EUA: Campanha ‘anti-véu’ pra ‘mudar o regime’ no Irã

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Da série “No Irã, CIA manda tirar o véu; no Brasil, manda pôr” 

30/1/2018, Moon of Alabama

Uma campanha de ‘relações públicas’ paga pelo governo dos EUA tenta incitar as mulheres do Irã a infringirem leis do Estado. O noticiário sobre a campanha que se viu nos veículos da mídia-empresa ocidental é incomparavelmente maior que seus efeitos no Irã. A profissional que conduz a campanha de propaganda a favor de interesses dos EUA – e contra os interesses do Irã – é apresentada como “ativista a favor dos direitos humanos das mulheres”. E todo o amplo contexto da propaganda e do esforço dos EUA para influenciar pessoas no Irã é completa e deliberadamente apagado. Em junho de 2017 a CIA criou um novo “centro de missão” para atacar o Irã:

O Centro de Missão no Irã reunirá analistas, pessoal operacional e especialistas de toda a CIA de modo a que se acionem todas as capacidades da agência, inclusive agentes para ação clandestina – noticiou o The Wall Street Journal na 6ª-feira.

Os primeiros resultados visíveis do trabalho do novo centro apareceram no sequestro dos protestos de inspiração econômica que houve no Irã no fim do ano passado. Os slogans e os símbolos usados e o determinado apoio das empresas ocidentais de mídia levam a assumir que terroristas do MEK e organizações monarquistas de iranianos exilados estavam envolvidos na ‘operação’. Imediatamente as ‘manifestações’ tornaram-se violentas e perderam todo o apoio popular. E os infiltrados escafederam-se, como se previu que aconteceria, em poucos dias. Dia 28 de dezembro, no mesmo dia em que começaram as ‘manifestações’, todos os jornais estamparam essa imagem [uma mulher sem véu sacudia o véu atado a um cabo de vassoura, em Teerã]. No Irã, o véu é obrigatório por lei. Mas fotos e vídeos mostravam que as pessoas em volta, passantes, praticamente ignoraram a cena. Só depois que a foto já circulara em toda a mídia-empresa ‘ocidental’, a mulher foi detida para interrogatório, mas logo depois foi posta em liberdade. Essa imagem e o vídeo foram postados em primeiro lugar por @masihpooyan. O início da ‘manifestação’ e a postagem dessa imagem de propaganda no mesmo dia dificilmente aconteceu por pura coincidência. A campanha para induzir mulheres no Irã a tirar o véu que devem usar por força de lei é evento que se repete seguidamente, por ação do ocidente, desde 2014. Ficaram ausentes por algum tempo, apenas enquanto, em Teerã, aconteciam manifestações legítimas, de reivindicação legítima dos cidadãos que enfrentam dificuldades econômicas, e que foram convertidas artificialmente em movimento contra o governo. Essa ‘campanha anti-véu’ é conduzida por Masih Alinejad, jornalista a serviço da rede Voz da América que opera contra o governo do Irã e outros veículos mantidos pelos EUA e dedicados a “mudar o regime” no Irã. A mulher é agente interessante. Seu nome real é Masoumeh Alinejad, mas ela adotou “Masih”, palavra em persa para “ungida”, ou “Jesus” [Messias], como nome artístico. Tem hoje 41 anos e vive em New York. Foi ‘descoberta’ em Teerã, como jornalista ‘investigativa’ de oposição ao governo iraniano. Nos termos do perfil publicado em 2009 na revista New Yorker:

Alinejad era aposta certa; em 2005, foi expulsa e proibida de cobrir o Parlamento depois que noticiou os salários de deputados governistas populistas que mentiram que teriam sofrido cortes nos salários.

Trabalhou para o jornal iraniano Etemad-e Melli que era financiado por Mehdi Karroubi. (Em junho de 2009 Karroubi foi derrotado na eleição presidencial contra Mahmoud Ahmedinejad. Karroubi inventou e iniciou os protestos – noticiados no ocidente como mais uma “revolução colorida” (verde), que ‘denunciavam’ fraude naquela eleição, apesar de todas as pesquisas antes e depois das eleições confirmarem a vitória de Ahmedinejad. Mehdi Karroubi foi preso e está até houve em prisão domiciliar.) Segundo a revista Time, Alinejad “morou grande parte de 2007 em Londres, estudando inglês”. Em 2008, Etemad-e Melli publicou um artigo assinado por ela, de calúnia contra o presidente Ahmedinejad. Ela comparava os eleitores de Ahmadinejad a peixes famintos à espera de migalhas de pão. O jornal retratou-se, e Karroubi pediu desculpas públicas em nome do jornal. Naquela época “ela havia sido convidada para estudar inglês por um ano em Oxford”, segundo a New Yorker. E usou aquela oportunidade para fazer contato com funcionários norte-americanos. Escreveu uma carta solicitando uma entrevista com o presidente Obama:

Um funcionário da embaixada dos EUA em Londres concordou em encaminhar a carta a Washington, e convidou-a a visitar a embaixada. Um funcionário político que a recebeu entregou-lhe uma grossa pasta com todas as matérias publicadas em inglês sobre ela mesma. Mas foi “respeitoso” – como ela recorda. “Disse-me ‘Sabemos quem é você. Você é durona!'”

O arquivo e as entrevistas certamente agradaram muito ao “funcionário político”. Pouco depois ela recebeu um visto de entrada nos EUA. Como se lê no verbete com seu nome em Wikipedia:

Foi entrevistada pela Voz da América, e a entrevista foi exibida com partes dos vídeos que ela mesma fizera, sob o título “Tempestade de Ar Fresco”. Em 2010 ela e um grupo de escritores e intelectuais iranianos constituíram uma fundação ‘IranNeda’. Depois da eleição presidencial no Irã em 2009, a moça publicou um romance intitulado ‘Encontro Verde’ [ing. A Green Date]. Em 2011, Alinejad formou-se em Comunicação, Mídia e Cultura na Oxford Brookes University.

Desde pelo menos 2013, trabalha para a Voz da América em Londres, no programa OnTen em língua farsi. O curso de Relações Públicas no qual ela se graduou em Oxford é realmente excelente! Desde 2011 o jornal Guardian citou-a e mencionou opiniões suas 35 vezes! Deve ser recorde. Wikipedia cita um jornalista iraniano-britânico da rede Bloomberg, Kambiz Foroohar, como seu marido. A conta dele no Twitter retuíta e promove a campanha da esposa. A campanha de rede e mídia social My Stealthy Freedom [Minha Liberdade Furtiva] foi criada para incitar mulheres no Irã a se autofotografarem em público, mas sem véu. Foi pesadamente divulgada em vários veículos da mídia ocidental. Em 2015, Alinejad recebeu um prêmio de UN Watch, a conhecida organização do lobby sionista. O mais recente item postado na página da primeira campanha anti-véu é do dia 6/9/2015. Desde então a campanha mantém-se calada. Alinejad declarou várias vezes que teria sido massacrada pela mídia iraniana. Não encontrei nenhum sinal desse massacre, mas não sei o que haveria de surpreendente em uma agente que trabalhe contra os interesses do Irã, e que abertamente opera para derrubar o sistema político democrático do Irã, não seja exatamente amada naquele país. Desde 2015, Alinejad tem seu próprio programa, ‘Tablet’, na rede Voz da América em farsi divulgado como “15 minutos de horário nobre”, dedicado a “questões sociais e culturais que interessam aos jovens no Irã e nos EUA”. Contratos públicos mostram que Alinejad recebe $85.600 ao ano, da Diretoria de U.S. Broadcasting [ing. Board of Governors U.S. Broadcasting, BBG]. Essa BBG coordena a ação dos veículos de mídia de propaganda pró-EUA como a Voz da América em inglês e em outros idiomas. E é oficialmente controlado pelo Departamento de Estado dos EUA. Em fevereiro de 2017, Alinejad elogiou publicamente a candidata Marie Le Pen, da direita francesa, por se ter negado a usar o véu ao visitar um funcionário libanês religioso. Mas mudou o postado, depois de ter sido criticada por promover a islamofobia de extrema direita. A tal campanha anti-véu, que dormia desde setembro de 2015, foi revivida com um gesto público de propaganda, em maio de 2017. Foi rebatizada: deixou de ser “My Stealthy Freedom” e passou a chamar-se “White Wednesdays” [Quartas-feiras Brancas]. A BBC postou matéria de publicidade sobre o ‘evento’.

Usando a hashtag #whitewednesdays, cidadãos têm postado fotos e vídeos de si mesmos usando véus ou pedaços de tecido brancos amarrados em pedaços de pau, como símbolos de protesto. A ideia é grande achado de Masih Alinejad, fundadora de My Stealthy Freedom, movimento online de oposição ao código obrigatório de vestimentas.

Newsweek também publicou uma peça de propaganda. Os dois veículos insistem em que a campanha teria tido forte repercussão nas mídias sociais, mas a página oficial do movimento no Facebook mostra só 1.400 likes e 316 compartilhamentos. É resposta magra. Reuters, que repercute a mesma propaganda, insiste:

Alguns dos vídeos, legendados por voluntários, têm várias centenas de compartilhamentos na página de My Stealthy Freedom em Facebook, que tem mais de um milhão de seguidores.

Hoje já todos devem ter compreendido que o número de seguidores não é medida válida. Seguidores podem sem comprados aos milhares, por níqueis. Um vídeo que postei recentemente em Twitter que mostrava soldados dos EUA atirando contra o motorista de um caminhão afegão foi retuitado (compartilhado) 900 vezes, mais vezes que os vídeos da tal super propagandeada campanha anti-véu. Que importância real teria a tal campanha? A página de Facebook da campanha tem cerca de 2.800 fotos na “Timeline” mas só uma dúzia delas são de mulheres que despem em público os próprios véus. A verdadeira resposta à campanha, no Irã, é, isso sim, completamente insignificante. Nos últimos dias, das cerca de 50 milhões de mulheres que há na República Islâmica, pode-se dizer que não mais de seis (6) participaram a tal ‘campanha’. O barulho na mídia ‘ocidental’ sobre a campanha incha na proporção inversa do que realmente acontece no Irã. Alinejad faz oposição ao sistema político no Irã. Ela trabalha para os EUA e coordena campanhas de propaganda e relações públicas pensadas para (a) difamar e caluniar a República Islâmica aos olhos ‘ocidentais’; e (b) estimular o crescimento da oposição dentro do Irã. Parte da calúnia e difamação está funcionando no ocidente, mas não se vê resposta importante dentro do Irã. Nada de surpreendente nisso. Ao longo dos dois mais recentes governos no Irã, as restrições sociais vêm sendo gradualmente levantadas. [ATUALIZAÇÃO: Como muitos observaram nos comentários, as autoridades no Irã já não acusam nem processam mulheres que não usem o véu em locais públicos, embora a lei continue a existir formalmente.] A campanha anti-véu comandada por estrangeiros só ajuda os grupos mais linha-dura, que a veem como influência descabida dos EUA e exigem que o estado tome medidas cada vez mais duras contra quem abrace a tal campanha. A campanha nada tem a ver com defender interesses das mulheres iranianas:

“Mulheres iranianas têm décadas de experiência em organizar o Irã para mudar. A situação só ficou difícil para elas, em campo, quando o movimento delas foi sequestrado por feministas ocidentais, ligadas à extrema direita” – Bajoghli disse a Newsweek.

Tudo que acima se lê é informação pública, que se encontra com poucos clics. Mas a mídia-empresa norte-americana ainda tenta ocultar a conexão com o governo dos EUA. O New York Times acaba de publicar artigo sobre uma das raras mulheres iranianas que reagiram à campanha. Thomas Erdbrink, correspondente do Times em Teerã, escreve:

O primeiro protesto em dezembro aconteceu numa 4ª-feira e pareceu conectado à campanha Quartas-feiras Brancas, iniciativa de Masih Alinejad, jornalista iraniana exilada e ativista que vive nos EUA. a sra. Alinejad falou a mulheres iranianas pelo canal de TV em idioma persa (…).

Há no mínimo 150 canais de TV por satélite em idioma persa. E Erdbrink nem diz que o canal para o qual Alinejad trabalha é financiado e controlado pelo governo dos EUA e pela Voz da América Farsi. O artigo do NYT tampouco menciona a ação do governo dos EUA. O que lá se lê é o seguinte:

Linhas-duras dizem que agências estrangeiras de inteligência, inclusive a CIA norte-americana, estão inflando os protestos no Irã. … Os linhas-duras não apresentaram qualquer prova de suas acusações.

Erdbrink com toda a certeza sabe que Alinejad trabalha para a VoA. Só esse fato basta para confirmar que a campanha é comandada por uma agência do governo dos EUA, especificamente designada para manipular pessoas e movimentos em territórios estrangeiros. Ao longo dos três últimos anos, Masih Alinejad recebeu no mínimo $230,000 em contratos firmados com a agência BBG do governo dos EUA, enquanto levava a cabo seu ‘movimento’. A ‘informação’ do ‘jornal’, de que “linhas-duras não apresentaram provas” de que há governo estrangeiro agindo para influenciar iranianos é cômica. A prova é essa ‘notícia’ inacreditável, como todos podem ver. Matéria de Newsweek do início de janeiro usa estratagema similar para enganar. Refere-se a Masih Alinejad como “ativista iraniana que luta pelos direitos humanos das mulheres no Irã” sem mencionar que não é luta, é serviço bem remunerado; e nada tem a ver com direitos humanos das mulheres iranianas, mas é propaganda para troca de regime no Irã, paga pelo governo dos EUA. Voice of America atinge público microscópico no Irã. A campanha de VoA circulou quase exclusivamente por Twitter e Facebook serviços de empresas norte-americanas que não circulam no Irã. Dificilmente teria qualquer impacto significativo dentro do país. Com absoluta certeza foi mais vista/lida/ouvida no ‘ocidente’, que no Irã. Mas ajuda a manter uma atmosfera de hostilidade entre os cidadãos do ‘ocidente’ contra o governo e a estrutura política do Irã e os iranianos. O historiador Eskandar Sadeghi-Boroujerdi vê mais um motivo, mais profundo, para essa campanha:

Seja qual for a posição de qualquer pessoa, é difícil evitar a conclusão de que a ‘resistência’ contra a obrigatoriedade de as mulheres usarem o véu é coisa já fetichizada na cobertura ‘jornalística’ no ‘ocidente’, porque a ‘resistência’ contra o véu reforça uma autoimagem de ‘superioridade’ na civilização ‘ocidental’ – que seria mais ‘esclarecida’, generosa ‘salvadora’ de mulheres e homens de pele bronzeada”.

Outro iraniano, homem e ainda não contratado por nenhum veículo norte-americano de propaganda, postou essa foto, resposta à campanha anti-véu: a campanha anti-calças. Homens ‘protestam’, tirando as calças e subindo em postes, de cuecas. Haverá por aí algum “salvador civilizado ilustrado norte-americano” que patrocine uma campanha contra o uso obrigatório de calças em locais públicos?!

Traduzido por Vila Vudu

 

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