EUA inventam o ‘quase-ataque’- Unidade e paciência do Irã paralisam os EUA

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(L-R) US President Donald Trump, Secretary of State Mike Pompeo, and National Security Advisor John Bolton are seen in the Oval Office of the White House in Washington, DC on June 20, 2019. (Photo by AFP)

21/6/2019, Ramin Mazaheri, no Saker Blog, (por permissão de PressTV)

Estou profundamente cético quanto à possibilidade real de os EUA algum dia terem iniciado um ataque de mísseis ao Irã, ataque que, na sequência teria sido cancelado – como o The New York Times ‘noticiou’.

Claro, todos sabemos que o ‘jornal oficial’ dos EUA faz jornalismo de péssima qualidade praticamente sempre – confiam repetidas vezes em fontes não identificáveis, precisamente como se viu nesse ‘noticiário’ recente. Fontes não identificadas e não identificáveis não podem ser dadas por confiáveis –, e nada muda se o The New York Times recorre sempre, outra e outra vez, ao mesmo recurso.

Mas o jornalismo de péssima qualidade não para por aí: o Times exibiu manchete alarmista, de tabloide pró-guerra, tipo Trump Aprova Ataques ao Irã, mas Recua Abruptamente e chega a acrescentar:


“Não ficou claro se Mr. Trump simplesmente mudou de ideia sobre os ataques, ou se o governo mudou de rota por motivos logísticos ou de estratégia. Tampouco se sabe se os ataques podem voltar a ser ordenados.”

Palavras translúcidas como lama, pode-se dizer. Editor mais esperto teria bloqueado essa matéria… mas ok: é o The New York Times.

Qualquer pessoa e país têm lá seus próprios estilos de negociar.

O estilo histórico dos EUA define-se por nunca, absolutamente nunca, os norte-americanos cumprirem o que prometem; e por se recusarem a negociar, até que o poder de pressão dos EUA sobre o interlocutor tenha alcançado o ponto máximo. O estilo dos EUA de Donald Trump, influenciado agora pelo estilo de vendedor de imóveis do presidente, tem sido usar o caos e a instabilidade como modo para criar tumulto entre os oponentes dos EUA e assim aumentar o próprio poder de influência. Trump Usa o Caos para Fazer o que Deseja – como se lia em manchete recente de The Atlantic.

O estilo do Irã define-se pela transparência nos respectivos valores morais – o que gera consternação e indignação entre os políticos militantes da realpolitik supervalorizada no ocidente. O estilo do Irã também é marcado pela paciência no processo de fazer avançar a própria estratégia de longo prazo – por exemplo, em 2016 o Irã assinou um acordo de relações estratégicas de 25 anos com a China – outra nação de negociadores conhecidos pela paciência.

A Europa e as nações da Eurozona – governados pelas estruturas não democráticas da União Europeia e do Eurogrupo, respectivamente – têm um estilo de negociar que se pode definir como uma fachada de classe dominante, para encobrir o mais patético, embora agressivo, servilismo.

Claro que negociações entre esses grupos e indivíduos chegaram, há alguns meses, a um grande impasse; também é claro que as novas linhas e novas posições agora se vão tornando mais claras.

Como se vê já há quase 40 anos, a posição do povo do Irã continua a surpreender e confundir o Ocidente. Ah, sim, sim, os iranianos são acostumados a negociar com governos servis e líderes-fantoches…

O dito “ataque abortado” ao Irã prova que a derrubada de um drone norte-americano é vista pelos EUA como perda imensa: tão imensa que muitos em Washington parecem decididos a iniciar uma guerra, por causa do tal drone. Mas a reação bem-sucedida dos iranianos ao drone atacante é simples desenvolvimento de uma série de eventos e de discussões que se manifestam já há bom tempo e que provam a unidade da nação iraniana, depois que o país viu fracassar as negociações com o Ocidente.

(Escrevo “o Ocidente”, não porque eu seja “antiocidental”, mas porque os países não ocidentais que assinaram o “acordo nuclear iraniano” (China & Rússia) efetivamente mantiveram-se fiéis à própria palavra.)

Depois que Washington renegou o “acordo nuclear iraniano” em maio de 2018, foi natural que houvesse angústia existencial no Irã –, o país dedicara muitos anos à diplomacia; e de repente o arqui-inimigo nacional diz que a diplomacia passava a ser impossível. Natural que o povo iraniano se sentisse exasperado pela beligerância e as falsas promessas do Ocidente; natural também que os iranianos não vissem instantaneamente para que lado dirigir-se.

Mas fato é que hoje, um ano depois, a nação já se recompôs e avançou.

Há discussão pública frequente, rotineira, nas casas de chá e nos mais altos níveis de governo, e há forte concordância em torno da ideia de que o Irã não deve deixar-se degradar ainda mais em novas discussões diplomáticas. Claro que o Irã não tem medo. O Irã não aprecia o modo como o Ocidente traiu as próprias promessas.

A política muda, mas tudo sugere que o Irã esperará até depois das eleições de 2020 nos EUA, para reiniciar seriamente novos esforços diplomáticos. Isso dará à União Europeia algum tempo – e, com sorte, talvez arranjem espinha dorsal menos curvada.

Quanto aos autodesignados “mestres do Universo” em Washington – a decisão dos iranianos, até aqui, de não responder aos telefonemas está sendo administrada em doses, como uma bofetada após outra.

Ao não pular à primeira possibilidade de negociações; ao derrubar um drone; quando o Irã declara publicamente e polidamente que retomará o enriquecimento de urânio; e os ataques ainda inexplicados no Golfo Persa – todos esses movimentos desmoralizam ativamente os EUA, cada dia mais, nas semanas recentes.

O Irã está expondo os EUA em posição nada lisonjeira. Daí que nem chega a surpreender que Washington e The New York Times tenham escolhido a via de agitar sabres e fazer barulho do lado de fora, com esse “quase-ataque”.

A mim não impressionam. Francamente. E acredito que o Irã reagirá de modo semelhante.

Os iranianos parecem hoje unidos na posição que adotaram: negociar é prática de boa-fé; e é indispensável honrar a própria palavra, ou não faz sentido negociar; e não se negocia – nenhum júri discorda disso. Se Ocidente atacar – infelizmente não terá sido a primeira vez.

Claro, trata-se simplesmente do mais recente capítulo num sempre mesmo esforço para desestabilizar o Irã, até a guerra civil. A Guerra Irã-Iraque, a derrubada de um avião iraniano de passageiros, sanções que impedem o acesso a medicamentos, sanções que impedem a venda de petróleo iraniano – durante 40 anos, os EUA e seus aliados dedicam-se em tempo integral a desestabilizar o Irã na esperança de gerar uma resposta reacionária que derrubaria a Revolução Islâmica Iraniana de 1979.

Já há bastante tempo os iranianos compreenderam essa realidade – e estão unidos nesse ponto de vista, tão firmemente quanto estão unidos no desejo de que o Ocidente honre acordos diplomáticos. Infelizmente, os ocidentais não compreendem essa realidade – que os EUA trabalham incansavelmente para gerar uma guerra civil no Irã, para gerar o caos e pôr fim à Democracia Muçulmana. O público ocidental está sendo enganado pela própria mídia, pelos tais 1% e por décadas de iranofobia orquestrada.

Washington e Trump meteram-se, eles mesmos, numa arapuca: depois de um “ataque abortado”, a única escalada possível é “ataque atacado”, “ataque real”.

Claro que não há futuro possível em ataque contra o Irã. O Irã de 2019 não é o Afeganistão nem o Iraque, para listar dois fracassos recentes dos militares dos EUA. Aos EUA só interessa continuar a própria política de ataque ao Irã: dado que é impossível invadir o Irã, é preciso continuar a fomentar a instabilidade dentro do Irã.

De minha parte, lembro que o Irã não se prestará a joguinhos com adversário preso nas cordas, menos ainda com adversário guiado por político inexperiente, que tão pouca importância dá à noção do “bem público”.

É possível que no ano e meio final de mandato que lhe resta o governo errático de Trump volte ao bom-senso sobre o Irã? Talvez Europa, China e Rússia façam ver que o Irã é forte demais para ser designado inimigo eterno a perseguir? Talvez o mundo venha a ver que o Irã tem – no Estreito de Ormuz – um trunfo a jogar, para exigir o fim das mentiras, das sanções e exclusões?

Tudo isso exigirá mais tempo. Mas Trump provavelmente sabe – pelo menos instintivamente – que o Irã não é a Síria; e que qualquer ataque gerará consequências reais para o povo e para interesses dos EUA. Por isso Trump cancelou o ataque (supondo que algum dia o tal ataque tenha sido realmente ordenado).

Traduzido por Vila Mandinga

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