha.

As relações Brasil- Síria

A Síria forma um rico bloco econômico com o Iraque, Líbano, Irã, representando para o Brasil mercados muito maiores e promissores do que muitos países da Europa, como Suíça ou Áustria, por exemplo. A balança comercial do Brasil com os países árabes aumentou mais de 600% nos últimos 10 anos, indo de cerca de US$ 2 bilhões em 2001 para aproximadamente US$ 14 bilhões em 2012.

Com o início da crise síria em 2011, surgiram novas janelas de comércio com a região, pelo embargo e boicote ocidentais ao país. A Síria precisa continuar a viver e garantir aos seus cidadãos condições decentes de vida e bem estar e, assim, a construção de estruturas de aproximação entre nações é uma vantagem estratégica que abre portas e solidifica as relações internacionais.

“O meu amigo é você” é a chave da interlocução médio-oriental, com quem negócios são feitos entre amigos e o aperto de mão e a confiança mútua são mais importantes do que tabelas de preços e planilhas.

Sobre armas químicas

Quando do ataque químico em 2012, o governo sírio pediu à ONU o envio de uma equipe de especialistas para investigar a ocorrência, pedido rejeitado pelos Estados Unidos, Inglaterra e França. Após, uma equipe de peritos foi até Alepo e fez os estudos, registrados em relatório assinado pela doutora Carla Dal Ponte, dizendo, com clareza, que as armas químicas foram utilizadas pelos terroristas, não pelo Exército Sírio.

A agência AP entrevistou mercenários que afirmaram terem recebido gás sarin da Arábia Saudita, lançando-as sobre Damasco e a Rússia provou à ONU, com fotos de satélite, que tais  armas foram lançadas pelos terroristas da Al Qaeda. Não há sensatez em Al Assad ordenar um ataque químico contra o seu próprio povo, que o apoia em mais de 85%, por óbvio.

A Síria acedeu à sugestão russa de entregar o seu arsenal químico para uma supervisão internacional, provando mentirosas as acusações contra si, desse uso.

Sobre o futuro.

A perspectiva da crise é muito favorável à Síria, em vantagem no terreno, apesar de a guerra de guerrilhas cobrar um preço bem maior do que um conflito entre dois exércitos. O povo sírio está triste, pois nunca houve uma situação como essa, mas esperançoso. A Síria era o segundo país mais seguro de se viver em todo o mundo, até 2011.

O turismo ruiu e os que dependem dele estão onerados pela queda drástica nas suas atividades. Apesar de terem os preços subido muito, absolutamente nada falta para o povo. O pleno abastecimento é provido pela China, Rússia, Irã e Índia, em geral. Compra-se menos, mas sem carências.

A Síria não tem dívida externa e assinou com a Rússia, China, Irã e Índia, protocolo de comércio onde as transações são feitas mutuamente nas moedas correntes de cada um deles, abolindo-se a circulação do dólar e do Euro entre as partes. A reconstrução da Síria trará consigo a prosperidade.

Carlos Tebecherani Haddad é consultor em Estratégia e Competitividade, professor universitário e diretor da FEARAB – Federação das Entidades Árabes da América. Publicado originalmente no Jornal  Tribuna de Santos.

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